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(A) :: Ramón Galarza: "Um dia, o meu pai perguntou-me 'achas que consegues atinar e tocar connosco?'. Nunca mais parei"

Ramón Galarza: "Um dia, o meu pai perguntou-me 'achas que consegues atinar e tocar connosco?'. Nunca mais parei"

O músico e produtor tem um disco novo, “SONUS”, que assinala as cinco décadas de carreira. Em entrevista, reflete sobre a trajetória pessoal que se confunde com a história pop rock portuguesa.

Ricardo Farinha
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Ramón Galarza nunca quis escapar ao destino de ser músico. Filho do maestro basco Shegundo Galarza, cresceu a ouvir os ensaios com Simone de Oliveira ou Tony de Matos. Em criança já tocava piano, na época do liceu chegaram as bandas de garagem mas também os concertos com o pai. Aos 18 anos inaugurava de forma marcante uma carreira profissional ao ser convidado para tocar percussão num álbum de José Afonso, Com As Minhas Tamanquinhas, fruto de todo o tempo que passava nos históricos estúdios de Arnaldo Trindade em Lisboa. 50 anos depois, celebra o seu vasto e prolífico percurso na música com a edição de um novo disco com a sua Ramón Galarza’s Band, SONUS, onde explora um jazz de fusão de múltiplas influências.

A sua trajetória pessoal confunde-se com a história da música pop rock portuguesa das últimas cinco décadas. Entre muitos outros, gravou o emblemático 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte com José Cid, tornou-se membro da Banda Sonora de Rui Veloso — com quem gravou discos como Ar de Rock e Fora de Moda —, produziu álbuns dos Xutos & Pontapés e fez parte da formação ao vivo da banda durante uma década.

Paralelamente, enquanto produtor, arranjador e diretor musical, tem há 40 anos em Miraflores, no concelho de Oeiras, os estúdios Tchatchatcha — serão muito poucos os estúdios de música em Portugal com tamanha longevidade. Ramón Galarza tem sido ainda uma figura importante no mundo televisivo, d’O Tal Canal à Rua Sésamo, passando por Diz que é Uma Espécie de Magazine. Assinou os genéricos de inúmeras telenovelas e programas, foi júri de concursos de talentos como Ídolos e Chuva de Estrelas e trabalhou como produtor da RTP em diversas edições da Eurovisão.

Depois de uma vida inteira a gravar, produzir e tocar para outros, na última década e meia tem apostado em composições próprias ao editar uma série de discos — um processo que descreve como um “hobby” paralelo à sua profissão. Aos 68 anos, com o estúdio de portas abertas e a criatividade a fluir diariamente, não dá sinais de abrandamento, embora assuma que já não possui a “pica de há 20 anos”. Em entrevista, reflete sobre as cinco décadas que passaram.

Está a celebrar 50 anos de carreira. O momento inaugural do seu percurso profissional foi quando foi convidado para trabalhar com José Afonso, em 1976?
É difícil situar exatamente, porque nunca me preocupei muito com essas coisas. Também aproveito para referir que estar a fazer 50 anos de carreira e sair um disco novo é uma coincidência, não pensei nisso. Mas antes de ter tido essa sorte de o Zeca Afonso me convidar para tocar no disco dele, eu já tocava. Na altura tinha acabado o liceu e o meu pai, sendo um músico com algum sucesso, dizia-me que eu tinha muito talento, mas que se calhar deveria tirar outro curso, porque a vida de músico é difícil.

Até os pais músicos são assim.
Exato. Ainda tentei, passei uns tempos em Belas-Artes, mas eu queria era ser músico e aquilo era muito forte dentro de mim. Comecei o curso de Arquitetura, tinha algum jeito para desenho e era uma área de que também gostava, mas a vontade de ser músico era muito superior.

Como filho de um músico, começou a tocar instrumentos cedo?
Sim, aos cinco ou seis anos, comecei no piano. O gosto pela bateria apareceu-me mais tarde, devia ter uns 13 ou 14. Aí tive uma banda de garagem com uns amigos do bairro. Éramos os Ad Praxis.

No universo do rock?
Sim, mais por aí… Ouvíamos muita música, éramos um bocadinho alternativos, mas foi o começo e foi quando também comecei a sentir o prazer de tocar. Fui estudando e praticando. E também toquei com o meu pai.

