Os alarmes começaram a soar no dia 2 de fevereiro, quando a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX), o célebre grupo ultra-tradicionalista que vive há várias décadas às margens da Igreja Católica, emitiu um comunicado bombástico, anunciando que, daí a cinco meses, a 1 de julho de 2026, seriam ordenados novos bispos tradicionalistas no seio da organização.
Por todo o mundo católico, especialmente no Palácio do Santo Ofício, a sede do Dicastério para a Doutrina da Fé, o cenário de um novo cisma tornou-se real. Afinal, foi justamente a ordenação de quatro bispos sem autorização de Roma que, em 1988, levou à excomunhão automática do fundador da FSSPX, o arcebispo Marcel Lefebvre, e colocou a organização definitivamente fora da comunhão com Roma. Se a nova ameaça avançasse, décadas de tentativas de reaproximação entre a Igreja e o grupo ultra-tradicionalista — cujos quase 1.500 membros servem cerca de 600 mil fiéis em todo o mundo — cairiam definitivamente por terra.
Roma organizou de urgência uma reunião com o superior da FSSPX, o padre italiano Davide Pagliarani, para tentar chegar a uma solução de compromisso capaz de evitar a rutura total. A reunião decorreu em 12 de fevereiro no Vaticano: Pagliarani foi recebido pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, o prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, que lhe recordou que a ordenação de bispos sem autorização de Roma resultaria inevitavelmente na excomunhão automática e lhe propôs a abertura de um diálogo teológico estruturado entre Roma e a FSSPX para que, no longo prazo, se possam encontrar caminhos de entendimento — sob a condição de as ordenações de julho serem suspensas.
Durante duas semanas, a resposta foi aguardada com expectativa. Se houvesse uma resposta positiva, as duas partes deveriam então desenhar um roteiro para o diálogo com passos e procedimentos concretos; se a resposta fosse negativa e a FSSPX decidisse mesmo avançar com a ordenação dos novos bispos, a excomunhão automática seria inescapável e as relações entre Roma poderiam voltar ao estado de tensão das décadas de 1970 e 1980 — sem que seja certo que, desta vez, haja volta a dar.
A resposta chegou a Roma esta quarta-feira e foi divulgada publicamente na quinta-feira: um redondo não. Numa carta de quatro páginas com vários anexos, a FSSPX diz que o diálogo será inútil, uma vez que já começa enviesado: Roma enquadrará qualquer conversa na premissa de que o Concílio Vaticano II é aceite, incluindo no que toca às reformas litúrgicas, ao diálogo inter-religioso e, genericamente, ao caminho de abertura da Igreja Católica ao mundo contemporâneo. Esta é a linha vermelha que os ultra-tradicionalistas não conseguem, de todo, aceitar. A julgar pela carta enviada a Roma, as ordenações episcopais de 1 de julho deverão mesmo avançar — e, nesse caso, a FSSPX entrará em situação de cisma (embora a organização rejeite a acusação, garantindo não querer romper com Roma).
Cinco décadas de oposição
Para compreender todo este enredo é preciso recuar até à década de 1960, marcado, na Igreja Católica, pela realização do Concílio Vaticano II. Convocado pelo Papa João XXIII em 1961 para que, no contexto daquilo que era lido como uma “grave crise da sociedade”, marcada por “um grande progresso material a que não [correspondia] um igual progresso no campo moral”, a Igreja pudesse reunir-se em concílio para debater “a possibilidade de contribuir mais eficazmente para a solução dos problemas da idade moderna”. Na prática, numa época marcada pelas revoluções sexuais e pela crescente secularização das sociedades ocidentais, a Igreja sentia-se a perder a relevância e percebia que necessitava de atualizar as suas formas de expressão (o termo italiano “aggiornamento” tornou-se uma das palavras de ordem do concílio) para conseguir transmitir as suas ideias de sempre ao mundo contemporâneo.
Do Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, resultou a Igreja Católica nas expressões que conhecemos hoje. Uma das alterações mais visíveis foi a reforma na liturgia: o antigo rito da missa, celebrado em latim segundo as fórmulas do Concílio de Trento, com o padre de costas para os participantes, deu lugar à versão hoje mais difundida, celebrada com a comunidade em torno do altar e nas línguas de cada país, para que a missa deixasse de ser incompreensível para os fiéis. (Manteve-se, ainda assim, o rito antigo como “forma extraordinária”, para ser usado em determinadas circunstâncias, tema que também tem gerado bastante controvérsia nos últimos anos.)
