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"America's Next Top Model": quanto é possível sofrer pelo glamour?

O reality show de Tyra Banks foi um sucesso, teve nova vida na pandemia, mas colecionou denúncias sobre abusos. Um novo documentário confronta os protagonistas e o resultado não é elegante.

Susana Verde
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Algures no meu crescimento, quis ser modelo durante um mês ou dois. E falar em “crescimento” é uma hipérbole que merece aspas, na medida em que teria pouco menos de metro meio à data. E pouco mais de uma mão cheia de centímetros depois, fiquei-me por aí. Lembro-me de escrever num diário que ia deixar de comer pão para atingir esse objetivo. Não sei em que momento o desejo de perseguir as passerelles se esfumou, mas é bem possível que tenha sido num dia em que deitei abaixo uma carcaça com manteiga ao pequeno-almoço e outra ao lanche.

Com esta recordação, vem uma certeza: eu não precisava nadinha de cortar nos hidratos e não tinha nada que se parecesse com excesso de peso. O que é certo é que quando me imaginei num futuro próximo na capa da Teenager (contemporâneos lembrar-se-ão desta publicação cheia de sabedoria), a primeira coisa que me veio à mente foi “ tenho de emagrecer”. Podemos dizer que era “fruta da época” ou “produto do tempo”, mas não torna a coisa menos triste. O mesmo se pode dizer de muito do que veio à tona no documentário em 3 partes Reality Check: Inside America’s Next Top Model, que se estreou no dia 16 de Fevereiro na Netflix.

Certo, eram outros tempos… Mas não foi na idade média. O episódio em que a Joanie Sprague, concorrente da 6.ª temporada, foi informada que com aquela dentição não ia a lado nenhum e que rapidamente escalou para lhe arrancarem 4 dentes de uma vez só, aconteceu em 2006. E poucas horas depois de sair da cadeira do dentista, a pobre da Joanie estava a fazer uma sessão fotográfica em que precisava de chorar, desafio ultrapassado com facilidade, tendo em conta o cenário de guerra em que tinha a boca.

https://www.youtube.com/watch?v=64eaReTHCgc

Quando comecei a ver o American Next Top Model (ANTM), em 2008 mais coisa menos coisa, Tyra Banks (modelo e criadora/apresentadora do formato) afirmava-se como alguém que queria mudar os padrões da indústria. Uma mulher negra que abriu umas quantas portas ao pontapé e ocupou lugares a que só modelos brancas tinham acesso. ANTM nasceu da cabeça da lindíssima Tyra e juntou-se a um produtor batido em realities, Ken Mok.

No programa, fazia-se acompanhar por uma icónica dupla de homens muito pouco normativos: os J’s. J. Alexander, também conhecido por Miss J, que ensinou a apresentadora a desfilar e haveria de ensinar as candidatas, e andava de salto agulha com uma confiança que não alcancei nem nos meus sonhos mais otimistas. E Jay Manuel, o maquilhador de Tyra, com o seu cabelo Son Gohan prateado, nomeado o diretor de arte das sessões fotográficas mais deslumbrantes, e por vezes mais escabrosas, alguma vez vistas: a pousar com pombos, baratas, tarântulas, suspensas numa grua, vestidas com carcaças de animais, como vítimas num cenário de crime, retratando uma troca de etnia… Sim, valeu black face.

Na segunda temporada, junta-se a eles Nigel Barker, ex-modelo e fotógrafo, portador de um sedutor sotaque inglês. Segundo a emissora era preciso juntar ao cabaz um homem bonito, hetero e branco. Apesar da mãe de Barker ser natural do Sri Lanka, foi escolhido. ANTM propunha-se a mostrar os bastidores da indústria da moda e a acompanhar o processo de descoberta da próxima super modelo americana. O início desta história é até inspirador, já que a proposta foi declinada por todas as cadeias de televisão, até à UPN (The United Paramount Network), que estava a lutar pela sobrevivência, ter dito que sim.

Tyra Banks teve uma boa ideia, até tinha vontade de ajudar raparigas e criar oportunidades, criando um caminho mais facilitado do que o dela, que lutou tanto para conquistar uma carreira. Mas será que era assim tão mais fácil? Ou pior: era mesmo uma oportunidade real ou era só reality? Ao que parece, ANTM transformou-se numa picadora dos sonhos e esperanças de jovens mulheres e Tyra numa vendedora da banha da cobra.

