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(A) :: Tiago Castro e a depressão. "Sabia que estava mal, mas pensava que era bom a disfarçar"

Tiago Castro e a depressão. "Sabia que estava mal, mas pensava que era bom a disfarçar"

Diagnosticado com transtorno obsessivo-compulsivo e depressão, o ator conta como já sofria nos anos de sucesso dos "Morangos com Açúcar" e como tudo se agravou quando foi viver para os Estados Unidos.

Sara Antunes de Oliveira
text
João Porfírio
photography

"Sei qual é a cena em específico, que até hoje é uma cena memorável, de um beijo que o Crómio dá à Soraia"

"E ninguém adivinhava que, por trás daquele momento que se tornou tão engraçado, estava uma pessoa a sofrer tanto"

"Era muito íntimo. Tinha a ver com pensamentos repetitivos que me magoavam e que não conseguia impedir"

"Uma pessoa não tem mesmo noção de como o nosso estado afeta e entristece as pessoas que estão à nossa volta. Porque eu ficava horas sem falar. Horas"

"De duas em duas horas, dizia uma piada. E achava que era o suficiente para as pessoas acharem que eu estava melhor, mas não"

"Acho que todos nós, ou a maior parte das pessoas, vai atrás daquilo que a sociedade dita que devemos ter e ser, e isso é incomportável"

"Eu sacrifiquei toda a minha vida pessoal por causa de uma carreira, e percebi que tinha de acabar com isso, imediatamente."

Percebeu que havia um problema ainda com 15 anos, depois de um episódio que o deixou irreconhecível. Os pais procuraram ajuda, mas ficou sempre “com uma pedra no sapato”. Mais tarde, acabou por ser diagnosticado com transtorno obsessivo-compulsivo — por causa de pensamentos repetitivos que o magoavam e que não conseguia travar — e com uma depressão.

Tiago Castro, que ficou conhecido ao interpretar o personagem “Crómio”, na série Morangos com Açúcar, diz que, mesmo nessa altura, entre 2004 e 2006, enquanto fazia rir o país, “estava a sofrer, e ninguém sabia”. Os anos que se seguiram — com uma passagem pelos Estados Unidos, para onde foi estudar e procurar oportunidades como ator — fizeram-no passar por uma longa fase de “desespero”. Noutro país, e tão longe de casa, o facto de já ter sacrificado tanto, até em termos financeiros, fê-lo “esticar a corda ao máximo”, até estourar.

Nesta entrevista inserida na série “Labirinto — Conversas sobre Saúde Mental”, gravada no hotel Palácio do Visconde — The Coffee Experience, em Lisboa, conta que, à distância, e mesmo sem terem a noção exata da dimensão do problema, a família ajudava como podia. Numa das “piores noites” da vida do ator, a mãe ficou ligada numa videochamada, toda a madrugada, só a vê-lo dormir e a confortá-lo quando acordava.

Voltou para Portugal e ainda andou a correr o país com uma companhia de teatro, mas já a recusar trabalhos por não ter capacidade de gerir tudo o que lhe estava a acontecer. Esteve altamente medicado, mas só voltou a fazer psicoterapia depois de conhecer a namorada — agora, mulher — e de ter aceitado a ajuda do irmão, que lhe pagou a consulta. Foi nesse dia que decidiu fazer o desmame dos medicamentos — num processo longo e sempre acompanhado — e mudar a forma como olhava para a vida. Porque também foi nessa altura que percebeu a base do problema: “Sacrifiquei toda a minha vida pessoal por causa de uma carreira, e percebi que tinha de acabar com isso, imediatamente.”

[Veja aqui a entrevista completa a Tiago Castro]

https://youtu.be/rxfFqgNIrFk?si=Qw0EvgTSKVwnvu7t

Quando é que surgiram os primeiros sinais de coisas que lhe estavam a acontecer e que estavam relacionadas com a sua saúde mental? Foi ainda numa fase ótima, como a dos Morangos com Açúcar?
Até antes. Começou aos 15 anos, num episódio que ocorreu na minha vida pessoal. Eu estava num lugar do qual não podia sair, sem os meus pais, e desse episódio resultou uma mudança drástica naquilo que eu era, mesmo fisicamente. Num período de cinco a seis dias, perdi à volta de quatro quilos — ou mais, até. As pessoas podem pensar que estou a exagerar, mas a verdade é que estava mesmo fisicamente alterado. E, assim que os meus pais me viram, perceberam que algo de muito grave tinha acontecido — e, logo de imediato, perceberam que precisava de ajuda. Foi a primeira vez que tive terapia, por assim dizer.

Que sinais foram esses? Deixou de dormir? Deixou de comer? 
Não, na altura tive mesmo quase um surto, porque foi um choque para mim, aquilo que aconteceu, e tive um comportamento atípico. Mesmo os meus pais perceberam que eu estava diferente, a nível de personalidade. E foi o suficiente para eles perceberem que precisava de ajuda, já que eles estavam completamente apáticos e não conseguiam de forma alguma “entrar”. Mas foi a melhor coisa que puderam fazer.

Foi procurar ajuda fora, ajuda que eles não poderiam dar. 
Exato. Na altura, foram os recursos que eles tinham e aquilo que encontraram. Pode não ter sido o ideal, no meu parecer, porque era o chamado psicodrama. Na altura, isto em 98, se calhar poderia ter tido uma consulta com um psicólogo individualmente, mas fui para um grupo de psicodrama, em que havia uma série de outros problemas à minha volta que nada tinham a ver com o meu. Não sei se acabou por ajudar, mas acabei por começar a tomar medicação, no sentido de me acalmar. Não era ainda nada que tivesse a ver com depressão, mas só de me acalmar, e fiz a gestão desse acontecimento durante um ano, de uma forma muito individual. Penso que isso marcou e delineou todo o meu futuro, e tudo o que veio a acontecer depois ao nível da saúde mental.