Outras reformas, sobretudo relativas à abertura da Igreja ao diálogo com outras confissões cristãs e outras religiões, contribuíram decisivamente para moldar a Igreja contemporânea e para aprofundar o fosso entre progressistas e conservadores. Muitos na ala mais conservadora viram o Concílio Vaticano II como uma ameaça existencial à Igreja Católica tradicional: o latim dava lugar às línguas de cada país, a ideia de que “fora da Igreja não há salvação” era substituída pela defesa do diálogo com outras igrejas e outras religiões e, além disso, a própria solidez da hierarquia católica parecia sair minada (o Sínodo dos Bispos, por exemplo, reforçou o poder da liderança coletiva dos bispos na Igreja, é um produto das discussões conciliares).

O arcebispo Marcel Lefebvre foi um dos principais rostos da oposição conservadora ao Concílio Vaticano II. Nascido em França em 1905, tornou-se padre da Congregação do Espírito Santo e teve um longo percurso de missionário, passando várias décadas em missão em países africanos de língua francesa. Foi no contexto desse percurso que foi ordenado bispo e chegou mesmo a ser superior-geral dos espiritanos. No Concílio Vaticano II, porém, tornou-se uma figura globalmente conhecida, por representar de forma particularmente eloquente a oposição minoritária: para ele, as reformas conciliares permitiam que as ameaças do modernismo se infiltrassem na Igreja e reduziam a autoridade papal — e acreditava que a abertura ao diálogo inter-religioso, tratando outras religiões como iguais, levaria inevitavelmente a Igreja a tornar-se irrelevante.
Como explicou ao Observador o padre Peter Stilwell, responsável pelo diálogo inter-religioso no Patriarcado de Lisboa, entrevistado para o Podcast Plus “Matar o Papa”, o diálogo inter-religioso foi decisivo para a rutura de Lefebvre. “Até aí, a questão [da liberdade religiosa] colocava-se muito em termos de doutrinas. Ou seja, até que ponto é que um Estado devia ou não autorizar que fossem divulgadas doutrinas que podiam ser certas ou erradas”, disse Stilwell. “Claro que isso coloca nas mãos do Estado a decisão do que é que é certo ou errado. A Igreja percebia que isso era uma falha, mas não via como sair dessa situação. Portanto, propunha que, nos países de maioria católica — como a Igreja considerava que ela é que sabia o que era a verdade —, só a Igreja Católica é que devia ser autorizada; nos países onde ela fosse minoritária, devia ser respeitada nas suas liberdades. Isto eram dois pesos e duas medidas, claramente insustentável quando se começava a olhar o mundo de uma forma um pouco mais distanciada.”
No Concílio Vaticano II, foi colocada em cima da mesa “a ideia de que a liberdade religiosa é anterior a essa questão da verdade”. Isto é, “a liberdade religiosa é a liberdade para as pessoas procurarem a verdade; portanto, ao Estado compete garantir condições de liberdade para que todos possam discutir, expor as suas doutrinas, celebrar a sua fé de uma forma em que se respeitem todos uns aos outros”. Segundo Peter Stilwell, isto representou, para Lefebvre, uma derrota da Igreja perante o modernismo. “Lefebvre foi um dos que votaram contra isto. Ele tinha sido missionário, tinha tido um papel importante nos padres espiritanos, na missão em África. Toda a estrutura mental dele era a de que aqueles que não eram batizados iriam para o Inferno e, portanto, era preciso batizá-los à força”, sublinhou. “Portanto, isto agora de dizer que vale tudo era ir contra a doutrina da Igreja. Fora da Igreja não havia salvação, era preciso dizer isso alto e bom som.”
