Lyon. Na terceira maior cidade francesa, um episódio de violência está a polarizar o debate político e levou à realização de uma manifestação este sábado que contou com a presença de mais de três mil pessoas. Em causa, está a morte violenta de um jovem nacionalista ligado a organizações de direita radical e católicas perpetrada por membros de um grupo antifascista com ligações à França Insubmissa (LFI), o partido de esquerda radical fundado por Jean-Luc Mélenchon. Quentin Deranque, um estudante universitário de matemática de 23 anos, morreu no passado sábado, na sequência das agressões de que foi alvo dois dias antes.
As autoridades francesas estão a investigar o caso e detiveram onze pessoas que estarão relacionadas com a morte do ativista nacionalista. Entre os detidos, estão dois assessores e um antigo estagiário de Raphaël Arnault, membro da Assembleia Nacional eleito pela França Insubmissa. Apesar de se ter demarcado do caso e ter condenado a violência, o deputado não renunciou às funções que desempenha. Mais: Jean-Luc Mélenchon e o coordenador nacional da LFI, Manuel Bompard, consideram que o parlamentar ainda reúne condições para se manter no cargo, argumentando que não desempenhou qualquer papel no episódio de violência.
A um mês das eleições municipais em França, a postura da LFI — parceira dos socialistas, dos comunistas e dos ecologistas nas últimas eleições legislativas —, está a ser criticada pelos antigos parceiros da Nova Frente Popular, ainda que à esquerda já tivesse havido uma rutura com a viabilização pelo PS do Governo centrista liderado por Sébastien Lecornu. Por sua vez, os membros do Executivo associados ao partido do Presidente francês Emmanuel Macron denunciam que a violência é um fenómeno transversal “aos extremos” políticos — da esquerda da França Insubmissa à direita da União Nacional (RN, sigla em francês).

Entre as fileiras da União Nacional e nos círculos da direita radical em França, o caso está a mobilizar o eleitorado e militantes, que denunciam o que designam como “violência da extrema-esquerda” e encaram Quentin Deranque como um novo mártir político. Nesta senda, teve lugar uma manifestação este sábado em Lyon, em memória do jovem de 23 anos e para contestar os métodos do grupo antifascista que terá sido responsável pela sua morte, a Jovem Guarda Antifascista. O Governo francês deu luz verde a estes protestos, apesar de as autoridades temerem que pudesse ser marcada por violência.
Tal acabou por não acontecer. Apesar da presença de militantes extremistas e neo-nazis, o protesto foi marcado apenas pela detenção de uma pessoa, por porte ilegal de arma. Contou, no entanto, com uma presença visível da extrema-direita, com vários participantes na manifestação a fazerem saudações nazis e a ouvirem-se gritos de “árabes sujos”, que levaram a denúncias de um autarca junto do Ministério Público.
Num clima crispado e polarizado, o presidente da União Nacional, Jordan Bardella, já tinha tentado distanciar-se daquilo que poderia advir desta manifestação, tendo pedido aos membros do partido para não participarem. “As autoridades estatais estão muito preocupadas com os graves distúrbios que podem ocorrer durante este estado de tensão”, justificou na sexta-feira o provável candidato da RN às eleições presidenciais de 2027. À esquerda, os apelos eram os mesmos: Manuel Bompard acusou o Ministério da Administração Interna de ter permitido a convocação de uma “manifestação fascista que poderá reunir mil neonazis de toda a Europa”.

Uma eurodeputada da LFI, confrontos entre grupos extremistas e a morte de Quentin Deranque
A ida da eurodeputada da França Insubmissa Rima Hassan a uma conferência no Instituto de Estudos Políticos de Lyon desencadeou a polémica. À porta da prestigiada universidade, no dia 12 de fevereiro, estavam jovens nacionalistas e de direita radical, nomeadamente do coletivo Nemésis — um grupo feminista conservador —, que protestavam contra a presença da política de esquerda, nascida num campo de refugiados na Síria, que conseguiu obter asilo em França. Rima Hassan é um das vozes mais críticas da ofensiva israelita na Faixa de Gaza e até esteve a bordo da flotilha (onde esteve Mariana Mortágua e Sofia Aparício) que tentou chegar ao enclave no ano passado.
Para os grupos de direita radical franceses, Rima Hassan é um dos principais rostos dos “islamo-esquerdistas” em França. Juntamente com o coletivo Nemésis, dezenas de pessoas protestavam contra a presença da eurodeputada na conferência da universidade. Durante o protesto, Quentin Deranque também estava à porta da instituição do ensino superior no dia 12 de fevereiro e teria sido acordado que seria uma espécie de guarda-costas informal para proteger as jovens do grupo feminista conservador, caso houvesse distúrbios ou algum episódio de violência — uma versão que a família da vítima rejeita.
Perto da universidade, também estavam alguns membros de grupos de esquerda radical, especialmente da Jovem Guarda, associação que tinha sido formalmente dissolvida pelas autoridades francesas por incitação à violência (decisão que foi contestada judicialmente pelos seus membros). Contra os gritos de “fora Rima, não a queremos aqui”, os militantes de esquerda entoavam cânticos antifascistas, havendo provocações de parte a parte.

