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(A) :: Vale de Judeus. Polícia Judiciária continua a investigar fuga e há "diligências a decorrer". Reclusos ainda não foram novamente julgados

Vale de Judeus. Polícia Judiciária continua a investigar fuga e há "diligências a decorrer". Reclusos ainda não foram novamente julgados

Faz um ano que foram capturados os dois últimos fugitivos. Demora no julgamento "é normal", dizem advogados. Já guardas prisionais lamentam: "Não aprendemos nada com a fuga e nada mudou nas cadeias".

Rui Casanova
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A Polícia Judiciária (PJ) continua a investigar a fuga de cinco reclusos da prisão de Vale de Judeus, em setembro de 2024, sendo que o processo “mantém-se aberto” e “ainda há diligências a decorrer”, apurou o Observador junto de fonte da PJ. Na prática, tal significa que os prisioneiros ainda não foram novamente julgados nem condenados a novas penas, tal como dita a lei, após a mediática fuga.

Faz, neste mês de fevereiro, um ano que foram recapturados em Alicante, Espanha, os dois últimos fugitivos: o argentino Rodolfo José Lohrmann e o britânico Mark Cameron Roscaleer. Anteriormente, já tinham sido capturados os portugueses Fábio Loureiro e Fernando Ferreira, bem como o georgiano Shergili Farjiani. Na altura, as imagens da detenção dos dois últimos reclusos ainda em fuga foram divulgadas pelas autoridades.

https://www.youtube.com/watch?v=SBEnITcOKc0

Com todos os reclusos novamente sob custódia policial, e face ao crime de evasão, os indivíduos têm de ser novamente julgados e, depois, condenados — sendo que as penas vão acrescer ao tempo que já estavam a cumprir. Mas tal ainda não aconteceu.  Passado todo este tempo, a “investigação continua aberta”, revela ao Observador fonte da Polícia Judiciária, que acrescenta que “ainda há diligências a decorrer”. Miguel Matias, advogado especialista em Direito Penal, explica que, no fundo, o inquérito continua a decorrer.

Ainda não foram julgados nem condenados. É um crime novo e não vai haver cúmulo jurídico, relativamente às penas que já têm. Estavam em cumprimento de pena. Estamos perante novos crimes, que vão acrescer às penas. No Direito, chamamos a esta situação ‘sucessão da pena'”, diz Miguel Matias ao Observador.

O advogado sublinha também que esta demora no processo é normal. “Não temos conhecimento de acusação do Ministério Público. Ainda estamos na parte da investigação e é normal que tenha havido a promoção do segredo da mesma”, explica Miguel Matias.

Questionado pelo Observador, o Ministério da Justiça não deu mais detalhes. A tutela diz apenas que “a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) não faz partilha pública dos locais de afetação dos reclusos, por questões de segurança”. Na resposta enviada ao Observador, lê-se também que a DGRSP “não tem informação relativa aos julgamentos e penas a que os reclusos em questão poderão vir a ser sujeitos”, por ser “matéria que escapa às suas competências”.

"Não aprendemos nada com a fuga de Vale de Judeus. Talvez só haja uma revolução no sistema prisional no dia em que alguém morrer"
Frederico Morais, Presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional

Já o Ministério Público não respondeu às perguntas colocadas pelo Observador até à publicação deste artigo.

Na altura em que fugiram da cadeia de Vale de Judeus, em Alcoentre, os cinco reclusos estavam a cumprir entre sete e 25 anos de prisão, por crimes como tráfico de droga, associação criminosa, roubo, sequestro e branqueamento. Evadiram-se da prisão de Vale de Judeus a 7 de setembro de 2024. Três dias depois, a Ministra da Justiça falava numa situação de “gravidade extrema” e sugeriu que os reclusos tiveram “ajuda externa”. 

https://observador.pt/2025/09/12/fugitivo-de-vale-de-judeus-so-nao-saiu-toda-a-gente-porque-nao-quis/

“Infelizmente, não aprendemos nada com a fuga de Vale de Judeus”, lamentam Guardas Prisionais

O Presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional afirma que, desde a fuga de Vale de Judeus, “nada mudou” no sistema prisional. “Não aprendemos nada com a fuga. Talvez só haja uma revolução no sistema prisional no dia em que alguém morrer”, alerta Frederico Morais, em declarações ao Observador.

Depois da fuga, em setembro de 2024, a Ministra da Justiça pediu uma auditoria aos 49 estabelecimentos prisionais do país e anunciou um reforço de medidas de segurança e modernização dos mesmos. As medidas passam por um investimento de 4,5 milhões de euros para o reforço da segurança em todas as prisões, uma reorganização para a criação de 630 novas vagas ou uma atualização do sistema de informação nas cadeias, com destaque para os inibidores de sinal.

Passado todo este tempo, o sindicalista faz um balanço misto do que já avançou no terreno e do que falta aplicar: “Já avançaram 50% das medidas, falta a outra metade”, resume Frederico Morais. Além de os inibidores de sinal ainda não estarem a funcionar, também as torres de vigilância ainda não começaram a ser construídas.

https://observador.pt/2026/01/06/mais-de-um-ano-apos-fuga-ainda-nao-ha-inibidores-de-sinal-no-vale-de-judeus/

Ouvido pelo Observador, o Presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional alerta que “está-se a perder muito tempo a aplicar medidas cruciais para a segurança” e aponta o dedo sobretudo à Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais. “O Governo só tem culpa porque, se calhar, tem as pessoas erradas no local errado”.

A fuga de cinco reclusos da cadeia de Vale de Judeus levou à demissão do então diretor-geral de Reinserção e Serviços Prisionais, Rui Abrunhosa Gonçalves, que foi substituído por Orlando Carvalho. Recentemente, o novo diretor-geral alertou que as cadeias portuguesas têm cada vez mais reclusos e admitiu que esta tendência de crescimento é preocupante.

Cinco evadidos foram recuperados em cinco meses

Os cinco reclusos que fugiram na manhã de 7 de setembro de 2024 voltaram todos a ficar sob poder das autoridades no dia 6 de fevereiro de 2025. A primeira recaptura, a de Fábio Loureiro, deu-se a 6 de outubro de 2024 em Tânger, Marrocos. Seguiu-se a de Fernando Ribeiro Ferreira, a 22 de novembro em Montalegre, e a de Shergili Farjiani a 10 de dezembro, em Pádua. Os dois evadidos restantes, Mark Roscaleer e Rodolfo Lohrmann, foram apanhados a 6 de fevereiro de 2025, em Alicante, Espanha.

Na altura, a ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, assinalou o facto de todos os reclusos terem sido recuperados cinco meses depois da fuga. “Este êxito é uma prova da confiança que os cidadãos devem ter nas nossas polícias”, sublinhou.

Ouça aqui o “Onde Pára o Caso?” da Rádio Observador, sobre este tema:

https://observador.pt/programas/onde-para-o-caso/prisoes-onde-estao-os-fugitivos-de-vale-de-judeus/