Não foi preciso dar uma explicação exaustiva a Benjamim no momento do convite para fazer a banda sonora de Os Segredos da Seita do Yoga — o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de dezenas de portuguesas que se tornaram seguidoras de um guru manipulador que acabou acusado de exploração sexual e tráfico humano. Ouvinte fiel desde O Sargento na Cela 7 (que inaugurou esta série do Observador), sabia perfeitamente o que tinha de fazer. “Ouvi-os a todos e tenho amigos, como Noiserv, que já tinham feito bandas sonoras anteriores. Portanto, estava familiarizado com a estrutura. O guião está tão bem escrito que, quando o li, consegui ouvir a narradora [Daniela Ruah] na minha cabeça e os sons de que a história precisava”, conta ao Observador.
Ajudou também o facto de ter estado na Índia um ano antes, em lua de mel. Em Jaipur comprou instrumentos de percussão que vieram mesmo a calhar para este projeto e em Goa fez ioga pela primeira vez. “Foi uma experiência bastante profunda, sobretudo como ideia de exercício físico. Depois fico ansioso com a parte em que temos de estar a relaxar”, admite.
[o trailer de “Os Segredos da Seita do Yoga”:]
https://www.youtube.com/watch?v=ljuUnrHQ9-s
Sabia que, para a música funcionar, tinha de seguir algumas regras. “Fiz uma coisa que tem imensas camadas e instrumentos, que é uma música que vai do início ao fim com inúmeros momentos. E desses momentos vão tirando [na sonoplastia] uma parte, vão desdobrando para servir certas partes da história.”
Para Benjamim, é libertador quando não tem de pensar em letras, para ele a parte mais difícil do processo criativo. No entanto, sempre que sai do estúdio que ocupa em Benfica, está constantemente a criar. “Coloco os fones, ouço o que estive a gravar e deixo notas no telefone. No carro também vou a ouvir o que gravei. Estou sempre num modo um bocado obsessivo.”
Em casa força-se a desligar, mas nem sempre foi assim. “Quando vivia sozinho, chegava a casa e a primeira coisa que fazia era pegar na guitarra. Ficava horas naquilo.” A bem da sanidade mental — e do casamento — desmontou o estúdio que tinha em casa, mas mantém um “sistema muito simples” à mão, não vá dar-se a urgência de precisar de gravar uma ideia.
Um violinista que queria tocar rock
Luís Nunes nasceu em Lisboa a 24 de maio de 1986 e cresceu em Carnide, de onde guarda memórias vívidas. “Era uma zona de novas famílias, havia um jardim enorme onde brincávamos e aos cinco anos ia sozinho comprar pão.”
Estudou na Escola Alemã. Tem um irmão mais velho que lhe mostrou Nirvana, Oasis e Smashing Pumpkins. Da mãe herdou a paixão pelos Beach Boys, uma das suas grandes inspirações, e por Bob Dylan. Aos cinco anos pediu-lhe para ir aprender violino. “Na televisão fascinava-me ver como é que um arco que quase não tocava na corda dava som.”
Foi para a Fundação Musical dos Amigos das Crianças, mas rapidamente percebeu que o violino era o instrumento errado para ele. Porém, com o investimento feito, não quis desistir e foi mantendo as aulas. Quando finalmente quis sair, a mãe marcou-lhe, às escondidas, uma aula de piano. “Eu sabia que era aquilo que devia fazer, mas com 14 anos queres é estar com os teus amigos.”
Ainda assim, convencido pela mãe, foi à audição e conseguiu a vaga. O piano deu-lhe as bases para depois aprender a tocar guitarra sozinho. Para um miúdo que gostava de música, o caminho natural era ter uma banda. Requiem foi o nome escolhido por um grupo de três amigos que se juntaram no quinto ano. Já escreviam e compunham temas originais, tocavam muito poucos covers. “Eu era o baterista. Não sabia tocar bateria, mas queria tocar bateria, e isso foi um dado importante para ter desistido do violino. Eu queria tocar rock, não queria tocar música de orquestra.”
A sonoridade evoluiu depois para o heavy metal e muitos dos ensaios fizeram-se na Escola Alemã. “Tínhamos uma sala de ensaios e davam-nos a chave. Éramos putos, tínhamos dez anos, mas entrávamos, tirávamos os amplificadores, tocávamos, embora não soubéssemos tocar, fazíamos uma barulheira, depois arrumávamos e íamos embora.”
