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Presença militar reforçada, pressão de Israel e um impasse nas negociações. Seis respostas sobre o possível ataque dos EUA ao Irão

Quase dois meses depois das primeiras ameaças, um ataque dos EUA ao Irão parece novamente — e ainda mais — provável depois do reforço da presença militar na região. Porém, os objetivos são mais vagos.

Madalena Moreira
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“Estamos preparados, armados e prontos a avançar.” Foi com estas palavras que Donald Trump ameaçou, no dia 2 de janeiro de 2026, atacar o Irão, numa resposta à revolta dos milhares de iranianos que, desde o final do ano passado, tomaram as ruas do país contra o regime dos ayatollahs. Mais de dois meses depois, a ameaça não se concretizou e o Presidente dos Estados Unidos foi dedicando a sua atenção a outros temas de política externa e interna — apesar de os protestos continuarem, tanto no Irão como nas comunidades da diáspora em vários pontos do mundo.

Isso não quer dizer que Washington tenha desviado totalmente o olhar de Teerão. Na passada terça-feira, enviados norte-americanos reuniram-se com diplomatas iranianos em Genebra para uma ronda de negociações mediadas por representantes da Omã, em que foram “feitos progressos”, ainda que sem chegar a nenhum acordo, avançaram ambas as partes. Por outro lado, ao longo das últimas semanas, os Estados Unidos continuaram a concentrar as suas forças militares na Península e no Mar Arábico, às portas do Irão.

Neste contexto, um ataque norte-americano contra o Irão parece estar novamente iminente — e, desta vez, o perigo pode ser mais real do que era no dia 2 de janeiro. Esta quarta-feira, o canal CBS News avançou que os EUA estarão prontos para avançar a partir deste sábado, uma informação posteriormente confirmada por vários meios de comunicação norte-americanos. Contudo, a imprevisibilidade característica do Presidente norte-americano continua a impor-se como uma variável na equação.

Por que razão os EUA não atacaram o Irão em janeiro?

Apesar de, ao longo das suas campanhas, Donald Trump se ter focado na política nacional, ao invés da interferência externa que marcou a estratégia de Washington nas últimas décadas, as suas ameaças contra o Irão foram recebidas atentamente por adversários e aliados. Afinal, o Presidente já tinha dado provas de uma disponibilidade para ataques pontuais no estrangeiro: no Irão durante a “Guerra dos 12 dias”, na Venezuela, na Nigéria e na Síria.

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A decisão de não atacar Teerão no início de janeiro foi justificada com o facto de o Irão ter suspendido a execução de mais de 800 iranianos, que tinham sido presos nos protestos. “Disseram-nos que a matança no Irão parou”, declarou Trump no dia 14 de janeiro. Porém, a imprensa norte-americana escreve que uma das principais razões para o ataque ter sido suspenso — tudo aponta agora para que tenha sido adiado — foi a dimensão da presença militar norte-americana no Médio Oriente. Com uma grande parte das forças de Washington no Mar das Caraíbas, na sequência do ataque à Venezuela, os EUA não teriam capacidade para fazer frente a um resposta iraniana, deixando expostas as tropas norte-americanas na região, assim como os aliados, entre os quais se destaca Israel.

Que forças têm os Estados Unidos no Médio Oriente?

Aquele que terá sido o principal obstáculo à concretização de um ataque no início do ano foi rapidamente endereçado e, ao longo das últimas semanas, os EUA consolidaram uma “enorme armada” no Médio Oriente, como classificou Trump, que a comparou à que ocupou as águas ao largo da Venezuela nos meses antes do ataque do dia 3 de janeiro. As movimentações mais significativas são a presença de dois porta-aviões: o U.S.S. Abraham Lincoln, que está estacionado no norte do Mar Arábico, e o U.S.S. Gerald Ford, que se aproxima de Gibraltar, vindo do Mar das Caraíbas — este navio deverá ficar atracado no Mediterrâneo, tendo como função proteger Israel de ataques iranianos, segundo avançou o New York Times, que cita responsáveis norte-americanos.