Sem aceitar estas reformas que via como uma corrupção da Igreja, Lefebvre assumiu-se como feroz opositor ao Concílio Vaticano II e começou a trilhar um caminho que o levaria à rutura com Roma. O primeiro passo desse caminho foi a abertura, em 1970, de um seminário tradicionalista em Écône, na Suíça, onde começou a formar sacerdotes seguindo as normas e tradições da Igreja anteriores ao Concílio, que ignorou por completo na formação dos jovens seminaristas ultra-conservadores com os quais fundou a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X. Inicialmente composta por um punhado de jovens num seminário nas montanhas suíças, a FSSPX tornar-se-ia a maior e mais poderosa organização de oposição dentro da Igreja contemporânea.
Rapidamente, as relações entre aquele seminário e Roma começaram a deteriorar-se. Em 1975, o Vaticano reverteu a autorização que o bispo de Écône tinha dado a Lefebvre para instalar o seminário no seu território; no ano seguinte, o Papa Paulo VI determinou a suspensão de Marcel Lefebvre, retirando-lhe a capacidade para continuar a exercer as funções episcopais e para ordenar novos padres. Contudo, Lefebvre recusou obedecer e continuou a ordenar padres. Entre o final da década de 1970 e o início da década de 1980, Lefebvre expandiu a organização para todo o mundo, ordenando dezenas de padres e abrindo capelas e centros em múltiplos países.
A rutura total aconteceu em junho de 1988. Marcel Lefebvre, já com mais de 80 anos de idade, sentia-se perto do fim da vida e estava preocupado com a continuidade da organização. Ele era o único bispo da FSSPX e, portanto, o único que podia ordenar novos sacerdotes. Decidiu, então, ordenar bispos quatro padres da organização — mas fê-lo sem autorização de Roma, o que constitui um ilícito grave no contexto da Igreja Católica, punido com a excomunhão automática. Naquele verão de 1988, com as consagrações de Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, Lefebvre e os quatro bispos recém-ordenados foram automaticamente excomungados — e a FSSPX relegada para as margens da Igreja Católica, deixando de estar em comunhão com Roma. Nesse ano, o Papa João Paulo II criou a comissão pontifícia “Ecclesia Dei”, destinada a cuidar espiritualmente dos fiéis da FSSPX e de conduzir o diálogo com os tradicionalistas.
Durante os anos seguintes, a FSSPX continuou a crescer por todo o mundo — e, com isso, foi-se aprofundando o fosso entre o grupo tradicionalista e Roma. Quando Lefebvre morreu, em 1991, a sua sucessão na liderança da FSSPX e, sobretudo, a continuidade da expansão do movimento estava assegurada pela existência de bispos ordenados por ele (o bispo Bernard Fellay tornar-se-ia, em 1994, o superior da FSSPX). Ao longo das décadas, as capelas e centros da FSSPX, onde a missa continua a ser celebrada em latim segundo o rito antigo, e onde continua a ser pregada uma visão do Catolicismo que rejeita as reformas litúrgicas e teológicas do Concílio Vaticano II, surgiram em vários países do mundo: hoje está presente em 62 países, tem seis seminários e 175 priorados. A FSSPX está presente em Portugal através do seu distrito ibérico e tem uma capela em Matosinhos, outra em Fátima e um priorado em Lisboa.
A fraternidade nunca se reconheceu como estando fora da comunhão com Roma. Pelo contrário, continua a assumir-se como tendo tido origem legítima dentro do contexto da Igreja, embora reconheça que o seu estatuto canónico se encontra ainda por regularizar depois dos acontecimentos das décadas de 1970 e 1980.
De novo à beira da crise existencial
Depois da retoma dos contactos entre a FSSPX e Roma a propósito do Jubileu de 2000, a possibilidade de uma reaproximação começou a desenhar-se duas décadas depois da rutura, em 2009, quando o Papa Bento XVI decidiu levantar a excomunhão dos quatro bispos ordenados ilicitamente por Lefebvre. Bento XVI considerou que o levantamento da excomunhão dos bispos ordenados sem autorização de Roma, que permitiria a sua integração na comunhão com a Igreja Católica, seria interpretado como um gesto de boa fé que permitiria abrir caminho ao regresso à unidade dentro da Igreja.
