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(A) :: Muitos furtos, pen na mão dos russos e jacuzzi com militares. O passado do 'espião' português que roubou militar em hotel da Caparica

Muitos furtos, pen na mão dos russos e jacuzzi com militares. O passado do 'espião' português que roubou militar em hotel da Caparica

Até furtar o portátil de um militar da NATO em Portugal, Miguel R. já teria experiência no crime. Segundo a acusação, o jovem que se dizia espião enganou a PJ quando se viu sem saída.

Miguel Pinheiro Correia
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Inês Correia
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“Eu ganho dinheiro com a desgraça dos outros. (…) O segredo é a alma do negócio, há certas coisas que só ficam para nós”. Foi assim que Miguel R. justificou o que fazia e como ganhava a vida, quando foi confrontado por agentes da PSP chamados a um prédio na zona do Parque das Nações por um vizinho que tinha ficado sem bens avaliados em mais de treze mil euros.

A acusação que o Observador relata inequivocamente o que terá acontecido. O português viu a chave do vizinho debaixo de um tapete e guardou-a para, dias depois, levar a cabo o furto. Mas os bens roubados só foram recuperados passados dois meses, quando Miguel R. foi detido — sobre ele recaem suspeitas que vão bem para lá de um simples furto de oportunidade e que envolvem uma tentativa de espionagem, vários outros furtos — incluindo de um militar sueco da NATO —, contactos com a embaixada russa e uma traição à Polícia Judiciária.

Bem antes de estar no radar das autoridades, o jovem que passou pelo Exército terá vivido graças ao lucro que conseguia dos bens que ia roubando, sobretudo em hotéis e aeroportos, mas também em piscinas. Até levar de um hotel na Costa da Caparica o portátil e um iPad com identificações da Aliança Atlântica, Miguel R. apoderou-se de dezenas de bens de outras pessoas, incluindo documentos de identidade que chegou a utilizar como seus.

Depois de ter enganado a PJ, que acreditou na colaboração do autoproclamado ‘espião’, a investigação terminou com a detenção do jovem e com buscas em Portugal e no Luxemburgo (onde viveu) que terminaram com a apreensão de vários bens furtados. Esta semana, foi conhecida a sua extensa acusação. O Ministério Público destaca a “complexidade” e “singularidade” da investigação onde se tornou complicado “distinguir a verdade da mentira, face às sucessivas manipulações e mentiras” do agora arguido.

Miguel R. não escondeu o fascínio pelo mundo da espionagem

Nas declarações prestadas às autoridades e que constam da acusação consultada pelo Observador, a mentira do arguido é uma constante. A difícil missão de distinguir as conspirações relatadas por Miguel R. e os alegados crimes que o levaram a ser acusado pelo Ministério Público foi suportada com a análise do historial do agora arguido. Bem antes de entrar no radar das autoridades portuguesas, pelo roubo de um portátil e de um iPad de um militar da NATO, o português já levava um estilo de vida errante.

Chegou a estar no Luxemburgo antes de regressar a Portugal, e trouxe também uma experiência acumulada em furtos, que levava a cabo maioritariamente em hotéis, em complexos desportivos (como piscinas) e em aeroportos. Apesar de ganhar pouco dinheiro, vivia em hotéis e gastava milhares de euros em restaurantes e roupa.

Em 2023 foi detido por suspeita de espionagem em Lviv, onde chegou alegadamente como combatente voluntário pela Ucrânia. Foi uma das primeiras ligações do português ao mundo que o fascinava: o da espionagem. Não escondia este encanto, pelo menos com Diana (nome fictício), uma das duas mulheres com quem passou mais tempo nos últimos anos. Segundo ela, Miguel R. chegou a mostrar-lhe no telemóvel uma notícia manipulada em que ele aparecia como “espião russo em Portugal”, sendo descrito como um “oficial de elite do ministério da Defesa russa”. Era, no entanto, uma manipulação de uma notícia verdadeira sobre um “espião com passaporte português” que “passou segredos da NATO”… à Rússia.

Do jacuzzi com militares ao furto a um sueco da NATO. Jovem ganhou confiança de hóspedes e funcionárias para conseguir levar portátil e iPad

Premonição ou inspiração, Miguel R. começou a preparar um trajeto semelhante a 9 de novembro de 2024, quando teve interesse no REP(MUS) (Robotic Experimentation and Prototyping using Maritime), um exercício anual que é realizado em Portugal desde 2010. O reconhecimento e prestígio do maior exercício de robótica e sistemas não tripulados do mundo, com milhares de participantes, na maioria militares, ocorria, em 2025, em simultâneo com outro exercício da NATO.

