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Julian Barnes: "Consegue pensar em algum livro realmente bom que tenha sido escrito depois dos 80? Pode haver, mas não me lembro"

A decisão de escrever o último romance. A função do romancista e a expectativa do leitor. A morte da mulher e doença "tratável como a vida". Entrevista com o premiado escritor inglês.

António Moura dos Santos
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A conversa pára, o entrevistado ausenta-se, só se ouve estática por alguns momentos. “Peço desculpa, é que o meu vizinho tocou-me à porta para avisar-me que me partiram o vidro de trás do carro”, revela Julian Barnes ao Observador quando regressa ao seu computador. A qualidade da imagem na videochamada é dúbia, mas não o suficiente para impedir de constatar que o venerável escritor britânico mantém o sorriso e a jovialidade, não obstante a súbita má notícia.

A manutenção dessa postura fleumática, mas bem humorada, não é de admirar para quem acompanha o autor que fez 80 anos em janeiro: aos picos de receber o prémio Booker em 2011 e de tornar-se num dos mais celebrados autores da sua geração, somaram-se vales sombrios, como perder a mulher, Pat Kavanagh, em 2008, apenas 37 dias após ter-lhe sido detetado um tumor cerebral. Pouco mais de uma década depois, teve novo revés ao ser-lhe diagnosticado uma forma rara de cancro do sangue, incurável mas tratável — “como a vida”, escreve.

“Não tinha recebido uma sentença de morte. Em vez disso, recebi uma sentença de vida: fora condenado a viver com o meu cancro até morrer”, escreve em Partida. Nas suas primeiras páginas, Barnes deixa-nos duas promessas quanto a esta obra: que “haverá uma história” a ser contada e que este será o seu “último livro”. Já quase no final, porém, admite que pelo menos uma delas aparenta ser quebrada, ao afirmar que “este não é um romance”. Será assim mesmo? Ficamos em dúvida. A outra, porém, é para manter.

“Não tenho mais nada a dizer. Cheguei à conclusão que todas aquelas ideias nos meus cadernos são ideias para livros que queria escrever há cinco ou dez anos e que não tenho novas para um novo livro. E então pareceu-me correto parar enquanto é tempo”, admite, recorrendo a uma frase de Ingmar Bergman: “Vou pegar no meu chapéu enquanto ainda consigo alcançar o bengaleiro”.

Apesar de prometer continuar a escrever artigos e ensaios, o pré-anúncio de que este seria o último livro de Barnes revestiu o seu lançamento de uma solenidade que não encontramos nesta obra, escrita num tom confessional e ligeiro, como se estivesse a falar connosco. Tal como O Papagaio de Flaubert ou Elizabeth Finch, trata-se de novamente de um híbrido: livro de memórias que evita a “loquacidade fácil da autobiografia”, mas também um romance onde ficamos propositadamente confusos onde é que começa Julian Barnes o autor e acaba Julian Barnes o protagonista ficcional desta obra. “Acredito que o leitor aceite tudo como verdade. As grandes obras de ficção contam tanta verdade quanto as grandes biografias ou os grandes livros de história”, afirma-nos.

Além das passagens quanto às suas perdas, aos seus desafios de saúde e à chegada da velhice, a “história” prometida pelo autor aborda Stephen e Jean, ambos colegas do narrador em Oxford. O Barnes desta história foi responsável por apresentá-los na década de 60, resultando num relacionamento que não resultou. 40 anos depois, é de novo em si que recai a tarefa de promover um reencontro.

Temos então um cenário para Barnes explorar uma das suas obsessões — a falibilidade da memória, por si descrita como estando num “lugar onde a degradação e o embelezamento se sobrepõem”. Numa curta mas sumarenta conversa, o autor falou-nos sobre este tema, sobre a ética de utilizar histórias de pessoas alheias e sobre a relação que tentou criar com os leitores. “Tento ser justo com o leitor e não enganá-lo nem iludi-lo, acho que estamos ao mesmo nível. A questão é que o meu olhar capta coisas que quero mostrar ao meu amigo que me está a ler”, conta.

