Na manhã de 19 de fevereiro, dia em que completou 66 anos, André Mountbatten-Windsor foi detido em casa, na residência que está a ocupar em Sandringham, a propriedade privada da família real britânica em Norfolk. Foi o primeiro dia de anos do ex-príncipe fora do Royal Lodge em mais de duas décadas, e provavelmente um dos poucos que passou sem ter por perto a ex-mulher, com quem habitou a mansão de 30 quartos em Windsor até o final de janeiro deste ano, ainda que estejam divorciados desde 1996. Sarah Ferguson, na verdade, terá acompanhado as notícias de bastante longe, mais precisamente à distância de 7500 quilómetros. Quando a detenção de André chegou às manchetes do Reino Unido, já eram duas da tarde nos Emirados Árabes Unidos. De acordo com os tabloides britânicos, como o Daily Mail e o The Sun, foi no país árabe, onde também Juan Carlos de Espanha vive o seu autoexílio, que Sarah Ferguson se refugiou depois de ser obrigada a abandonar a vida em Windsor.
Os antigos duques de Iorque mudaram-se oficialmente a 2 de fevereiro: o ex-príncipe seguiu para Wood Farm, uma casa de cinco quartos na vila de Wolferton, dentro da propriedade privada da realeza em Norfolk. Mas o destino da outra antiga inquilina do Royal Lodge nunca ficou totalmente claro. Chegou-se a especular em dezembro que Sarah Ferguson estava à procura de casa em Windsor, mas dias depois do ex-casal deixar a mansão da coroa britânica, o The Sun avançou que a antiga duquesa de Iorque havia deixado o Reino Unido. Depois, o Daily Mail escreveu que teria ido para os alpes franceses com amigos, para na sequência seguir para os Emirados Árabes Unidos. Neste meio tempo, Ferguson teria sido vista a passear numa feira de arte em Doha, no Qatar, com a filha mais nova, a princesa Eugenie. E ainda há quem diga que poderá estar com a irmã Jane, que vive na Austrália.
O “desaparecimento” da antiga duquesa parece o culminar de vários meses em que os seus negócios se foram, aos poucos, desmoronando. Três dias antes de André ser detido, seis empresas das quais Sarah Ferguson era a diretora iniciaram o processo de insolvência no Reino Unido, de acordo com a BBC. São elas a S Phoenix Events, a Fergie’s Farm, a La Luna Investments, a Solamoon Ltd, a Philanthrepreneur Ltd e a Planet Partners Productions Ltd; sendo que nenhuma delas possui qualquer perfil público. Todas foram criadas há mais de uma década e tiveram pouca ou nenhuma atividade comercial nos últimos anos. Ferguson permanece como diretora ativa de outras três empresas registadas na Companies House: a Ginger and Moss, marca de lifestyle que vende chá, joias e utensílios domésticos; a Coat, de “atividades de produção cinematográfica”; e a Librasol, classificada como “criação artística” no registo oficial. Alguns meses antes, em setembro, a então ainda duquesa havia sido removida do cargo de patrona ou embaixadora de sete instituições de caridade, incluindo o Teenage Cancer Trust e o centro de cuidados paliativos infantis Julia’s House, devido às novas ligações de Sarah a Jeffrey Epstein que foram tornadas públicas — incluindo um email de 2011 em que lhe chama “amigo supremo”.

A última vez que Sarah foi vista em público foi nas cerimónias fúnebres da duquesa de Kent, em setembro de 2025, quando acompanhou o ex-marido. O ex-casal, aliás, esteve lado a lado com Carlos III e o príncipe William, numa interação que não adivinhava o furacão que se seguiria cerca de um mês depois. No final de outubro, o Rei decidiu retirar todos os títulos que ainda restavam ao irmão e anunciou que este deixaria de viver no Royal Lodge. Ferguson, por consequência, tornou-se ex-duquesa de Iorque e teria que encontrar um novo lar.