E sente que esse ano de que fala, com a terapia, mesmo que nesses moldes de psicodrama, e a medicação para controlar, presumo que a ansiedade, o ajudaram a voltar ao caminho em que estava, ou houve ali alguma pedra que ficou no sapato?
Acho que ficou uma pedra no sapato. Ainda por cima, tinha acabado de entrar no primeiro ano da escola profissional de teatro, onde estamos a desenvolver e a trabalhar as nossas emoções de uma forma, às vezes, selvagem e não tão bem guiada como poderia ser. E tudo isso, toda essa amálgama de sentimentos, tudo o que eu poderia estar a desenvolver enquanto adolescente, a desenvolver a minha vida sexual pela primeira vez, tudo isso acabou por ser avassalador, e penso que não foi gerido da melhor maneira. E ficou, sem dúvida, essa pedra no sapato, que acho que se refletiu.

E quando é que volta a sentir a pedra no sapato outra vez? Quando é que voltou a perceber que havia ali um problema? 
Isto teve a ver, nomeadamente, com uma relação que eu tinha na altura.

Muito tempo depois? 
Sim, cada relação que eu tinha depois desta refletia aquilo que senti naquele momento, e todos os meus medos, defesas e expectativas nasciam com base naquilo que sofri naquele momento específico.

"Fui diagnosticado com perturbação obsessiva-compulsiva, comecei a tomar medicação e tive as ferramentas de que precisava para o resto da minha vida"

E depois a vida vai avançando, acontecem os Morangos com Açúcar e o seu personagem transforma-se muito rapidamente num personagem incontornável. Visto de fora, a pessoa que está a fazer o Crómio, que é super amado em Portugal, só pode estar bem. 
Pois, acho que essa é a ideia típica que as pessoas têm dos comediantes e de quem faz rir, e que se surpreendem. Hoje, aliás, já não se surpreendem, porque já estão habituados. Mas, infelizmente, não é essa a verdade, aquilo que se está a passar atrás. Lembro-me especificamente de um dia em que estava a gravar, em que tive também um episódio que me marcou de uma forma muito intensa e senti que estava quase, de certa forma, a violar-me, a ir gravar.

Porque não queria estar a fazer aquilo que estava a fazer? 
Porque senti mesmo que não tinha condições para o fazer, mas não havia outra forma, tinha de ir gravar. Não ia uma equipa inteira parar para eu gerir o que tinha acabado de acontecer. E aconteceu aquilo que, muitas vezes, é o reflexo do que acontece a muitos atores — que, se calhar, decidem continuar a trabalhar, mesmo quando alguns episódios dramáticos acontecem: ter de trabalhar ajudou-me a sair daquilo que estava a sentir. E foi, provavelmente, uma das melhores cenas que fiz nos Morangos. Sei qual é a cena em específico, que até hoje é uma cena memorável, de um beijo que o Crómio dá à Soraia, personagem interpretada pela Rita Pereira. Foi um momento muito engraçado e ninguém adivinhava que, por trás daquele momento que se tornou tão engraçado, estava uma pessoa a sofrer tanto. E ninguém sabia, ninguém fazia a menor ideia, a não ser as pessoas que estavam à frente do projeto, com quem eu me vulnerabilizei e ficaram a perceber.

Estava a passar um momento difícil naquela altura, ir trabalhar obrigou-o a pôr isso lado, mas isso ajudou porque lhe permitiu continuar a ser funcional ou prejudicou porque estas coisas, se não se resolvem, ficam ali?
É complicado conseguir perceber. Acho que o facto de ter de ir, ter de fazer, continuar a trabalhar, deu-me uma rotina que me tirou, provavelmente, de uma situação apática e que me poderia destruir. Agora, sem dúvida que não é só isso que ajuda. Foi nessa altura que comecei mesmo a ter consultas de psicoterapia, fui diagnosticado com perturbação obsessiva-compulsiva, comecei a tomar medicação e tive as ferramentas de que precisava para o resto da minha vida. Isto durou cerca de um ano e meio, estas consultas.

Que idade tinha na altura? 
Tinha 23.

E quando dizem: “Tiago, vai ter de tomar aqui uns medicamentos”, foi tranquilo para si?
Foi, porque confiava bastante neste psicoterapeuta, e ele era defensor destas coisas, até hoje é uma pessoa muito conhecida na praça pública. Confiava plenamente nele, e a verdade é que ajudou-me. Demorou algum tempo, penso que demorava cerca de três semanas a começar a sentir os efeitos — estava a tomar Prozac — e ajudou-me bastante. Para mim, foi fácil e não tive sintomas secundários, que tivesse reparado.

Nem sentiu o estigma? 
Não partilhava isto com ninguém.

Porque aconteceu ou porque não queria que as pessoas soubessem? 
Porque era muito íntimo. Tinha a ver com pensamentos repetitivos que me magoavam e que não conseguia impedir. Cada vez que tentava impedi-los, eles vinham com mais força.

E esses pensamentos negativos também o empurravam para um estado depressivo?
Pois, com o tempo, foi o que veio a acontecer, e a medicação acabou por funcionar tanto para a perturbação obsessiva-compulsiva como para a depressão. Mas, esses pensamentos, acabei por partilhá-los com o meu psicoterapeuta, que me fez sentir completamente normal, porque é uma pessoa que recebe tanta gente e que me diz: “Tiago, você não está sozinho. Isto é mais normal do que pensa. Não tenha vergonha daquilo que pensa. Isto não faz de si quem o Tiago é ou o que o Tiago pensa.” Isso ajudou-me muito a não sentir culpa pelos pensamentos que tinha, porque percebi que não os controlava. E, quando deixei de lhes dar essa força, eles acabaram por se perder, desvanecer, porque não andavam ali num círculo interminável. É quase como se eu falasse para eles, ou como se fosse uma entidade, e dizer assim: “Estás à vontade, não sou eu, não sou eu”. E ajudou-me bastante.

Quando tinha 15 anos, naquele primeiro episódio, naturalmente foram os seus pais que foram à procura de alguma ajuda. Nesta fase, em que já tem mais de 20, como é que foi esta procura do psicoterapeuta, do psiquiatra por causa da medicação, como é que tudo isto se processou? Falou com os seus pais outra vez, falou com alguém ou já foi uma coisa muito mais individual? 
Tenho muitas dificuldades em lembrar-me de como foi o processo. Sei que houve alguém que me aconselhou este psicoterapeuta. Acho que até foi alguém que estava ligado, de certa forma, à parte médica e da saúde mental, que eu conhecia, de quem este psicoterapeuta era professor, e não lembro de quem é que foi esta pessoa. Lembro-me de me dizer que era professor. Isto é outra coisa: a minha memória ficou muito afetada.