Neil Young cantou que “it’s better to burn out than to fade away” [“é melhor esgotar-se do que desaparecer”]. Ao anunciar no início e no final de Partida que este seria o seu último livro, não parece ter escolhido nenhuma dessas duas opções. Como chegou a essa decisão?
Não foi uma decisão rápida. Surgiu do facto de que, quando um escritor chega aos 70 anos, sabe que, a dado momento, escreverá o seu último livro. Portanto, a questão é se uma pessoa simplesmente continua a escrever livro após livro até que a morte o interrompa, ou se se prepara para isso de alguma forma. Portanto, pensei em escrever o meu último livro, colocá-lo de parte e esperar até ter a certeza de que não escreveria mais nada para então publicá-lo. Mas, enquanto o escrevia, apercebi-me que este seria, de facto, o meu último livro.

Porquê?
Porque não tenho mais nada a dizer. Cheguei à conclusão que todas aquelas ideias nos meus cadernos são ideias para livros que queria escrever há cinco ou dez anos e que não tenho novas para um novo livro. E então pareceu-me correto parar enquanto é tempo. Há uma frase sueca maravilhosa que aprendi enquanto lia a autobiografia de Ingmar Bergman, que passou a vida entre o cinema e o teatro. A certa altura, acho que quando estava a fazer o Fanny e Alexander, Bergman percebeu que estava a ficar cada vez mais difícil fazer um filme: comercialmente, financeiramente e assim por diante. Foi então que decidiu simplesmente desistir do cinema e concentrar-se no teatro. A forma como descreveu isso é “vou pegar no meu chapéu enquanto ainda consigo alcançar o bengaleiro”, que é uma versão elegante e bastante sueca da ideia de parar enquanto é tempo.

https://observador.pt/especiais/o-ultimo-livro-de-julian-barnes-um-escritor-e-o-sentido-de-um-fim/

Ao escrever sobre este livro, a ecsritora e crítica Ana Bárbara Pedrosa admitiu ter dificuldade em compreender esta decisão de parar “como coisa tão redonda, tão comunicada”, pois argumenta que escrever não é apenas uma atividade profissional ou um passatempo, mas uma forma de viver e pensar sobre a vida. Entretanto, o Julian já esclareceu em entrevistas que vai continuar a publicar artigos e textos similares. Qual é a diferença fundamental para si?
A grande diferença é que, com ensaios, críticas e artigos de opinião, uma pessoa escreve e no dia seguinte já foi publicado e alguém reage a isso, ao passo que escrever um livro leva entre dois a cinco anos, e depois espera-se mais um ano e só depois é que é publicado. Portanto, é um processo muito mais lento. Além de que, para discordar da sua ilustre colega, consegue pensar em algum livro realmente bom que tenha sido escrito depois dos oitenta anos? Pode haver, mas não me lembro.

"As grandes obras de ficção contam tanta verdade quanto as grandes biografias ou os grandes livros de história. Há um momento maravilhoso em que um padre lê 'Madame Bovary' um ano depois de ser publicado e diz 'em todas as aldeias da Normandia, haverá uma mulher como Emma Bovary que está a sofrer o que ela está a sofrer'. Ora, pode dizer-se então que, em alguns casos, um romance é algo que chega à verdade mais rapidamente".

Um dos grandes temas de Partida é o conceito de memória e as formas como lidamos com ela, sendo esta também uma das grandes questões que tem vindo a abordar na sua obra. “O que acabamos por recordar nem sempre é igual ao que presenciámos” é, por exemplo, uma das frases com que inicia O Sentido do Fim. Porque é que este assunto é tão importante para si?
Quando se é romancista, começa-se, mesmo que ainda não se saiba, a perceber que se lida frequentemente com opiniões ou pontos de vista diferentes que não fazem sentido entre si. E escrevi dois livros — Amor & C.ª e Amor & Etc. — que são especificamente escritos a partir dos pontos de vista das personagens. Elas discordam umas com as outras, dizem “ele está a mentir” ou “ele não se lembra”, o que leva a visões fundamentalmente diferentes da realidade que as pessoas têm sobre os mesmos acontecimentos. Isso, por sua vez, sugere-nos que a mesma pessoa possa também vir a ter pontos de vista diferentes sobre o mesmo acontecimento, ou seja, aponta para a falta de fiabilidade da memória. Podemos lembrar-nos de algo que fizemos ontem e isso talvez seja a versão mais verdadeira possível. Mas quanto mais vezes se repete uma história, mais alterações se faz, inevitavelmente. Uma pessoa pode até achar que não está a fazer isso, mas está, e faz essas alterações de uma forma que a faça parecer um pouco melhor.