Do divórcio às dívidas
André e Sarah casaram-se em 1986, tiveram duas filhas, Beatrice em 1988 e Eugenie em 1990, e separaram-se em 1996. Cinco meses depois, os jornais publicavam a fotografia de John Bryan com o pé da duquesa de Iorque na boca, enquanto esta estava em topless. Ao longo dos anos, Ferguson e Bryan ficaram mais próximos — o empresário norte-americano passou a frequentar a residência dos duques de Iorque, Sunninghill, e conviver com as princesas Beatrice e Eugenie.
No livro Fergie, Her Secret Life, publicado em 1996, Allan Starkie, antigo assistente de negócios de Sarah, descreve como a relação entre a mulher de André e o empresário norte-americano evoluiu. Mas também como a então duquesa usava do seu “charme” para conseguir o dinheiro necessário para continuar uma vida de luxos. Numa passagem do livro, Starkie descreve, por exemplo, como Ferguson recebeu 57 mil euros de um príncipe árabe em 1993. “Convidou a duquesa para um jantar na sua casa, em Mayfair. Durante o jantar, ele perguntou: ‘Há algo que eu possa fazer por si?’ Sem hesitar, Sarah sorriu e disse: ‘Na verdade, há sim. Poderia resolver as minhas dívidas’. Naquela época, a dívida com o banco Coutts estava próxima dos 2 milhões de euros. O seu anfitrião não se mostrou nem um pouco perturbado com o pedido bastante incomum”, recorda em 2010 o britânico Express. O príncipe então terá convidado Sarah Ferguson para um novo jantar, no qual terá tentado beijar a duquesa. “Sarah disse depois que uma vez que os lábios dele tocaram os seus não havia volta a dar; mas de alguma forma ela conseguiu sair daquela situação.” O jantar terminou, e algum tempo depois a mulher de André descobriu que havia recebido 57 mil euros na sua conta.

André e Sarah ainda viveram separados por três anos quando, em 1996, o divórcio foi anunciado. De acordo com o livro Entitled: The Rise and Fall of the House of York, do historiador e jornalista especialista em realeza Andrew Lownie, o acordo de divórcio levou em conta a possibilidade de Ferguson revelar pormenores escandalosos sobre a família real britânica. Na altura, o Daily Mirror havia publicado que uma editora norte-americana teria abordado a então duquesa para escrever um livro de memórias, e que a ex-mulher de André terá pedido dois milhões de dólares para “contar tudo”. “O saldo devedor de 300 mil libras [cerca de 340 mil euros] da duquesa na sua conta bancária seria quitado, seria providenciada uma casa e 1,4 milhão de libras [1,6 milhão de euros] seriam depositados num fundo fiduciário para as suas filhas. Ela manteria a guarda das crianças, mas não mais cumpriria compromissos oficiais. Todos os objetos pessoais relacionados a ela foram removidos da loja de presentes do Castelo de Windsor”, escreve Lownie sobre o acordo.
Depois do divórcio, Sarah procurou participar em iniciativas que lhe rendessem algum dinheiro. Já tinha livros infantis publicados desde 1986, mas publicou no mesmo ano a autobiografia My Story, e começou a atuar como porta-voz da marca de porcelana Waterford Wedgewood e dos Vigilantes do Peso, num contrato que a imprensa apontava na altura valer perto de 2,2 milhões de euros por ano.
Contudo, os negócios não corriam assim tão bem. Quando completou 50 anos, em 2009, assumiu numa entrevista à revista Hello que tinha uma dívida de cerca de 685 mil euros depois do colapso da sua empresa norte-americana de lifestyle, a Hartmoor. Na altura Sarah Ferguson terá sido aconselhada a iniciar um processo de insolvência, mas decidiu pedir um empréstimo de 740 mil euros ao Royal Bank of Scotland. A duquesa também havia encerrado a colaboração com os Vigilantes do Peso na mesma época e, alguns meses depois, tornou-se público que estava a ser processada por uma empresa chamada Mayfair Solicitors Davenport Lyons, que pedia cerca de 225 mil euros por um trabalho relacionado com um acordo para transformar os livros infantis numa série de animação para a televisão.