Talvez por esse motivo, a três meses desse evento, Miguel R. pesquisou e realizou o download no seu telemóvel de uma fotografia relativa ao exercício do ano de 2022, descreve a acusação. O português não era alheio à confidencialidade que envolvia o evento e saberia, também, que, naturalmente, os temas discutidos seriam do interesse de serviços de informação de países alheios à aliança atlântica, com a Rússia à cabeça.

A Marinha portuguesa entrou em contacto com o hotel TRYP Lisboa Caparica Mar, para saber da disponibilidade de alojar, duas semanas depois, cerca de 60 militares naquela unidade à beira-mar. Depois de outro contacto presencial com os responsáveis do hotel, a Marinha reservou 20 quartos para 37 militares. Além disso, recomendaram o hotel a outros militares que iriam estar presentes no evento e alguns deles fizeram a reserva de forma autónoma.

Foi o caso do hóspede do quarto 632, no penúltimo piso do hotel. Tratava-se de P. L., militar sueco da marinha do país nórdico que desempenha funções, ao serviço da NATO, em Londres. Os conhecimentos de missões confidenciais e classificadas e a posição privilegiada no seio da aliança, do ponto de vista estratégico, tornavam-no um alvo apetecível para Miguel R., que conheceu o sueco depois de ter reservado um quarto de hotel no mesmo piso.

O português soube que os militares iriam estar alojados neste hotel (a investigação não concluiu de que forma teve acesso a essa informação) antes de 25 de janeiro de 2025 e decidiu reservar um quarto em datas coincidentes. A acusação não tem dúvidas de que já aí, este jovem teria o objetivo bem delineado de furtar equipamentos com informações confidenciais. Depois de fazer um primeiro pedido de reserva — com uma identidade alheia que constava de um documento que tinha furtado a outro homem —, teve algumas dificuldades com esse processo e acabou por fazer outra pré-reserva num hotel da mesma rua.

Miguel R. usou uma identificação falsa para conseguir um quarto no hotel da Costa da Caparica onde estavam militares reunidos ali para um exercício da NATO. Investigação não sabe como conseguiu saber que ali estariam os militares, mas ficou no mesmo piso que a sua futura vítima — para se aproximar dos alvos, chegou a ir ao jacuzzi com eles.

No entanto, a 27 de janeiro (três dias depois da primeira tentativa de reserva) entrou no TRYP Lisboa Caparica Mar e conseguiu, finalmente, reservar um quarto, com os documentos que tinha de outra pessoa, até 9 de fevereiro (que depois seria prolongada mais um dia). “Tinha um cartão de cidadão de Márcio Ribeiro (nome fictício)”, terá dito a Diana. “Neste hotel eu sou o Márcio”. A tentativa de passar despercebido resultou; de facto, Márcio foi considerado suspeito pelas autoridades durante muito tempo, até ser tudo esclarecido.

No mesmo dia em que foi levado pelo seu motorista pessoal, a quem pagava 50 euros diários, ao hotel, instalou-se no quarto 640, perto de P. L.. O mais fácil estava feito. Se a missão de furtar em hotéis não era novidade para Miguel R., desta vez seria (aparentemente) mais complicado: o alvo não era um civil qualquer. Então, o jovem puxou dos galões.

Nos dias seguintes estudou as movimentações dos funcionários, as formas de abrir as portas dos quartos, as rotinas das empregadas de limpeza e tudo o que faziam os militares, desde os horários aos quartos. Mas não se cingiu a observar tudo à distância. Miguel R. aproximou-se dos militares, falou com eles (aproveitando o facto de dominar o francês e o inglês), partilhou refeições, tentou entrar em eventos privados e até esteve no mesmo jacuzzi que alguns deles. Foi recolhendo informação através da confiança que ia conquistando. Às refeições, segundo funcionários citados na acusação, pagava sempre com um maço de notas.

Além dos militares, aproximou-se bastante das funcionárias, tratando todas por ‘Nina’ de forma a tornar-se mais íntimo delas. Para cultivar essa proximidade, chegou a pedir-lhes que empurrassem a cadeira de rodas que por vezes usava (sem ter indicação médica para tal). Essa relação permitiu que, certo dia, se aproximasse de uma funcionária que limpava o quarto 620 e começasse a falar com ela. Aproveitando a distração, roubou um cartão-mestre que dava acesso a todos os quartos do sexto piso, incluindo, claro está, o de P. L.. Terá explicado a Diana, depois desse furto, que “agora podiam ir para qualquer quarto”. Depois do sucesso da instalação no hotel e superada a tarefa de conseguir ter acesso ao quarto de um militar, afrontava-se nova missão: furtar, enfim, material confidencial.

