Passavam alguns minutos das oito da manhã quando seis carros de polícia não identificados cruzaram os portões da Wood Farm, uma das propriedades da família real britânica em Sandringham, a cerca de 160 km de Londres. Uma das viaturas seguiu até à porta principal, enquanto as outras cinco se dirigiram aos fundos da casa. De dentro dos veículos saíram oito agentes fardados — um deles carregava um portátil identificado com o brasão da polícia de Thames Valley, responsável por ações de investigação nas regiões de Buckinghamshire, Berkshire, e Oxfordshire, e a maior força policial do Reino Unido. Apenas 30 minutos depois, um dos carros foi visto a deixar a propriedade, seguido de outros dois veículos, o terceiro deles a levar a equipa de segurança de André Mountbatten-Windsor. O ex-príncipe foi detido no dia em que completou 66 anos, permanecendo na esquadra de Norfolk por mais de 11 horas.
A notícia só chegou ao público quase duas horas depois. A BBC foi a primeira a revelar a prisão do irmão de Carlos III, pelas 10h. Logo a seguir a polícia confirmou a detenção de um homem na casa dos 60 anos, sem revelar o nome do suspeito. Num comunicado, informou que abriu uma investigação por suspeita de má conduta em cargo público, e que estava a conduzir buscas em duas propriedades em Berkshire e Norfolk. Tratam-se das duas residências de André — a casa de cinco quartos que ocupa temporariamente desde há duas semanas e o Royal Lodge, a mansão de 30 quartos onde viveu por mais de 20 anos em Windsor, e que é uma propriedade do Estado.
“Business as usual”
No Palácio de Buckingham o dia começou como qualquer outro. A agenda dos Reis estava preenchida: Carlos receberia embaixadores de países como o El Salvador, Espanha e Quénia durante a manhã no Palácio de St. James, e à tarde faria a sua estreia na Semana da Moda de Londres; Camila tinha um concerto no Sinfonia Smith Square Hall, em Westminster, por volta do meio dia. A princesa Ana, outro membro sénior da realeza, preparava-se para viajar até Leeds, no norte do país, para visitar um complexo prisional e um centro de terapia ocupacional, no âmbito das suas ações como patrona do Butler Trust. Antes de seguir para a propriedade do ex-príncipe, a polícia de Thames Valley contactou o Ministério da Administração Interna. Mas ninguém da família real foi avisada sobre a ação da polícia. Nem mesmo o monarca havia sido alertado sobre a prisão do irmão. Diante da notícia, que já fazia as manchetes de todos os jornais dentro e fora do Reino Unido, a decisão foi de manter tudo exatamente como programado.

Pelo meio dia Carlos III emitiu o seu comunicado. “Fiquei a saber com a mais profunda preocupação das notícias sobre André e a suspeita de má conduta no exercício de funções públicas. O que se segue agora é um processo completo, justo e correto através do qual esta questão é investigada da forma adequada e pelas autoridades competentes. Neste sentido, como já disse anteriormente, têm o nosso apoio e cooperação total e incondicional”, disse o monarca. “Deixem-me afirmar claramente: a lei deve seguir o seu curso“, lê-se ainda no texto, reforçando uma posição anterior em que já havia sinalizado que estava disponível para colaborar com as autoridades. “Enquanto este processo continua, não seria correto da minha parte comentar mais este assunto. Entretanto, a minha família e eu continuaremos a cumprir o nosso dever e a servir-vos a todos“, garantiu o Rei na nota divulgada, que logo a seguir teve o “apoio” dos príncipes de Gales.
A Rainha Camila foi a primeira a cumprir o seu compromisso, e ao ser confrontada com as perguntas dos jornalistas apenas acenou e fingiu não ouvir. Carlos teve o primeiro contacto com o público cerca de duas horas depois, ao chegar à London Fashion Week, onde também ignorou as questões colocadas à porta do evento. Na estreia de uma Semana da Moda, o monarca sentou-se sorridente na primeira fila do desfile da designer britânico-nigeriana Tolu Coker, ao lado das designers britânicas Stella McCartney e Martine Rose, da CEO do British Fashion Council, Laura Weir, do diretor criativo da Alexander, Sean Mcgirr e da rapper Little Simz.