Em casa era autodidata e ainda se lembra de coisas que gravou nessa fase. “Tenho cassetes, mas não as ouço. São coisas banais, mas que na altura eram momentos fascinantes de descoberta. Hoje ainda procuro essa moca, procuro ficar fascinado com uma sequência de acordes.”
Coleciona teclados e, apesar de ter tido um de brincar com cinco ou seis anos, foi na escola, com 15 anos, que encontrou a primeira relíquia. “Uma vez fui tirar fotocópias (era sempre voluntário porque não gostava de estar na aula) e vi que estavam a tirar tralhas das salas porque iam começar umas obras. Em cima de um armário estava um teclado cheio de pó e eu fui ao subdiretor perguntar o que iam fazer com aquilo. Ia para o lixo, por isso pedi para levá-lo para casa.”
Nos primórdios da era digital, em que era preciso ligar à rede do telefone fixo e esperar alguns minutos até ter Internet, encontrou um site nos EUA que vendia as peças necessárias para voltar a por o teclado a funcionar. Juntou os 50 dólares necessários e entregou-os à mãe, que foi ao banco fazer a transferência. “Na altura já havia um site de uns geeks de teclados e vi uns vídeos para perceber como arranjar aquilo. Lá vieram as pecinhas, consegui substituí-las e hoje está aqui [no estúdio], é uma peça de coleção. É igual ao teclado que o Stevie Wonder usa ao vivo.”
Os pais davam uma ajuda — como na altura em que comprou uma mesa de mistura —, mas ele ia devolvendo aos poucos. “A minha mãe ainda tem os envelopes que serviam para lhe pagar as prestações.”
O pai é engenheiro eletrotécnico e foi dele que herdou a curiosidade e a genica de arranjar coisas. “O meu quarto era um caos, tinha instrumentos e fios por todo lado, desmanchava coisas para tentar arranjar. Houve uma altura em que o meu pai arranjou dois computadores velhos da empresa dele. O pai de um amigo tinha uma empresa de informática, fomos para lá e um funcionário ajudou-nos a transformar os dois computadores num novo. Era o que eu usava para gravar música.”
Walter Benjamin, nascido numa aula de Antropologia
Avancemos para o 12.º ano e para a decisão de escolher um futuro. Toda a gente lhe dizia que o mundo da música era precário e ele próprio queria explorar outras coisas. Foi parar ao curso de Antropologia num acaso que agora considera que só pode ter sido orientado pelo destino. “O meu 12.º ano foi caótico. Com 17 anos, já estava mesmo a querer planear o que ia fazer na música e isso prejudicou bastante os meus estudos. Não era aluno de chegar a casa e fazer os trabalhos de casa, ia para o meu computador gravar coisas.”
Não entrou na primeira opção de curso, que era Direito, e foi parar à quarta escolha. “O exame de música, para o qual fui com excesso de confiança e me espalhei ao comprido, baixou-me a média e não entrei por uma décima, mas ainda bem. Se tivesse entrado em Direito, teria arrastado aquilo até à última porque não gosto de desistir. Teria sido a pior coisa da minha vida.”

Antropologia deu-lhe exatamente aquilo que queria: conhecer pessoas novas e desenvolver pensamentos diferentes. Precisava desses horizontes maiores e sabia-o graças a um afinador de pianos que uma vez foi à Escola Alemã. “Estava fascinado com aquilo [afinar o piano] e estava a dizer-lhe que odiava a escola. Ele disse-me: ‘Um músico tem de saber de tudo: filosofia, matemática, física. Como é que tu vais escrever coisas se não sabes do que estás a falar’? Isso ficou comigo.”
Ao mesmo tempo que tinha medo de vir a ser músico e de não ter dinheiro, soube que tinha de começar a investir seriamente nisso naquele momento. “A ideia de ter 30 anos, chegar a um festival, estar a beber uma cerveja, olhar para o palco, ver um gajo a tocar a guitarra e pensar: ‘Queria estar ali. Era isto que eu queria fazer e decidi não fazer’. Isso perturbava-me muito e Antropologia deu-me tempo para explorar a música.”
Foi numa aula do curso que nasceu Walter Benjamin, o alter ego que usava antes de Benjamim. “Na altura eu queria lançar um EP e precisava de um nome, porque Luís Nunes não dá, não é? É nome de pessoa e eu acho graça ao facto de criar uma personagem. De repente fala-se de Walter Benjamin e [Georg] Simmel.”