Ao longo do livro, há várias passagens sobre estas peculiaridades da memória, como por exemplo a forma como tendemos a lembrar-nos das coisas ou como a perceção que temos de alguém muda com o tempo porque se cristaliza de uma maneira específica. Portanto, não é apenas algo que fazemos voluntariamente para seguir uma narrativa específica. Muitas vezes, é algo que simplesmente nos acontece, certo?
Sim, pode muito bem ser isso, porque o que nos acontece é a lenta deterioração do cérebro. Nos últimos 15 anos, o tema da memória veio a tornar-se algo muito importante para mim. O meu irmão é filósofo e eu estava a trocar e-mails com ele sobre a memória quando escrevi um livro chamado Nada a Temer. Naquela época, eu acreditava que as memórias eram puras, que eram o que realmente nos acontecia, e ele tinha uma opinião completamente oposta, dizendo que a memória estava muito mais próxima de ser um ato da imaginação. 15 anos depois, concordo com ele.

Também se debruça neste livro quanto à questão de escrever a partir da memória e fornece um exemplo muito significativo, que são os seus diários. Os diários são frequentemente vistos como uma espécie de registo imutável de alguma verdade particular. No entanto, alerta que eles podem ser completamente distorcidos, porque são compostos pelo que queremos ou sentimos que é importante preservar. São, portanto, uma fonte de informação parcial?
Sim, e outro fator é que normalmente as pessoas escrevem nos seus diários num determinado momento. Talvez seja de manhã, relembrando o que aconteceu no dia anterior, ou talvez seja ao final do dia, mas tendem a escrever mais ou menos na mesma hora e tendem a estar com o mesmo tipo de humor quando estão a escrever. Achei isso interessante quando estava a escrever sobre o meu cancro no sangue. Eu tinha um caderno que mantive enquanto estava no hospital e outro no qual só escrevia em casa. E há algumas diferenças entre os dois, embora tenham sido escritos com apenas 12 ou 24 horas de diferença. Se uma pessoa estiver a escrever num diário, pensa que essa será a versão final e mais correta, enquanto que, na verdade, quando escrevemos notas rabiscadas enquanto nos tiram sangue, estamos mais próximos do que realmente está a acontecer.

Quando se toma notas, está-se apenas a documentar o que está a acontecer em tempo real, enquanto que num diário existe um gesto, é mais filtrado. É também uma questão de intenção?
Acredito que sim, mesmo que não se pretenda publicar o diário e nunca se o mostre a ninguém. Eu, por exemplo, escrevo o meu diário na minha máquina de escrever, por isso é semelhante a escrever um romance. Algo desse hábito deve influenciar o processo, sim.

Inicia Partida com referência às MAI, memórias autobiográficas involuntárias, e dá o exemplo de Marcel Proust a ser assolado com lembranças ao molhar uma madalena no chá. O que parece concluir é que as memórias tanto podem ser bênçãos como fantasmas. Haverá alguma forma certa de abordá-las?
Não. Podemos apenas fazer o nosso melhor e admitir que talvez estejamos errados, por exemplo, quando dizemos “oh, lembro-me disso vividamente”. Pode muito bem ser algo que não recordámos assim tão bem na altura, mas com a passagem do tempo parece ser uma memória mais vívida, sabe? Parece mais dramática, mais importante. E também depende do nosso estado de espírito quando algo acontece, que partes do que aconteceu serão lembradas. Se eu agora estiver a pensar “oh, céus, tenho de fazer algo em relação ao meu carro, que agora tem uma janela partida”, poderei então lembrar-me da nossa conversa de forma diferente! (risos)

E ainda quanto ao tema da memória, quis abordar estas questões de forma diferente neste livro?
Tento apenas representar o mundo como o vejo, sendo que este contém as nossas memórias e as nossas representações dele, assim como as diferentes formas de representação que temos ao dispor. Portanto, começo o livro com um caso médico real que encontrei, sobre um homem que teve um AVC e que, quando comeu uma tarte, lembrou-se de todas as tartes que tinha comido ao longo de toda a vida, em ordem cronológica. Freud disse que está tudo “lá em cima”, na nossa cabeça, e, cada vez mais, acredito que ele estava certo, mas não podemos aceder a tudo porque enlouqueceríamos. Só podemos lidar com uma pequena parte da realidade de cada vez e é assim que conseguimos viver. Mas não podemos pensar que é apenas isso, temos de imaginar que o que estamos a ver e a compreender é uma espécie de realidade objetiva, mesmo que não seja.

