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Encontros com mulheres, as dívidas e negócios no Afeganistão. As ligações do ex-príncipe André a Epstein

Epstein facilitou encontros entre André e mulheres ao longo dos anos. Antigo príncipe revelou informações confidenciais sobre negócios ao milionário, que pagou dívida de Sarah Ferguson.

José Carlos Duarte
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É um escândalo que está a abalar a família real britânica há anos e que teve, esta quinta-feira, a consequência mais séria. As ligações de André Mountbatten-Windsor, irmão do Rei Carlos III e filho da rainha Isabel II, ao milionário Jeffrey Epstein — acusado de montar uma rede sexual com menores — têm sido fonte de embaraço para a monarquia no Reino Unido. À medida que o Departamento de Justiça norte‑americano divulga novos documentos, torna‑se mais claro o carácter problemático da relação entre os dois homens, que terá incluído encontros com menores e a divulgação de informações confidenciais.

Esta quinta-feira, no dia em que cumpria o seu 66.º aniversário, o antigo príncipe André (a quem já foram retirados todos os títulos reais) foi detido. O irmão do Rei Carlos III está sob “suspeita de má conduta no exercício de cargos públicos”, de acordo com as autoridades britânicas, e foi libertado quase doze horas depois continuando a ser investigado. Os detalhes da acusação ainda não são públicos, mas estarão relacionados muito provavelmente com o caso Epstein. Aquele que era tido como o filho favorito da Rainha Isabel II já tinha caído em desgraça, mas a detenção mancha ainda mais a sua reputação.

Os documentos do caso Epstein mostram uma relação de bastante proximidade entre o ex-príncipe André e o empresário norte-americano. Numa entrevista em 2019 à BBC, o irmão do Rei tentou distanciar-se de Jeffrey Epstein e garantiu que tinha cortado comunicações com o milionário em 2010, após visitá-lo em Nova Iorque. Contudo, os ficheiros revelados recentemente pelo Departamento de Justiça mostram que, afinal, os dois homens mantiveram uma relação de proximidade que se prolongou além disso.

Além da amizade que terão mantido durante anos, o antigo membro da realeza britânica parecia interagir com aliados e figuras públicas próximas de Jeffrey Epstein, que explorava a influência do ex-príncipe a seu proveito. O filho da Rainha Isabel II procurou receber apoios financeiros do empresário norte-americano, sendo que, em troca, facilitava contactos e oportunidades de negócio para o milionário. E havia ainda algo que os unia: as festas na ilha de Epstein e os encontros organizados entre André e várias mulheres.

As acusações de abusos sexuais de André a Virginia Giuffre e a uma mulher desconhecida

Corria o ano de 1999. Foi quando o ex-príncipe André conheceu Jeffrey Epstein, através da sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, que está atualmente a cumprir uma pena de 20 anos de prisão por tráfico sexual. Partilhando circuitos sociais da aristocracia britânica e do mundo do espetáculo, foi a responsável por aliciar raparigas para a rede sexual que apresentou o ex-namorado ao filho de Isabel II.

Há fotografias que provam que o casal e o ex-príncipe André (que se divorciou de Sarah Ferguson em 1996) iam juntos a festas, quer nos Estados Unidos, quer no Reino Unido. Jeffrey Epstein chegou a marcou presença no 40.º aniversário do irmão de Carlos III na Escócia. Os três também chegaram a ir a uma festa em Mar-a-Lago, à mansão do Presidente norte-americano, Donald Trump.

Terá sido em Londres, em março de 2001, que o antigo príncipe se encontrou pela primeira vez com Virginia Giuffre, que, na altura, era menor. A mulher assegurou que teve relações sexuais com André pelo menos três vezes, no papel de vítima da rede sexual montada por Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell. Aliás, existe uma fotografia — cuja autenticidade foi várias vezes questionada — em que surgem André, Virginia Giuffre e Ghislaine Maxwell, sendo que a ex‑namorada de Epstein tem insistido que a imagem é falsa.

