São sobretudo homens, entre os 30 e os 39 anos. A esmagadora maioria vem do Brasil, país que é seguido pela Índia, Angola e Cabo Verde. Trabalham em setores como os serviços, alojamento e restauração e construção. Na agricultura, são mais de metade dos trabalhadores em Portugal. Alguns milhares têm mais do que um vínculo de trabalho. Distribuem-se sobretudo em Lisboa, Setúbal, Porto e Faro. Este era, em traços gerais, o retrato da mão de obra imigrante em Portugal em 2025.
No ano passado, Portugal registou 1.115,541 contribuintes estrangeiros. Pagaram à Segurança Social cerca de 4,1 mil milhões de euros. Receberam em prestações sociais 822 milhões.
Os dados constam numa nova ferramenta disponibilizada esta sexta-feira pelo ministério do Trabalho e da Segurança Social (MTSS), que vai passar a atualizar, mês a mês, a situação contributiva dos trabalhadores estrangeiros e os apoios sociais que recebem. Os primeiros dados disponíveis remontam a 2015.
Só em 2022 inscreveram-se na Segurança Social 495 mil pessoas estrangeiras, o que se traduziu numa subida de 301% face ao ano anterior. Foi nesse ano que teve início o novo regime de entrada de imigrantes em Portugal, que criou um visto específico, com a duração máxima de seis meses, para quem queria ingressar em território nacional para procurar trabalho. No ano seguinte o número de entradas baixou, mas ainda ultrapassou as 454 mil. Em 2024 e 2025 também diminuiu.
Os dados da Segurança Social permitem concluir que, em 2025, os contribuintes estrangeiros representavam 20,15% face ao número total de contribuintes. E descontaram para a Segurança Social 13,7% do total das contribuições registadas no ano passado. Olhando para as prestações sociais que receberam, o valor ascendeu a 822 milhões, 11,11% do total, que foram pagos a 324,6 mil pessoas (12,67% do do total).
Destes mais de 1,1 milhões de contribuintes estrangeiros, quase 400 mil concentravam-se em Lisboa, o que representa 29,7% dos contribuintes do concelho. Em Setúbal registaram-se 130 mil contribuintes estrangeiros (26% do total) e no Porto 126 mil (13% do total). No entanto, o distrito onde o peso relativo dos contribuintes estrangeiros é maior face ao total é Beja, onde 35 mil pessoas de outras nacionalidades representam quase 40% dos contribuintes totais.
A nova ferramenta do Governo também permite concluir que em 2025, os mais de 1,1 milhões de imigrantes que contribuíram para a Segurança Social tinham mais de 1,6 milhões de vínculos laborais, o que significa que milhares de pessoas acumulam mais do que um trabalho declarado.
Do total de imigrantes, mais de 268 mil eram homens com idades entre os 30 e os 39 anos. Desta faixa etária existiam cerca de 144 mil mulheres contribuintes, sendo também a mais representada no sexo feminino. Os contribuintes com mais de 60 anos, entre homens e mulheres, não eram mais de 28 mil em 2025. Com menos de 20 anos não chegavam a 10 mil.
Prestações familiares, de desemprego e apoio às rendas são as que estrangeiros mais recebem
Na mesma ferramenta é possível perceber que as prestações sociais que os imigrantes mais receberam em 2025 são as prestações familiares — nas quais se inclui o abono de família — o subsídio de desemprego (para o qual é necessário cumprir 360 dias de trabalho por conta de outrem), as prestações de doença e de maternidade e paternidade, bem como o apoio extraordinário ao pagamento de rendas.
Em 2025, foram 11.756 as pessoas de nacionalidade estrangeira que tiveram direito a receber o Rendimento Social de Inserção (RSI), num valor total de 31,3 milhões de euros. Houve ainda 17.341 estrangeiros a receber prestações relativas à assistência a descendentes, no valor de cerca de 4,2 milhões de euros.
Já em relação a nacionalidades, os cidadãos estrangeiros que receberam prestações sociais foram sobretudo oriundos do Brasil (148 mil pessoas), de Angola (21.946 pessoas) e de Cabo Verde (17.896 pessoas). No quarto lugar surge a Índia (16.839 pessoas).
Além de surgirem nesta posição em relação ao recebimento de prestações, os cidadãos indianos foram os segundos que, em termos de número, mais contribuíram em Portugal para a Segurança Social — foram em 2025 quase 86 mil a fazê-lo, só ultrapassados pelos brasileiros.
O Paquistão, por exemplo, entra em 2025 no top 10 de países de origem dos cidadãos estrangeiros com mais indivíduos a contribuir, mas não figura entre os primeiros 10 países de origem de pessoas que receberam prestações sociais.
A partir dos dados disponibilizados pela Segurança Social, é também possível identificar, por distrito de residência, onde estão os cidadãos estrangeiros que mais recebem prestações sociais. A grande massa está em Lisboa, cerca de 102 mil, a acompanhar a tendência de localização do maior número de pessoas estrangeiras que contribuem para a Segurança Social.