No programa, semana a semana, as participantes seriam avaliadas com base no desempenho em passerelle, em desafios temáticos, em visitas a hipotéticos clientes mas, fundamentalmente, pelo resultados das sessões fotográficas. A melhor ganharia um pacote de contratos que, alegadamente, iam lançar a sua carreira de forma super sónica e poderiam usar o título de “America’s Next Top Model”. Para tornar a coisa mais interessantes, as candidatas viviam juntas durante a competição, replicando os comuns apartamentos de modelos que as grandes agências têm nas capitais da moda, e, claro, com câmaras em todas as divisões, 24 sobre 24 horas.

É certo que qualquer concurso de talentos beneficia deste lado de reality para prender as audiências. Não me canso de dizer: o que vende são as pessoas, as histórias, os conflitos, os dramas, a relação com os espectadores que torcem pelas personagens ou lhes ganham ranço. Tyra Banks teve uma boa ideia, até tinha vontade de ajudar raparigas e criar oportunidades, criando um caminho mais facilitado do que o dela, que lutou tanto para conquistar uma carreira. Mas será que era assim tão mais fácil? Ou pior: era mesmo uma oportunidade real ou era só reality? Ao que parece, ANTM transformou-se numa picadora dos sonhos e esperanças de jovens mulheres e Tyra numa vendedora da banha da cobra.

Reality Check: Inside America’s Next Top Model traça uma cronologia desde o embrião do formato em 2002, quando Banks pensou em misturar American Idol, que estava no seu auge, com The Real World e o seu mundo, até ao seu cancelamento em 2015, ao fim de 24 temporadas. E porque é que se voltou a falar disto, se o formato morreu de velho e cansado, com as audiências em queda livre, cycle atrás de cycle (assim eram chamadas as temporadas)? Foi a pandemia, acreditam? Há falta de melhor, muitos se lembraram de fazer binge-watch do programa. E se ao início havia muita gente entusiasmada com este novo vício, rapidamente se começaram a levantar vozes que garantiam que não tinha envelhecido bem e havia muita coisa que não era de todo aceitável à luz da atualidade — e bem.

Ao longo dos 3 episódios desta minissérie documental, vamos ouvindo os depoimentos de várias concorrentes de diferentes temporadas. Há quem reconheça que só conseguiu fazer um caminho graças ao programa, há quem perceba que a experiência a que foi sujeita é resultado de um contexto datado, há quem diga que Tyra vende um discurso que não suporta com a conduta, há quem se tenha desiludido tremendamente, há quem tenha ficado traumatizada para a vida. O que não espanta quando ouvimos Dawn Ostroff, a presidente da UPN da altura, que diz que nada a incomoda, não tomaria nenhuma decisão diferente, porque #audiências. Ou Ken Mok, o produtor, numa entrevista na altura: “O maior desastre de sempre é sempre a melhor coisa. Estão 40 graus. As modelos estão a vomitar. Precisam de soro. Esta é a melhor notícia que podia receber”.

Os mentores também têm muito a dizer, em particular Jay Manuel, que mais valia ter sido filmado deitado num divã: é a cara da desilusão em relação a Tyra. Miss J tem intervenções mais curtas, perceberemos no final porquê, mas é mais mordaz na crítica, bem ao seu estilo. Embora seja mais contido com as palavras, talvez pelo carácter britânico, a expressão de Nigel Barker quando confrontado com imagens de alguns episódios é a cara do arrependimento. E sim, Tyra Banks, a “inventora” do smize também se sentou no banco dos réus, quer dizer, também aceitou participar. Para quem não sabe, smize é a expressão que a modelo cunhou para sorrir com os olhos, capítulo magno do conteúdo programático administrado às suas pupilas no programa. Quem a ouvisse falar do smize diria que tinha descoberto a cura para o cancro, tal era o entusiasmo.

