Os magos da política portuguesa, deste regime e do anterior, sempre fizeram fila para admirar Marcelo deitado nas palhinhas, tratando-o como uma espécie de profecia encarnada. Em Janeiro de 1974 — ou seja, para registar o óbvio, antes do 25 de Abril — o na altura famoso colunista Artur Portela Filho escreveu um artigo inteiramente dedicado a Marcelo com o título “O babygrow político”. O texto sublinhava que o jovem Rebelo de Sousa estava, desde sempre, “talhado, calibrado, destinado”: “Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.” A desenvoltura de Marcelo entre as elites era lendária: “Quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam com um olhar terno”. Da direita à esquerda, a classe política inteira admirava nele “o riso fácil”, “a voz estaladamente metálica”, “a inteligência extravasante” e “o brilho incontrolado”. Mesmo naquela altura, quando um regime estava a acabar e outro ia nascer, Marcelo conseguia aparecer em todo o lado ao mesmo tempo e com a mesma genialidade. Artur Portela Filho espantava-se: “Só ele se move. Só ele existe. Só ele manobra.”
De facto, Marcelo era tão omnipresente há tantos anos na vida pública que, em 1976, a mítica editora Snu Abecassis convenceu-o a escrever um livro de memórias. É espantoso constatar que a fundadora da Dom Quixote entendia que o facto de ele ter apenas 26 anos não iria cobrir imediatamente de ridículo a intenção de publicar uma autobiografia. Era unânime que, com aquela idade, já tinha muito para contar.
Tendo em conta tudo isto, é inevitável que uma pessoa se pergunte: se Marcelo era a grande promessa da pátria, como é que falhou de forma tão espectacular quando finalmente chegou ao poder? Como é possível que, passados dez anos como Presidente da República, o “babygrow político” nos deixe tudo aquilo que queria evitar? A herança dele resume-se a um país parado, a uma direita populista em crescimento e a um regime em perigo.
Uma parte da explicação está naquilo a que Artur Portela Filho chamou “o brilho incontrolado”. O ainda Presidente da República sempre se habituou a pensar mais rápido do que a própria sombra. Como consequência, tropeça em cenários, perde-se em calendários, vacila perante um número infinito de previsões e julga-se portador das soluções para todos os problemas. Há pessoas (não me puxem pela língua) que são demasiado obtusas; já Marcelo é demasiado inteligente.
Quando Marcelo Rebelo de Sousa chegou ao palácio de Belém em 2016, usando como combustível uma fórmula que misturava selfies e Fortimel, convenceu-se de que era o grande pacificador da nação. Pela primeira vez na história da democracia, o partido que ficara em primeiro lugar na noite eleitoral tinha sido afastado do poder por uma manobra inventada por António Costa que tirou o governo a Passos Coelho e o entregou à “geringonça”. Com o eleitorado da direita a sentir-se traído pela artimanha, Marcelo achou que se desse o exemplo resolveria todas as dificuldades. Assim, como sinal de reconciliação, o Presidente da direita tornou-se no grande cúmplice do governo mais à esquerda da democracia, apagando dessa forma qualquer sombra de ilegitimidade política sobre António Costa. Nos anos seguintes, passou a ser impossível perceber onde acabava o palácio de São Bento e onde começava o palácio de Belém. Havia um acordo entre os dois: António Costa não queria fazer reformas e Marcelo Rebelo de Sousa não queria contrariar António Costa. Por isso, o país ficou parado.
Se o Presidente da República e o primeiro-ministro tinham uma aliança indestrutível, então a insatisfação teria de aparecer noutro lado qualquer. Portugal tinha escapado durante vários anos ao crescimento da direita populista, mas agora, nestas circunstâncias, bastava aos seus representantes nacionais transformarem-se em receptáculos do descontentamento. Percebendo isso, Marcelo achou que tinha descoberto um antídoto: iria combater o populismo “do mal” com o populismo “do bem”. O plano era simples: o novo Presidente só precisava de dar um beijinho ou um abraço a cada português. Eternamente obcecado com as suas taxas de aprovação, Marcelo não se comparava a outros políticos, mas às duas maiores celebridades do país, Cristina Ferreira e Ricardo Araújo Pereira. Se fosse suficientemente amado pelos portugueses, os eleitores não precisariam de se refugiar na direita radical. Não correu bem: em legislativas, o Chega somou 60 deputados; em presidenciais, André Ventura chegou à segunda volta.
O último fracasso envolveu a mania dos balões. Numa entrevista a Francisco Pinto Balsemão, Marcelo descreveu a sua função de Presidente como sendo a de um “pica-balões”. Durante estes dez anos, sempre que via uma polémica a crescer ou uma discussão a aquecer, ele aproximava-se discretamente, picava o balão e as tensões esvaziavam-se. O método era eficaz — mas só à superfície. Na verdade, desta forma o Presidente ajudou a camuflar as desavenças que deveríamos ter resolvido a tempo. Acontece que um regime que não debate verdadeiramente os seus problemas acaba num impasse e num pântano, o que coloca em perigo a sua legitimidade.
Agora, Marcelo vai-se calmamente embora. Passou esta semana em despedidas e até anunciou que pretende refugiar-se num silêncio permanente para não nos incomodar e, imagino, para não o incomodarem a ele. Para trás, ficam os problemas, fica o país — e, claro, ficamos nós. O fracasso de Marcelo é o nosso fracasso. Pode ser que nos sirva de lição.