Em contrapartida, Sarah continuava a viver como uma aristocrata. No aniversário de 50 anos de André, a então duquesa ofereceu ao ex-marido um retrato em miniatura das filhas pelo qual a artista Basia Hamiton cobrou 8 mil euros. A arte estava dentro de uma caixa de prata gravada com a inicial S, que custava 4,5 mil euros. A dívida permaneceu por mais de um ano, escreve Andrew Lownie no seu livro, mesmo com ameaças de um processo. A duquesa tinha dívidas com um personal trainer, um profissional de medicina alternativa, serviços de lavandaria, empresas de aluguer de carros e compras. Neste período, várias entidades levaram Sarah a tribunal: em abril de 2009 uma queixa em Northampton County pedia 2 mil euros em contas não pagas; em junho outro processo apresentado em Londres apontava para uma dívida de mais de 20 mil euros; em setembro tornou-se público que devia milhares de euros a uma guru espiritual chamada Anamika, que vivia em Malibu; e em outubro a imprensa avançava que Sarah ainda tinha por pagar mais de 19 mil euros ao colaborador Richard Owen, que a ajudou a construir a marca “Fergie”, como recorda o London Evening Standard. Na altura Sarah Ferguson também devia aproximadamente 115 mil euros a Johnny O’Sullivan, um antigo assistente pessoal da duquesa que trabalhou com ela por 18 anos — alguém que sabia muito sobre a vida privada do ex-casal e que a ex-mulher de André não queria aborrecer.
A “armadilha” e o pedido de ajuda
Em 2010 já era mais que claro que Ferguson estava afundada em dívidas. E aproveitando-se do desespero da duquesa, o extinto News of the World preparou uma armadilha. No dia 13 de maio Sarah Ferguson foi, acompanhada de dois assistentes, a uma reunião no hotel 5 estrelas The Mark, em Nova Iorque. A então duquesa pensava que se estava a encontrar com um empresário árabe, mas o homem era, na verdade, o jornalista Mazher Mahmood disfarçado. “Disse-lhe que poderia arranjar reuniões entre ele e o príncipe André no Cazaquistão e em Abu Dhabi”, escreveu o tabloide. Na altura, André era enviado comercial do Reino Unido, cargo que ocupou de 2001 a 2011, e trabalhava para um órgão governamental subordinado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e ao Departamento de Negócios, Inovação e Habilidades, mas não recebia salário.
O encontro seguinte foi num restaurante em Londres, o Mosimann’s Club, a 18 de maio. Neste jantar, Sarah pediu que uma transferência de 500 mil libras, o equivalente a 570 mil euros, fosse feita para a sua conta no banco HSBC. “Isto vai abrir-lhe portas para tudo o que desejar. Posso abrir-lhe a porta que quiser, e vou fazê-lo. Cuida de mim que ele cuida de si”, terá dito a ex-mulher de André, que usou o pseudónimo Billy para se referir ao então príncipe. Na conversa, Ferguson também descreveu como o papel do ex-marido como enviado comercial do Reino Unido colocava-o em contacto “com as pessoas mais incríveis”. Ao justificar o pedido de dinheiro, Sarah disse que o acordo de divórcio deixou-a sem nada. “Tenho o coração mais generoso, mas tenho zero dinheiro. Não tenho nada… Neste momento, as minhas filhas pagam a minha vida. Elas tem um fundo fiduciário do André… Já mudei a vida de milhões de crianças, mas eles [a realeza] deixaram-me sem nada.”
Sarah foi então ao apartamento do suposto empresário, na região de Mayfair, para receber parte do valor. Deixou o local com uma mala de dinheiro com 45 mil euros. “Sou uma aristocrata completa. Adora isso, não é? Eu adoro. É tremendamente fabuloso. Mas, aliás, nunca admiti isso a ninguém”, disse a então duquesa. O artigo com o título “Fergie ‘vende’ Andy por 500 mil” fez a capa e quatro páginas do jornal, que ainda divulgou um vídeo do encontro da ex-mulher de André com o “falso sheik”. Mazher Mahmood, o jornalista responsável por este trabalho, foi condenado em 2016 a 15 meses de prisão por ter adulterado provas numa reportagem sobre tráfico de drogas que envolvia uma cantora.