Nessa altura?
Se bem me recordo, tinha 16 anos. O meu pai costumava tocar em eventos, em congressos, e havia um evento no hotel Ritz. Era música de entretenimento, não é? E o baterista que costumava tocar com ele adoeceu, ele fez uma série de chamadas e não conseguiu arranjar ninguém, estava aflito. Então virou-se para mim e disse: “Ouve lá, tu achas que consegues atinar e tocar connosco?” Fiquei um bocadinho aflito, mas disse “claro, vamos embora”. Lembro-me de termos ido comprar um smoking, que eu não tinha, e foi a minha estreia como músico remunerado. Nunca mais parei.

Essa experiência foi importante para perceber que queria mesmo ser músico?
Sim, acho que já queria independentemente disso, mas foi um passo importante. Foi a primeira vez que subi a um palco e encarei um público… Não era um concerto normal, mas não interessa, estamos expostos. Estava muito nervoso, mas a coisa correu bem. Também não era de grande responsabilidade musical.

E em sua casa ouvia-se muita música, imagino.
Sim, não só ouvíamos muita música, porque o meu pai comprava muitos discos e interessava-se, como também havia um grande movimento de artistas lá em casa. O meu pai fazia arranjos para muitos cantores, portanto eles iam lá a casa. A Simone de Oliveira, a Madalena Iglésias, o Tony de Matos… E eu ouvia-os a cantarem, a escolherem o tom. Era algo que acontecia com muita regularidade e eu gostava daquilo, achava graça, também sempre me interessei muito pelos estúdios, pela gravação, isso tudo. Muitas vezes prescindia de jogar à bola com os meus amigos porque ia com o meu pai para o estúdio. Desde muito novo que fui adquirindo essa paixão.

"O Zeca Afonso um dia deve ter dito 'eh pá, o puto tem jeito'. E foi ótimo, o Zeca era um indivíduo espetacular. Era muito sui generis, na maneira como transmitia aquilo que ele gostaria que acontecesse… Não era por pautas ou notas, era mais por sentimentos e conversas. Foi uma primeira experiência profissional muito interessante."

Acredita que o facto de ter enveredado por esta área da música — por se ter tornado um produtor, um arranjador, por ser responsável de um estúdio — tem muito a ver com o trabalho que o seu pai fazia e com a influência que isso teve em si?
Sim, porque gostei sempre muito. Via o meu pai sentado ao piano, com a pauta à frente, a escrever os arranjos. Sempre me interessei muito e ele ajudou-me muito nisso, aprendi muito com ele. Principalmente a nível de orquestração.

E como é que em 1976 é convidado por José Afonso para tocar no álbum Com As Minhas Tamanquinhas?
Porque havia um estúdio do Arnaldo Trindade, que tinha a editora Orfeu, ali em Campolide. E passavam por lá artistas tão diversos como o Quim Barreiros, o Adriano Correia de Oliveira, o Zeca Afonso… O primeiro andar era a editora, os artistas iam lá para tratar de assuntos ou o que fosse, e por baixo ficava o estúdio. Portanto, havia ali um convívio entre artistas que era muito interessante. É uma coisa de que sinto imensa falta hoje em dia, já de há uns tempos para cá que acho que as pessoas se dão pouco. Há muitos guetos, estão muito separados pelos estilos de música. Na altura, a gente dava-se e falava mais. E eu já tinha feito algumas gravações no estúdio e aquilo era um mundo muito pequeno. No que toca à gravação, na altura aquele era o centro da música em Portugal. E o Zeca Afonso um dia deve ter dito “eh pá, o puto tem jeito”. E foi ótimo, o Zeca era um indivíduo espetacular. Era muito sui generis, na maneira como transmitia aquilo que ele gostaria que acontecesse… Não era por pautas ou notas, era mais por sentimentos e conversas. Foi uma primeira experiência profissional muito interessante. Tive muita sorte, devo muito a esse estúdio, que ainda por cima era muito perto do Liceu Francês, onde eu andava. Em 10 minutos estava lá e muitas vezes baldava-me às aulas para ir. Ajudava a arrumar o estúdio, os cabos, gostava daquilo. E depois proporcionou-se, não diretamente com o estúdio mas porque ele também fazia parte desse mundo, o 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, do José Cid.

Foi um pouco depois, em 1978.
Sim, veio na sequência. Ainda hoje agradeço essas oportunidades que tive tão cedo. Acho que as soube aproveitar, mas tive muita sorte. E também conhecia o Zé Cid por outras vias. Ele era amigo do meu pai, ou conhecia o meu pai, e já me tinha visto a tocar com ele, já tínhamos conversado.