Durante anos, as suspeitas de abusos sexuais passaram despercebidas ao escrutínio público. Em 2011, numa altura em que começavam a ser conhecidos os crimes de Jeffrey Epstein, Virginia Giuffre quebrou o silêncio e acusou diretamente o antigo príncipe André de a abusar sexualmente. Mas ainda demorou dez anos a agir judicialmente — processando o filho de Isabel II na Justiça norte-americana em 2021.

O membro da família real britânica negou sempre as acusações de que era alvo, garantindo que não se recordava de conhecer Virginia Giuffre, mesmo havendo registos fotográficos em que aparecem lado a lado. No entanto, a batalha legal que se seguiu obrigou a Casa Real a controlar os danos e, em janeiro de 2022, a Rainha Isabel II decidiu retirar os títulos reais a André.

Apesar do mediatismo, o caso não se arrastou nos tribunais. Os advogados da mulher e do antigo príncipe chegaram a acordo em fevereiro de 2022. André pagou uma verba financeira (que nunca se soube em concreto quanto foi) a Virginia Giuffre e fez uma doação às instituições de caridade da mulher, tendo ficado estabelecido que estes pagamentos não provavam qualquer admissão de culpa do filho de Isabel II em relação aos abusos sexuais.

O assunto ficou resolvido. No entanto, desde a morte de Jeffrey Epstein na prisão em 2019, manteve-se um clima de desconfiança em relação aos laços entre o antigo príncipe, o milionário e Ghislaine Maxwell. Em abril de 2025, o assunto volta a ganhar mediatismo após a morte de Virginia Giuffre, que, depois de ter sofrido um grave acidente de viação, decide tirar a sua própria vida.

A divulgação da última tranche dos ficheiros do caso Epstein recentemente fez com que outra alegada vítima denunciasse outro caso de abuso sexual pelo príncipe André. A identidade da mulher não é conhecida para proteger a sua imagem. À imprensa britânica, no final de janeiro de 2026, o advogado norte-americano que a representa, Brad Edwards, alega que uma jovem na casa dos 20 anos viajou para o Reino Unido em 2010 para um encontro com cariz sexual com o irmão do Rei Carlos III.

“Estamos a falar de pelo menos uma mulher que foi enviada por Jeffrey Epstein para o príncipe André. Ela até teve, depois de uma noite com o príncipe André, uma tour pelo Palácio de Buckingham”, frisa Brad Edwards, acrescentando que há provas (como mensagens de texto) que dão sustentação à acusação. Oficialmente, o irmão do Rei Carlos III ainda não reagiu a estes rumores; é a segunda alegada vítima com ligações ao membro da família real.

Há também registo de uma troca de e-mails de Jeffrey Epstein e o príncipe André em que se fala sobre uma mulher russa de 26 anos. Em 2010, o milionário sugere que o ex-príncipe “talvez fosse gostar de ter um jantar com” ela, uma vez que era “confiável, bonita e inteligente”. Em resposta, o filho de Isabel II disse que ficaria “satisfeito” em encontrar-se com a jovem. Não é claro, contudo, se o encontro chegou a acontecer.

O envio de segredos confidenciais a Epstein e as dívidas da ex-mulher

André não era apenas uma figura acessória na família real. Com uma carreira militar, o antigo príncipe foi nomeado enviado especial para o Comércio Internacional e para o Investimento. Esteve no cargo sob a tutela da casa real (em cooperação com o governo) entre 2001 e 2011, numa função que tinha como objetivo promover os interesses empresariais do Reino Unido, atrair investimento estrangeiro para o país e assegurar a participação em fóruns económicos internacionais. No exercício destas funções, o filho de Isabel II viajou pelo mundo e tinha acesso a informações confidenciais sobre o funcionamento de vários mercados.

A última tranche de documentos revelada pelo Departamento de Justiça mostra que o ex-príncipe André terá enviado informações confidenciais a Jeffrey Epstein para ajudar o milionário a decidir sobre em que negócios internacionais deveria ou não apostar. E tudo indica que o irmão do Rei tenha sido detido esta quinta-feira precisamente pelas suspeitas que se levantaram enquanto era enviado especial.