Porque estava a viver num estado também, presumo, de ansiedade e tumulto, não é? É mais difícil guardar memórias nessas situações. 
Muito, mas mesmo até momentos que nada têm a ver, momentos positivos, que eu esqueci. Muitas vezes, as pessoas vêm falar comigo, “e aí, Tiago, aquela vez que aconteceu isto”, e eu não faço a mínima ideia do que está a falar. Isto é assustador, mas já me habituei. Mas, na altura, sim, penso que, como com as pessoas, nomeadamente a minha família, de quem sou sempre muito próximo, é tão fácil, sou tão transparente que acabam por perceber que não estou bem. Acabam por ser o meu porto de abrigo e partilhei com eles esta necessidade que tinha de ajuda. Sempre foram parte deste ombro que me ajudou, percebendo as suas limitações, sendo muitas vezes só aqueles que ouvem ou que consolam e que apoiam, sem tentar mudar nada, só mesmo sendo aquele “olha, eu estou aqui para o que for preciso”.

Entretanto, consegue controlar um bocadinho a forma como lida com esses pensamentos? 
Sim.

Suponho que isso também tenha ajudado a sair um bocadinho do estado depressivo. A sua vida vai avançando e muda de uma forma muito grande quando vai viver para fora.
Muito, a minha vida deu uma volta de 180 graus.

Acaba os Morangos e vai para os Estados Unidos logo a seguir? 
Não, ainda estive cerca de um ano e meio em Portugal, com outros projetos. Entretanto, fui para os Estados Unidos e fui estudar para uma escola de representação, onde acabei por depositar todas as poupanças que tinha até então. Portanto, foi um all-in, aposta total. Quase mesmo numa mudança não só de carreira como de vida. Um American Dream. Um miúdo de 25 anos que ainda sonhava com isso.

E foi sozinho? 
Não. Na altura, fui com mais três pessoas, duas delas mais próximas, com quem dividi casa. Mas foi uma aventura mesmo. Acho que me habituei, de certa forma, até certa altura. Consegui gerir muito bem esta mudança porque estava muito entusiasmado com a escola. Claro que aconteceu um período inicial muito complicado de gerir, nos primeiros dois anos, mas a pior parte, apesar de tudo… Esta viagem de seis anos pelos Estados Unidos teve vários episódios, durante os quais precisei de acompanhamento, via internet — na altura, era o Skype — com o meu psicoterapeuta.

"Já tinha sacrificado tanto a nível pessoal, profissional e financeiro que fiquei mesmo com muito medo de não conseguia gerir tudo. Foi esse medo que me levou a esticar a corda até ao máximo"

Portanto, manteve essa ligação apesar da distância? 
Mantive. Em períodos assim, mesmo muito difíceis, era mesmo importante.

Quando é que o procurava? Quando estava mais cansado, mais ansioso, mais triste? O que é que o levava a dizer: eu preciso de ajuda? 
Quando estava desesperado. De certa forma, apesar de ter ido com pessoas que me conheciam, sentia-me muito sozinho porque a própria cultura é muito diferente e assustava-me. Assustava-me não ter capacidade para gerir aquilo tudo sozinho, por estar por conta própria e estar tão longe de Portugal.

Não é como o Norte, e como Matosinhos, em que as pessoas abrem a porta de casa e estão todos em casa, não é? 
É isso.

Sentiu muito o impacto disso? 
Senti, senti bastante. E já tinha sacrificado tanto a nível pessoal, profissional e financeiro que fiquei mesmo com muito medo de não conseguia gerir tudo. E foi, de certa forma, esse medo que me levou a esticar a corda até ao máximo, até ser insuportável, durante esta viagem, até ao fim.

Porque sentia a pressão de ter de ter sucesso nesta viagem? 
Sim.

O Tiago foi para os Estados Unidos para aprender e para ser ator. O que é que o deixava pressionado? As oportunidades de trabalho não surgirem? 
Não, o que me deixava pressionado era ser tudo tão difícil, de ter consciência disso e de perceber que as hipóteses, apesar de eu acreditar, de perceber na prática, cada vez que ia a um casting, cada vez que percebia o mecanismo desta cidade, que é um organismo vivo, que é tão difícil de se lá estar e de sobreviver, e de entender que o sonho, muitas vezes, exigia, se calhar, algo de mim que eu poderia não dar. Exigiria, talvez, uma forma de estar e de ser para sobreviver àquela cidade que eu poderia não ser capaz. Uma máscara que poderia não ter a capacidade de dar, porque é um organismo vivo mesmo, e para se sobreviver temos de adotar um papel. Uma personagem, quase, que eu não estava disposto a viver. Então, esta vulnerabilidade, com a qual me identifico, não a podia ter. Então, tinha de ter muito controle sobre as minhas emoções para que tudo não se desvanecesse, o que é muito difícil porque nós somos pessoas. E é interessante como um restaurante onde se trabalha torna-se a nossa casa. E, quando ele fecha, ou quando algo acontece e nós somos despedidos, era a nossa família, como aquilo pode, de repente, tirar-nos todo o chão. Foi aí que percebi o poder das pessoas. Não é que já não soubesse, mas aí é que percebi mesmo. Trouxe-me muita humildade, esta experiência.

Porque, no meio de todo esse processo, começou a trabalhar na restauração, porque precisava de sustentar a sua estadia ali. Presumo que tenha ido com uma bolsa que, entretanto, se esgotou. 
Fui em 2008, no ano daquela grande quebra financeira. Portanto, mesmo até isso sofri. Normalmente, a GDA tinha uma full scholarship para este tipo de projetos. Eu teria tido essa bolsa por inteiro, só que só podiam dar um pontual e esticaram a corda até o mais que podiam, mas não foi o suficiente. Então, o meu dinheiro acabou por se esgotar muito rapidamente. E, ainda estava a estudar, já estava a mandar currículos falsos, porque nunca tinha trabalhado na restauração.

"De repente, deixei de sentir toda a tristeza que me esmagava. Assustadoramente, porque comecei a perceber que tinha de tomar o medicamento cada vez mais, num curto espaço de tempo. E percebi que se estava a tornar num vício."