E como foi a experiência de gravar esse disco, que se revelou um marco?
Está a ver um puto com 18 anos a tocar com músicos da craveira do Mike Sergeant, do Zé Nabo? Eu já era muito fã do Zé Nabo…

E depois fez o projeto Tempo com ele, não é?
E para mim foi uma satisfação enorme: ter escrito uma primeira música e ela ser editada.

Havia liberdade, no contexto da época, para que músicos de estúdio como o Ramón pudessem experimentar e explorar a sua própria criatividade quando trabalhavam com os autores?
O 25 de Abril tinha acontecido pouco tempo antes, mas até acho que essa liberdade sempre existiu. Só não havia tanta porque existia uma certa tendência para se criarem grupinhos, por questões puramente musicais ou por questões políticas. E às vezes as pessoas estavam um bocado separadas. Nunca quis saber disso. Quer dizer, interesso-me por política, gosto muito de música, mas não misturo as coisas. E vejo bons seres humanos e bons músicos em todas as áreas, tal como vejo maus.

Nos tempos do PREC, o circuito da música estava bastante polarizado?
Estava, era como uma vergonha ir tocar para determinados músicos, para uns tipos de esquerda ou vice-versa. Mas acho que passei sempre entre os pingos.

Houve muitas transformações no país nesse período, mas sente que o ambiente em torno do meio musical também mudou de um momento para o outro?
Claro, teve influência. Deixaram-se cair preconceitos até musicais, só por aí tornou-se mais saudável. Houve mais possibilidade para as pessoas abrirem a mente e serem elas próprias, sem receio de serem perseguidas ou culpabilizadas. E depois o disco que fiz com mais impacto, a seguir, foi o Ar de Rock [1980], do Rui Veloso.

Também foi uma fase importante.
O Rui é um grande cantor e compositor. Foi uma sorte termo-nos conhecido. E houve outra coisa muito importante nesse período, que foi o boom que aquilo proporcionou em termos da indústria. Em Portugal, não havia uma empresa de som organizada. E depois do sucesso do Rui, a demanda por sítios maiores para se tocar aumentou, já implicava aparelhagens e sistemas de som melhores… Isso permitiu que começassem a haver pessoas investidas nessa área, a criarem-se condições de trabalho. Os primeiros concertos eram arrancados a ferro. Não tínhamos condições.

Ou seja, o Rui Veloso foi um dos grandes fenómenos populares que contribuíram para essa mudança de paradigma.
Sim, antes não havia. Mesmo os artistas que tinham algum sucesso, normalmente eram acompanhados por algum conjunto, como o do meu pai, o Jorge Machado, o Thilo Krassman, os maestros… Eram quatro ou cinco que faziam tudo na altura. Eram quartetos ou quintetos a acompanhar o artista, e depois, em casos muito especiais como o Festival da Canção, poderia haver uma orquestra. E de repente havia uma nova geração de músicos. Claro que isso abriu portas, as editoras tinham interesse comercial e começaram a abrir portas a outros géneros de música e artistas. Se não tivesse acontecido o sucesso do Rui, essas portas estariam fechadas muito tempo. Mas o Rui também não foi o pai do rock português, acho que isso foi um grande erro jornalístico, com todo o respeito. Quanto a mim, o Rui nem sequer faz rock, aquilo não era rock. Aquilo era uma música diferente, era mais ousada, tinha influências, sobretudo blues, mas… Houve muitos músicos e bandas boas, de rock, muito antes.

E acompanhou o Rui Veloso em vários álbuns, durante vários anos.
Sim, toquei com ele ao vivo muito tempo, depois deixei… Não porque nos tenhamos desentendido ou nada disso, continuamos a ser amigos, mas eu já estava com muito trabalho como produtor. Tinha uma agenda bastante ocupada. E apanhei o Rui ali numa fase um bocado mais desleixada da parte dele. Chegava atrasado aos ensaios… Depois eu tinha que me ir embora, porque tinha compromissos a seguir. E apareceram algumas incompatibilidades a esse nível.

