De início, a estrutura parece fácil, até frágil. São textinhos muitos curtos, a pingar para um lado ou outro, a contar uma história aos bocados. Aliás, de início, nem se percebe bem a história. Intui-se mais um ambiente e uma forma de o explorar que não obriga a grande coisa. O livro parece, por isso, um conjunto de flashes, onde salta à vista a ausência do pai.
Ora, estabelecida esta impressão, entende-se o engodo. A partir daí, o livro ganha fôlego e o leitor acha-se ingénuo. Com desenvoltura singular, a autora casa os flashes e compõe uma imagem panorâmica, e a narrativa fica cada vez mais densa e profunda. Ao mesmo tempo, torna-se cada vez mais desconfortável para quem lê. Tanto o desconforto como a sensação de engodo derivam do que a autora se recusa a fazer – nunca há explicações, nunca há texto a mais. Ao leitor, cabe tecer os fios, atar os pontos. Agir, portanto. Trabalhando assuntos como a relação com a morte, a ausência, o sexo, o corpo, a tensão entre familiares, a autora não orienta o leitor nem lhe facilita a vida. Ao não oferecer conclusões fáceis, ao não situá-lo como quem lhe dá papinha feita, permite que o sentido do romance nasça da acumulação de elementos, ao invés de construir uma progressão tradicional baseada em revelações ou no movimento causa-efeito. Cada capítulo – talvez fragmento – acrescenta peso aos anteriores, e o romance ganha densidade à medida que galopa. Nisto, o que parecia leve e fácil revela-se sobrecarregado e tenso.
A leitura parece criar uma espécie de movimento da memória. Não é linear, mas afectiva. Os acontecimentos são depurados pela distância e a prosa é sempre incisiva para os dar sem gorduras ao leitor. Assim, ainda que a carga dramática esteja no cerne de cada texto, entende-se que o livro se volta para o quotidiano, o que não é contraditório. Por exemplo, o dia-a-dia sem o pai, que é a vida a acontecer, acaba por ser um eixo gravitacional invisível. Não é que a história em si importe muito: o que importa é o vazio que reorganiza as outras relações, feitas de presença maculada por ausência. E assim o leitor vê uma família que se estrutura mais em torno do que falta do que à volta daquilo que existe — e o mesmo se passa na vida da miúda na escola, onde também colhe o fruto do abandono, que passa pelo olhar alheio, pelo gozo.
Exemplo: “Passado uns anos, já nem reagia quando me perguntavam no recreio se o meu pai era uma cenoura. Deixara de pensar nele. Ele não estava. Ponto.” (p. 15) Ou seja, além do ritmo, a autora conta bem as ausências e sobretudo as omissões. Não precisa de explicações nem se presta a grandes enquadramentos. Em vez disso, mostra acções, e o leitor conclui, num diálogo em que a elipse prova que consegue ser tão forte quanto a exposição. Nisto, o leitor faz mais do que estar sentado no sofá: ao ver-se confrontado com lacunas, não tem outro remédio senão participar na construção do sentido que Inês Bernardo propõe.

Título: “Agarrar a faca pelo gume”
Autora: Inês Bernardo
Editora: Tinta-da-china
Páginas: 112
Assim, Agarrar a faca pelo gume é mais ambicioso do que se pode crer à primeira vista. O que parece estrutural e formalmente leve exige, afinal, um grande controlo técnico, que implica ainda a gestão da distância, com a autora a dosear bem a própria lente, escolhendo com precisão os momentos em que aproxima o olhar ou o retira. Há momentos de intimidade que invadem o leitor, deixando-o num território emocional que parece não lhe pertencer, seguidos de cortes abruptos que criam nova posição de incerteza. Essa alternância, assim como os textos que saltitam, impede a acomodação, a previsibilidade. Quando se julga que já se fechou um arco, surge um fragmento que desloca a percepção. Assim, há uma série de aproximações às personagens, que, sendo densas, parecem superficiais, porque impedem a estabilidade. Isto verifica-se também entre as mulheres da casa, uma vez que a autora, nos momentos em que escreve o que é dito entre elas, deixa evidente o tanto que há por dizer, o tanto que não é dito. As relações nunca são bem explicadas, nunca há grandes confrontos explícitos, mas os gestos mínimos evidenciam a tensão, como nos momentos em que a miúda faz de pombo-correio entre as duas avós que com ela vivem. As duas, sem falar na mesma casa, criam a fricção e o peso do silêncio, e a convivência prolongada não traz paz alguma.
A própria linguagem acompanha o princípio estrutural de contenção. A prosa é limpa, precisa, desornamentada. Cada frase está no texto por lhe ser indispensável, não cedendo a autora a momentos de exibição estilística. Com tudo pesado, o livro obriga o leitor a estar atento, porque é parte de uma relação dialógica e não recipiente onde o texto cai. Assim, o primeiro romance de Inês Bernardo mostra uma autora com voz segura — e mão também.
A autora escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.