Se foi conseguindo fazer quase tudo praticamente sozinho, desta vez precisava de ajuda. Ele assumiria, um vez mais, o papel principal, mas precisava de alguém que vigiasse os acessos do hotel enquanto ele entrava e saía do quarto 632. Quando às 18h49 de 3 de fevereiro de 2025 o militar sueco saiu do quarto e seguiu para o bar, o português colocou o plano em marcha. Poucos minutos depois, P. L. saiu do bar do hotel com um grupo de militares e Miguel R., apercebendo-se disso, saiu de mota (que não estava habilitado a conduzir, por não ter carta) e com um capacete roubado para ir buscar o cúmplice.

Chegou ao hotel quando faltavam três minutos para as 20h e, com P. L. ainda ausente, aproveitou para subir desde a garagem até ao piso seis e, com o cartão-mestre, entrou no quarto do sueco e roubou dois aparelhos eletrónicos: um portátil da marca DELL pertencente à NATO — com etiqueta identificativa — e um iPad da marinha sueca. O primeiro tinha encriptação que impossibilitava o acesso ao disco rígido, o segundo teria código PIN e continha documentos da Marinha não classificados.

Miguel R. levou bens avaliados em 900 euros, menos do que em furtos anteriores. Mas desta vez a preocupação não era o dinheiro. 'Espião' levou dispositivos a eletrónicos a uma loja de tecnologia na estação Alameda, do Metro de Lisboa, onde pagou 25 euros para serem desbloqueados.

O valor total dos bens roubados ascendia a 900 euros, mas desta vez a preocupação não era o lucro, tanto que Miguel R. não levou outros bens do sueco que estavam no quarto. Antes de sair, passou no seu quarto para colocar os equipamentos roubados numa mochila (pertencente à mesma pessoa a quem tinha roubado o capacete) e desceu para a garagem onde estava o cúmplice, que, de camisola de pijama vestida, conduziu a mota durante a fuga. Para trás, no seu quarto de hotel onde haveria de regressar, Miguel R. deixou o cartão-mestre.

Depois de pagar ao cúmplice, encontrou-se com Joana (nome fictício de uma mulher com quem terá pernoitado várias vezes) perto da Escola Secundária Cacilhas-Tejo e deu-lhe a mochila com os equipamentos furtados ao militar. Pediu-lhe para guardar tudo enquanto ele estivesse alojado no hotel. Com os bens na sua posse, e sabendo que poderia ter em mãos informação secreta da NATO, tentou aceder ao portátil e copiar o conteúdo para entregá-lo a agentes ou colaboradores russos em Portugal.

Dois dias depois do furto, seguiu com Diana para uma loja de tecnologia na estação Alameda, do Metropolitano de Lisboa, onde era cliente habitual — nos últimos meses tinha telefonado 23 vezes a um funcionário da loja. No entanto, esse trabalhador não estaria de serviço quando Miguel R. chegou ao local, mas falaram mais de 16 minutos por videochamada e ele aceitou cobrar 25 euros para desbloquear os dois aparelhos.

Mas a viagem pelo anonimato do jovem ‘espião’ estava prestes a chegar ao fim.

O princípio do fim do ‘espião’. Viu-se num beco sem saída, tentou colaborar com PJ mas acabou por trair inspetores

Já sem os equipamentos furtados, que tinha deixado na loja de tecnologia, Miguel R. subiu os seis andares do hotel na Costa da Caparica. Quando chegou, não viu apenas os militares do costume. Desta vez, foi abordado por dois guardas da GNR que realizaram uma busca no seu quarto, mas não encontraram o portátil ou o iPad.

O cerco apertava-se. No dia seguinte, ainda sem a cópia dos equipamentos, o português soube que o caso tinha adquirido maior dimensão e estava, agora, em mãos da Unidade Nacional Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária. Segundo a acusação, terá intuído que teria de agir rapidamente. Por um lado, o envolvimento dos inspetores reforçava a sua convicção de que tinha em mãos conteúdos valiosos, por outro, com os holofotes em cima dele, teria que encontrar-se rapidamente com agentes russos para “tentar ter proteção” e passar a informação antes que fosse demasiado tarde.