Como é que chegou às circunstâncias de abrir os Tchatchatcha, em 1986?
Lá está, comecei a ter muitas encomendas e muito trabalho. Principalmente para produzir ou fazer arranjos para discos. Eu alugava estúdios para fazer os trabalhos, só que muitas vezes era para ontem. Precisava de estúdio e não havia, ficava pendurado. Aquilo começou a ser muito complicado. Então disse: “Tenho que ser independente, tenho que arranjar os meus meios de produção”. E começou assim. Primeiro era só para mim, para assegurar os meus trabalhos; depois, como também investi bastante em equipamento, tive que rentabilizar e abrir as portas. O que também é bom, porque é sempre um bom convívio.

"Os meus filhos estudaram música. A minha filha tocava muito bem violoncelo, mas depois desistiu. O meu filho toca muito bem piano, com muito estilo, mas interessou-se por outras coisas, formou-se noutra área, trabalha muito e, infelizmente, usa pouco o piano, que era do avô. Tenho pena. Mas é assim."

É um dos estúdios com maior longevidade em Portugal?
É. Pode dizer que sou um bocado incoerente, mas um estúdio de gravação não é um negócio. Ou seja, nunca investiria num estúdio para ganhar dinheiro. Consegui que este estúdio existisse e fosse saudável financeiramente porque também acho que tive algum bom senso e não me estiquei de mais. Tive grandes tentações, até de ir para um espaço maior, por vezes de comprar equipamentos melhores, mas tive sempre muito presente a realidade do país. De certeza que um mercado tão pequeno como o nosso não conseguia absorver investimentos tão grandes. E isso provou-se, até porque outras pessoas que o fizeram dificilmente conseguiram aguentar-se. Porque há muitas despesas, muita manutenção. Envolve muita coisa e não é fácil.

Quanto tempo é que hoje em dia passa no estúdio?
Hoje em dia passo menos. Já passei 16 horas por dia, era normal. Hoje em dia, até por questões pessoais, vivo a 300 metros daqui e tenho um estúdiozinho em casa. A minha mulher precisa do meu apoio. Estou mais perto dela, portanto tenho estado mais em casa a trabalhar, a compor, a orquestrar, do que aqui. Aqui venho concretizar os projetos que tenha para fazer, normalmente preparo-os em casa e depois venho aqui gravar e ultimar.

E abriu o estúdio em Miraflores porque já vivia aqui perto?
Já vivia aqui, mas noutro sítio, tudo começou num apartamento aqui por cima. Tinha um quartinho onde fiz o meu primeiro estúdio, com um gravador de quatro pistas. Ainda trabalhámos ali um bocado, ainda se fizeram alguns discos.

Na altura também não deveriam existir muitos estúdios caseiros, algo que se tornou mais frequente já neste século.
Não, também foi o começo. Até foi um bocado mal visto, porque eu era amigo de muitos técnicos e donos de estúdios, era cliente e amigo e começaram com os nervos, “aquele gajo agora deu-lhe para fazer um estúdio”, mas eu precisava dele para conseguir cumprir as encomendas que tinha.

E depois, lá está, abriu um estúdio a sério.
Também porque gosto. É um prazer, continua a ser. Não tenho a pica que tinha há 20 anos, mas continuo a gostar muito.

Pouco tempo depois de abrir os Tchatchatcha, começa a trabalhar com os Xutos & Pontapés. Como é que se deu essa transição de passar de colaborar com o Rui Veloso para os Xutos?
Mais uma das coincidências da vida. Fiz uma digressão no Brasil como chefe de uma comitiva musical que reuniu artistas como a Adelaide Ferreira, Lena d’Água, José Cid, Marco Paulo e os Xutos & Pontapés. Era uma demonstração do que se fazia em Portugal. Os Xutos estavam lá, já nos conhecíamos, mas vagamente. Eu já tinha ido ver alguns concertos deles, conhecíamo-nos aí da má vida da noite — da má vida não, da boa vida. E no Brasil conhecemo-nos melhor e ficámos mesmo muito amigos. Acho que eles passaram a gostar muito de mim, e na sequência dessa viagem e desses convívios convidaram-me para produzir o 88 [1988].