A reação da realeza foi de seguir o dia tal como se nada tivesse acontecido, uma posição que reflete a tentativa da família real de se distanciar dos escândalos de André. A última vez que o antigo duque de Iorque esteve com a família num evento público foi em setembro de 2025, no funeral da duquesa de Kent, quando foi fotografado a conversar amigavelmente com o Rei. Em outubro, entretanto, Carlos III anunciou que iria retirar todos os títulos ao irmão, que se tornou no primeiro e único membro da realeza britânica a ter o título de príncipe removido involuntariamente. Agora, André volta a fazer história ao ser o primeiro integrante sénior a ser detido desde a execução de Carlos I, em 1649, durante a Guerra Civil.
O escândalo financeiro de André
Enquanto a família real seguia um dia “normal”, a imprensa aglomerava-se em frente aos portões do Royal Lodge, em Windsor, e na vila de Wolferton, onde fica a Wood Farm, a residência que André ocupa há cerca de duas semanas, de forma temporária, até a Mersh Farm ter as obras de remodelação finalizadas. A movimentação policial nas duas residências permaneceu intensa ao longo de todo o dia. Nos dois imóveis — as buscas no Royal Lodge ainda não haviam terminado até o fim do dia — os investigadores passaram horas à procura de documentos e informações contidas em computadores e outros aparelhos eletrónicos do antigo duque de Iorque que possam corroborar as suspeitas de má conduta no exercício de cargos públicos, um crime que implica “abuso ou negligência grave e intencional do poder ou das responsabilidades do cargo público exercido”. O crime é punível com pena máxima de prisão perpétua e só pode ser julgado por acusação formal.

A 9 de fevereiro a polícia de Thames Valley já havia informado que estava a analisar as alegações de que André passou informações confidenciais a Jeffrey Epstein quando ocupou o cargo de Representante Especial do Reino Unido para Comércio e Investimento Internacional, entre 2001 e 2011, com base nos documentos recentemente divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano. Nesta altura, o filho de Isabel II viajou em nome do Governo britânico para vários países e esteve em contacto direto com membros seniores de governos além de empresários em todo o mundo. De acordo com o que o Departamento de Negócios e Comércio disse à BBC, o antigo duque de Iorque não atuava sob as mesmas regras que agora se aplicam aos enviados comerciais.
Entre os ficheiros estão emails encaminhados por André a Epstein com detalhes das suas viagens oficiais como enviado comercial do Reino Unido. Em novembro de 2010, por exemplo, o ex-príncipe demorou apenas 5 minutos para encaminhar ao criminoso sexual um relatório enviado pelo seu assistente especial, Amit Patel, acerca das discussões realizadas durante visitas a Hong Kong, Singapura, Vietname e China. Foi também nesta altura que André e Epstein terão planeado abrir um negócio na China que usaria a “aura e acesso” do então príncipe para chegar a uma “rede global incomparável”. O filho de Isabel II terá inclusive usado uma das viagens oficiais como enviado especial do Governo britânico para reunir com Jes Staley, antigo CEO do banco Barclays, que na altura era um dos principais executivos do JP Morgan e uma figura próxima de Epstein.
Em conversa com o Observador em agosto de 2025, Andrew Lownie, autor de uma biografia não autorizada dos duques de Iorque, disse que considerava que “o verdadeiro escândalo de André é financeiro”. “Tenho inúmeros exemplos em que usa posições públicas para fazer dinheiro, particularmente quando era um representante especial de comércio e negócios, quando trouxe os seus próprios amigos de negócios para as viagens oficiais. Também criou algo chamado Pitch@Palace, que era para juntar empreendedores e investidores, e ficou com uma comissão de 2% sobre o dinheiro dos investimentos, o que é contra as regras. E isso foi algo que foi apoiado pela Rainha, em palácios reais e era suposto ser uma iniciativa de caridade. Temos também exemplos de André a trabalhar com o Presidente do Cazaquistão e com o Presidente do Azerbaijão em negócios, e a assegurar uma comissão de novo. Nada a ver com o seu trabalho para promover os negócios britânicos. E temos vários casos em tribunais em que pagamentos extraordinários foram feitos e ele não explica o motivo. Acho que há argumentos fortes para ser investigado pelas autoridades”, apontava o historiador e jornalista na altura.