Portanto, inventou uma larguíssima experiência.
Sim, um currículo de empregado de mesa. E depois puseram-me a trabalhar como buzz boy, e eu nem dois pratos conseguia pôr num braço. A sorte foi que um colega de turma da escola de representação era gerente de um restaurante que recebeu o meu currículo. E ele, sem saber, viu o currículo e disse “Tiago, anda cá trabalhar”. E viu: “Tiago, tu não sabes fazer nada!” Mas deu-me aquele tempo para conseguir aprender. Então, comecei a desenvolver estas aptidões, capacidades e, depois, trabalhei mais até ao resto dos seis anos, sempre a trabalhar na restauração, e ia tendo, então, essas oportunidades pontuais, mas de certa forma atípicas até para quem vai da minha turma, em que 1% acaba por conseguir ter algumas oportunidades no meio. Quando vim embora, foi quando estava a ter o melhor da minha carreira profissional, quando estava a ter as maiores oportunidades.

Então, vamos a esse momento, porque já explicou que foi tendo uns picos, foram acontecendo uns episódios. O que intuo é que, a cada novo restaurante, encontrava uma nova família que lhe dava algum conforto. E, quando as coisas não corriam bem, havia a descida na montanha-russa. Quando é que tudo se torna tão difícil de suportar que é preciso tomar uma decisão mais dramática do que só pedir uma consulta via Skype e pedir ajuda?
Eu trabalhava num restaurante que adorava. Era num restaurante português onde sentia que era mais do que um simples empregado em Nova Iorque, onde transmitia um pouco da cultura portuguesa aos clientes que não conheciam Portugal, ou que já cá tinham estado e queriam ouvir falar mais um pouco sobre o nosso país. Infelizmente, esse restaurante fechou e ficou a dever-me 12 mil dólares. E eu, nessa altura, tinha uma relação com uma pessoa que lá trabalhava, e correu muito mal tudo. Foi algo que me fez sentir completamente devastado.

Juntou várias coisas. 
Todas estas áreas acabaram por colapsar e senti-me absolutamente sozinho. Na altura, tinha muito poucos amigos. Um deles estava em Filadélfia e tinha tido um acidente, tinha-se lesionado a jogar futebol e estava de baixa. Fui umas semanas para a casa dele e, quando lá cheguei, num estado totalmente apático, de pura desistência, estava a sobreviver. Ele recebeu-me e ele estava a tomar uma medicação muito forte, que eu nem conhecia na altura — hoje, vê-se muitos documentários sobre isto —, que é a oxicodona.

É uma medicação para dores muito fortes?
Sim, o que não se justificava até para o problema que ele tinha.

Era demasiado forte? 
Era demasiado forte, e ele disse “não vou tomar isto”. E eu pedi-lhe para tomar, porque queria mesmo sentir essa apatia, esse adormecimento que ele sentia.

Portanto, ele não queria tomar aquilo porque sentia que aquilo o adormecia, e era precisamente o que o Tiago queria? 
Sim, quase o obriguei a dar-me. E foi incrível o que senti, assustadoramente incrível. De repente, deixei de sentir toda a tristeza que me esmagava. Assustadoramente, porque comecei a perceber que tinha de tomar cada vez mais, menos espaçadamente, num curto espaço de tempo. E percebi que se estava a tornar um vício. Atenção que isto foi num espaço mais ou menos de semanas. Foi uma caixa que ele tinha.

Então, foi muito rapidamente que esse medicamento tomou conta, basicamente, da sua vida? E tudo para permanecer num estado de anestesia?
Anestesia, sim. E depois aconteceu um episódio em que misturei o medicamento com álcool, sem saber o que aquilo poderia fazer. E adormeci.

Não foi de propósito, bebeu e só percebeu as consequências depois?
Sim, adormeci na rua e levaram-me as coisas. Quando acordei, andei perdido pela cidade de Filadélfia. Não sei como é que eu, naquele estado, consegui. Nós depois vimos onde é que era o sítio, porque eu estava num bar onde fui com o meu amigo. E ele: “Como é que tu, sem conheceres a cidade, sem telemóvel, vieste a ter a minha casa?” Eram 40 minutos a pé, e eu, sem saber, sem ter nada, consegui ir lá a ter. Não faço a mínima ideia.

E tem noção de quanto tempo esteve nesse estado?
Não, foi uma noite, e foi aí que percebi que não poderia mesmo continuar a tomar aquilo. Decidi terminar. E esta história conto no meu espectáculo, Daqui de Baixo, que é, de certa forma, uma reflexão humorística também sobre esta fase muito difícil que vivi. Mas, na altura, estando eu em Filadélfia, lembrei-me várias vezes de dois personagens icónicos: um que era o personagem interpretado pelo Tom Hanks no filme Filadélfia; e outro que era o Rocky. E eu, sinceramente, sentia que poderia tornar-me num ou no outro. Era isso em que queria acreditar: que poderia não sucumbir. E esta história já a contei, mas acho que é mesmo muito bonita, porque, noutro dia, aqui completamente consciente, andei a deambular pela cidade e parei à frente de um mosteiro budista em plena Filadélfia. E, naquela altura, aconteceu uma espécie de milagre do Sol, porque as nuvens afastaram-se e o sol, quando estou à frente daquele mosteiro budista, cai mesmo sobre o mosteiro. Senti um ímpeto para ir bater à porta, e aparece-me um monge que parecia tal e qual o Dalai Lama. E eu, a chorar: “Gostava mesmo muito de entrar e falar consigo e desabafar: estou muito triste.” E ele disse: “Não, fechamos às duas.” E fecha-me a porta na cara.

Não estava a contar com isso vindo do Dalai Lama, não é?
Não. (risos) E, naquele momento, percebi que tinha acabado ali a minha trajetória nos Estados Unidos. Que tinha de ir embora. E aguentei mais uns tempos, voltei para Nova Iorque, ainda tive mais uns meses muito, muito, muito difíceis porque percebi que estava a terminar. E foi muito interessante porque foi, realmente, o pico deste período depressivo.