Os e-mails divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano revelam que, em 2010, o ex-príncipe enviou a Jeffrey Epstein relatórios das suas visitas a Singapura, à China, a Hong Kong e ao Vietname, assim como as oportunidades de investimentos em vários países asiáticos. No exercício das suas funções enquanto enviado especial, como explica a BBC, André estava sujeito a um dever de confidencialidade sobre informações sensíveis, comerciais e políticas — algo que não terá cumprido ao partilhar estes documentos com o empresário.

E não foi apenas uma vez. Em 2010, o filho da Rainha Isabel II enviou ao milionário norte-americano um documento com oportunidades de investimento na exploração de ouro e urânio na província de Helmand, localizada no Afeganistão. Nessa altura, o Reino Unido estava comprometido com a reconstrução de infraestruturas no Afeganistão, após anos de conflito no país. André até esteve com as tropas britânicas em solo afegão e esse documento foi enviado pouco após essa visita.

http://twitter.com/Telegraph/status/2024468182354829375

Preparado por uma equipa de especialistas britânicos em Helmand, o documento consistia numa avaliação das oportunidades de negócios em território afegão, nas regiões em que havia oportunidades com “recursos naturais significativos de elevado valor” com o “potencial para extração de baixo custo”. Na prática, o antigo príncipe estava a aconselhar Jeffrey Epstein onde poderia investir, usando para o efeito documentos confidenciais britânicos.

Não eram só documentos sobre o estrangeiro que o filho da Rainha Isabel II enviava para o milionário norte-americano. Há registo de e-mails entre André, um bancário que trabalhava nos Emirados Árabes Unidos chamado Terence Allen, Jeffrey Epstein e o seu assistente David Stern, em que o antigo príncipe partilha um ficheiro em que há detalhes sobre a reestruturação do The Royal Bank of Scotlandum banco que, na altura, tinha o seu capital maioritariamente detido pelo Estado britânico.

Na dinâmica desta relação, Jeffrey Epstein parecia lucrar com informações confidenciais que poderiam ser úteis para os seus negócios e investimentos. Mas o que ganhava em troca o antigo duque de Iorque, além de ser convidado para festas e encontros ocasionais com mulheres mais novas? Os e-mails divulgados pelo Departamento de Justiça permitem perceber também que André tinha problemas financieros — relacionados com a ex-mulher, Sarah Ferguson.

Sarah Ferguson tinha-se endividado e, com a ajuda do ex-marido — com quem sempre manteve uma boa relação mesmo após divórcio —, procurava uma forma rápida de ganhar dinheiro. A fortuna de Jeffrey Epstein teria surgido como a solução. A ex-mulher de André tinha uma dívida de 126 mil dólares (cerca de 107 mil euros)  a Johnny O’Sullivan, um antigo funcionário que sabia segredos que podia arruinar a reputação da mulher. O ex-assistente estaria a pressionar a ex-duquesa a pagar o mais rapidamente possível a quantia que lhe devia, ou divulgaria à imprensa informações comprometedoras sobre Sarah Ferguson.

Em 2010, Jeffrey Epstein terá concordado em ajudar Sarah Ferguson e terá pagado pelo menos 60 mil dólares (cerca de 51 mil euros) a Johnny O’Sullivan, resultante de um acordo em que o antigo assistente aceitava um valor bastante inferior ao montante que a ex-duquesa lhe devia. Nas mesmas semanas em que esse apoio financeiro foi discutido, o antigo príncipe começou a enviar com mais frequência informações confidenciais ao empresário norte-americano, numa dinâmica que pode aumentar as suspeitas de uma eventual contrapartida.

O antigo príncipe poderá vir a enfrentar a Justiça britânica principalmente por causa destas suspeitas. Detido desde as 08h00 da manhã desta quinta‑feira, André permanece sob custódia e a polícia já realizou buscas à sua casa em Sandringham. A divulgação dos ficheiros do caso Epstein trouxe novas provas que podem colocar o irmão do Rei Carlos III em maus lençóis. Da parte do atual monarca, não existe qualquer oposição às investigações e não se espera que haja tentativas de proteger judicialmente o enfant terrible da família.

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