Neste tenso clima, não é de estranhar que tenha havido confrontos violentos entre os grupos de direita e os de esquerda nas imediações do Instituto de Estudos Políticos de Lyon. De acordo com as reconstituições feitas pela imprensa francesa a partir de vídeos e relatos de testemunhas, após uma primeira rixa Quentin Deranque acabou separado dos seus correligionários, sendo que existem versões contraditórias sobre este ponto — há quem mencione uma emboscada dos agressores.
Sozinho numa esquina, o jovem de 23 anos foi atirado para o chão e violentamente agredido — com socos e pontapés na cabeça — por pelo menos seis pessoas encapuzadas. As lesões que sofreu na cabeça acabaram por se revelar fatais. Depois de ser espancado, Quentin Deranque não perdeu imediatamente os sentidos e até se conseguiu levantar. Perante o agravamento dos sintomas, um amigo chamou a ambulância uma hora depois do episódio de violência. O estudante de matemática chegou já em coma ao hospital.
O jovem permaneceu hospitalizado dois dias e acabou por morrer no sábado, 14 de fevereiro, por ter sofrido um traumatismo craniano resultante das agressões. O Ministério Público abriu um inquérito por homicídio qualificado e tentou identificar os autores do crime. Os advogados contratados pela família de Quentin Deranque avançaram que se tratou de uma “emboscada meticulosamente preparada por indivíduos treinados em número muito superior e armados”.

Sedes da LFI vandalizadas e ameaças de bomba: França Insubmissa no centro do escândalo
A França Insubmissa ficou no centro da polémica imediatamente após o jovem ter sido hospitalizado. Oficialmente, o partido condenou “com toda a firmeza toda a violência física”. Procurou também demarcar-se do caso. “Contrariamente ao que alguns acreditam, nem Rima Hassan, nem as equipas da França Insubmissa tiveram qualquer contacto com os grupos fascistas que tentaram perturbá-la”, assegurou Manuel Bompard, pedindo “o fim do clima de violência” no país.
Mesmo assim, logo após a hospitalização de Quentin Deranque, ativistas nacionalistas e de direita radical que estiveram perto da universidade começaram a fazer circular a informação de que teria sido a Jovem Guarda Antifascista e membros da França Insubmissa a agredirem o jovem de 23 anos. A consequência? Na noite de 13 para 14 de fevereiro, várias sedes partidárias da LFI em vários pontos do país foram vandalizadas.
O fundador da LFI responsabilizou as declarações de Bruno Retailleau (presidente d’Os Republicanos) e Marine Le Pen pelos atos de vandalismo. “Repetiram acusações sem sentido contra membros da França Insubmissa e exploraram a tragédia que ocorreu em Lyon”, acusou Jean-Luc Mélenchon. Nas horas anteriores, os dois políticos de direita tinham criticado os “militantes de extrema-esquerda” pela violência contra Quentin Deranque. A líder parlamentar da União Nacional até pediu ao Governo para declarar as “milícias de extrema-esquerda como grupos terroristas”.
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Do lado do Governo, o ministro da Administração Interna, Laurent Núñez, responsabilizou diretamente a “extrema-esquerda”, numa alusão à França Insubmissa, que foi classificada recentemente pelos serviços de segurança como um partido daquela parte do espetro político. Numa entrevista no dia 15 de fevereiro, o governante aliado de Emmanuel Macron já fazia antever que a Jovem Guarda Antifascista estaria envolvida na morte de Quentin Deranque.
O ministro da Justiça, Gerald Darmanin, ainda foi mais claro, numa entrevista dias depois: “Claramente foi a extrema-esquerda” que matou Quentin Deranque. “Existem, de facto, discursos políticos, particularmente da França Insubmissa e da extrema-esquerda, que levam infelizmente à violência desenfreada nas redes sociais e no mundo físico”, acusou o governante, que avisou que “as palavras podiam matar”.
Atacada em várias frentes, a França Insubmissa fez questão de transmitir em todas as ocasiões a mesma mensagem: a de que nada tinha a ver com a agressão ao jovem de 23 anos. “Quem diz o contrário está a espalhar calúnias”, atacou Jean-Luc Mélenchon. Isso não fez parar os atos de vandalismo contra instalações do partido, pichadas com graffitis a pedir “justiça para Quentin”. Na quarta-feira, a sede do partido, em Paris, foi mesmo alvo de uma ameaça de bomba falsa.
O caso ainda se tornou mais sensível para a LFI na quarta-feira, dia em que foram detidas onze pessoas, incluindo dois assistentes — Jacques-Elie Favrot e Robin Chalendard — e um ex-colaborador do deputado da LFI, Raphaël Arnault. Todos eram membros ou tinham passado pela Jovem Guarda Antifascista, associação que foi fundada pelo atual parlamentar no epicentro da controvérsia.