Aos porta-aviões somam-se “dezenas” de aviões reabastecedores e mais de 50 caças — doze reabastecedores e doze caças terão parado na base das Lajes nos Açores —, contratorpedeiros, cruzadores e submarinos e ainda a movimentação de sistema de defesa anti-aérea, Patriots e THAAD, dois sistemas capazes de intercetar mísseis balísticos iranianos. “Tipicamente, não se colocam dois porta-aviões e centenas de aviões em posição a não ser que se planeie utilizá-los”, sintetiza o Axios.

Quando é que Washington poderá atacar?

A data mais concreta que aparece citada pelos meios de comunicação norte-americanos é a deste sábado, dia 21 de fevereiro, apontada pela CBS News. Porém, esta não é a data de um ataque, mas a data a partir do qual as Forças Armadas norte-americanas estão totalmente preparadas para desencadear um ataque — e proteger-se de uma provável reposta iraniana. A imprensa norte-americana avança ainda que a mobilização militar que tem sido feita pelo Comando Central dos Estados Unidos só deverá estar concluída em meados de março.

Já a data precisa do ataque depende exclusivamente de Donald Trump — que ainda não terá tomado uma decisão final, apontam, de forma unânime, as fontes próximas do Presidente citadas pela imprensa nacional. Em privado, Trump terá pesado com aliados os argumentos a favor e contra de lançar um ataque militar contra o Irão, avançou a CNN, citando uma fonte com conhecimento do processo. A publicação Axios, por sua vez, dá conta de leituras distintas sobre a posição do círculo interno do chefe de Estado: uns aliados argumentam que o ataque está para breve, enquanto outros apontam que deverá demorar umas semanas. De viva voz, Donald Trump não se comprometeu com nenhuma opção, mas apresentou um novo prazo: “Provavelmente descobrirão nos próximos 10 dias”, afirmou esta quinta-feira.

Que objetivos pretende Donald Trump alcançar?

Quando, em janeiro, Donald Trump ameaçou um ataque contra o Irão, os seus objetivos foram declarados com clareza: apoiar o povo iraniano e travar as execuções daqueles que tinham sido detidos. Quase dois meses depois, os objetivos são mais ambíguos. Esta quinta-feira, o novo prazo de Trump foi estabelecido a par com uma ameaça: “É preciso chegar a um acordo [nuclear] significativo. Se isso não acontecer, coisas más vão acontecer”, declarou o Presidente, na sequência de dois encontros entre delegações norte-americanas e iranianas para um acordo.

Na quarta-feira, a porta-voz da Casa Branca já tinha sido questionada por que motivo Washington está tão focado em alcançar um acordo nuclear se, segundo as suas declarações no verão passado, o programa nuclear iraniano foi destruído pelos ataques norte-americanos na “Guerra dos 12 Dias”. “Bem, há muitas razões e argumentos que se podem dar a favor de um ataque contra o Irão”, respondeu Karoline Leavitt de forma breve, sem apresentar essas mesmas razões. Ainda que Leavitt não os tenha elencado, é possível deduzir outros objetivos.

"[Uma mudança de regime seria] a melhor coisa que pode acontecer. Há 47 anos que falam e falam e falam. Entretanto, perdemos muitas vidas."
Donald Trump, em declarações aos jornalistas na semana passada

Além do apoio aos manifestantes e do acordo nuclear, Donald Trump já colocou em cima da mesa uma mudança de regime. Na semana passada, o Presidente declarou que isto seria “a melhor coisa que pode acontecer”. “Há 47 anos que falam e falam e falam. Entretanto, perdemos muitas vidas”, acrescentou. O foco do Presidente na história do regime iraniano faz surgir um último objetivo, o de criar um legado, ao tornar-se o Presidente que pôs fim a este regime, como destaca uma análise da CNN Internacional. Com a crise económica, a profunda revolta social e a erosão do “Eixo da Resistência” — composto pelos grupos aliados de Teerão —, abre-se uma “janela de oportunidade” para Trump derrubar o regime e reclamar para si uma vitória que vários Presidentes antes de si tentaram alcançar.

Que tipo de ataque está a ser planeado? E com quem?