Segue-se Setúbal, onde 38 mil pessoas estrangeiras recebem prestações sociais, o Porto com 35 mil e Faro com cerca de 33 mil.
Contribuintes estrangeiros aumentaram 8,5 vezes em dez anos
As contribuições pagas por cidadãos estrangeiros aumentaram 8,5 vezes nos últimos dez anos. Já as prestações sociais recebidas por beneficiários estrangeiros, na mesma década, multiplicaram-se por seis.
Olhando para o ano de 2025, mais de 1 milhão e 115 mil pessoas estrangeiras tiveram contribuições pagas à Segurança Social — no total pagaram cerca de 4 mil milhões euros. Cerca de um terço destes estrangeiros — menos de 325 mil — usufruíram de prestações pagas pela Segurança Social, no valor de 822 mil euros.
A diferença entre as contribuições dos trabalhadores estrangeiros e as prestações que lhes foram pagas ultrapassa, portanto, os 3 mil milhões de euros no ano passado.
O peso relativo do valor das contribuições de pessoas estrangeiras no total das contribuições para a Segurança Social, passou de 3,39% em 2015 para 13,70% no ano passado. Olhando apenas para os meses de dezembro, o peso relativo das contribuições sobe de 3,5% em 2015 para 14% em dezembro de 2025.
Estrangeiros trabalham mais em serviços de apoio. Na agricultura, ocupam metade da força de trabalho
O retrato dos contribuintes estrangeiros disponibilizado pela Segurança Social passa também por aquilo que fazem em Portugal: o trabalho sobre o qual descontam. No top 3 de atividades económicas do trabalho dependente em que mais pessoas estrangeiras trabalharam em 2025 estão as atividades administrativas e os serviços de apoio — no qual se incluem as atividades de limpeza, de segurança privada ou de manutenção de jardins — bem como as atividades de alojamento e restauração e a construção.
Só nestes três setores, há mais de 600 mil pessoas de nacionalidade estrangeira a trabalhar e a contribuir para a Segurança Social. Seguem-se os setores do comércio, das indústrias transformadoras e da agricultura, floresta e pesca.
Neste último, trabalharam no ano passado 84.982 contribuintes estrangeiros, mas mais do que a sua posição em relação ao trabalho dos restantes imigrantes, o destaque vai para a proporção em relação ao total de trabalhadores da agricultura. Os cidadãos estrangeiros eram, em 2025, mais de metade do total de trabalhadores no setor — 53,3%.
Tem sido assim, aliás, em todos os anos desde 2015 até agora. Os trabalhadores agrícolas estrangeiros são, há dez anos, os que representam uma maior fatia, em termos proporcionais, em relação ao total de trabalhadores em Portugal no setor, com uma predominância clara no distrito de Beja.
Cidadãos brasileiros dominam contribuições há dez anos. Contribuintes espanhóis e chineses desapareceram do top
Uma das variações mais significativas ao longo dos anos em relação aos contribuintes estrangeiros é o seu país de origem. Mas há uma coisa que nunca muda: o Brasil ocupou ao longo dos últimos dez anos o primeiro lugar no top das contribuições.
Em 2025 foram mais de 409 mil as pessoas com nacionalidade brasileira a contribuir para a Segurança Social em Portugal. Em 2015 eram cerca de 45 mil, mais ainda assim já ocupavam o lugar cimeiro dos que mais contribuíam em território nacional.
No ano passado, a seguir ao Brasil surgiam a Índia, Angola, Cabo Verde e Bangladesh. Em 2015, os países de origem da maior massa de contribuintes diferiam: a Ucrânia surgia em segundo lugar, depois Cabo Verde e logo a seguir a Roménia.
A China, por exemplo, que desapareceu do top 10, era o país de origem de 10 mil contribuintes estrangeiros há 1o anos — também de Espanha ainda se contavam 6.146 contribuintes em 2015.
Como mudou o retrato etário e de género dos estrangeiros inscritos na Segurança Social
Entre 2015 e 2025 os estrangeiros inscritos na Segurança Social em Portugal rejuvenesceram — essa é a primeira conclusão da análise dos dados por faixa etária. No ano passado, 60% destas pessoas tinham entre 20 e 29 anos ou 30 e 39 anos. Cerca de 15% situavam-se na faixa etária seguinte, a dos 40 aos 49 anos e apenas 6% tinham entre 50 e 59 anos. Na categoria de mais de 60 anos contavam-se 3,87% do total de inscritos estrangeiros.
É nas faixas etárias mais avançadas que a diferença é mais notória. Há dez anos, 15% dos imigrantes inscritos na Segurança Social em Portugal tinha mais de 60 anos, representavam quase tanto como os que tinham entre 40 e 49 anos nesse ano.
Mas a tendência de predominância de inscritos com a idade entre 20 e os 29 anos já existia — e manteve-se de resto ao longo de todos os últimos dez anos — com uma ligeira acentuação nos últimos três.
Já em relação ao género, houve pouco a mudar desde 2015. São sempre os homens que mais contribuem, com ligeiras variações. No ano passado os contribuintes homens eram mais de 684 mil em relação a mais de 415 mil mulheres.