A 6 de fevereiro, de calças e casaco preto e com sapatilhas brancas, passou das palavras à ação e dirigiu-se à Embaixada da Rússia em Portugal, em Lisboa, para tentar falar com algum diplomata. Mas não passou da intenção. Junto ao edifício, falou com o segurança, a quem terá dito que precisava de entrar “porque estava a ser perseguido e não queria estar exposto” e “tinha o telemóvel sob escuta”, estando a ser vigiado pela PJ, lê-se na acusação. O segurança ouviu-o dizer que trabalhava para a Rússia e que tinha um contacto na embaixada — que não podia revelar a identidade, mas adiantou que seria uma mulher de cabelo azul. “Eles sabem quem eu sou”, “tenho documentos para entregar”, “quero proteção”, reforçou.

O segurança ouviu as explicações, mas não o deixou entrar. Miguel R. viu-se num beco sem saída e a pensar que poderia ter esgotado todas as alternativas. Sem conseguir revelar a informação e pressionado por saber da investigação, aproveitou-se do facto de ainda não terem sido recuperados os equipamentos para procurar uma solução improvisada: na presença de um advogado, assumiu que iria colaborar com a investigação e iria revelar a localização dos aparelhos eletrónicos, bem como os seus destinatários finais.

Para demonstrar o seu comprometimento com as autoridades, acrescentou detalhes: estaria agendada para o dia 7 de fevereiro, perto da embaixada, um encontro para a entrega dos equipamentos. A PJ acreditou na versão e o ‘espião’ aceitou colaborar, tendo-lhe sido explicado o que isso implicaria, até em termos legais.

Miguel R. prometeu colaborar com a PJ, mas não o fez. Enganou inspetores quando lhes disse que teria combinado um encontro com um agente russo. Em vez disso, violou acordo e entregou uma pen a um membro do corpo diplomático, perto da Embaixada da Rússia em Portugal.

Como acordado, disse que iria recolher os equipamentos e iria trocá-los com a PJ por outros substitutos, que seriam depois dados aos russos. Em todo o momento, a sua segurança seria salvaguardada, pelo que Miguel R. não deveria temer e poderia agir normalmente. Com a mesma indumentária com que se dirigiu à embaixada dias antes, entrou no Peugeot preto do seu motorista pessoal.

Mas, a dado momento, o português quebrou o plano. Saiu a correr do carro perto da Farmácia Palma e seguiu rapidamente para o metro. Seguiu na linha Vermelha até à estação de Alameda. Aí, dirigiu-se à loja onde tinha deixado os equipamentos, explicou que queria levantá-los e saiu com eles passados sete minutos. Subiu as escadas que separam os pisos subterrâneos do metro até à rua e seguiu em direção ao Instituto Superior Técnico. Quando passou pela embaixada, ficou a olhar para o edifício. Depois, mudou de direção e voltou para trás, acabando por sentar-se num banco de jardim no telemóvel. Regressou à loja, levantou o computador e regressou à embaixada.

Nessa altura, passou por ele um BMW preto, com matrícula do corpo diplomático russo e conduzido por um agente diplomático russo com cargo de conselheiro na embaixada. Trocaram poucas palavras e Miguel R. entregou-lhe uma pendrive, que foi recebida pelo conselheiro sem hesitação. Só depois disso, seguiu para o ponto de encontro definido com a PJ e entregou o computador e o portátil a um inspetor-chefe. Apesar de ter dado os materiais, o encontro com o agente diplomático para entregar uma pendrive com conteúdo desconhecido violou o plano acordado com a PJ.

Finalmente, a detenção. Miguel R. caiu na malha das autoridades depois de ter recusado viagem de avião

Concluído o plano, o ‘espião’ seguiu para o Aeroporto de Lisboa para, supostamente, apanhar um voo que tinha comprado há mais de um mês (com um cartão de crédito roubado) para o dia 10 de fevereiro. Nesse dia, fez o check-in e passou a porta de embarque, mas não chegou a viajar e saiu (com a sua mala e outra que roubou entretanto) do aeroporto, de Uber, até ao hotel da Costa da Caparica. Acabou detido no dia seguinte e, no seu quarto do hotel, tinha ainda vários bens roubados nos últimos tempos. A 14 de março, na cela onde estava preso preventivamente, tinha também um cinto e um porta cartões que tirou da mala que roubou na véspera da sua detenção.