O nome soou-lhe bem e soube que não havia outra opção viável quando, no mesmo dia, foi ter com a mãe à Feira do Livro de Lisboa e o primeiro livro que viu foi O Passageiro Walter Benjamin [de Ricardo Cano Gaviria]. “Não queria acreditar. Comprei logo o livro e roubei o nome.”
Editou The National Crisis (2008) e The Imaginary Life of Rosemary and Me (2012), mas o nome Walter Benjamin chegou a gerar confusão no primeiro concerto que deu ao vivo, na livraria Trama [que existia no Rato]. “Apareceram uma data de pessoas a achar que era um colóquio sobre o Walter Benjamin e saíram de lá indignadas. ‘O que é isto? Um tipo a cantar canções em inglês?!’”
Estudou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sabia que não queria trabalhar na área, mas gostou do curso. Ao mesmo tempo, dava aulas de música numa escola básica em Odivelas, uma experiência de dois anos que adorou. “Encarei aquilo como uma espécie de missão. O que fiz foi ignorar o programa, que era super infantil, e fiz uma coisa mais de conservatório.”
Quando percebeu que estaria a dar aulas pelo terceiro ano consecutivo — e que provavelmente seria esse o caminho a longo prazo —, fez as malas e foi para Londres. “Aí, sim, quis estudar uma coisa relacionada com música.”
Esteve dois anos a estudar Engenharia do Som e mais dois a trabalhar. “Sempre quis voltar. Nunca achei que ia chegar a Londres, conhecer muita malta e conquistar aquilo tudo. Fui com a perspetiva: vou ver o que se passa por aqui, conhecer pessoas, tocar. Pela primeira vez na vida fui muito bom aluno.”
Tanto que esteve quase um ano sem escrever, para estar focado nos estudos e nos exames. Depois começou a sentir que a sua música não pertencia a lado nenhum e que queria escrever em português. Regressou. Destino: Alvito, Alentejo.
Começou a ir para lá aos dez anos, graças a uma amiga que tinha uma casa de férias. Houve um verão em que os pais dele também foram e apaixonaram-se pela localidade. “A família da minha mãe é de Braga, a família do meu pai já não é de lado nenhum [veio de Angola] e nós queríamos ter um sítio que fosse a nossa terra. Então os meus pais compraram uma casa em ruínas que fomos recuperando devagar.”
Quando chegou de Londres pediu aos pais para ocupar o sótão com instrumentos. Mudou-se para lá e começou a chamar bandas. Produzia-lhes os discos e isso assegurava o rendimento suficiente para poder trabalhar no próprio projeto. Ser produtor era algo que fazia já desde a faculdade. O primeiro disco que produziu foi de B Fachada, colega em Antropologia. Mais recentemente, produziu Lena d’Água, acompanhou-a em 2017 no Festival da Canção (Nunca Me fui Embora) e colaborou com Joana Espadinha no mesmo concurso, no ano seguinte, com Zero a Zero. Já o próprio, garante, jamais pisará esse palco como intérprete. “Não sou um cantor de raiz. Sou uma pessoa que escreve canções e canta as próprias canções.”
De Londres trouxe ideias de canções em português, mas “muito embaraçadas”. Auto Rádio (2015) foi o disco mais difícil de completar. “Ainda hoje é doloroso ouvir. Nunca tinha escrito em português e esse processo foi muito difícil.”
A primeira pessoa a descobrir as músicas foi Gonçalo Pola, o fotógrafo/videógrafo da vila [que viria a realizar o documentário Auto Rádio]. “Era o meu filtro na altura. Ia lá a casa, bebíamos umas cervejas, e ele dizia ‘gosto mais desta, menos desta’. Aquilo acabou por tornar-se parte do processo criativo.”
Após dois anos muito intensos, e com o disco terminado, chegou a ansiedade de o lançar e tocar ao vivo. “Tive a ideia de fazer 33 concertos, todos seguidos. Estávamos numa taberna, com o Gonçalo e outro amigo. Eu disse: ‘Bora fazer. Um mês’. O outro disse: ‘Eu vou contigo. Levo a câmara’. Filmo. Então bora. Liguei ao meu agente no dia a seguir.”
Aquilo que descreve como uma “ideia estúpida tida numa noite de copos” transformou-se numa aventura que deu para tudo: tocar em sítios cheios, vazios, inusitados. Porém, a primeira vez que se apresentou como Benjamim nem foi nessa tour — Walter Benjamin tinha sido devidamente enterrado com direito a um funeral no Lux (ou uma festa com dezenas de amigos e convidados, entre Capitão Fausto e You can’t win Charlie Brown). Para acompanhar um desfile que tinha no Porto, o designer Miguel Vieira queria que ele tocasse um tema de Walter Benjamin. O músico disse-lhe que aceitava se pudesse também apresentar as novas canções. Assim foi.