A sua família cá tinha noção do que estava a acontecer? 
Acho que não tinham noção de como as coisas estavam. Acho que não tinham mesmo. Muitas vezes, também, protegia-os e tentava que eles não percebessem bem o que estava a acontecer, porque estavam tão longe. E eu próprio acho que também tentava não verbalizar isso para que as coisas não fossem piores do que já eram. Mas, por exemplo, levei uma mala grande, daquelas de 23 quilos, que voltou completamente vazia para Portugal, porque trazer as minhas coisas significava pôr um fim, um ponto final. E a minha mãe: “E o edredon que eu te dei?” (risos)

Deixou coisas para trás para não ter essa sensação de que estava mesmo a desistir?
Sim.

Mas, enquanto ainda lá está, há um episódio em que a família se chega à frente naquilo em que podia ajudar, que é uma noite em que a sua mãe percebe que não o pode deixar sozinho. Que importância teve aquilo que aconteceu, que a sua mãe fez por si?
Muita. Foi uma chamada, no bendito Skype, que ainda dava com muita interferência, mas o suficiente para a minha mãe estar ao frio, no sótão da nossa casa, ao longo da madrugada, a acompanhar uma das piores noites da minha vida.

"Os meus pais sofriam tanto por não me conseguirem ajudar, por não saberem o que dizer, que palavras utilizar. Mas tinha sempre lá o afeto e o carinho, o ombro. E percebi — acabei por entender — que tenho de estar muito grato por aquilo que tenho"

O que é que acha que lhe disse, ou que não disse, para a sua mãe ter a noção de que não podia deixar o filho sozinho naquela noite e ficar a olhar para si a noite toda, só para saber que estava ali?
Eu estava completamente descontrolado, emocionalmente. Ela, provavelmente, nunca me tinha visto assim — ou já não me via há muito tempo — e percebeu mesmo que era grave.

Era tristeza? Qual era o sentimento que tinha mais? 
Foi quase como se, de repente, fosse a gota final. Estava, nessa altura, há cerca de um ano e meio nos Estados Unidos, e já há cerca de meio ano que as coisas estavam muito difíceis. Estava a gerir quase com pinças o que estava a acontecer, a lidar com a minha saúde mental e com as minhas emoções. E aquilo foi o descalabro, rebentou o último fio. Então foi o descontrolo, “o que é que eu faço agora?” Perdi todos os filtros. Foi vulnerabilidade total, fiquei assustadoramente vulnerável. E foi isso que fez a minha mãe estar ao longo da madrugada toda, enquanto eu a adormecia, acordava, olhava para o ecrã, ainda via a minha mãe lá, com os seus cobertores.

E chamava por ela? 
Sim, “olá mãe, estás aí?” Muitas vezes, ficávamos em silêncio. Muitas vezes não falávamos, era só mesmo saber que ela estava ali. E foi muito importante sentir-me, do outro lado do mundo, tão sozinho, que tinha ali este conforto. E foram, novamente, eles que me acolheram. Eu já tinha saído de casa aos 18 anos, saí muito cedo de casa. Vim para Lisboa com 18 anos, estudar para o Conservatório de Teatro. E, portanto, já estava habituado a viver sozinho. Mas, quando isto aconteceu e voltei para Portugal, voltei para casa, tinha de voltar, não tinha capacidade de estar sozinho. Então, voltei para casa dos meus pais e acolheram-me da melhor forma que eles sabem. Recebendo-me e mimando-me, fazendo cafuné, que acalma tanto.

Ou só ficando, não é? 
Sim, sim.

Às vezes há um bocadinho a ideia de que não se sabe muito bem o que dizer. Aquilo que os seus pais fizeram por si mostra que, às vezes, não é preciso dizer nada. 
A melhor forma de amor está, sem dúvida, no afeto. Porque nós não queremos, nem somos obrigados a saber como lidar com isto. As pessoas fazem aquilo que podem. Isto também é um ensinamento, é algo que vamos aprendendo com a vida. Apesar de ter uns pais extraordinários, muitas vezes gostava que me dissessem alguma coisa que me ajudasse a sair daquilo. “Ajudem-me, pá, digam-me alguma coisa.” Voltando atrás um bocadinho, com questões de autoestima, em relação ao meu corpo, por ser pequeno, quando eu era novo, os meus pais sofriam tanto por não me conseguirem ajudar, por não saberem o que dizer, que palavras utilizar. Mas tinha sempre lá o afeto e o carinho, o ombro. E percebi — acabei por entender — que tenho de estar muito grato por aquilo que tenho, que a tanta gente falta. Continuam a ser uns pais extraordinários. E hoje, felizmente, há cerca de oito, nove anos para cá, veem um Tiago que já não viam há muito tempo, que já se tinham esquecido. Um Tiago que canta, que dança, que brinca, que é uma luz.

Então vamos ao caminho para esse Tiago. Vem dos Estados Unidos com uma mala vazia e chega cá no pior que alguma vez já se sentiu?
Sim.

O que é que acontece quando chega cá? 
Tive uma justificação que me levou quase a sentir que não era o fim. É interessante porque muitas das emoções são mascaradas, às vezes parece que até estamos melhor. Porque tive um projeto de teatro que me levou também a dizer: “Ok, é a altura certa para ir embora, porque vou ter um projeto.” Fui convidado para fazer um espetáculo de teatro no Porto, no Teatro Carlos Alberto. O que me levou, de certa forma, durante uns tempos, uns três meses, a pensar “estou bem, estou aqui, a trabalhar”. Só que, claro, muito estava ainda por resolver. E as pedras caem todas no fim desse projeto. E aí foi realmente avassalador. Há aqui uma pessoa de quem ainda não falei, mas que foi muito importante para mim: a minha cunhada é psicóloga. E acabou por ser uma ajuda muito importante. Ela estava ainda no início da relação com o meu irmão, mas foi uma peça importantíssima para mim. Quase como se sentisse que podia ter aqui umas consultas privadas com alguém que estava muito mais disponível do que a maior parte das pessoas.