E depois passou a integrar a banda ao vivo.
Sim, toquei na banda, mas um pouco mais tarde, já depois de um disco que é o Gritos Mudos [1990], que também produzi, com o Paulo Junqueiro. Foi gravado no Brasil. Não foi por imposição minha, mas muitos temas tinham teclados e eu toquei-os no estúdio. E depois eles acharam que fazia falta ao vivo e comecei a tocar com eles. Quase 10 anos com eles na estrada. Bastava um daqueles fins de semana de três concertos seguidos para a coisa complicar um bocadinho. Mas continuamos a ser amigos. Não trabalhamos juntos, mas jantamos juntos, encontramo-nos, rimos… Ficou uma boa relação. E é uma coisa que me orgulha, uma banda tão importante como os Xutos, que representam tanto neste país, poder ter estado envolvido no projeto…

Também foi durante os anos 80 que começou a trabalhar na televisão, fazendo a música para genéricos ou trabalhando como diretor musical em programas. Sempre foi um mundo que lhe interessou?
Não muito. Era trabalho e era necessário, mas nunca gostei muito do ambiente que se vive no mundo televisivo. É diferente da música, há muita competição, muitas relações sonsas, não gosto disso. Continuo agradecido pelo que me proporcionou e quando o fiz, fi-lo da melhor maneira possível. Mas nunca me atraiu muito. Em televisão, aquilo de que gostei mais foi ter tido a oportunidade de dirigir uma orquestra no Festival da Canção. Isso marcou-me, havia poucas oportunidades para que acontecesse. E gostei muito de fazer O Tal Canal, na altura foi uma pedrada no charco. Alterou muita coisa na forma como as pessoas passaram a ver a própria televisão. Sobre os genéricos, vivi sempre a lutar contra o tempo. Em Portugal, a planificação nesta área sempre foi muito deficitária. As encomendas eram feitas com muito pouco tempo de preparação, vivia sempre com o stress de cumprir os prazos. Era sempre para ontem. Houve uma série de que gostei muito de fazer a direção musical, a Rua Sésamo. Aprendi muito e deram-me bastante liberdade criativa. Depois fiz peças para documentários dos mais variadíssimos temas, o que também foi muito bom. Como era muito volume de trabalho, muito rapidamente tinha que me virar. Claro que há uma música ou outra de que não gosto assim tanto, mas foi o que saiu na altura, não tinha outra maneira de fazer. E foi das coisas que me deram mais rodagem.

Só viria a lançar o seu primeiro álbum em nome próprio em 2009. Porquê tanto tempo depois?
Tinha a vontade, mas não tinha o tempo. Aliás, esse primeiro disco tinha músicas que eu já tinha há bastante tempo numa gaveta — ou num disco rígido. E na altura proporcionou-se e acho que comecei uma fase um bocadinho diferente da minha vida, passei a pensar mais naquilo que eu gostaria de fazer. Isto nunca pensando em ter sucesso, em ganhar dinheiro. Queria fazer coisas que me dessem gosto. E é o que tenho estado a fazer nesta última década e tal. Tenho estado muito mais focado nisso. E em 2009 permiti-me esse luxo, tinha os meios, os músicos amigos… Não fazer é que me iria ficar a remoer na consciência.

Mas quando era mais novo, quando começou a trabalhar na música, nunca pensou em fazer uma carreira em nome próprio?
Nada, nunca, queria era tocar.

E o disco novo, SONUS, apresenta um jazz de fusão.
Sim, acho que é rara a semana em que não faço duas ou três músicas para mim. São exercícios até de aprendizagem, de utilização de algumas coisas, experimentar sequências harmónicas, sei lá. Muitas não aproveito, mas aprendo ali qualquer coisa. E já tinha material, até tinha mais, e escolhi estas 10 canções porque também acho que é suficiente.

E obriga-se, com muitas aspas, a tirar tempo para a sua própria criação musical? Ou as ideias fluem espontaneamente e é simplesmente uma questão de ter tempo para as materializar?
É espontâneo, é uma vontade que tenho. A minha mulher caracteriza bem isto: eu não tenho hobbies. Quer dizer, gosto bastante de cinema, de literatura, mas o hobby que tenho é a música. Podia ser um daqueles maridos que vão à pesca, mas não, vou para o estúdio fazer música.

"Hoje há boas escolas, com bons professores, e isso reflete-se. Volta e meia passam aqui pelo estúdio jovens músicos e eu fico espantado, de boca aberta, com a qualidade dessa gente e pela atitude, pela educação. Acho que há mais seriedade. Nós éramos mais malandros, mais 'sex, drugs and rock'n’roll'. Hoje há mais profissionalismo."

