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(A) :: Não digam já adeus à extrema-esquerda

Não digam já adeus à extrema-esquerda

O “anti-fascismo” de opereta a que as oligarquias deitaram mão para se manterem no poder sem resolverem nenhum problema dará fatalmente espaço à extrema-esquerda

Rui Ramos
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A histeria “anti-fascista”, promovida pelas oligarquias europeias e americanas para isolar e excluir a direita nacionalista, tem servido maravilhosamente ao activismo da extrema-esquerda. Em 2024, em França, La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon, beneficiou dos apelos de voto de “moderados” como o primeiro-ministro do presidente Macron, Gabriel Attal, para quem tudo era preferível a Marine Le Pen. Foi assim que um partido que funciona como a frente eleitoral do islamismo radical e anti-semita alargou a sua representação de 17 para 69 deputados. Para actual embaraço dos “moderados”, esse partido é também agora o partido dos assassinos de Quentin Deranque. Deranque era um jovem que protestava contra um evento anti-Israel. Foi linchado por militantes da Jeune Garde Antifasciste, uma milícia ligada à La France Insoumise. Perante o assassinato, Mélenchon proclamou continuar a ter “uma grande afeição” pela Jeune Garde.

Não, o activismo esquerdista não se modera quando passa a fazer parte de frentes ou coligações “anti-fascistas”. É estruturalmente avesso a qualquer moderação, tanto pelo seu fim, como pelos seus meios. O seu fim é a revolução, isto é, a destruição do “capitalismo” e da “democracia burguesa”. Os seus meios são a agitação apocalíptica, como a que conduzem à volta da “emergência climática” ou do “genocídio em Gaza”, e que lhe serve para justificar as acções mais extremas e violentas. Em Londres, há dias, um activista anti-Israel localizou e perseguiu no metropolitano o actor Matt Lucas. Depois, publicou o filme do assédio nas redes sociais. Lucas nem sequer é um notório apoiante de Israel. É apenas judeu. Mas por decisão dos esquerdistas aliados ao radicalismo islâmico, ser apenas judeu voltou a ser crime nas ruas da Europa.

Em Portugal, as últimas eleições têm feito muita gente aplicar ritos fúnebres ao comunismo e à extrema-esquerda. Talvez estejam a precipitar-se. É verdade que em seis anos, entre 2019 e 2025, o BE caiu de 19 deputados para 1, e o PCP, de 12 para 3. Mas o PCP e a extrema-esquerda nunca valeram apenas pelos votos. A sua tradição é revolucionária. Não são partidos de eleitores, mas de activistas. Ora, esses activistas, mesmo sem eleitores, mantêm-se organizados nos sindicatos e em associações de toda a espécie subsidiadas pelo Estado e pelas autarquias, e influentes a partir de posições de força no ensino público e na imprensa. Continuam capazes, mais do que os outros partidos, de montar greves, manifestações, protestos e todo o tipo de ocupações do espaço público, que a comunicação social depois amplifica desproporcionadamente. Basta recordar a flotilha contra Israel, que durante dias abriu telejornais e conversas.

O “anti-fascismo” de opereta a que as oligarquias deitaram mão para se manterem no poder sem resolverem nenhum problema dará fatalmente espaço à extrema-esquerda. Vai permitir-lhe aparecer como a mais intransigente e frontal parte da “resistência”. Em França, já serviu a Mélenchon para envolver as outras esquerdas numa “Nova Frente Popular” e pôr os “moderados” a votar nele. O activismo esquerdista, aliás, nem sequer precisa sempre de partidos políticos separados. Nos EUA e no Reino Unido, tem existido como corrente interna no Partido Democrata e no Partido Trabalhista. Em Portugal, é possível que uma diminuição do PCP e do BE possa corresponder, não ao desaparecimento do esquerdismo revolucionário, mas a uma sua mutação, que o faça ressurgir, por exemplo, como uma dimensão do PS. O anti-fascismo está a criar a noite em que todos os gatos são pardos.