Quem é que procurou quem? Foi o Tiago que a procurou ou ela que lhe estendeu a mão?
Ela era tão empática! Acho que sou muito fácil a julgar a personalidade das pessoas, a vontade de ajudar das pessoas e de onde é que isso vem. E percebi que, do lado dela, vinha mesmo num sítio que eu achei que me iria fazer bem. Então, muito facilmente, senti que ela poderia ser a pessoa que me poderia ajudar. E foi, sem dúvida. E ela própria foi também uma ponte, se calhar, entre a minha família e aquilo que eu estava a sentir. Ajudou-me bastante. Mas é interessante como, passados uns tempos, uns anos, a falar sobre aquilo que eu vivi… Uma pessoa não tem mesmo noção de como o nosso estado afeta as pessoas que estão à nossa volta e entristece as pessoas que estão à nossa volta. Porque eu ficava horas sem falar. Horas. Era capaz de ficar assim, apático. E não me lembro disto. Sabia que estava mal, mas não me lembro especificamente de mostrar estes comportamentos, de serem tão visíveis. Pensava que os disfarçava, pensava que era bom a disfarçar, que conseguia. De duas em duas horas, dizia uma piada. E achava que era o suficiente para as pessoas acharem que eu estava melhor, mas não.

"Fazíamos muitas vezes quatro espetáculos por dia, só que não era isso que me consumia. Ajudava-me a não pensar, estar acompanhado por alguém, por pessoas que, de certa forma, cuidavam de mim."

Então, regressa e o que é que faz, depois desse projeto, que também é efémero? Vai procurar ajuda? Vai a um psiquiatra, a um psicoterapeuta?
Estive muito tempo — meses — sem ir a um psicoterapeuta.

Já cá? 
Já cá, sim.

Porquê? 
Pensei que, se calhar, conseguiria resolver as coisas sozinho.

Mesmo já tendo tido a experiência para trás? 
Porque achei que era suficiente o que tinha tido, o que tinha aprendido.

E quando é que percebe que não? 
Quando já estou em Lisboa. Porque depois surge uma oportunidade de trabalho — depois de já ter rejeitado algumas que me poderiam ter até mesmo mudado a minha vida profissional — e que não tive capacidade de aceitar.

Por que é que rejeitou? 
Porque era demasiado arriscado vir para Lisboa naquela altura.

Continuava a ter uma noção muito clara da sua fragilidade na altura? 
Sim. Lembro-me de que qualquer coisa que fizesse enchia tudo aquilo que era a minha capacidade de gerir, tinha muita dificuldade.

Estava sempre em esforço? 
Sim, sentia-me em esforço muitas vezes. Por isso é que precisei de ter um trabalho, quando surgiu a oportunidade, em que me dissessem só “tu vais para aqui, tu fazes isto, tu vens de lá”, é quase como se não tivesse de pensar. Entrei para uma companhia de teatro que fazia peças de teatro pelas escolas de todo o país. Trabalhava muito, saíamos muitas vezes às quatro, cinco da manhã de casa para ir para o Norte, para o Sul. Fazíamos muitas vezes quatro espetáculos por dia, só que não era isso que me consumia. Ajudava-me a não pensar, estar acompanhado por alguém, por pessoas que, de certa forma, cuidavam de mim.

Porque sabiam? 
Acho que também acabavam por perceber. Não tinham noção, mesmo, daquilo que eu tinha vivido e passado, mas acabavam por perceber e acolheram-me. E foi o suficiente para eu sentir: “Ok, posso estar aqui, posso andar de um lado para o outro.” Não foi fácil, obviamente, mas foram três anos em que esse automatismo, essa dinâmica, acabou por ajudar. Longe de ter sido isto a principal ferramenta que me ajudou a sair deste estado. Se quiser, posso já dizer qual foi: foi ter conhecido a minha mulher. A minha mulher foi, sem dúvida, a alavanca. Foi já depois de conhecer a minha mulher que tive uma consulta de psicoterapia com aquele que tinha sido o meu psicoterapeuta, e ele disse-me uma coisa que mexeu muito comigo. Até hoje, não sei se ele tentou mesmo fazer um jogo psicológico, mas disse que eu era um doente crónico e que nunca poderia deixar a medicação.

Nessa consulta, quando retoma a psicoterapia?
Sim.

Mas vai a essa consulta impulsionado pela sua namorada na altura, que é agora a sua mulher? 
Sim, e pelo meu irmão. O meu irmão disse-me “eu pago-te essa consulta”, porque eu também, financeiramente, não tinha os meios.

"Comecei a perceber que tinha de me focar no dia a dia, na família, na minha namorada, num passeio pela natureza, por estar grato. Coisas que, feitas de uma forma repetida, me iriam mudar internamente."

Mas, antes disso, já alguém tinha tido essa conversa consigo? O seu irmão, por exemplo, já lhe tinha dito que “não era melhor teres uma consulta” e o Tiago tinha recusado?
Sim, já tínhamos falado algumas vezes, daquilo que me lembro, e eu sempre tinha dito que não, não era preciso. Como sempre geri a minha vida financeira, tinha dificuldade em pedir ajuda aos outros, e na altura, realmente, havia muitas dificuldades a esse nível. E uma consulta era uma coisa muito cara, mesmo. E o meu irmão disse-me: Eu pago, pago-te a consulta.”

Estava a tomar alguma medicação? 
Estava, continuava sempre a tomar. Estava a tomar ansiolíticos e antidepressivos, mas em doses muito elevadas. Muitas vezes sentia-me completamente adormecido. Isto foi algo que, coitada, a minha mulher, na altura namorada, teve mesmo uma empatia gigante em entender e compreender este meu estado, em perceber que, por trás desta dor, existia um ser humano que queria sair cá para fora. Mas sim, continuava com a medicação, e foi por este psicoterapeuta me ter dito isto, e por eu ter conhecido a minha mulher…

Porque pensou o quê? “Eu não vou tomar isto para o resto da minha vida”? 
Porque afetava-me, afetava-me muito, no dia a dia.

E tinha noção disso? 
Sim, tinha noção, na minha rotina, no meu estado anímico. Sentia que, muitas vezes, ficava completamente adormecido. Estava a ser medicado, na altura, por uma médica de clínica geral, que sabia que eu poderia tomar aquela medicação, porque já me tinha sido receitada. Então era ela que continua a receitar-me aqueles medicamentos. E acho que era demasiado para mim.

Portanto, não estava a ir a um psiquiatra na altura? 
Na altura, não. Fui uma vez.