No fundo, é como se este percurso a solo, em nome próprio, que tem vindo a trilhar nos últimos anos, fosse o hobby que existe dentro de toda a sua carreira musical.
É isso, sem pretensiosismos, sem me querer afirmar ou mostrar nada a ninguém… É aquilo que consigo fazer e que faço. Porque também é uma coisa de que não gosto nada. Há muitos colegas meus, músicos, que falam de projetos e “agora estou aqui num projeto”, mas depois não fazem nada. Eu posso não fazer nada de especial, mas faço. Quem quiser ouvir ouve, quem não quiser, não ouve. Quem gostar, ainda bem, que fiquem contentes. Quem não gostar, eu respeito. Também não gosto de muita coisa.

Mas para si também era importante deixar como legado composições suas, além de toda a restante carreira?
Sim, acho que sim. Deixar à minha família, aos meus filhos, aos meus netos. Se calhar há aqui um atrevimento da minha parte de ter feito, há três anos, um disco sinfónico [Symetrix Universe], de música clássica composta por mim. Consegui o apoio da SPA e pude gravar com a Orquestra Filarmónica Portuguesa. Isso também foi um desafio. É uma área que pode ser criticada porque não é muito a minha praia, mas eu gosto de música. E também gosto de música clássica e desses ambientes. Muitos amigos, pessoas mais próximas, descrevem a minha música como sendo cinematográfica. Eu estou de acordo. Tenho um bocadinho essa tendência, para transmitir determinado tipo de ambientes através da música. E não é só falar das coisas boas. Tenho uma carreira muito preenchida, mas uma frustração que tenho é só ter feito a banda sonora de uma longa-metragem. Era uma coisa que eu gostaria de ter tido a oportunidade de ter feito.

Ainda pode fazer.
Dificilmente. O Hans Zimmer anda a tirar-me o trabalho todo [risos].

Mencionou os seus filhos e netos. Há outros músicos lá por casa?
Os meus filhos estudaram música. A minha filha tocava muito bem violoncelo, mas depois desistiu. O meu filho toca muito bem piano, com muito estilo, mas interessou-se por outras coisas, formou-se noutra área, trabalha muito e, infelizmente, usa pouco o piano, que era do avô. Tenho pena. Mas é assim. Tanto eu como a minha mulher achamos que a música e o estudo da música fazem muito bem às crianças. E foi mais por aí do que estar a impor ou a esperar que um dia seguissem os meus passos ou os do avô.

Tirando as bandas sonoras de filmes, há alguma coisa que sinta que lhe falte concretizar na sua carreira? Alguém com quem gostasse de trabalhar?
Não, sinceramente estou muito agradecido por tudo o que fiz e tive oportunidade de fazer. Sonhos todos temos, adorava ter trabalhado com o Frank Zappa, é um dos meus ídolos. Acho que teria aprendido muito com ele, era um músico genial. Mas não tenho… Durmo em paz. Tive algumas experiências lá fora, houve uma altura em que era contratado para tocar em Espanha, também gravei em Abbey Road com o maestro José Calvário.

E no sentido contrário, tem algum arrependimento na música?
Também tive alguns problemas. Fui alvo de desfalques. Tive algumas situações complicadas a esse nível. Financeiramente, tive um cliente que me prejudicou muito, que me deu um cambalacho muito grande. Quase pôs em causa a continuidade da minha atividade, tal foi o tamanho do valor. Isso marcou-me, claro. De resto, pontualmente houve problemas ou avarias, mas não. Houve um disco da Banda do Casaco que não pude fazer… Eles já tinham o estúdio marcado com o Zé Fortes, e eu não pude porque já tinha outro compromisso e tive muita pena, porque gostava muito de trabalhar com eles. Mas é uma história engraçada porque coincidiu com a vinda do Peter Gabriel a Portugal. E um dos elementos da Banda do Casaco, o António Avelar de Pinho, na altura trabalhava na Polygram, não sei se já era Universal, e era quem representava o Peter Gabriel em Portugal. Foram buscá-los ao aeroporto, conheceram-se, acho que vinham na carrinha com o Jerry Marotta, um grande baterista [da banda de Peter Gabriel], e o António, por graça, disse: “Eh pá, tenho aqui uma banda e tal, mas o nosso baterista não pôde vir. Não queres vir gravar connosco?” Até foi numa de brincadeira, só que pegou. O Jerry Marotta é que gravou o disco por causa disso.