Depois da publicação, o Palácio de Buckingham emitiu um comunicado em nome de Sarah Ferguson, no qual a antiga duquesa dizia-se “profundamente arrependida da situação embaraçosa” que causou. “É verdade que a minha situação financeira está sob stress. Mas isso não é desculpa para um lapso de julgamento e sinto muito que isso tenha acontecido”, afirmou ainda Ferguson, que destacou no comunicado que André “não sabia nem estava envolvido nas discussões”. Um ano depois, na autobiografia Finding Sarah, a duquesa mudou a versão e disse que “a gravação foi propositadamente cortada para parecer que estava a negociar uma apresentação pessoal”, alegando que não o fez.
Em dezembro de 2010, André Mountabatten-Windsor foi a Nova Iorque. Passou alguns dias na casa de um amigo, numa viagem privada, mas que se tornou bastante pública em fevereiro de 2011, dias antes do grande escândalo sexual envolvendo o seu nome chegar às manchetes da imprensa britânica. Numa fotografia de paparazzi, o filho de Isabel II aparece a caminhar no Central Park ao lado de Jeffrey Epstein.

A “amizade” entre S e JE
Jeffrey Epstein conheceu André Mountbatten-Windsor na década de 1990, provavelmente apresentado por Ghislaine Maxwell, a cúmplice do criminoso sexual e que atualmente cumpre a pena de 20 anos por tráfico sexual de menores — e que o ex-príncipe conhecia desde os anos 1980. A primeira evidência conhecida da amizade entre o filho de Isabel II e Epstein remonta a fevereiro 1999, quando o então duque de Iorque viajou no jato privado do milionário até a ilha de St. Thomas. Contudo, o autor Andrew Lownie aposta que foi Sarah Ferguson a apresentar Maxwell ao marido. “As duas mulheres eram figuras conhecidas na alta sociedade nova-iorquina”, assinala na biografia dos duques de Iorque. “Uma das razões pelas quais se envolveu com Epstein foi para pagar as dívidas”, disse ainda o biógrafo numa entrevista ao Observador em agosto de 2025.
A maioria dos emails e mensagens trocadas entre Sarah Ferguson e Jeffrey Epstein são do período entre 2009 e 2011, em que a ex-mulher de André aparece como “Sarah”, “a duquesa” ou apenas “S”. Porém, no meio dos documentos divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano, há referências a um contacto próximo que pode ter iniciado mais de uma década antes. Num email enviado a Jean-Luc Brunel, conhecido agente de modelos francês e considerado um dos seus recrutadores, Jeffrey Epstein afirma que “ajudou financeiramente” a ex-mulher de André “por 15 anos”, o que significaria que o milionário estaria a enviar dinheiro a Sarah Ferguson desde 1996, quando esta se divorciou do ex-príncipe. Um comprovativo de transferência bancária de novembro de 2001 revela que Epstein enviou 150 mil dólares à “duquesa de Iorque”.

Epstein e Maxwell também estiveram entre os 500 convidados dos duques de Iorque para o aniversário de 18 anos da princesa Beatrice, nos jardins do Castelo de Windsor, em 2006, numa altura em que o milionário já havia sido acusado de solicitar a prostituição de uma menor. Jeffrey Epstein fez um acordo com o as autoridades da Florida em 2008 e declarou-se culpado, cumprindo 13 meses numa penitenciária estadual e outros seis meses de prisão domiciliária.
Mas a acusação não parece ter sido um obstáculo para a amizade entre o milionário e o ex-casal. Aliás, Epstein ainda estava na prisão, em junho de 2009, quando a então duquesa de Iorque lhe pediu conselhos sobre como abrir um negócio chamado The Mothers Army. “Para o seu exército de mães precisas de cinco mulheres poderosas que não tenham inveja do seu sucesso”, respondeu o criminoso sexual. No dia 26 de junho, Sarah respondeu. Disse que “falou com a primeira-dama” e que ela “amou o Mothers Army”. A duquesa assina o email a dizer: “Amo-te”. Em julho, menos de uma semana depois de Epstein deixar a prisão na Florida, Sarah visitou o criminoso sexual acompanhada das filhas. “Para qual morada devemos ir? Serei eu, Beatrice e Eugenie. Vamos almoçar?”, dizia Sarah, na manhã de 27 de julho. Um dia depois, Epstein escreveu num email a Ghislaine Maxwell: “Ferg e as duas meninas vieram ontem”. Os registos divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano sugerem que Epstein pagou pelo voo das três de Londres a Miami, e o regresso de Nova Iorque a Londres.