Esta situação obrigou a França Insubmissa a redobrar a ofensiva mediática para assegurar que nada teve a ver com a morte do jovem, se bem que haja uma linha vermelha. Para a direção do partido, não faz sentido suspender ou excluir Raphaël Arnault do grupo parlamentar. O coordenador nacional saiu em defesa do deputado: “Que sentido faz um empregador ser responsabilizado pelas ações dos seus funcionários?”, questionou Manuel Bompard, que ressalvou, contudo, que — se as investigações provarem ligações do deputado à morte de Quentin Deranque —, esta posição será revista.
Várias vozes do partido vieram a público defender a permanência de Raphaël Arnault no grupo parlamentar. Manuel Bompard recordou que o deputado estava “na Assembleia Nacional” no dia em que ocorreram as agressões. “Ele não tem qualquer cargo na Jovem Guarda desde que foi eleito. As acusações contra a França Insubmissa em relação a esta tragédia são exatamente as mesmas que Trump usou contra o Partido Democrata depois do assassínio de Charlie Kirk. É a mesma coisa.”
Raramente assumindo erros e usando uma retórica dura contra os adversários políticos, a França Insubmissa também esgrimiu o argumento de que o partido estava a ser alvo de uma campanha para o descredibilizar e para equipará-lo à direita radical. Jean-Luc Mélenchon aproveitou para cerrar fileiras em vários discursos, acusando os rivais de “instrumentalizarem” a morte de Quentin Deranque para alcançarem os seus propósitos e para denegrirem a reputação da LFI. “Estamos a enfrentar as acusações mais grotescas e perigosas contra nós”, afirmou.
Macronistas e RN apontam o dedo à França Insubmissa. Esquerda critica, mas não fecha a porta a coligações
À direita e ao centro, as condenações são inequívocas, aproveitando a ocasião para denunciar a falta de assertividade da França Insubmissa ao não suspender Raphaël Arnault do grupo parlamentar. “É um ativista violento” — foi assim que Jordan Bardella o adjetivou. Em véspera de eleições municipais, a União Nacional está a tentar somar pontos com o clima de polarização no debate político, argumentando que foi o único partido que constantemente se opôs à LFI e que sempre contestou a violência da extrema-esquerda.
Além disso, o presidente da União Nacional tem apelado à criação de um “cordão sanitário” à França Insubmissa. A ideia esteve sempre associada, na política francesa, ao partido de Jordan Bardella; agora, o líder partidário pretende reverter a situação e deseja agora acantonar a LFI. “Temos de isolá-la e mantê-la fora das instituições, seja na Assembleia Nacional, seja nas próximas eleições municipais”, defendeu.
Por sua vez, os macronistas tentam transmitir a mensagem de que a França Insubmissa nunca se demarcou totalmente da morte do jovem de 23 anos, à semelhança do que tem feito a União Nacional. No entanto, também têm equiparado a violência da extrema-direita à da extrema-esquerda, colocando os dois movimentos no mesmo saco. “A LFI e a RN são duas faces da mesma moeda”, defendeu o porta-voz do partido de Emmanuel Macron, Renascença, Jad Zahab.
À esquerda, as críticas têm sido menos intensas, ainda que também tenham existido. O secretário-geral do PS, Oliver Faure, lamentou que a LFI não tenha a capacidade de “reconhecer que não está a seguir o caminho certo”. “A estratégia da França Insubmissa em fomentar conflitos à esquerda e à direita contribui até para a legitimação dos mesmos”, criticou o líder socialista, aconselhando a França Insubmissa a “fazer uma análise à sua consciência”.
A situação é incómoda para o PS, ecologistas e comunistas. Por um lado, a esquerda mais moderada tem todo o interesse em desvincular-se da LFI (e até diabolizá-la) por motivos eleitorais e para não ser arrastada para esta polémica. Por outro, falta menos de um mês para as eleições municipais e, num sistema de duas voltas com a concorrência do campo macronista e da União Nacional, o apoio da França Insubmissa continua a ser vital para que haja hipóteses de a esquerda ganhar algumas câmaras municipais de várias partes do país.
Neste sentido, os socialistas franceses não fecham totalmente a porta a coligações com a França Insubmissa nas eleições municipais, cuja primeira volta está marcada para 15 de março. De fora, ficou definitivamente um “acordo nacional” com a LFI na primeira volta. Já na segunda, o PS admite alianças, mas apenas em “circunstâncias raras”, admitiu o eurodeputado socialista Pierre Jouvet, acrescentando que os eventuais candidatos deverão esclarecer “as suas posições em relação à violência política”.