Nas declarações às autoridades, Miguel imputou a onze pessoas factos não ocorridos suscetíveis de integrar a prática de crimes, incluindo um militar português e um inspetor da PJ.

O passado, segundo o arguido. Acusação destaca “mentiras” do jovem, que relatou passado conturbado

A longa acusação agora conhecida começa com uma também grande introdução que pretende refletir “a complexidade e singularidade” da investigação. “Note-se que, desde logo, a notícia do crime era de uma associação criminosa transnacional que se dedicava à prática de actos de espionagem e de violação de Segredo de Estado ao serviço da Federação da Rússia. A complexidade e singularidade está bem patente, por um lado, pelas matérias sensíveis susceptíveis de pôr em causa a segurança do Estado que tinham de ser investigadas com o devido rigor. Por outro lado, pela enorme densidade da teia de actores e de factos que tiveram lugar em Portugal e noutros países, como o Luxemburgo, a Alemanha e até a Ucrânia”, países por onde passou Miguel R.

Sobre o principal arguido, a acusação destaca que os seus testemunhos tornaram tudo mais complicado, dada a dificuldade em “distinguir a verdade da mentira, face às sucessivas manipulações e mentiras” do jovem. Além de não saberem os contactos que o português realmente teve com agentes russos, a acusação distingue claramente os factos relatados por Miguel R. e os dados concretamente apurados.

A acusação refere com certeza todos os passos dados pelo jovem desde que saiu do exército português, em 2022. Antes, porém, resta apenas o relato errático do próprio. Miguel R. diz que não mantém contacto com a família (adotiva) com quem cresceu e que nunca conheceu os pais biológicos. Descreve que cresceu no Montijo e que só com 14 anos descobriu que os seus pais não eram os biológicos.

Depois de ter passado por um jardim de infância em Setúbal, seguiu para a Escola Primária no Sabuco e completou o 12.º ano na Escola Internacional St. Peter’s School, em Palmela. Terá sido criado, segundo consta do relato do próprio na acusação, no seio de uma família cristã muito rígida. Contra a vontade dos pais, conta, terá saído de casa (de onde fugia regularmente) para integrar o Exército, aos 19 anos, onde esteve cerca de sete meses — primeiro em Beja, depois em Santa Margarida e ainda em Lisboa.

Segundo Miguel R., foi no Exército que conheceu um militar com dupla nacionalidade (russa e portuguesa) que o introduziu no mundo criminoso. Disse ainda à PJ que, depois de ter abandonado as Forças Armadas e quando começou a cumprir um alegado serviço para a Rússia, passou a receber dois ou três mil euros por mês — e sem manter relações próximas, para não correr riscos.

Segundo a acusação, Miguel R. mentiu às autoridades, falsificou currículos e disse ser filho de um antigo ministro da Educação.

As certezas aos olhos da acusação. Miguel R. gastava milhares de euros em viagens e alojamento, mas foi apanhado com menos de três euros na conta

Os factos dados como certos pela acusação dizem respeito à vida de Miguel R. após a saída do Exército, em 2022, a partir de quando deixou de ter um trabalho estável. O arguido emigrou para o Luxemburgo em janeiro de 2023, onde teve empregos temporários ou de curta duração, em regra, com a duração de alguns dias ou semanas, sobretudo como ajudante de pintor ou servente de construção civil.

Entre 2022, ainda em Portugal, auferiu mais de 4.500 euros em rendimentos; em 2023, já no Luxemburgo (e com título de residência), fez mais de 20 mil euros. Até regressar a Portugal, amealhou mais de 15 mil euros (em 2024) e mais de 2.700 (em 2025). Quando em 2024 fez o seu currículo, espalhou várias mentiras: disse que entre 2021 e 2024 tinha sido soldado com três anos de experiência em liderança de equipas, gestão de crises e cumprimento de missões em condições extremas, entre outras valências que certamente não terá adquirido no Exército.

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Em novembro do mesmo ano, chegou a enviar o currículo para o Parlamento Europeu, candidatando-se a uma vaga de segurança. A candidatura chegou a ser analisada pelo coordenador de segurança, mas Miguel R. não ficou com o lugar. Como relatou à PJ, e segundo foi possível apurar, nunca teve morada fixa nos últimos anos. Tanto em Portugal como no Luxemburgo, viveu em hotéis e alojamentos locais. Chegou, inclusive, a ser expulso de um quarto que ocupou no país do centro da Europa — após denúncias apresentadas pelo casal português que arrendava o quarto por crimes de ameaça, ofensa à integridade física, furto, posse de arma, dano de bens móveis, injúria e difamação.