O regresso dos bispos lefebvrianos causou polémica e obrigou Bento XVI a explicar-se publicamente — sobretudo porque, pela mesma altura, surgiu enorme controvérsia em torno de um dos quatro bispos, o inglês Richard Williamson, que dera uma entrevista negando a perseguição aos judeus durante o nazismo e o Holocausto. O caso Williamson e a controvérsia em volta do levantamento da excomunhão acompanharia o resto do pontificado de Bento XVI. Várias das decisões de Bento XVI destinadas a amenizar a tensão com os grupos tradicionalistas acabariam, na verdade, por resultar num aprofundamento do fosso — como foi o caso da liberalização da forma extraordinária da missa, que acabou por transformar a missa em latim num cavalo de batalha de vários grupos tradicionalistas, opositores do Papa Francisco, amplificando divisões e fomentando a discórdia.
Já fora da situação de excomunhão, mas ainda assim em situação irregular em relação a Roma, a FSSPX continuou a crescer em número de padres, seminaristas e fiéis em todo o mundo — sempre à margem da Igreja oficial. Alguns anos depois, o Papa Francisco daria alguns passos adicionais rumo a um eventual entendimento definitivo. Em 2015, no contexto do Jubileu extraordinário dedicado à misericórdia, o Papa argentino conferiu aos padres da FSSPX a possibilidade de ouvirem validamente confissões dos fiéis — uma exceção que, no ano seguinte, foi prorrogada indefinidamente. Em 2017, autorizou que os casamentos celebrados no contexto da FSSPX fossem considerados válidos consoante a autorização da diocese onde ocorrerem.

Apesar dessas tentativas de aproximação, as incompatibilidades teológicas mantiveram-se, sobretudo no que respeita a um ponto fundamental da comunhão com Roma: a submissão voluntária do intelecto e da vontade ao magistério papal. Aceitar isto implica, necessariamente, aceitar as conclusões do Concílio Vaticano II — e a isso a FSSPX parece não estar disposta. Uma hipótese há muito em cima da mesa é a possibilidade de atribuir à FSSPX o estatuto de prelatura pessoal (simplificando: uma espécie de diocese sem território, liderada por um bispo que responde perante o Papa, figura jurídica atualmente aplicada apenas ao Opus Dei). Mas tudo depende de um entendimento teológico que parece estar longe.
No meio de tudo isto, os lefebvrianos encontram-se, hoje, numa situação de ameaça existencial semelhante àquela em que o fundador se encontrava em 1988. Atualmente, a FSSPX só tem dois bispos vivos: o bispo Alfonso de Galarreta e o bispo Bernard Fellay, o anterior superior da organização. Fellay, pelo menos, parece estar fora de jogo. Depois de 24 anos à frente da FSSPX, e apesar de ser considerado o favorito para continuar no cargo, o bispo não foi reeleito para um novo mandato, sendo substituído pelo padre Davide Pagliarani nas funções. Como noticiou na altura o Le Figaro, Fellay terá sido prejudicado pelo facto de, ao longo de vários anos, ter trabalhado com Roma com vista a uma eventual reconciliação: a ala mais resistente a Roma, que via em Fellay um moderado inclinado a ceder perante a hierarquia vaticana, rejeitou essa continuidade, preferindo um candidato da linha dura, menos favorável a acordos com a Santa Sé.

Com apenas dois bispos e a envelhecer, a FSSPX encontra-se perante um dilema, como escrevia recentemente o analista Filipe d’Avillez: se a ortodoxia sacramental e doutrinal ocupa um lugar cimeiro na mente do grupo tradicionalista, então a fraternidade não pode dar-se ao luxo de ficar sem bispos que possam continuar novos sacerdotes, mesmo que isso signifique ordenar novos bispos sem autorização de Roma, num novo ato cismático em relação ao Papa. Sem uma aproximação teológica no horizonte, foi esse o caminho recentemente escolhido pela FSSPX.
No comunicado divulgado a 2 de fevereiro, a organização disse que já tinha transmitido ao Papa Leão XIV “a necessidade específica da Fraternidade de assegurar a continuação do ministério dos seus bispos” e que, nesse sentido, o superior-geral, padre Davide Pagliarani, havia anunciado “a sua decisão de confiar aos bispos da Fraternidade a tarefa de realizar novas consagrações episcopais, no dia 1 de julho de 2026”.