Era só a repetir prescrições atrás de prescrições? 
Só a repetir prescrições, sim. E conheço a minha mulher, sobrevivente oncológica, que tinha sido cuidadora de uma pessoa antes de mim que tinha morrido com cancro, e conheço uma pessoa, uma sobrevivente a todos os níveis, que fazia de tudo para que isso não a deitasse abaixo. E eu olhava para ela e pensava: “Isto é o que eu preciso para a minha vida.” E foi interessante, porque senti mesmo que precisava de alguém que tivesse passado tão perto da morte, porque acreditava piamente que só se vive verdadeiramente, só se tem noção do valor da vida, quando se passa por isso. E via isso no olhar dela. E foi muito importante perceber “ok, não passei por isso, mas tenho aqui alguém que passou e que está disposta a estar comigo e a ajudar-me.” Aquela história dela e a forma de ela viver… nós os dois, juntos, por mais difícil que fossem as nossas circunstâncias — porque ela também tinha vindo desse luto —, percebi que poderia haver ali uma equação química que, no meio de todas as improbabilidades, poderia resultar. E foi preciso muita fé, muita vontade, mudanças de padrões. Foi aí que percebi: a verdadeira mudança vem com pequeninas coisas. Às vezes, pensava assim: preciso que aquilo me aconteça para que, de repente, sinta que tudo está melhor; preciso de ter este trabalho, preciso que haja esta mudança gigante. E foi com ela que percebi que tinha de ser diariamente, coisas muito simples, a dar valor às coisas que até hoje dou, que posso tê-las, independentemente do que me aconteça.

Porque o Tiago fazia depender a sua melhoria, o seu bem-estar, de objetivos difíceis de alcançar? 
Acho que faz parte da nossa sociedade. Sinceramente, acho que todos nós, ou a maior parte das pessoas, vai atrás daquilo que a sociedade dita que devemos ter e ser, e isso é incomportável. Muitas vezes, estamos à mercê daquilo que os outros querem que nós sejamos, e mesmo na minha área, como em muitas outras áreas, andamos um bocado por arrasto daquilo que os outros querem que nós sejamos. E eu percebi isso. Sacrifiquei toda a minha vida pessoal por causa de uma carreira, e percebi que tinha de acabar com isso, imediatamente.

Percebeu isso na altura ou percebe isso agora? 
Comecei a perceber isso na altura. Comecei a perceber que tinha de me focar no dia a dia, na família, na minha namorada, num passeio pela natureza, por estar grato, na contemplação da natureza. Coisas que, feitas de uma forma repetida, me iriam mudar internamente.

"O exercício maior que tenho é de não sofrer de arrependimento. Porque tudo aquilo que fiz, fiz com a melhor das intenções. Mas perdoar-me porque tinha uma ideia, tinha um sonho e sacrifiquei tudo. E ainda bem que tudo aconteceu, porque hoje estou melhor do que nunca."

Também com a ajuda da psicoterapia? Um bocadinho como nos pensamentos obsessivos, criar estratégias para reagir de forma diferente às coisas que lhe acontecem? 
Certo. E, com o tempo, fui sentindo essa mudança. Até hoje, tenho esses hábitos. Fui adotando estratégias, claro, fui usando muitas formas, fui utilizando a meditação e foi muito útil. Ainda hoje, medito quase todos os dias.

Porque lhe permite afastar totalmente qualquer tipo de pensamentos e ter um momento que é de paz? 
Permite-me aquilo que mais amo, que é estar no presente, sair do futuro e do passado. Não há mais nada do que isto que estamos a viver agora, neste momento, é o que é. É tão difícil de perceber, porque já temos tantas coisas para fazer daqui a bocado e viemos de não sei onde. Mas, neste momento, é o que temos. E gosto desta sensação de paz que me traz, da imprevisibilidade das coisas, do “é o que é”. Neste momento somos nós que estamos aqui, mais ninguém. É a nossa vida agora, por mais estranho que isto possa parecer, porque temos tudo o resto lá fora. Mas gosto desta tranquilidade, do “eu sou tão pequenino e tão grande ao mesmo tempo”.

Porque aquilo que sentia era uma espécie de ansiedade para trás e para a frente? Ansiedade criada por não ter conseguido chegar a objetivos que tinha no passado e ansiedade porque tinha medo de não conseguir ter os mesmos objetivos no futuro? 
É exatamente isso. E foi muito importante tirar essas expectativas e perdoar-me por aquilo que não tinha querido e não tinha conseguido.

Perdoar? 
Sim, perdoar-me, porque sacrifiquei tanto, e é interessante, porque o exercício maior que tenho é de não sofrer de arrependimento. Porque tudo aquilo que fiz, fiz com a melhor das intenções. Mas perdoar-me porque tinha uma ideia, tinha um sonho e sacrifiquei tudo. E agora, tenho de me perdoar porque quero estar bem e feliz onde estou. E ainda bem que tudo aconteceu, porque hoje estou melhor do que nunca.

Já não sente culpa pelas decisões que tomou?
Não, não sinto culpa, porque levaram-me até onde estou hoje, que é a melhor fase da minha vida. Portanto, se tive de as viver e tive de tomar as decisões que tomei e que me trouxeram até aqui, ainda bem que as tomei. Não existe esta questão de “se voltasse atrás, faria o mesmo”, porque seria outra coisa. Mas aquilo que fiz, fiz com a melhor das intenções e com o melhor que sabia. Sempre com o maior dos meus valores, que acho que é a verdade e a honestidade.

Mas, quando ouve aquela frase “olhe, a sua vida vai ser assim até o resto dos seus dias, vai viver nesse estado e ficar assim”, decide que não vai deixar isso acontecer. Que processo é que começa nessa altura? Um processo de desmame dos medicamentos também? 
De desmame, acompanhado pela médica de família.

A quem vai dizer “eu preciso de acabar com isto”? 
Sim.

A médica concordou consigo? 
Sim, percebeu. Isto tem de ser feito com muita calma, e foi. Foram seis meses de desmame, porque realmente é algo que, feito mal, até pode ser fatal. Não dá para parar de um momento para o outro, especialmente com as doses elevadas que eu estava a tomar. Tem mesmo de ser feito de uma forma acompanhada e ponderada. E decidimos os dois, eu e a Mari. Foi muito complicado. Mesmo fisicamente — perdia muitas vezes o equilíbrio, não só os períodos de apatia, mas o equilíbrio — e animicamente, como eu me sentia. Foi muito difícil, mas ela esteve sempre lá, e percebi que era um período transicional. Consegui suportar aquela fase e, daí em diante, as coisas foram consecutivamente melhorando.