E depois de tudo o que fez, o seu instrumento de eleição continua a ser a bateria?
A partir do momento em que comecei a trabalhar em estúdio, descurei muito a parte de instrumentista. Porque um músico tem que treinar todos os dias se quiser atingir um certo virtuosismo. É como um atleta. Não é que eu pretendesse ser um virtuoso, mas descurei bastante essa parte. Não podia estar a fazer estas coisas e depois chegar a casa e ir fazer escalas de piano… Optei por me dedicar a esta vida de outra forma. Mas a bateria continua a ser o instrumento em que me sinto mais à vontade. Comecei em casa dos meus pais, a tocar nos copos com pauzinhos, acho que nasceu comigo. Também toco pianos, apesar de não ser um grande pianista, e cada vez pior porque não tenho estudado. Nem tocado, sinceramente.

Acompanhou as grandes transformações do mercado da música em Portugal ao longo das décadas. Como olha para toda esta evolução e para a música portuguesa de hoje?
Há uma grande evolução a todos os níveis, desde os estúdios ao conhecimento dos técnicos, que têm formação. Não tive oportunidade no meu tempo. Hoje há boas escolas, com bons professores, e isso reflete-se. Volta e meia passam aqui pelo estúdio jovens músicos e eu fico espantado, de boca aberta, com a qualidade dessa gente e pela atitude, pela educação. Acho que há mais seriedade. Nós éramos mais malandros, mais “sex, drugs and rock’n’roll”. Hoje há mais profissionalismo. Mas é um futuro que vejo com muita tristeza, porque viver da música está muito difícil. Só se ganha dinheiro a tocar ao vivo. Mas tenho ouvido coisas muito boas, acho que houve uma grande evolução, ainda sou do tempo em que quando um disco era gravado lá fora, nem que fosse em Espanha, notava-se… Hoje fazem-se coisas em Portugal ao nível de qualquer país do mundo, vejo muita qualidade.

As revoluções tecnológicas também foram enormes durante estes 50 anos. Foi-se sempre adaptando bem a cada pequena transformação que foi acontecendo?
Sim, foi mesmo das coisas que mais me interessaram. Até acho que fui dos pioneiros a usar os computadores na música. Os sintetizadores, os samplers… E na altura não tínhamos Internet, tinha que se comprar revistas para saber como é que as coisas funcionavam e para saber que elas existiam. Havia muito pouca possibilidade de comunicar com outros para tirar alguns ensinamentos. Portanto, considero-me, acima de tudo, um autodidata. Tive que me desenrascar, tive que aprender. Tinha sempre um manual na casa de banho, outro na mesinha de cabeceira… Foram anos e anos assim. Mas continuo a tentar estar o mais dentro daquilo de bom que a tecnologia nos oferece. Hoje continuo a fazer arranjos, mas faço no computador com os instrumentos virtuais. Consigo ter logo uma ideia — uma ideia não, consigo ver logo como vai resultar. Os andamentos, os tons, a instrumentação no geral… Antigamente estava tudo na partitura e na nossa cabeça. Só na altura de enfrentar a orquestra é que se tinha a noção de se aquilo estava bem ou não. Era muito stressante, mas também dava uma grande satisfação quando corria bem. Agora é mais previsível.

Tem explorado as novas ferramentas de inteligência artificial?
Sim, mas tenho-me assustado muito. Porque isto vai revolucionar completamente a forma de trabalhar. Muitos produtores, na área da publicidade, por exemplo, vão deixar de ter trabalho. Já há softwares que, se uma pessoa souber pedir bem, têm um resultado final extraordinário, uma qualidade de som magnífica. E eu tenho feito experiências com música minha. Sinceramente, acho que gosto mais daquilo que eu faço. Porque é aquilo que quero mesmo. Não quer dizer que as propostas que me são apresentadas não sejam boas, depois a partir do que os softwares propõem posso editar os ficheiros, trabalhá-los, mudar os timbres, sei lá. Já tenho tido alguns resultados bons e também gosto. Mas também há aqui uma questão de direitos de autor e estou um bocado verde nessa área. Tenho pena que o mercado já não pague por discos e os valores que nos pagam pelo streaming são ridículos. Devia haver uma justiça maior na distribuição entre a finança e a criatividade. A balança pende muito para o lado do poder económico, em detrimento do trabalho criativo. E qualquer dia as pessoas deixam de fazer. Fazem para quê? Para os amigos? Mas há um lema que tenho na vida: temos de ser felizes com o que temos e é isso que me faz continuar aqui, a encarar as dificuldades de forma positiva, há sempre uma alternativa para ultrapassar as coisas. Continuo a pensar assim.

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