A ameaça parece ter surtido efeito. Poucos dias depois, o Vaticano anunciou que o cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, receberia Pagliarani em Roma. A reunião, disse o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, seria “uma oportunidade para um diálogo informal e pessoal, que poderá ajudar a identificar instrumentos eficazes de diálogo que possam levar a resultados positivos”.
Novo diálogo teológico vs. novo cisma
Sobre o que aconteceu na reunião de hora e meia à porta fechada entre Davide Pagliarani e Víctor Manuel Fernández, sabemos apenas o que consta dos dois comunicados divulgados por cada uma das partes.
No comunicado publicado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, lê-se que a reunião entre Fernández e Pagliarani decorreu “com o beneplácito” do Papa Leão XIV e que o encontro começou com a clarificação de “alguns pontos apresentados pela FSSPX em diversas cartas, enviadas particularmente nos anos de 2017-2019”. Entre os temas quentes estava “a questão da vontade divina relativamente à pluralidade de religiões”, um assunto fortemente contestado pela FSSPX, que se opõe à abertura da Igreja Católica ao diálogo inter-religioso como um diálogo entre iguais.
Depois disso, o cardeal Fernández “propôs um percurso de diálogo especificamente teológico, com uma metodologia precisa, sobre assuntos que ainda não foram suficiente clarificados, como: a diferença entre ato de fé e ‘submissão religiosa da mente e da vontade’ ou os diferentes graus de adesão exigidos pelos vários textos do Concílio Vaticano II e a sua interpretação”. Ficam aqui explícitos os principais pontos da discórdia, que se mantêm há décadas: a aceitação plena por parte da FSSPX do magistério do Papa, concretamente no que diz respeito às conclusões do concílio da década de 1960. Nas entrelinhas do comunicado do Vaticano parece também poder ler-se uma abertura para assumir que há conclusões do concílio que podem exigir um grau de aceitação superior ou inferior a outros, o que pode abrir a porta à recusa por parte da FSSPX de algumas dessas conclusões.

“Este processo tem como objetivo evidenciar, entre os temas debatidos, os mínimos necessários para a comunhão plena com a Igreja Católica e, em consequência disso, para delinear um estatuto canónico para a Fraternidade”, diz ainda o comunicado. Na prática, poderá finalmente haver a possibilidade de a FSSPX ter um lugar dentro da estrutura da Igreja Católica — com a possibilidade de recorrer à figura da prelatura pessoal a ser a mais provável.
Na reunião, de acordo com o comunicado, Fernández também recordou a Pagliarani que “a ordenação de bispos sem o mandato do Santo Padre, que detém a potestade ordinária suprema, que é plena, universal, imediata e direta, implicaria uma decisiva rutura da comunhão eclesial (cisma) com graves consequências para a Fraternidade como um todo”. O uso da fortíssima palavra cisma entre parênteses é particularmente relevante: a FSSPX saiu da reunião avisada de que, se seguir em frente com as ordenações, entrará em cisma com Roma e deitará por terra todo o trabalho de reaproximação das últimas décadas. “Portanto, a possibilidade de se desenvolver este diálogo pressupõe que a Fraternidade suspenda a decisão das ordenações episcopais anunciadas.”
O comunicado termina dizendo que o padre Davide Pagliarani deverá agora apresentar a proposta de Roma à cúpula da FSSPX, devolvendo a resposta ao Vaticano. “No caso de uma resposta positiva, estabelecer-se-ão de comum acordo os passos, as etapas e os procedimentos a seguir.”
Por seu turno, o comunicado da FSSPX descreve a “atmosfera cordial e franca” em que decorreu a reunião, em que Pagliarani ouviu “atentamente” Fernández e procurou “explicar o alcance do anúncio de 2 de fevereiro” e o sentido das várias comunicações feitas pela organização. “O Superior-Geral pôde assim apresentar de viva voz a situação atual da Fraternidade São Pio X e o seu dever, diante da necessidade espiritual em que se encontram as almas, de garantir a continuação do ministério de seus bispos”, diz o comunicado. “Sobretudo, tratou de expor o espírito de caridade com que a Fraternidade vem considerando as consagrações, bem como a vontade sincera que a anima de servir às almas e à Igreja romana.”
