Mais de 30 anos desde os primeiros discos de rap português, editados em 1994, o imaginário e panorama musical do género tem-se vindo a expandir em múltiplas direções, contaminando e deixando-se contaminar por outros sons e abordagens. Um dos nomes mais entusiasmantes que surgiram ao longo da última década é Francisco Santos, que assina como xtinto. Rapper e letrista, tanto é herdeiro dos cânones do hip hop como dos cantautores de Abril.
A sua grande referência nessa área, Sérgio Godinho (ele próprio com uma cadência vocal que frequentemente faz lembrar o rap), inspirou o título do disco que lança esta sexta-feira, 20 de fevereiro: em sonhos, é sabido, não se morre. A capa é uma reconstituição de Na Vida Real, álbum de Sérgio Godinho de 1986, que inclui o tema Lisboa Que Amanhece, onde xtinto foi encontrar o título para o seu novo trabalho.
“Quando ouvia essa música, essa frase parava-me sempre”, conta xtinto ao Observador. “Desde puto que me deixa a pensar, inicialmente de uma forma concreta: será que não se morre nos sonhos? E depois ganhou este outro significado para mim: já que nos sonhos é impossível morrer, é isto que tenho que fazer para o resto da minha vida.”
O renascer das cinzas após um sonho moribundo
O novo disco, sofisticado e coeso, que espelha a evolução e o amadurecimento artístico do seu autor, foi construído durante um período turbulento da vida de Francisco Santos. No verão de 2024 — um ano após lançar Latência, o seu primeiro longa-duração — o músico natural de Ourém chegou mesmo a ponderar desistir da música.
“Estava mega desmotivado, foi uma exaustão de tudo. Isto é uma indústria que às vezes requer um certo cinismo para o qual não estou preparado. Há todas estas coisas chatas adjacentes à profissionalização de uma paixão. Quando comecei, era só fazer música. Depois há toda a burocracia, a indústria, os contratos, a promoção… E ficas num sítio tão mau mentalmente que começas a fazer uma música e já te estás a lembrar de tudo o que te desmotiva, é um dominó gigante.”
[o primeiro single do novo álbum, “Assunto Meu”:]
Pensando seriamente em mudar de ofício, começou a questionar os amigos com “trabalhos normais” sobre o que faziam, as respetivas condições, a motivação que tinham ou não. “O que estive mais perto foi de ser camionista, pensei mesmo em tirar a carta [de veículos pesados] e a pesquisar sobre isso. Estava mesmo convencido.”
Em setembro de 2024, deixou Lisboa para fazer um retiro. Combinou com a sua editora, a Sony Music Portugal, que iria adiar os lançamentos previstos para aquela altura do ano. Interrompeu a escrita e a criação de música, não aceitou os cada vez mais frequentes pedidos de outros artistas e agentes para trabalhar como letrista. Deixou de consumir bebidas alcoólicas e começou a tomar medicação. “Na altura tinha muitos ataques de pânico e crises de ansiedade, estava em busca de uma purga porque sentia que não estava mesmo bem e que precisava de mudar alguma coisa.”
As circunstâncias eram difíceis, mas o momento de reclusão e afastamento acabou por resultar. No final desse ano, já estava “com a pica toda” para voltar aos temas em que estava a trabalhar para este segundo álbum. Depois de ter participado num writing camp para um álbum de Iolanda (que também participa neste novo disco, no tema Tempestade), xtinto apercebeu-se de que esse também poderia ser o método certo para criar a sua música. Em janeiro de 2024, reunira o seu núcleo duro de colaboradores musicais, muitos deles ligados ao coletivo e estúdio Munnhouse, para uma residência de onde saíram cerca de 40 demos. Nesse verão, tinha feito outro writing camp do mesmo género. As angústias, frustrações, dúvidas e tormentos que o levaram a retirar-se em setembro acabaram por se revelar a principal matéria-prima para este álbum. “É algo que está muito presente [no disco]: é a vontade que eu tinha de morrer para o sonho, o sonho que comanda a minha vida, e não ter conseguido.”