"Se duas pessoas se amam, a menos que terminem tudo com um pacto de suicídio ou algo do género, uma delas vai morrer antes da outra. E assim, por baixo da felicidade e alegria que têm, há sempre uma sombra escura, inevitavelmente. Mas muitas pessoas preferem apenas viver o dia a dia e não as culpo por isso. É uma forma legítima de encarar a vida".

A esse respeito, descreveu a literatura numa entrevista à Paris Review como “um processo de produção de mentiras grandiosas, belas e bem organizadas que revelam mais verdades do que qualquer conjunto de factos”. Essa descrição torna-se ainda mais premente quando encaramos um livro como este, um híbrido de romance e memórias. Como é que Partida se encaixa nessa crença?
Não sei em que momento decidi que era isso que o romance fazia. E, claro, é também um desafio, porque há muitas pessoas que não leem romances. Muitas pessoas, especialmente homens no Reino Unido, só leem não-ficção porque só querem ler coisas que são “verdadeiras”, acreditando que a ficção é uma mentira. Portanto, de certa forma, isso é um desafio dirigido a essas pessoas, ao dizer que o romance é, claro, uma forma através da qual, em teoria, se inventa coisas, se embeleza e se brinca com a realidade, mas, ao mesmo tempo, se conta verdades duras e sólidas tanto quanto a não-ficção. E acho que é por isso que este livro é um híbrido. Tenho escrito, de vez em quando, romances híbridos, misturando ficção, não-ficção, autobiografia, história da arte e assim por diante, desde o meu terceiro livro, O Papagaio de Flaubert. Estou, portanto, habituado a fazê-lo desta forma, e não acho que, ao ler este meu livro, uma pessoa pense “ah, esta parte cita um documento científico, portanto é verdadeira, e esta parte é uma história, portanto é falsa”. Acredito que o leitor aceite tudo como verdade. As grandes obras de ficção contam tanta verdade quanto as grandes biografias ou os grandes livros de História. Há um momento maravilhoso em que um padre lê Madame Bovary um ano depois de ser publicado e diz “em todas as aldeias da Normandia, haverá uma mulher como Emma Bovary que está a sofrer o que ela está a sofrer”. Ora, pode dizer-se então que, em alguns casos, um romance é algo que chega à verdade mais rapidamente.

Entrevistei Juan Gabriel Vásquez há uns meses e ele também mencionou Madame Bovary, mas de uma forma análoga ao que está a dizer. Ele referiu que conhece Emma Bovary muito melhor do que aos seus amigos, porque não é possível entrar na mente deles, mas é possível entrar na realidade psicológica de uma personagem. Ou seja, que é possível conhecer as personagens muito mais profundamente que as pessoas reais.
É verdade. Mas, ao mesmo tempo, uma pessoa cria essas personagens da maneira que quer criá-las. E se pedisse a outra pessoa para escrever a história de Madame Bovary, ela poderia sair diferente. Quer dizer, eu não quero fazê-lo, mas seria bastante interessante. Há muitos anos, num festival literário na Inglaterra, passei uma hora com Mario Vargas Llosa, que escreveu um livro maravilhoso [La orgía perpetua: Flaubert y Madame Bovary] sobre o romance de Flaubert. E ficou claro que ambos achávamos que era uma obra genial, mas ele adotou uma abordagem, chamemos-lhe assim, mais latina, a esse livro, ao descrever como estava apaixonado por Emma Bovary, como a adorava e queria casar-se com ela, etc. E eu pensei “bem, isso não é muito britânico” (risos). Se pegarmos em seis escritores e lhes dermos o mesmo livro, irão recriá-lo de forma diferente ao lê-lo.

https://observador.pt/especiais/quando-juan-descobriu-feliza-sabia-que-precisava-de-a-resgatar-do-esquecimento-27-anos-depois-cumpriu-a-promessa/