“Estava em pânico, tinha muita vergonha das canções que estava a escrever e tinha pouca confiança na minha voz. Ao mesmo tempo sabia que estaria num sítio cheio de gente, mas que ninguém quereria saber do que eu estava a tocar. Eu não era o foco e isso acabou por ser perfeito.”
Depois de Auto Rádio sabia que o sucessor tinha de ser algo completamente diferente e um conhecimento antigo, Barnaby Keen, acabou por ser a chave. “Em Londres fui técnico de som, trabalhei com as bandas dele e muitas vezes punha a tocar música portuguesa e brasileira. Um dia, este tipo loiro, altíssimo, branco, vem ter comigo e num português perfeito com sotaque brasileiro diz: ‘Cara, eu adoro essa música.’ O Barnaby tinha tido uma namorada brasileira.”
Seis meses após ter regressado a Portugal, Benjamim recebeu um email do britânico a demonstrar vontade de tocar em Lisboa e a pedir a ajuda do colega. Veio, tocou e passou uns dias em Alvito. Começaram a tocar e perceberam que havia potencial para fazerem um álbum em conjunto [1986 foi editado em 2017]. “Consegui fazer um disco com um gajo inglês em que metade das canções são em português e ele está a cantá-las comigo. E eu também canto com ele em inglês. Conseguimos apropriar-nos das canções um do outro de uma forma plena.”
Seguiu-se Vias de Extinção (2020), que coincidiu com a pandemia, que venceu o Prémio Autores 2021 de Álbum do Ano na categoria Música Popular. “A ironia disto tudo é que foi a primeira e única vez que lancei um disco com uma grande editora. A seguir ia fazer uma data de concertos, estava mesmo entusiasmado e, pronto, confinamento.”

Berlengas (2024) foi mais uma mudança radical no currículo, mas já estava a marinar há algum tempo. “É um projeto de amor, mas confundiu muitas pessoas. Em termos comerciais, eu sabia que era um erro lançar um álbum duplo instrumental com 20 faixas. Pouca gente ia ter vontade ou disponibilidade para ouvir.”
No entanto, acontece muitas vezes ser abordado agora por alguém que diz adorar o projeto. “Fico feliz porque, na verdade, sabia que determinada música só ia mexer com certas pessoas. Isso também me acontece com músicas de outras pessoas e acaba por ser especial, quase exclusivo.”
Depois dessa zanga com as letras, agora garante que só quer escrever canções. “Sou gémeos, vais de um extremo para outro”, justifica.
O processo doloroso de fazer um álbum
No novo disco, no qual está a trabalhar agora, as canções são crónicas soltas, há muita guitarra e alguns convidados. “É o meu disco mais tradicional. Estou a fazer aquilo que andei a evitar a vida toda: um disco puramente de canções. São coisas pessoais, mas também com dimensões que abordam a forma como lido com todo o ruído que temos à nossa volta.”
Para alguém ansioso, como Benjamim, fazer um álbum implica enfrentar muitas dificuldades. “Neste momento só tenho dinheiro a sair: pagar os estúdio, pagar aos músicos, pagar refeições, investir em material. Não posso ficar eternamente a criar um disco, por isso é sempre um processo doloroso.”
Ainda assim, desta vez está a conseguir divertir-se e até escolheu fazer o processo ao contrário. “Perante este bombardeamento de Inteligência Artificial, agora a minha moca é: o que é importante é fazer um disco imperfeito, é fazer o disco que a IA não se vai lembrar de fazer.”
Por isso, está a gravar todas as bases em fita. “Isso significa que temos de fazer o take do início ao fim. Podemos ficar o dia inteiro a tocar a mesma música.”
Benjamim terá novos poemas e melodias para partilhar até ao final do ano e, nesta fase da vida, já consegue gerir melhor o sofrimento por antecipação. “A minha existência artística é um emprego. Agora, como é que se vive de ser um artista? Como é que se vive de se chamar Benjamim e de dar concertos? Já tive noites sem dormir, atormentado com o futuro a longo prazo, mas faço muitas coisas, tenho sempre opções. Escrevo, toco, posso dar aulas, produzo. É uma gestão que já não me causa tanta ansiedade.”