Mas sim, Tyra dá o seu testemunho, não se nega a responder a quase nada, o que aumenta exponencialmente a dúvida e o interesse sobre o tema em que se cala, o despedimento de Jay Manuel. Mas a atitude é consistente ao longo do episódio. Cheira consistentemente a falso. Senti ali qualquer coisa de Cristina Ferreira, e os seus discursos em como aceita as críticas e cresce com elas, mas acaba sempre a dizer que o problema desta gente é a inveja. Same energy. Tyra Banks relativiza umas coisas com o contexto da altura, faz um mea culpa nalguns casos que deve achar menos graves, mas sempre elencando uma mão cheia de atenuantes, e enxota a culpa para a produção quando o buraco é mais em baixo.

As modelos eram aplaudidas e premiadas por obedecerem cegamente, passarem a saúde para segundo plano e até se colocarem em perigo. E isso não é a tão citada ética de trabalho, isso é glamourização do sofrimento. E aquelas que não se atiravam para um poço de mãos e pés vendados se assim lhes fosse pedido, eram vilanizadas, recebiam um atestado de más profissionais e eram rapidamente descartadas.

Como por exemplo, quando uma das modelos teve relações sexuais no apartamento, praticamente inconsciente de embriagada, e não pararam de filmar. E quando ligou para o namorado em prantos, e quando ligou para o tipo a perguntar se tinha usado proteção, e quando ligou para um médico: nunca pararam de filmar. E quando a cena que se segue é um encontro casual entre a Tyra e as modelos, e a apresentadora escolhe para tópico de conversa a traição e como as pessoas que traem são más e feias. Desculpa lá, Tyra, mas não há smize que apague isto.

O que me foi incomodando progressivamente na Tyra, talvez à medida que eu me torneava mais progressista, foi esta narrativa de “Queres mesmo isto? Tens que mostrar que queres muito isto. Eu cheguei onde cheguei, porque queria isto mais que ninguém. Eu sacrifiquei-me, se tu não fazes o mesmo, a porta da rua é serventia da casa”. Como aquelas mães, infelizes no casamento toda a vida, que dizem às filhas: “Se eu aguentei, porque é que tu não hás-de aguentar?”. As modelos eram aplaudidas e premiadas por obedecerem cegamente, passarem a saúde para segundo plano e até se colocarem em perigo. E isso não é a tão citada ética de trabalho, isso é glamourização do sofrimento. E aquelas que não se atiravam para um poço de mãos e pés vendados se assim lhes fosse pedido, eram vilanizadas, recebiam um atestado de más profissionais e eram rapidamente descartadas.

A televisão é assim? É, muitas vezes. Mas se queres vender ao mundo uma imagem de fada madrinha das aspirantes a modelo, porta-estandarte da beleza negra, empoderadora de mulheres, Khallesi dos corpos reais, tens que fazer melhor. E o pior disto tudo, é que lá para o fim, houve qualquer coisa que tocou no nervinho de Banks, e ela faz um discurso de coach da pi** “porque  todos erramos e blá, blá, blá, e só assim evoluímos e nhó nhã nhó”, mas remata com um “só quem faz é que erra. E vocês, seus inúteis, que me estão aí a julgar, se algum dia fizerem um décimo do que eu fiz, o que eu acho difícil ou impossível, há-de acontecer-vos o mesmo em dobro!”

Para ser justa, ao longo do documentário, a reflexão de todos os intervenientes com uma posição com algum grau de poder resume-se a uma expressão bastante mundana, normalmente acompanhada por um encolher de ombros “É o que é.” Quase três horas de “É o que é”: o patriarcado, o capitalismo, o mundo da televisão, a ditadura das audiências, o pacto de branquitude, o body shaming, a indústria da moda… “É o que é.” E não pode ser. Eu sei que tudo tem o seu contexto temporal, mas o problemas de pôr tudo na conta do contexto, é não assumir o erro.

Não temos que pôr uma equipa de produção no pelourinho e chegar-lhe fogo de cada vez que olhamos para trás com olhos de ver, mas resumir o problema a um produto do tempo parece uma carta do monopólio para te safares da prisão. E isto não é um jogo de tabuleiro, as pecinhas são pessoas de carne e osso. Muitas vezes mais carne do que osso, porque alguém achou que podia olhar para a foto de uma miúda de 20 anos e dizer que ela parecia uma vaca. E ela passou a comer só pickles às refeições. Eu sei que é o que é, mas tem que ser diferente.