Parte do jogo deste livro é que não sabemos ao certo se a história que está a ser contada sobre Stephen e Jean é real, nem se eles realmente existiram. No entanto, algo bastante interessante é que Julian, ou o “narrador”, menciona repetidamente ao longo do livro que tinha prometido aos amigos que nunca escreveria sobre eles — e depois há outras tantas menções de que quebrou essa promessa.
Bem, acho que isso é algo que os escritores de ficção fazem. Há aquela famosa frase de Milosz, “quando um escritor nasce na família, essa família morreu”. Não acredito nisso, mas é um exemplo extremo do cariz canibalesco do trabalho de um romancista. Olha-se para o mundo e para as pessoas que se conhece e pensa-se “oh, vou usar isso”, e rouba-se algo delas, sendo que podem nem se aperceber! Em Partida, há uma conversa entre o Stephen e “eu” sobre cães, e um de nós diz algo como “pobre Jimmy, ele não sabe que é um cão velho”, e o Stephen responde “‘Não sabe que é um cão velho?’ Ele nem sabe que é um cão!” Na verdade, tive essa conversa exata com o meu amigo Ian McEwan quando a minha mulher e eu fomos visitá-lo com o nosso cãozinho, um Jack Russell, sendo que tinha um cão grande, um Border Collie ou algo parecido.

E contou-lhe que usou essa conversa, não foi?
Sim, no início do ano tivemos uma conversa ao vivo num palco em Londres, onde recordei-o que essa tinha sido a nossa conversa quando estávamos hospedados com ele, e ele não se lembrou de nada disso, o que achei maravilhoso. De certa forma, quando roubamos uma pequena parte da vida de outra pessoa, isso, por um lado, é um ato canibalesco, mas pode acabar por não ser prejudicial porque a pessoa não sabe, não se lembra das próprias palavras. Tenho outro exemplo com uma amiga escritora que uma vez disse, enquanto divagava, “não seria estranho se houvesse dois homens que fossem completamente diferentes em todos os aspetos, mas que fizessem amor da mesma maneira?” Achei isso bastante interessante e, um ou dois anos depois, escrevi um conto sobre isso [Experiência, do livro Do Outro Lado do Canal], sobre uma espécie de experiência sexual que alguns surrealistas franceses organizaram. Eu dei-lhe o livro e perguntei “reconheceste essa história que surgiu do que me disseste um dia?”. A resposta dela foi “não só não me lembro de ter dito isso, como nem sequer me lembro de o ter pensado”. Mais uma vez, foi maravilhoso, porque é como que nos livramos de um pensamento da nossa cabeça e depois outra pessoa apanha-o da sarjeta e usa-o.

https://www.youtube.com/watch?v=U3mz-dXHYY4

Mas se às vezes há uma intenção voluntária ao fazer isso, noutras acontece inconscientemente, certo? Escreve no livro quanto à “lenta compostagem da vida” — trata-se de coisas que podem entrar na mente de forma inconsciente e, de repente, percebemos que é algo que aconteceu?
Acho que depende dos escritores. Veja-se a moda atual da autoficção. Há escritores que, na verdade, não pretendem fazer essa compostagem da realidade, apenas pegam nela tal como está e colocam-na à nossa frente. E essa é uma forma perfeitamente legítima de escrever um livro. Mas, na minha experiência, não posso simplesmente dizer “adivinha lá o que me aconteceu há duas semanas? Vou escrever um livro sobre isso!” Isso nunca me aconteceu. Não funciona assim, não é assim que a minha imaginação funciona. Tem de ser compostado e só depois se torna adequado para colocar no jardim.

No final do livro, lembra que não é “um escritor didático” e que “os romancistas não devem falar com os leitores partindo do princípio de que são mais sábios”. É justo dizer que a sua vida tem seguido um certo ideal socrático, de que é preciso haver dúvida para se produzir um bom romance?
Não, acho apenas que sempre senti, desde o meu primeiro livro, que é preciso esclarecer qual é a nossa posição em relação a quem lê. E, no meu caso, sempre achei que é uma relação de companheirismo. Tento ser justo com o leitor e não enganá-lo nem iludi-lo, acho que estamos ao mesmo nível. A questão é que o meu olhar capta coisas que quero mostrar ao meu amigo que me está a ler. Mas não tenho nenhum propósito moral ou didático ocultos. Só quero dizer que a vida me parece ser assim ou assado e, depois, ouvir de volta o eco do leitor.

"Não penso de todo no meu legado, porque há todo o tipo de pessoas que não me conhecem ou nunca ouviram falar de mim e só vão ler o que escrevo dependendo do que acontecer no universo. Uma coisa que me surpreendeu ao longo da minha vida é que há muitas pessoas que ainda querem escrever romances. É muito encorajador saber que há jovens no mundo que ainda querem escrever".