Quando foi detido, tinha ainda no Luxemburgo um espaço de armazenamento com pagamentos em dívida. De acordo com a acusação, tem 0 euros em duas contas e 2,77 euros noutra. Apesar disso, nunca deixou de viver uma vida de relativo luxo, com compras caras e noites em hotéis. Era também nesses locais, além de instalações públicas como piscinas ou pavilhões, que começava a desenvolver o gosto pelo furto — o que poderá explicar que, mesmo sem dinheiro, consiga fazer várias compras.

Várias vezes comprou bilhetes de avião com o único propósito de ter acesso às zonas de embarque, onde tinha acesso a malas que furtava e depois vendia, vivendo desse sustento. Para passar despercebido, chegou a pedir para ser transportado de cadeira de rodas, mas depois andava normalmente quando já não era visto. Quando foi detido, tinha num apartamento em Portugal uma cadeira de rodas com o símbolo da Ana Aeroportos que terá utilizado com esse propósito.

Comprava, segundo a acusação, marcas caras: Ralph Lauren, Longchamp, Apple ou Lacoste. A 13 de novembro de 2024, por exemplo, comprou no Luxemburgo dois AirPods da Apple com valor superior a 854 euros. Na véspera de Natal desse ano, comprou um par de sapatilhas de quase 500 euros numa loja da Avenida da Liberdade, em Lisboa. Poucos dias depois, comprou um casaco de quase 600 euros no El Corte Inglês.

Gastava quase todo o dinheiro em restaurantes, hotéis e transportes — pagava 50 euros a um condutor de Uber que servia, praticamente, como o seu funcionário privado. Entre 2022 e a sua detenção, em 2025, o jovem ficou hospedado em pelo menos 14 hotéis ou alojamentos locais, nos quais fasto um total de 11 mil euros — passou um máximo de 20 noites num hotel, e chegou a não dormir nenhum dia em quartos que tinha reservado. No mesmo período, comprou 24 viagens — com destinos como Zurique, Amesterdão ou Paris, mas sendo a maioria entre Luxemburgo e Portugal. Das viagens registadas pela investigação, houve pelo menos seis que não realizou, apesar de ter comprado bilhetes.

https://observador.pt/2026/02/18/ministerio-publico-acusa-jovem-portugues-de-tentar-espiar-para-a-russia/

Apesar de admitir não ter laços, fez-se rodear de três jovens da Margem Sul, de baixa escolaridade e descritos como ociosos, com os quais chegou a viver. Também eles são, agora, arguidos neste processo. Nos contactos que ia estabelecendo, mentiu quanto ao verdadeiro nome, quanto às origens e às suas posses, a fim de ser respeitado. Chegou a dar um nome errado num processo em que foi condenado por falsas declarações.

Teve duas relações mais próximas com duas mulheres. Uma delas, e mais vezes citada nos factos, contra a vontade dos seus pais. Dizia às duas que se chamava Miguel Brandão Rodrigues e que era filho do antigo ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues. A estas mulheres, dizia também que “até era divertido” elas saberem pouco sobre ele, e que não precisavam de saber mais nada além do nome.

Mentiu, novamente, na Ucrânia, depois de ter viajado até Sumy de comboio, na posse de uma arma e com uma balaclava preta. Tinha na camisola dois pins — um com o símbolo de paraquedista (que nunca foi) e outro com uma insígnia com as cores de Portugal e da Ucrânia. Após ter sido detido por suspeitas de espionagem em Lviv, alegou que tinha entrado como combatente voluntário no país em guerra e que trabalhava para o SIS português, tendo chegado a pedir a intervenção, sem sucesso, da Embaixada de Portugal na Polónia.

Os episódios de furto, que culminaram na missão levada a cabo no hotel na Costa da Caparica, tiveram ensaios anteriores em alvos mais fáceis. Em novembro de 2024 furtou o telemóvel, a carta de condução, uma carteira Louis Vuitton, certificado de matrícula e carta de segurança social luxemburguesa, num total de 1200 euros, a um homem que estava a nadar numa piscina pública. Miguel R. terá apanhado a chave do cacifo desta vítima e consumou o golpe — os bens só seriam recuperados nas buscas realizadas nesta detenção. Pouco tempo depois, repetiu o modus operandi e levou outros bens que foram recuperados no quarto de hotel da Costa da Caparica, em 2025.

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