Entre os socialistas, também se fazem contas já para as presidenciais de 2027. O antigo Presidente francês (que admitiu que se poderá candidatar) François Hollande assegurou que “não pode haver qualquer aliança entre socialistas e a França Insubmissa”, declarando o fim da aliança à esquerda. O ex-chefe de Estado do PS considera que a LFI “falhou em honrar os compromissos”. “Para mim, a relação chegou ao fim.”
O seu eventual rival à esquerda numas eleições primárias, Raphaël Glucksmann, ainda usou retórica mais dura contra a LFI. “Há muitas diferenças, muitas opiniões divergentes, muitas contradições entre nós. A brutalização do debate público é um perigo mortal para a democracia. E a LFI e Jean-Luc Mélenchon têm feito exatamente isso há semanas e meses”, sustentou o líder do Place Publique, um partido aliado do PS, garantindo que nunca fará qualquer coligação com a França Insubmissa.
O despique entre Meloni e Macron por causa de Quentin Deranque
Além das reações em França, o caso da morte de Quentin Deranque motivou reações em Itália, em particular nos partidos mais à direita — como a Liga de Matteo Salvini e os Irmãos de Itália, força política liderada pela primeira-ministra Giorgia Meloni. No X, a chefe do Executivo italiano condenou mesmo a morte do jovem “atacado por grupos ligados ao extremismo de esquerda”, inserido num clima de “ódio ideológico”, algo que definiu como uma “ferida em toda a Europa”.

Estas palavras não caíram bem junto do Presidente francês. Com uma intensa agenda internacional fruto de uma viagem à Índia, Emmanuel Macron tem feito poucos comentários sobre o assunto. Contudo, em território indiano, aproveitou para responder à primeira-ministra italiana, por quem nunca nutriu uma grande estima pessoal. “Impressiona-me sempre que as pessoas nacionalistas, que não querem ser incomodadas no seu próprio país, são sempre as primeiras a comentar o que acontece noutros países”, atirou, enviando um recado para a Giorgia Meloni.
A resposta não tardou. Numa entrevista, a primeira-ministra italiana mostrou-se “surpreendida” por o Presidente francês ter ficado tão exaltado com as suas declarações. “Não esperava. A minha reflexão não era sobre França, era sobre os riscos de polarização”, justificou Giorgia Meloni. Aproveitou ainda para enviar uma farpa a Emmanuel Macron, recordando as palavras do chefe de Estado após ter vencido as eleições gerais italianas em 2022: “Interferência é quando alguém, por exemplo, quando depois de uma pessoa ser eleita pelo povo de um país, diz que vai monitorizar o Estado de Direito. Isso sim é uma interferência”.
Seja fora ou dentro de França, as discussões em redor da morte de Quentin Deranque vão prolongar-se nos próximos tempos, podendo ter repercussões políticas, principalmente para a França Insubmissa — um partido que raramente muda de posição e que vê esta polémica a manchar a pré-campanha para as eleições municipais.