Nigéria, Síria, Venezuela e Irão (em 2025). Todos os ataques que os Estados Unidos lançaram ao longo do segundo mandato de Donald Trump têm em comum o facto de terem sido ataques cirúrgicos, com alvos delimitados. Porém, desta vez, os Estados Unidos poderão estar a preparar-se para um cenário mais prolongado, que pode durar “semanas”, segundo avançou na semana passada a Reuters. Esta quarta-feira, o Axios noticiou preparações semelhantes para uma “campanha enorme mais parecida com uma guerra total do que com a operação pontual do mês passado na Venezuela”, segundo descrições de fontes com conhecimento do processo.

Neste cenário, os ataques norte-americanos contra o Irão não seriam parte de uma campanha militar a solo, mas que conta antes com o apoio de Israel — tal como, aliás, aconteceu em junho do ano passado. Dois responsáveis da defesa israelita relataram ao New York Times que Telavive também está a fazer “preparações significativas” para um ataque conjunto com os EUA, que pode começar “nos próximos dias”, se prolongaria no tempo e teria como objetivo forçar o Irão a fazer concessões à mesa das negociações. Além de apoio operacional, a entrada em cena de Israel também serve de pressão sobre Washington para avançar com um ataque.

Nesse sentido, esta campanha conjunta terá sido discutida pela primeira vez ainda antes das primeiras ameaças de Donald Trump, mais precisamente no dia 29 de dezembro de 2025, quando o Presidente recebeu Benjamin Netanyahu na sua residência na Florida, avançou a CBS News. Depois disso, o primeiro-ministro israelita deslocou-se a Washington na semana passada numa visita relâmpago que terá servido para pressionar Trump a prosseguir com um ataque. Contudo, o líder norte-americano preferiu insistir em continuar com as negociações. Um novo encontro é esperado no dia 28 de fevereiro, avançou uma fonte do Departamento de Estado à CNN. Desta vez, o secretário de Estado Marco Rubio irá viajar para Israel — o que, paradoxalmente, pode ser interpretado como um sinal de que um ataque norte-americano na região só deverá acontecer depois disso.

Em que ponto estão as negociações entre Irão e Estados Unidos?

O encontro da passada terça-feira em Genebra prolongou-se durante mais de três horas e foi já o segundo este mês, depois de uma primeira reunião em Omã. Comparando os dois encontros, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Teerão disse que Genebra foi “mais construtiva” e que foram feitos “mais progressos”. Abbas Araghchi não deu detalhes sobre que progressos foram esses, mas três responsáveis iranianos indicaram ao New York Times que o Irão se disponibilizou para suspender o enriquecimento de urânio por um período de três a cinco anos — até Donald Trump sair da Casa Branca, como nota o jornal — e, depois disso, integrar um grupo regional focado no enriquecimento para propósitos civis.

Em troca, Teerão exige que Washington levante o embargo e as sanções sobre a economia e o petróleo iraniano. Um responsável norte-americano avançou, também ao New York Times, que os iranianos deveriam enviar um documento com esta proposta, apresentada em maior detalhe, durante as próximas duas semanas, abrindo caminho para um terceiro encontro. Porém, nem todos os norte-americanos se mostram tão confiantes na possibilidade de as reuniões chegarem a bom porto, como destacou o vice-presidente JD Vance, numa entrevista à Fox News, em que salientou que ainda há “linhas vermelhas” em que os iranianos não querem tocar. “Mas claro que o Presidente se reserva a possibilidade de dizer quando acha que a diplomacia chegou ao fim”, rematou.

Em uníssono, os vários membros da administração deixam a decisão final — aguardar por uma resposta iraniana às negociações ou atacar para pressionar — para o Presidente, mas fazem soar avisos, como fez Karoline Leavitt ao insistir que o Irão “seria sábio em fazer um acordo com o Presidente Trump”. Apesar do foco na diplomacia, a verdade é que um ataque contra o Irão hoje não representa os mesmos riscos para os Estados Unidos — e os seus aliados — do que há algumas semanas. O regime já entrou em 2026 fragilizado, mas o seu arsenal balístico equilibrava um possível confronto militar; depois das ações das últimas semanas, os EUA parecem estar agora mais bem posicionados para desafiar o poder militar de Teerão.