Em Bobo da Corte, escreve especificamente sobre as dificuldades enquanto músico, uma vida tantas vezes romantizada. “Isto é simples, não caminho para novo/Vão aparecendo contas e eu humildeci/Aos 25 pensei: isto está bom/E depois eu estou nas lonas a pensar se sigo/A vida é um circo à Chapitô/Sempre a dar para palhaço, um gajo ri de si/Eu dou um gig e nem sei se dou outro/E já há people lá da zona que diz que enriqueci”, canta no refrão.
Noutra faixa, intitulada Kintsugi, rima sobre a inércia e a sensação de sufoco dentro da cidade. “É o que sinto quando estou em Lisboa, mesmo que ande de um lado para o outro há uma inércia, é sempre muito igual. Quando estou em Ourém, dá para fazer mais coisas, é mais amplo, estou muito mais liberto, não tenho pressa para nada. E na Dividir [o próximo single] também falo do amor aos meus amigos e à minha família, que foram um fator fundamental.”
https://www.youtube.com/watch?v=7s7I8WxLWMo
No centro de Dividir estão também versos de intervenção social, em resposta à situação política do país. “Nunca me vão livrar da liberdade/Não me agarram não/’Tão a ganhar força onde eu não vi verdade/Não me agrada não/Já vem do meu sangue essa mentalidade/Pão na mesa: dividir, dividir/Mesmo tendo pouco ou nada/Hoje o lema é dividir”. Já no single Assunto Meu, o primeiro avanço do disco, criticara a apatia e a inação que observa na sociedade, em particular no contexto da violência doméstica. “Não é assunto meu/Não meto a colher/Não meto o nariz/Ah, não é assunto meu/Entre marido e mulher é que se faz um país/Mas não é assunto meu”, escuta-se no refrão.
Em Pergunta Honesta, explora as insónias e as inquietações da mente. “E logo à noite a Lua vem/E o dia acaba para todos/É quando o meu começa/Peso nesses ombros e mão a bater na testa/Fecho os olhos na esperança que adormeça/Faço a pergunta honesta/porque é que esta cabeça é tão boa durante a tarde quando é para fazer a sesta/E à noite quando é para dormir não presta?” Para xtinto, representa bem a “fase menos fixe” da sua mente naquele ano.
O writing camp enquanto modelo de criação, o concerto de apresentação e a tragédia em Ourém
Enquanto estava “afogado nessa negatividade”, não conseguia ser criativo nem pegar na caneta. Quando, uns meses depois, deu o volte-face à situação, já se conseguiu “afastar do quadro para o escrever”. “De repente, parecia que estava a escorrer tudo. Por isso é que hoje em dia respeito muito os meus bloqueios criativos. É preciso respeitar o tempo. Antes ficava a stressar, a pensar que iria desaprender, que já não sabia andar de bicicleta.” Foi marcado um terceiro e último writing camp onde se fecharam todas as faixas. Foi quando o disco começou a ganhar uma coerência estética graças à visão de xtinto e dos seus co-produtores executivos, Kidonov e Lunn, companheiros na Munnhouse. “Foi quando o alinhamento ficou todo certo, fechei os versos que precisava, pensámos nos feats que poderíamos ter para os sons inacabados. Foi o camp que marcou mesmo o meu reapaixonar, já estava entusiasmado e foi um passo muito importante para a construção do álbum.”
Neste segundo longa-duração, xtinto procurou conscientemente apresentar uma escrita mais acessível, com menos jargão do rap e com uma linguagem menos críptica — ainda que não haja um afastamento do estilo que o caracterizou até aqui. Francisco Santos conta que os seus pais costumam ser o barómetro para avaliar essa dimensão da sua música. “Às vezes tinha alguma… Não é vergonha, mas reticência em mostrar-lhes uma música, porque eles não vão perceber o que estou para aqui a dizer. E agora não tenho isso. Mostro-lhes este álbum e eles percebem perfeitamente o que estou a dizer. Até me estou a aproximar mais daquilo que é o meu diálogo no dia a dia e é algo de que gosto. É o que também procuro nos rappers que admiro.”