Cerca de uma semana depois, a duquesa envia um email a Epstein a agradecer pelos vários contactos profissionais que surgiram desde o almoço entre ambos. “Muito obrigada, Jeffrey. Tive uma ótima conversa com a Target na sexta-feira, e eles querem muito o projeto Mothers Army. Eles também querem apoiar toda a minha marca Sarah Ferguson, livros etc. A Tommy Hilfiger quer desenvolver toda a minha marca de roupas, fragrâncias etc., e vendê-la na QVC. A NBC quer meu programa de TV Mothers Army. Ben Silverman quer. Assim como Ryan Seacrest. Em apenas uma semana, depois do seu almoço, parece que a energia cresceu. Nunca me senti tão tocada pela gentileza de um amigo como pelo seu elogio na frente das minhas filhas. Obrigada, Jeffrey, por ser o irmão que eu sempre desejei ter.”
As comunicações entre ambos continuam ao longo dos meses. Em outubro, Sarah pede “urgentemente 22 mil euros para o aluguer, hoje. O senhorio ameaçou ir aos jornais se eu não pagar”. A duquesa provavelmente falava de um contrato que assinou em maio de 2009 por uma mansão em Wentworth Estate. A renda era de 9 mil euros por mês e, apesar de desistir da mudança, a ex-mulher de André ficou obrigada a pagar por seis meses. Em fevereiro de 2010, Epstein foi convidado para o aniversário de 50 anos de André, no Palácio de St. James, mas não foi ao evento. Naquele ano, a duquesa continuou, ao longo dos meses, a trocar emails com Epstein, falando também das filhas — numa mensagem em março escreveu que estava à espera de Eugenie regressar de “um fim de semana de sexo”.
A zanga e o “fim” da amizade
Depois do escândalo do News of the World, em maio de 2010, Sarah passou duas semanas numa espécie de “retiro” em Montecito, na Califórnia. Nos EUA, Jeffrey Epstein parecia preocupado. Num email a Ghislaine Maxwell, partilhou o artigo do tabloide britânico e escreveu que não tinha falado com Sarah Ferguson, mas que possuía “muitas informações” e não queria que a situação “chegasse até mim”. No dia 14 de julho de 2010, Sarah escreve a Epstein sobre como se sente depois do artigo ter sido publicado: “Agora estou a ser completamente abandonada à própria sorte, exatamente como eu previ”, desabafa. “Nenhuma mulher jamais saiu da família real com a cabeça ilesa, eles não podem decapitar-me, portanto irão desacreditar-me.”
Mais tarde, Epstein recebeu um email de alguém que teve o nome rasurado pelo Departamento de Justiça norte-americano a dizer que falou com PA — uma das formas como André é tratado nas trocas de mensagens dos ficheiros Epstein — e que recebeu a seguinte resposta: “Ela está a ser acolhida sob as asas de Oprah. Depois da entrevista, Oprah decidiu que ela tem talento e habilidade que podem ser usados no seu canal. Ninguém sabe ainda, e estamos a manter em segredo até estar tudo resolvido”. A duquesa assinou o contrato com a OWN (Oprah Winfrey Network) em agosto de 2010. A série documental e o livro Finding Sarah: From Royalty to the Real World foram lançados em junho de 2011.