Mas quanto a isso, se por um lado admite que os romancistas gostam de causar impacto nas pessoas, por outro posiciona-se contra a ideia de que as pessoas possam mudar a sua conduta à conta do que escreve. Como lida com esta problemática?
Sim, essa é uma questão muito clara. Já me aconteceu várias vezes um jovem casal vir ter comigo depois de uma leitura e dizer-me “estávamos ambos a ler O Papagaio de Flaubert quando nos conhecemos e agora estamos casados”, e eu respondo “não, não assumo qualquer responsabilidade!”. Não escrevo os meus romances para que as pessoas se casem! Mas, ao mesmo tempo, fico muito emocionado com isso e sinto-me muito protetor em relação a eles. Na verdade, admito ter alguma responsabilidade pelo facto de, por estarem a ler o mesmo livro, terem achado que eram compatíveis. Talvez ainda sejam. Espero que nenhum dos meus leitores se divorcie porque começaram a ler-me!

Sem querer enveredar muito pela sua vida pessoal, é de conhecimento público que se casou recentemente, pelo que arrisco dizer que teve outra oportunidade no amor depois de ficar viúvo. Ao mesmo tempo, reconhece em Partida que escreveu sobre o amor muitas vezes nos seus romances, mas poucos dos seus personagens tiveram um final feliz. De onde vem esse pessimismo que reserva para a sua literatura?
Bem, fui muito feliz no meu casamento durante quase 30 anos. E de repente, num período de 37 dias, a minha esposa passou de receber um diagnóstico de cancro no cérebro a morrer. E essa foi a pior coisa que já me aconteceu na vida, sem paralelo.

Só para esclarecer, não estou de forma alguma a minimizar esse episódio da sua vida.
Não se preocupe, não fiquei ofendido! Só estou a constatar que, se duas pessoas se amam, a menos que terminem tudo com um pacto de suicídio ou algo do género, uma delas vai morrer antes da outra. E assim, por baixo da felicidade e alegria que têm, há sempre uma sombra escura, inevitavelmente. Mas muitas pessoas preferem apenas viver o dia a dia e não as culpo por isso. É uma forma legítima de encarar a vida. Tenho uma sobrinha que agora está na casa dos 60 anos e ela disse-me “não penso na morte de todo, pensarei nela apenas quando for a hora”. Na minha opinião, talvez pensar na morte ajude uma pessoa a preparar-se melhor para ela, sabe? Espero não viver para ver a sua morte, mas seria interessante perceber como ela realmente reagiria ao ter de pensar no tema. Quem sabe, talvez seja completamente prática em relação a isso. Lá está, não é como eu, que vivi assombrado pela morte desde os meus 14 anos.

Aliás, ao longo do livro reforça a ideia de que a morte é apenas o mundo a girar sobre si próprio, é “apenas o universo a fazer o seu trabalho”. É assim que temos de lidar com isso nas nossas vidas.
O universo não tem moralidade. Não tem nenhum propósito que eu consiga ver senão o de apenas existir. E é por isso que inventámos a religião, para tentar dar uma estrutura às nossas vidas e um sentido do certo e do errado, etc. Mas, claro, todas as religiões tendem a levar ao poder e à corrupção. Por isso, em muitos casos, acabam por não ajudar as pessoas. Não menosprezo quem tem um credo religioso, percebo que seja muito útil para alguns. Eu é que acredito que não é verdade.

Diz não acreditar que foi a “chegada da maturidade” que o tornou filosófico, mas antes o “reconhecimento da decadência”. Escrever este livro trouxe-lhe algum tipo de paz e realização, ou foi o facto de já ter alcançado essa paz e realização que lhe permitiu escrever este livro?
Não sei qual surgiu primeiro. Sinto um certo alívio por ter escrito o meu último livro como queria e por não ter sido atropelado por uma bicicleta elétrica no meio do processo. A publicação deste livro é demasiado recente para que eu possa responder a isso com mais detalhes. Desde que consigas alcançar o bengaleiro, pega no teu chapéu e vai embora. Vou continuar a escrever de uma forma ou de outra, não vou abandonar isso de forma alguma. Só acho que já joguei todas as minhas cartadas.

A ideia de legado é algo que o preocupa de alguma forma?
Não, nunca penso nisso. Não penso de todo no meu legado, porque há todo o tipo de pessoas que não me conhecem ou nunca ouviram falar de mim e só vão ler o que escrevo dependendo do que acontecer no universo. Uma coisa que me surpreendeu ao longo da minha vida é que há muitas pessoas que ainda querem escrever romances. É muito encorajador saber que há jovens no mundo que ainda querem escrever.