A Polícia Judiciária (PJ) continua a investigar a fuga de cinco reclusos da prisão de Vale de Judeus, em setembro de 2024, sendo que o processo “mantém-se aberto” e “ainda há diligências a decorrer”, apurou o Observador junto de fonte da PJ. Na prática, tal significa que os prisioneiros ainda não foram novamente julgados nem condenados a novas penas, tal como dita a lei, após a mediática fuga.
Faz, neste mês de fevereiro, um ano que foram recapturados em Alicante, Espanha, os dois últimos fugitivos: o argentino Rodolfo José Lohrmann e o britânico Mark Cameron Roscaleer. Anteriormente, já tinham sido capturados os portugueses Fábio Loureiro e Fernando Ferreira, bem como o georgiano Shergili Farjiani. Na altura, as imagens da detenção dos dois últimos reclusos ainda em fuga foram divulgadas pelas autoridades.
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Com todos os reclusos novamente sob custódia policial, e face ao crime de evasão, os indivíduos têm de ser novamente julgados e, depois, condenados — sendo que as penas vão acrescer ao tempo que já estavam a cumprir. Mas tal ainda não aconteceu. Passado todo este tempo, a “investigação continua aberta”, revela ao Observador fonte da Polícia Judiciária, que acrescenta que “ainda há diligências a decorrer”. Miguel Matias, advogado especialista em Direito Penal, explica que, no fundo, o inquérito continua a decorrer.
Ainda não foram julgados nem condenados. É um crime novo e não vai haver cúmulo jurídico, relativamente às penas que já têm. Estavam em cumprimento de pena. Estamos perante novos crimes, que vão acrescer às penas. No Direito, chamamos a esta situação ‘sucessão da pena'”, diz Miguel Matias ao Observador.
O advogado sublinha também que esta demora no processo é normal. “Não temos conhecimento de acusação do Ministério Público. Ainda estamos na parte da investigação e é normal que tenha havido a promoção do segredo da mesma”, explica Miguel Matias.
Questionado pelo Observador, o Ministério da Justiça não deu mais detalhes. A tutela diz apenas que “a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) não faz partilha pública dos locais de afetação dos reclusos, por questões de segurança”. Na resposta enviada ao Observador, lê-se também que a DGRSP “não tem informação relativa aos julgamentos e penas a que os reclusos em questão poderão vir a ser sujeitos”, por ser “matéria que escapa às suas competências”.
Já o Ministério Público não respondeu às perguntas colocadas pelo Observador até à publicação deste artigo.
Na altura em que fugiram da cadeia de Vale de Judeus, em Alcoentre, os cinco reclusos estavam a cumprir entre sete e 25 anos de prisão, por crimes como tráfico de droga, associação criminosa, roubo, sequestro e branqueamento. Evadiram-se da prisão de Vale de Judeus a 7 de setembro de 2024. Três dias depois, a Ministra da Justiça falava numa situação de “gravidade extrema” e sugeriu que os reclusos tiveram “ajuda externa”.
https://observador.pt/2025/09/12/fugitivo-de-vale-de-judeus-so-nao-saiu-toda-a-gente-porque-nao-quis/
“Infelizmente, não aprendemos nada com a fuga de Vale de Judeus”, lamentam Guardas Prisionais
O Presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional afirma que, desde a fuga de Vale de Judeus, “nada mudou” no sistema prisional. “Não aprendemos nada com a fuga. Talvez só haja uma revolução no sistema prisional no dia em que alguém morrer”, alerta Frederico Morais, em declarações ao Observador.
Depois da fuga, em setembro de 2024, a Ministra da Justiça pediu uma auditoria aos 49 estabelecimentos prisionais do país e anunciou um reforço de medidas de segurança e modernização dos mesmos. As medidas passam por um investimento de 4,5 milhões de euros para o reforço da segurança em todas as prisões, uma reorganização para a criação de 630 novas vagas ou uma atualização do sistema de informação nas cadeias, com destaque para os inibidores de sinal.

Passado todo este tempo, o sindicalista faz um balanço misto do que já avançou no terreno e do que falta aplicar: “Já avançaram 50% das medidas, falta a outra metade”, resume Frederico Morais. Além de os inibidores de sinal ainda não estarem a funcionar, também as torres de vigilância ainda não começaram a ser construídas.
https://observador.pt/2026/01/06/mais-de-um-ano-apos-fuga-ainda-nao-ha-inibidores-de-sinal-no-vale-de-judeus/
Ouvido pelo Observador, o Presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional alerta que “está-se a perder muito tempo a aplicar medidas cruciais para a segurança” e aponta o dedo sobretudo à Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais. “O Governo só tem culpa porque, se calhar, tem as pessoas erradas no local errado”.
A fuga de cinco reclusos da cadeia de Vale de Judeus levou à demissão do então diretor-geral de Reinserção e Serviços Prisionais, Rui Abrunhosa Gonçalves, que foi substituído por Orlando Carvalho. Recentemente, o novo diretor-geral alertou que as cadeias portuguesas têm cada vez mais reclusos e admitiu que esta tendência de crescimento é preocupante.
Cinco evadidos foram recuperados em cinco meses
Os cinco reclusos que fugiram na manhã de 7 de setembro de 2024 voltaram todos a ficar sob poder das autoridades no dia 6 de fevereiro de 2025. A primeira recaptura, a de Fábio Loureiro, deu-se a 6 de outubro de 2024 em Tânger, Marrocos. Seguiu-se a de Fernando Ribeiro Ferreira, a 22 de novembro em Montalegre, e a de Shergili Farjiani a 10 de dezembro, em Pádua. Os dois evadidos restantes, Mark Roscaleer e Rodolfo Lohrmann, foram apanhados a 6 de fevereiro de 2025, em Alicante, Espanha.
Na altura, a ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, assinalou o facto de todos os reclusos terem sido recuperados cinco meses depois da fuga. “Este êxito é uma prova da confiança que os cidadãos devem ter nas nossas polícias”, sublinhou.
Ouça aqui o “Onde Pára o Caso?” da Rádio Observador, sobre este tema:
https://observador.pt/programas/onde-para-o-caso/prisoes-onde-estao-os-fugitivos-de-vale-de-judeus/