Musicalmente, há temas com uma atmosfera mais digital — como Tóxico, com João Não; ou Prisma, com L-ALI — e outros em que explora uma sonoridade mais orgânica, mais de encontro aos cantautores que também sempre o inspiraram. É o caso de Felismina, uma canção gravada ao vivo com banda que descola completamente do rap em direção a novos destinos musicais. “Foi a primeira vez que compus assim e adorei. Qualquer dia fazemos um camp só assim. Mas precisamos sempre de um produtor, alguém que diga ‘esta linha e aquela são fixes, ‘bora lá gravar’, se não ficamos numa jam session infinita.”
Não sendo nem pretendendo ser um virtuoso, xtinto também tem vindo a criar cada vez mais à guitarra, ao “arranhar três ou quatro acordes” que já servem como base para escrever uma letra para aquelas melodias. Mesmo que, na versão final do tema, nem haja qualquer guitarra na equação — foi só uma ferramenta para gerar as notas certas e acender a ignição para um tema.
Basta ouvir Interlúdio da Casa do Vale, que xtinto possivelmente quererá desenvolver para uma canção completa, para perceber que foi um momento espontâneo que acabou por ser gravado e se tornou numa das 16 faixas do disco. “Gosto que a criação em grupo transpareça. [No processo dos writing camps] até podes pensar, como eu pensei primeiro: vais para uma casa com os teus amigos e não vai ser assim tão produtivo. Mas a malta chega, de repente já há três computadores montados, cada um numa ponta da casa e três pessoas a trabalhar em coisas diferentes. Tu andas ali de um lado para o outro, a ver o que é que pinga mais…”
A 11 de março, xtinto faz o seu maior concerto de sempre em nome próprio, para apresentar em sonhos, é sabido, não se morre no Capitólio, em Lisboa. Promete tocar o disco na íntegra, mesmo que não seja pela ordem do alinhamento, e incluir temas emblemáticos de trabalhos anteriores, como Éden e Marfim. Ao vivo, estará acompanhado por Guilherme Eugénio (baixo), Samuel Louro (guitarra), Pedro Antunes (bateria), Tomás Martin (saxofone) e Billy Verdasca (flauta e sons digitais), vários dos quais tocaram no disco. “Estou nervoso, quero ter aquilo cheio e agora é a parte dos nervos, mas o álbum tem de sair para a malta se decidir. Vai ser um concerto íntimo e bacano”, antecipa. Em breve, outras datas de apresentação serão anunciadas.

Quis o destino que as semanas de antecipação para o lançamento do álbum e para o concerto de apresentação fossem marcadas por um “comboio de tempestades” que foi particularmente violento na região centro de Portugal Continental — o concelho de Ourém foi um dos muitos municípios em que foi decretada a situação de calamidade. Quando o Observador se encontra com xtinto, o artista está nos bastidores na Casa Capitão, em Lisboa, para um concerto solidário de vários músicos que se juntaram para arrecadar fundos para ajudar na reconstrução.
Embora ainda seja cedo para pensar nisso, xtinto já admite que este acontecimento trágico poderá vir a marcar a sua música daqui em diante. “Todas as experiências por que passo, especialmente as fugas à rotina, acabam por me dar letras ou ideias. E esta foi a maior fuga à rotina que já tive na vida. Impactou-me muito mais do que, por exemplo, a Covid-19. Ver a minha zona toda devastada, ver pessoas que conheço com as casas viradas do avesso. Têm sido semanas intensas. Andamos no terreno a ajudar pessoas, de telhado em telhado. Há coisas que te marcam muito, a gratidão das pessoas por estares ali. Não és empreiteiro nenhum, estás a fazer o pouco que podes com o nada que sabes. Mas a ajudar porque queres ajudar e não estás a ganhar nada. Estás só, na verdade, a fazer um trabalho pela tua comunidade que representa um bocado a inação de todo um governo. O que eu vi foram pessoas que conheço a desimpedir estradas, pessoas que conheço nos telhados de outras pessoas que conheço. Vi um carro do exército ao fim de uma semana. O povo é resiliente e já sabe que só pode contar consigo muitas das vezes, o que é muito triste. Há um desinvestimento público brutal. Mas a missão aqui no concerto já está ganha, esgotámos a sala.”