Não é invulgar que quem tem por ocupação informar sinta a obrigação de informar. A obrigação de informar resulta de um agregado de emoções e sensações que ocorrem sobretudo em quem informa os outros daquilo que se passa. Esses sentimentos confortam-nos no que fazem; mas não justificam a obrigação de informar. O entusiasmo dos praticantes pelas suas práticas não é um critério suficiente para concluir que estão a cumprir obrigações. Mesmo as profissões mais repugnantes são descritas com entusiasmo por quem sente a obrigação de as exercer.
Os sentimentos que sentimos podem ser nobres ou interesseiros. Há contudo duas outras implicações na noção de obrigação de informar que não têm a ver com sentimentos. A primeira é a ideia de que é bom para toda a gente que haja neste mundo pessoas que sintam que a informação é uma obrigação, e portanto que esse seu sentimento deve ser encorajado; e a segunda é a ideia de que toda a gente tem de estar informada. Estas duas ideias requerem as noções de ‘bom para toda a gente’ e ‘toda a gente tem de.’ São noções usadas para justificar incentivos e excepções, políticas, fiscais e jurídicas.
As excepções existem decerto em muitos outros casos. Às pessoas que fazem coisas consideradas boas para toda a gente não se aplicam normalmente certas regras que se aplicam aos beneficiários das suas acções. Um condutor de ambulâncias pode entrar por uma rua a alta velocidade e em sentido contrário e um biólogo pode matar ratos, abelhas e girafas com impunidade. Assim um jornalista pode não contar coisas que sabe, e pode até não contar como é que as soube. Outros gostariam também de poder guiar de modo desaustinado, matar animais, e mentir por omissão com a certeza de que as suas vidas continuariam sem alterações; mas as suas vidas são diferentes.
Parece pelo contrário não haver dificuldades com os incentivos. Concorda-se comummente em que carrinhas fretadas por entidades públicas, transportando factos produzidos por quem sente a obrigação de informar, possam chegar aos habitantes das furnas mais remotas, que não têm acesso a factos. Os factos porém não são como a água canalizada, e nada nos garante que os habitantes dessas furnas sejam todos iguais. É provável que alguns prefiram não ser informados, ou não queiram obter a sua informação através das carrinhas fretadas por causa da obrigação de informar.
Afinal antes de haver incentivos já vivíamos rodeados por quem acha que tem a obrigação de nos dar as piores notícias; se nos faltassem no futuro as carrinhas fretadas cheias de factos arranjaríamos outras maneiras de saber as coisas. Com probabilidade não saberíamos exactamente as mesmas coisas; e saberíamos outras. A invocação da obrigação de informar corresponde ao sentimento íntimo de que devemos em todas as alturas transmitir aos outros os factos que achamos que são melhores para toda a gente.