De irmão, Epstein passou a potencial marido. Num email em janeiro de 2011, Sarah faz vários elogios. “És uma lenda. Não tenho palavras para descrever o meu amor e gratidão pela tua generosidade e bondade. Estou ao teu serviço. Casa-te comigo.” Contudo, em fevereiro a imprensa britânica passou a escrutinar a relação de Epstein com André, e uma fotografia em que o ex-príncipe aparecia abraçado em Virginia Giuffre foi publicada. Cerca de um mês depois, Sarah deu uma entrevista ao London Evening Standard, na qual justificava as suas relações com o condenado sexual, assumia ter recebido um empréstimo de 15 mil libras, mas que tal terá sido “um erro de julgamento” e alegava que “nunca mais” estaria envolvida com Epstein e que era contra a pedofilia. As declarações da duquesa irritaram o criminoso sexual.
Dias depois, numa troca de emails com Mike Sitrick, o seu relações públicas na altura, Epstein escreve: “Acho que Fergie pode dizer agora que não sou um pedófilo“, afirmando que a duquesa “foi enganada para acreditar em histórias falsas”. Sitrick responde que a estratégia para que os jornais deixem de o chamar “pedófilo” é fazer Sarah Ferguson retratar-se. Noutro email, Epstein pede diretamente à antiga duquesa: “Ainda não recebi a sua carta a esclarecer as coisas“.
Em abril, a ex-mulher de André escreve um longo email a pedir desculpas. Diz que foi instruída a dar a entrevista para proteger a sua “carreira de autora de livros infantis e de filantropia”, considerando que Epstein enfrentava acusações de tráfico sexual de menores. “Estava devastada porque vi todo o meu trabalho com crianças desaparecer“, confessa, no email. “Como sabe, eu não disse a palavra com ‘P’ sobre si, mas entendo que tenha sido publicado como se tivesse dito”, argumenta ainda, desculpando-se por não ter respondido aos emails e chamadas depois que “os tabloides foram tão terríveis”. “Sei que está terrivelmente dececionado comigo. Sempre foi um amigo leal, generoso e supremo para mim e a minha família.”
Contudo, esse lado dos bastidores da relação não era conhecido. As palavras de Sarah dirigidas a Epstein só se tornaram públicas em setembro de 2025. Depois do email ser divulgado, o então porta-voz da antiga duquesa, James Henderson, disse ao jornal britânico Telegraph que Jeffrey Epstein ligou-lhe naquela altura, ameaçando-o de medidas legais contra Sarah Ferguson. “Lembro-me de tudo sobre aquele telefonema”, disse. “As pessoas não entendem o quão terrível Epstein era”. Henderson descreveu a chamada como “assustadora” e mostrou-se “surpreendido que alguém tenha sido amigo” de Epstein, dada a maneira como lhe falou. “Ele disse que destruiria a família Iorque e foi bem claro. Disse que me destruía”.
Apesar de Sarah Ferguson alegar na entrevista ao London Evening Standard que cortou relações com Epstein, os ficheiros sugerem que terá sido o milionário a decidir parar de falar com a ex-mulher de André. Numa mensagem enviada em setembro de 2011, a antiga duquesa de Iorque escreve que “ouviu pelo duque” que Epstein teria “um bebé”. “Apesar de nunca mais teres entrado em contacto ainda estou aqui com amor, amizade e a desejar-lhe os parabéns pelo menino.” Menos de dez minutos depois, uma nova mensagem da ex-duquesa. “Desapareceste. Não sabia sequer que terias um bebé. Era tão claro para mim que só eras meu amigo para chegar a André. E isso magoou-me imenso. Mais do que possas saber.” Esta é a última mensagem presente nos ficheiros.

Contudo, de acordo com o que disse Andrew Lownie ao News Nation Now, Sarah Ferguson terá mantido contacto com Epstein de outras formas nos anos seguintes. “Falei com um ‘dogwalker’ que costumava ver Fergie a entrar e sair de um dos apartamentos de Epstein até pelo menos 2014”, diz o autor, que acredita que a ex-duquesa manteve a amizade para ter “acomodação de graça” durante as suas viagens a Nova Iorque. As comunicações entre André e Epstein também pararam depois de 2011, mas o ex-príncipe terá continuado em contacto com o criminoso sexual através de intermediários, como foi o caso do investidor alemão David Stern.