"Acho que faz parte da condição de qualquer ser humano ter dias maus. Aprendi a respeitar e a não passar por cima, a não tentar negar e ignorar, a deixar-me sentir tristeza, mas não adormecer lá."

Estava a fazer psicoterapia na mesma altura? 
Na altura, não estava.

E não voltou a fazer? 
Não voltei a fazer.

Porquê? 
Não sei. Isto é muito complicado de se dizer, porque não quero que alguém que esteja em casa sinta que isto é a sua resposta, porque isto foi a minha. Mas, na altura, senti que tinha a melhor pessoa ao meu lado, melhor do que qualquer psicoterapeuta. Porque já tinha tido experiência de psicoterapia.

Já tinha as ferramentas. 
Já tinha as ferramentas, já sabia até onde podia ir para perceber que estava a atingir um limite. Sabia que, se perdesse a capacidade de gerir o que estava a tentar fazer, então aí não havia forma, teria de voltar à psicoterapia. Mas, enquanto fosse capaz de gerir isto tudo, e se me fosse sentindo gradualmente melhor, estava num caminho bom. E foi o que foi acontecendo.

Porque houve uma fase na sua vida em que precisou dessa ajuda da psicoterapia e, nesta fase, sentia de alguma forma que também precisava de ser o Tiago a tomar as rédeas e de levar a situação para a frente, para sentir que estava a avançar?
Obrigado por me dizer isso, porque acho que foi mesmo isso que aconteceu. E isso dá-nos uma autoestima que se calhar não conseguimos de outra forma, perceber “Ok, eu já tenho as ferramentas, vamos embora”. Encontrei a pessoa que acredito mesmo que seja a pessoa que quero ter ao meu lado. As coisas são difíceis? São. Será que estou a tomar as decisões corretas? Não sei. Porque aquilo era quase feito como se estivesse cego, a tentar atravessar uma rua no Vietname. (risos)

Quando é que pensou a primeira vez, se é que tem essa noção, de que estava a resultar? 
É mesmo uma sensação física. Adoro o filme Interstellar, do Christopher Nolan. Quando a ciência já não tem ferramentas, quando já não se percebe o que é que está a acontecer, quando todos os conhecimentos que os humanos construíram até agora deixam de ser úteis porque já não se entende o que é que está à nossa volta… O que é que o guia? O amor. É assim que ele consegue encontrar a filha. E acho que, no fundo, foi o amor que me guiou, foi esta sensação inexplicável de conforto que nascia no peito e que se espalhava para o resto do corpo, de um bem-estar, de só estar bem. E começou a acontecer mais vezes isso, a sentir esse bem-estar, que já me era tão raro, já não me lembrava disso. Então, “meu Deus, é isto que eu quero, estou a fazer alguma coisa bem, se continuar a repetir estes padrões se calhar vou ter mais disto”.

Há pouco explicava que as pessoas à sua volta viam coisas que o Tiago achava que as pessoas não viam, que o viam silencioso e apático. Nesta fase, também foi assim? As pessoas à volta perceberam primeiro do que o Tiago que estava a melhorar? 
Não sei. Sei que os meus pais verbalizaram mesmo, “já não via este filho há muito tempo”, e isso deixou-me muito feliz, poder trazer alegria. Porque a minha mãe disse-me: “Quão bom era antes de ires para Lisboa, ouvir-te a cantar em nossa casa, e quão tristes ficámos de termos perdido isso.” E, passados tantos anos, voltar a sentir essa alegria foi muito especial para os meus pais e para mim, por perceber que era um acrescento e não um peso.

E teve recaídas? Nesse processo de recuperação, houve alguns momentos em que sentiu que desceu uns degraus para depois poder avançar? 
Várias vezes, várias vezes. Estou sempre atento a tentar perceber o quão grave é aquilo que estou a sentir e dou alguns dias para perceber como é que isto evolui. Felizmente, até hoje… Acho que faz parte da condição de qualquer ser humano ter dias maus. Aprendi a respeitar e a não passar por cima, a não tentar negar e ignorar, a deixar-me sentir tristeza, mas não adormecer lá. Não ignorar, mas também não adormecer lá. E também com a pessoa que tenho em casa, que é alegria pura, criadora do projeto Cancro com Humor, era uma ajuda gigante. Claro que, se eu não quisesse, nunca seria possível, mas estava ali tudo pronto para que pudesse ser um sucesso.

Qual foi a ferramenta mais importante que aprendeu? A contrariar os pensamentos que o deitam abaixo, a conseguir encontrar uma forma de estar no presente? 
Estar no presente. E o viver ao lado do mar ajudou-me muito. Vivo há nove anos ao lado do mar, estou a cinco minutos a pé do paredão ali de Paço de Arcos, que é o maior luxo que poderia ter. Não consigo entender como é que tenho vizinhos que nunca vi naquele paredão. (risos) Porque é tão bom como qualquer terapia, como qualquer medicação, é essencial. Faço caminhadas de uma hora, uma hora e meia, duas horas; às vezes vou só lá por cinco minutos. Muitas vezes vou só dar um mergulho. E é só olhar, estar. Muitas vezes, vamos a caminhar, os dois, e a minha mulher gosta de falar muito, e eu, com muito carinho, digo-lhe assim: “Vamos só… estar?” (risos) E ajuda-me bastante, e a ela também, a gerir e a trabalhar também as questões dela. Temos-nos ajudado muito um ao outro, não tem sido só para um lado, tem sido para o outro também. Temos potenciado, penso, o melhor que há em nós, e com muita compaixão, gerir também as dificuldades de cada um. Tem sido uma jornada incrível, a melhor da minha vida.

Agradecimento: Palácio do Visconde — The Coffee Experience

“Labirinto – Conversas sobre Saúde Mental” é uma série de entrevistas do Observador que faz parte do Mental, a secção do Observador dedicada a temas da Saúde Mental. Em cada conversa, os convidados — figuras públicas de várias áreas, da política ao entretenimento — fazem um relato pessoal e detalhado da forma como lidaram ou lidam ainda com problemas de saúde mental — os sintomas, os tratamentos, as recaídas e a recuperação — num esforço para combater o estigma associado a este tipo de doenças. Pode ler aqui as entrevistas anteriores: