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Seguro evita ter socialistas na futura Casa Civil

Presidente eleito afasta ideia de ter Casa Civil dominada por figuras do PS, embora não abdique de ter por perto o seu círculo de confiança. Independência também será critério no Conselho de Estado.

Rui Pedro Antunes
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António José Seguro vai evitar ter membros do Partido Socialista na sua futura Casa Civil, tentando afirmar a sua independência como Presidente da República também na composição do órgão de apoio ao chefe de Estado. Fontes do círculo mais próximo antecipam ao Observador que as escolhas vão “certamente refletir a abrangência que os 3,5 milhões de pessoas que votaram nele” e que “a competência vai ser o critério, não o cartão partidário”. “É óbvio que ele [Seguro] vai querer afastar a ideia de que aquilo é uma secção do Largo do Rato”, diz um dos seus apoiantes desde a primeira hora.

Há, para já, um único membro confirmado na equipa de António José Seguro: Luís Sobral. O antigo jornalista e ex-diretor-geral da Federação Portuguesa de Futebol  já tinha sido o responsável pela comunicação durante a campanha e agora transitou para o gabinete do Presidente eleito. O facto de estar com a comunicação nesta pasta de transição, indica que muito provavelmente seguirá para Belém como um dos assessores de comunicação. Sobral encaixa no perfil de não-partidário e nem sequer conhecia Seguro antes da campanha.

O assessor foi ganhando protagonismo com o decorrer da candidatura que, numa fase inicial, até tinha como responsável maior da comunicação o ex-assessor do PS, Ricardo Pires. O ex-diretor-geral da FPF é de um estilo de assessor cauteloso, algo que traz dos mais de dez anos na área do futebol. A tendência é sempre para expor ao mínimo risco o seu novo Ronaldo.

Nas últimas semanas Sobral já criou um grupo de WhatsApp com jornalistas dos vários órgãos de comunicação que acompanham política e em particular a Presidência, onde coloca as notas públicas e informações de agenda do Presidente eleito. O ex-diretor da FPF também já acompanhou Seguro ao terreno na visita às cheias de Coimbra, numa ação que não foi divulgada à comunicação social (que lá acabou por aparecer).

Apesar de rejeitar ter uma Casa Civil repleta com membros do PS — e de excluir dirigentes nacionais atuais — isso não significa que Seguro não leve militantes ou ex-dirigentes para a Casa Civil. Entre os seguristas mais próximos do candidato, é mais ou menos assumido ao Observador que o Presidente eleito não vai abdicar de ter António Galamba em Belém. “O António mais do que do PS, é segurista. É mais segurista que o próprio Seguro”, diz uma fonte próxima ao Observador. É verdade que o ex-governador civil de Lisboa é amigo próximo e foi sócio de Seguro, o que podia levantar questões éticas, mas como fizeram política juntos, acaba por ser natural. “O Soares teve o sobrinho a chefe da Casa Civil, que mal tem o [António] Galamba fazer parte da equipa? O Seguro precisa de pessoas da sua confiança”, desabafa um segurista ao Observador.

Nos bastidores, incluindo entre seguristas, chegou a circular o nome do antigo diretor de informação da RTP, António José Teixeira, como um dos nomes fortes da futura Casa Civil de António José Seguro. Mas a abordagem de Tozé a Tozé não aconteceu. Ao Observador, o jornalista garantiu que não foi convidado para coisa alguma.

Paulo Lopes da Silva também é deputado do PS, mas isso não será um fator de exclusão na decisão de António José Seguro. Paulo Lopes da Silva foi o diretor nacional da campanha e é alguém que já tinha feito parte da equipa de Seguro quando liderou o PS. Apesar de ser quase-anónimo até à candidatura de Seguro, é alguém da confiança do Presidente eleito — e de quem este dificilmente abdicará de ter na sua esfera. É provável que o atual mandato como deputado não seja cumprido, precisamente, para Paulo Lopes da Silva rumar a Belém.

Ainda nos nomes do universo socialista está Miguel Teixeira. Mas a lógica não é partidária. É, acima de tudo, de amizade e confiança. O arquiteto foi presidente da secção de Alvalade do PS e esteve com Seguro quando este se candidatou ao Partido Socialista pela primeira vez. Mas, mais do que isso, são amigos. Quando António José Seguro abriu a loja de produtos artesanais em Alvalade, ou quando lançou a marca de vinho no El Corte Inglés, outras fontes presentes nessa ocasião, garantem: “O Miguel esteve sempre lá”. Agora também são poucos os do círculo próximo de Seguro que têm dúvidas de que “o Miguel vai para Belém”.

Casa Civil paritária e com muitos independentes

Os mais próximos de Seguro não arriscam, no entanto, apontar mais nomes, uma vez que, como diz uma fonte próxima do Presidente eleito, “ficou estabelecido que, quando houvesse novidades, elas seriam dadas pelo Presidente“. Sabe-se, no entanto, que Seguro vai manter a preocupação de Marcelo em ter uma Casa Civil paritária. De acordo com a lei, a Casa Civil é constituída pelo chefe da Casa Civil, doze assessores, quatro adjuntos e quinze secretários, dos quais dois são secretários pessoais do chefe da Casa Civil.

Além disso, a Casa Civil, tem depois um “corpo de consultores” que é “constituído por especialistas em diversas matérias”. Para esses não há limites. Quanto à orgânica, compete ao Presidente da República definir a divisão por áreas da sua Casa Civil. Marcelo Rebelo de Sousa tinha áreas que têm correspondência com ministérios como “Saúde”, “Educação” ou “Economia”, mas também tinha designações setoriais diferentes como “Segurança Nacional e Proteção Civil” ou “Solidariedade Social, Integração e Inclusão Social, não discriminação”.

A Seguro não faltam nomes de confiança e que pode convidar para as diversas áreas que irá definir. O economista Óscar Gaspar, por exemplo, que já foi seu assessor, é hipótese tanto para a área da Economia como da Saúde. A Saúde é uma área onde o Presidente eleito não tem dificuldades de recrutamento: além de Gaspar, tanto Ana Jorge como o médico João Varandas Fernandes são apontados como hipóteses plausíveis. Na área da Juventude, também não faltam opções ao socialista: pode manter Rita Saias, que já exerceu as funções de consultora com Marcelo, mas tem ainda Renato Daniel ou André Abraão como jovens que podiam assumir a função.

Além dos consultores, Seguro, como bom ouvinte, não abdicará de continuar a ter na sua órbita, como sempre fez, conselheiros (informais) próximos como Adalberto Campos Fernandes ou Álvaro Beleza. Quanto aos cinco conselheiros de Estado que tem direito a nomear, Maria de Belém é uma hipótese, embora, também neste caso, a ideia de Seguro seja privilegiar pessoas vindas da sociedade civil (já que os partidos têm, por via da Assembleia da República as suas próprias indicações). Para não falar que as inerências (ex-Presidentes, por exemplo) já têm, igualmente, ligações partidárias.

Entretanto, António José Seguro também já tem elementos do Corpo de Segurança da PSP a acompanhá-lo, como o Observador pôde verificar no dia em que o Presidente eleito iniciou funções no Palácio de Queluz. Ainda assim, ainda está longe de ter todo o efetivo que fará parte da sua equipa de segurança quando tomar posse no dia 9 de março.

O encontro PT-RR com Montenegro e as Presidências abertas

António José Seguro teve uma semana calma, apenas com uma visita-surpresa a Coimbra logo na segunda-feira. Depois disso, não teve mais agenda. Mas não significa que tenha ficado absolutamente arredado dela. O primeiro-ministro anunciou logo no debate quinzenal que ia querer ouvir o Presidente eleito sobre o novo PT-RR. Na sexta-feira, anunciou que ia falar com António José Seguro já na próxima semana. Como o Observador escreveu , o documento apresentado pelo Governo inclui algumas das preocupações já manifestadas por António José Seguro.

Relativamente aos primeiros tempos em Belém, António José Seguro também já anunciou que vai recuperar o modelo de Presidências Abertas de Mário Soares (que também teve versões com outros Presidentes, como Marcelo, que lhes chamou “Portugal Próximo”). Sobre as primeiras regiões do País a visitar, o futuro Presidente da República já garantiu que irá às zonas afetadas pelas tempestades, precisamente para aferir se os apoios estão a chegar ao terreno e se a recuperação está efetivamente a acontecer.

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