É o resultado mais imediato da publicação dos Epstein Files e afeta diretamente a família real britânica. Ainda não é possível prever todo o impacto deste caso mas, com o que já se sabe, alguma coisa se pode dizer. Aqui estão três opiniões rápidas sobre o caso, de quem está habituado a olhar para as Relações Internacionais, para a História das Monarquias, e a acompanhar de perto os passos das famílias reais no mundo da política.
A detenção de André e a pressão sobre Keir Starmer
André Azevedo Alves, professor do IEP da Universidade Católica Portuguesa
A detenção de André Mountbatten-Windsor constitui um primeiro impacto internacional relevante das mais recentes revelações associadas aos ficheiros Epstein. Recorde-se que André já havia perdido os seus títulos e honras reais em 2025 na sequência de alegações vindas a público. A detenção evidencia também as interligações internacionais do caso, com ramificações muito para lá dos EUA e que colocam em causa vários segmentos da elite política, económica e social à escala global.
A detenção aumentará ainda a pressão sobre o próprio primeiro-ministro trabalhista, Keir Starmer, que, além de sofrer níveis historicamente altos de impopularidade junto do eleitorado, vê-se também indiretamente envolvido por via das alegações relativas a Peter Mandelson. Recorde-se que a nomeação de Mandelson como embaixador do Reino Unido nos EUA já depois de conhecidas as ligações a Epstein levou já à demissão do chefe de gabinete de Starmer, Morgan McSweeney, e tem feito aumentar de tom os apelos à demissão do próprio Keir Starmer.
Não é novidade, nem fará cair a Monarquia
Carlos Maria Bobone, autor do livro “Monarquia – História, doutrinas e heranças”
As implicações do caso do ex-príncipe André, para poderem ser avaliadas, dependem sobretudo daquilo que o ex-príncipe revelou e a quem revelou. Como por agora nada disso é conhecido, a única coisa que podemos saber, fora das considerações sobre a pessoa, é de que forma isto poderá pesar na imagem da monarquia.
Tem-se falado muito de um modo novo de lidar com o assunto. De uma situação que outrora seria encoberta e que agora é tratada com um zelo justificado pela ameaça que paira sobre a legitimidade da democracia. Historicamente, isto não é bem verdade. Não precisamos de ir à Idade Média para encontrarmos irmãos de reis presos com uma facilidade que nos choca; para lá das conspirações e jogos palacianos que ao longo de séculos envolveram infantes e resultaram na própria justiça a castigar conspiradores, a verdade é que, mesmo na Era Contemporânea, só podemos considerar este modo de lidar com o caso uma excepção se não tivermos em conta que a via processual como única via de lidar com o crime ou a culpa é bem mais recente do que achamos. O próprio caso de Eduardo VIII, que só ingenuamente pode ser tratado como uma renúncia amorosa, é prova disso mesmo. Não houve independência dos tribunais porque não era este o processo, mas a proscrição que resultou do caso foi igualmente verdadeira, como foram antes as prisões de vários príncipes sauditas em 2017. As monarquias não costumam ter grande pejo em condenar príncipes, coisa que até antropologicamente se percebe: um príncipe não herdeiro é sempre uma alternativa válida a um trono, pelo que não é bom que eles sejam os grandes heróis de um povo.
Há que acrescentar, também, que só num sistema que já vive com a ideia da sua ilegitimidade é que isto pode de alguma maneira afectá-la. Não costumamos usar como prova da ilegitimidade democrática o facto de podermos eleger corruptos; a corrupção de um irmão do rei pode confirmar a nossa crença sobre a ilegitimidade da monarquia, da mesma maneira que Sócrates podia confirmar a nossa crença sobre a ilegitimidade da democracia: apenas se já não acreditássemos nela.
Os britânicos podem confiar no seu sistema
João Távora, Presidente da Real Associação de Lisboa
A detenção do irmão do Rei de Inglaterra esta quinta-feira “por suspeita de má conduta no exercício de cargo público” constitui um escândalo para um monárquico que exige dos elementos que representam essa instituição uma conduta irrepreensível.
Por outro lado, essa detenção é em si um sinal de que os britânicos podem confiar no seu sistema político, a monarquia, em que vivem: o sistema, “onde ninguém está acima da lei”, funciona. A situação leva-nos a supor que só numa democracia extremamente evoluída a justiça consegue funcionar deste modo independente, onde, como diz o Vice-primeiro-ministro britânico “Ninguém neste país está acima da lei”. Perguntamo-nos em quantas repúblicas por esse mundo fora (desde logo a nossa) tal seria possível.
Mas hoje é um dia infeliz para os monárquicos. Nos sistemas políticos modernos, complexos e transparentes, que só são possíveis com instituições fortes, os representantes da coroa (que nos dias que passam possuem um papel em grande medida simbólico) carregam sobre si a exigência do exemplo, de uma conduta irrepreensível. Para aqueles que acreditam que a Família Real é um importante ativo para os equilíbrios políticos e sociais nas mais antigas (e livres) nações europeias, a prisão de André Mountbatten-Windsor é uma má notícia. Uma má notícia para a civilização ocidental.
O que nos vale é que a má notícia em si mesma significa a capacidade de um regime se corrigir e regenerar. Os outros, não se corrigem, e quando o fazem é à custa de ruturas muito mais dolorosas e sangrentas. Para sofrimento do povo.