Pagliarani transmitiu ao cardeal Fernández “o seu desejo de que, consideradas as circunstâncias de todo particulares em que se encontra a santa Igreja, a Fraternidade possa continuar a operar na sua situação atual, excepcional e temporária, para bem das almas que a procuram”. Ou seja, para a FSSPX, o principal objetivo neste momento é manter o status quo — mesmo que mantendo a situação irregular em relação a Roma, é a única maneira de garantir que não faz cedências. Mais do que isso: a anuência de Roma a esta ideia significaria, na prática, uma aprovação tácita da atividade da FSSPX.
O comunicado da organização não esconde que os dois responsáveis discordaram profundamente. “O cardeal Fernández apresentou uma maneira diferente de tratar a questão”, lê-se na nota, que cita depois as palavras do comunicado de Roma sobre a proposta de diálogo teológico e a condição apresentada relativamente à suspensão das consagrações episcopais. O comunicado termina com a nota de que, depois de ouvir o Conselho Geral da FSSPX, Pagliarani escreverá a Roma e divulgará a resposta que der à proposta de Fernández — e ainda com a referência ao desejo de Pagliarani se encontrar pessoalmente com o Papa Leão XIV.
Durante duas semanas, Roma esperou pela resposta de Pagliarani com expectativa: uma resposta positiva daria início um processo de reconciliação com possibilidade de terminar colocar um ponto final em mais de meio século de tensão e rutura entre Roma e os tradicionalistas; uma recusa levaria esta relação ao seu pior momento de sempre, com o grupo fundado por Marcel Lefebvre a entrar definitivamente em cisma com Roma — e levando por arrasto mais de meio milhão de fiéis em todo o mundo. Até agora, todas as iniciativas de aproximação tinham sido votadas ao fracasso e, como notava o Le Monde após a reunião entre Fernández e Pagliarani, a fotografia divulgada pelo Vaticano até podia mostrar os dois homens com um sorriso cordial, mas as relações entre Roma e a FSSPX continuavam “extremamente tensas”.
Diálogo é inútil, diz FSSPX
A resposta de Pagliarani, enviada a Roma esta quarta-feira e tornada pública na quinta-feira, confirmou precisamente essa tensão. O superior-geral da FSSPX usou quatro páginas e vários anexos para, na prática, rejeitar a proposta de Fernández com um argumento: o diálogo está condenado ao fracasso desde o primeiro minuto devido à inflexibilidade de Roma, que rejeitou propostas de diálogo no passado e só o propôs agora devido à ameaça de ordenação de bispos.
“Só pode saudar a abertura de uma discussão doutrinal”, assume Pagliarani, lembrando que ele próprio já o tinha proposto à Santa Sé em 2019, altura em que Roma rejeitou o diálogo “com o argumento de que um acordo doutrinal entre a Santa Sé e a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X era impossível”. Pagliarani defende que a discussão seria sempre “desejável e útil”, nem que seja porque permitiria às duas partes “conhecerem-se melhor”.
“Foi precisamente essa a minha intenção em 2019, quando sugeri um diálogo durante um tempo calmo e pacífico, sem a pressão ou a ameaça de uma possível excomunhão, que teria minado o diálogo livre, como é, infelizmente, o caso agora”, escreve. Nesse sentido, Pagliarani acrescenta: “Não posso aceitar a perspetiva e os objetivos em cujo nome o dicastério se oferece para retomar o diálogo na situação atual, nem mesmo o adiamento da data de 1 de julho.”
Segue-se uma explicação em cinco pontos. “Ambos sabemos desde já que não poderemos concordar doutrinalmente, particularmente no que diz respeito às orientações fundamentais desde o Concílio Vaticano II”, começa por dizer Pagliarani, evocando a “consciência” da FSSPX relativamente a algo que considera “uma rutura com a tradição da Igreja”, um problema que se tornou ainda mais complexo com “os desenvolvimentos doutrinais e pastorais dos pontificados recentes”.
“Por isso, não vejo como é que o processo conjunto de diálogo poderia culminar em chegar a acordo sobre o que constituiria ‘os requisitos mínimos para a comunhão plena com a Igreja Católica’ já que, como o senhor recordou com franqueza, os textos do Concílio não podem ser corrigidos, nem a legitimidade da reforma litúrgica pode ser posta em causa”, diz o superior-geral da FSSPX.