Foi em 2014 que André criou a iniciativa Pitch@Palace, em que juntava startups a grandes investidores em eventos realizados em palácios reais. Quando foi fundada, a organização era sem fins lucrativos, contudo quando passou para o portefólio privado do ex-príncipe, em 2019, o projeto expandiu-se para outros países, incluindo a China, onde foi gerido por Yang Tengbo, o cidadão chinês expulso do Reino Unido por ser considerado um espião. Em 2021, o braço britânico da organização foi fechado, porém a parte global da iniciativa continuou em funcionamento — em 2024 uma empresa neerlandesa, a Startup Bootcamp, terá tentado comprar a iniciativa, por um valor que a imprensa britânica especulava ultrapassar o milhão de euros. O desejo do ex-príncipe André “vender a antiga rede de contactos da Pitch@Palace” terá surgido depois de o Rei Carlos III ter cortado a sua mesada, em junho de 2024. A empresa dos Países Baixos chegou a ter a princesa Eugenie num dos seus eventos no Japão, contudo, com o escrutínio público acerca das relações de André com Epstein no último ano, o negócio não se terá concretizado. O filho de Isabel II fechou todos os seus negócios em novembro de 2025, depois de perder os títulos reais.
A retirada completa da vida na realeza concluiu-se no final de janeiro, quando André deixou o Royal Lodge rumo à propriedade privada da família real em Norfolk. Quem também abandonou a mansão de 30 quartos em Windsor foi a ex-mulher do antigo duque de Iorque, Sarah Ferguson, que desde então não foi mais vista. Segundo o The Sun, a antiga duquesa de Iorque, que viveu por décadas com o ex-marido apesar do divórcio, terá saído do Reino Unido pouco depois da mudança, no início de fevereiro. De acordo com o Daily Mail, Ferguson terá passado alguns dias com amigos nos Alpes franceses e depois seguiu para os Emirados Árabes Unidos. A antiga duquesa também terá acompanhado a filha mais nova, a princesa Eugenie, numa feira de arte em Doha, no Qatar.

A mugshot, o ADN e as digitais
Depois de ter sido detido pela manhã, as autoridades não revelaram mais nada sobre o ex-príncipe até a sua libertação pelas 19h30. “A polícia de Thames Valley não fará novos comunicados e não vai dar uma conferência de imprensa nem entrevistas em relação a esta investigação”, dizia o comunicado divulgado logo depois da notícia ser publicada pelos órgãos de comunicação social. De facto a polícia só voltou a comunicar no fim do dia. De Sandringham, André foi levado para a esquadra de Aylsham, onde possivelmente terá sido interrogado, mas não se sabe exatamente o que se passou lá dentro. Contudo, a julgar pelas declarações de Keir Starmer ainda antes da detenção do ex-príncipe, em que afirmou que “ninguém está acima da lei”, o antigo duque de Iorque terá seguido os mesmos passos que qualquer outro suspeito, o que significa que os agentes lhe podem ter tirado uma fotografia, assim como recolhido ADN e impressões digitais.
Depois de seis horas da detenção, o suspeito tem o direito a ficar alojado numa suite de custódia, que terá pelo menos uma cama e uma casa de banho. A polícia também pode oferecer uma muda de roupas ao detido, que aguarda nesta espécie de “cela” pelo momento do interrogatório — podem decorrer várias sessões ao longo da detenção, com pausas para que o suspeito possa comer e dormir, se necessário. Muito provavelmente refeições diferentes das que o ex-príncipe planeava ter no seu dia de anos, e definitivamente muito menos extravagantes do que as que estava acostumado ao longo das suas mais de seis décadas de vida.
Mais de onze horas depois de ser preso em Sandringham, as autoridades libertaram o ex-príncipe sob investigação. Às 19h21 a imprensa britânica publicou a primeira fotografia de André — a tentar deitar-se no banco de trás de um Range Rover preto, de modo a não ser visto. O carro havia entrado cerca de cinco minutos antes na garagem da esquadra. Uma imagem muito menos glamorosa do que se esperaria para o aniversário de um membro da realeza britânica. A libertação, entretanto, não significa que André se verá livre do escrutínio. Ainda não se sabe se as autoridades vão apresentar uma acusação formal ao ex-príncipe, mas para além da investigação da polícia de Thames Valley, que continua, a Polícia Metropolitana de Londres já anunciou que está a averiguar alegações de que a segurança (agentes da polícia Metropolitana) de André terá “fingido não ver” o que acontecia na ilha privada de Epstein durante as visitas do ex-príncipe no início dos anos 2000, enquanto o Parlamento britânico diz querer investigar a atuação do filho de Isabel II como enviado comercial do Reino Unido.
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