Pagliarani acrescenta, no segundo ponto, que é suposto este diálogo servir para “clarificar a interpretação do Concílio Vaticano II”, mas que “esta interpretação já é clara” devido ao que aconteceu nas últimas décadas. “O Concílio Vaticano II não é um conjunto de textos abertos à livre interpretação. Foi recebido, desenvolvido e aplicado ao longo de sessenta anos por sucessivos papas, de acordo com orientações doutrinais e pastorais precisas”, afirma, dando como exemplos vários textos de João Paulo II e Francisco que “mostram que o enquadramento doutrinal e pastoral no qual a Santa Sé pretende situar qualquer discussão já foi firmemente estabelecido”.
Por outras palavras: se a Igreja Católica não estiver disponível para admitir a possibilidade de recusar algumas partes e algumas conclusões do Concílio Vaticano II, a FSSPX não considera haver qualquer utilidade no debate.
Na carta enviada a Roma, Pagliarani também lamenta o “contexto” do diálogo agora proposto, acusando Roma de manter um “longo silêncio” desde 2019, ignorando todos os pedidos da FSSPX para um debate, e de só agora se lembrar de conversar, “só quando são mencionadas as consagrações episcopais”.
“Fala-se de romper a comunhão, de cisma e de ‘graves consequências’. Além disso, esta ameaça é agora pública, o que cria uma pressão que dificilmente é compatível com um desejo genuíno de um diálogo fraternal e construtivo”, acusa Pagliarani, que também diz que o estabelecimento de “requisitos mínimos para a comunhão eclesial” não é uma tarefa a ser realizada em conjunto, mas a partir da autoridade romana.
Por fim, Pagliarani cita um documento da Congregação para a Doutrina da Fé, datado de junho de 2017, no qual o então prefeito do dicastério, o cardeal Müller, afirmou taxativamente que os tais “requisitos mínimos” incluem, explicitamente, “todo o Concílio e o período pós-conciliar”.
A carta de Pagliarani termina com um apelo: “No reconhecimento partilhado de que não podemos chegar a acordo na doutrina, parece-me que o único ponto em que podemos concordar é o da caridade em relação às almas e à Igreja.” Por isso, o líder da FSSPX insiste no pedido que fizera pessoalmente em Roma: que tudo se mantenha como está.
Lembrando que o papel da FSSPX no cuidado espiritual de centenas de milhares de fiéis em todo o mundo tem sido reconhecido pelos vários papas no passado, Pagliarani pede que Roma permita à FSSPX que “continue a fazer este mesmo bem pelas almas a quem administra os santos sacramentos”.
“[A FSSPX] não lhe pede mais nada: nenhum privilégio, nem sequer a regularização canónica que, no estado atual das coisas, é impraticável devido a divergências doutrinais. A Fraternidade não pode abandonar as almas. A necessidade dos sacramentos é uma necessidade concreta e de curto prazo para a sobrevivência da tradição, ao serviço da Santa Igreja Católica”, afirma Pagliarani, dizendo que nenhuma das partes pretende “reabrir feridas” e usando os argumentos do Papa Francisco para situações como a homossexualidade e o divórcio contra Roma.
“Ao longo da última década, o Papa Francisco e o senhor defenderam abundantemente a ‘escuta’ e a compreensão de situações não habituais, complexas, excecionais e particulares. Também desejaram o uso de um critério que seja sempre pastoral, flexível e razoável, sem querer resolver tudo através de automatismos legais e enquadramentos pré-estabelecidos. Neste momento, a Fraternidade não lhe pede mais do que isto”, afirma, pedindo que a FSSPX possa continuar a operar temporariamente nos moldes em que opera atualmente.
“O tempo que nos separa de 1 de julho é um tempo de oração”, vinca ainda Pagliarani, deixando no ar a ideia de que espera uma resposta neste período de tempo até às ordenações episcopais, que não foram canceladas. Se avançarem mesmo, a situação de cisma parece ser inevitável do ponto de vista canónico — embora a FSSPX tenha enviado, como anexo, um documento com argumentos para rejeitar a ideia de que a ordenação dos bispos contra a vontade do Papa cumpre os requisitos para ser considerada um cisma. Resta saber como vai Roma responder a esta rejeição do diálogo, que abre as portas à rutura definitiva.