Esfregar, lavar, limpar e, de quatro em quatro horas, uma pausa. Numa fábrica de transformação de carnes, quatro trabalhadores limpam as instalações a fundo. Estão no turno da noite, são praticamente invisíveis para os demais. Quando o dia amanhece, voltam para casa ou seguem para o trabalho seguinte. O ciclo repete-se, noite após noite.
Foi com Beyond Caring, criada em 2014, que Alexander Zeldin (n.1985) se afirmou como uma das vozes mais marcantes do novo teatro britânico. Escreveu a peça a partir de um período de imersão na vida de trabalhadores da limpeza contratados ao abrigo dos chamados contratos “zero hours”, vínculos precários, sem garantia de horas fixas, frequentemente sobrecarregados com tarefas impossíveis de cumprir no tempo estipulado.
Sem romantização ou sentimentalismo, Zeldin apontava à precariedade laboral e à solidão estrutural de uma classe invisível. E fê-lo com sucesso. Beyond Caring percorreu vários países — em Portugal foi apresentada pela Companhia de Teatro de Almada, em 2022, com o título Além da Dor — e tornar-se-ia o primeiro capítulo da “Trilogia das Desigualdades”, que inclui ainda Love (apresentada na Culturgest, em 2021) e Fé, Esperança e Caridade.
“Esta é certamente a [minha peça] mais política”, diz Alexander Zeldin, ao Observador. Depois de fechar a trilogia e de se virar para um trabalho mais autobiográfico — The Confessions, inspirado na vida da mãe —, é precisamente à primeira peça que agora regressa. Prendre Soin, estreada em Estrasburgo em 2025, é uma recriação francesa de Beyond Caring e chega à Culturgest, em Lisboa, de 26 a 28 de fevereiro.
“Revisitar trabalhos antigos pode ser uma grande fonte de coragem e conhecimento para nos entendermos e tentar perceber o que estávamos a tentar fazer como artistas”. O que se conclui ao olhar para um texto que se escreveu aos 27 anos? Que “estava muito zangado”, diz aos 40. Mas também que a peça tem tanta relevância como em 2014.

O mundo ficou mais duro
Em 2026, Alexander Zeldin não está menos zangado com o estado do mundo, mas confessa que lhe interessa pouco falar da sua evolução pessoal enquanto artista e mais sobre a persistência da realidade que a peça retrata. “A situação de precariedade, solidão e fragmentação não envelheceu”, denota. “A peça antecipou de forma fiel o que aconteceu. Isso é um bocadinho trágico.”
O mundo tornou-se ainda mais dependente de uma força laboral invisível e as consequências dessa invisibilidade alastraram muito para lá da classe trabalhadora tradicional, observa. É certo que, na última década, o universo do trabalho sofreu mutações profundas: intensificou-se a precarização, diluíram-se fronteiras entre tempo pessoal e tempo produtivo e multiplicaram-se formas de emprego instáveis, muitas delas aceleradas pela pandemia e pela digitalização da economia. A automação, a inteligência artificial e os novos intermediários tecnológicos não eliminaram a vulnerabilidade — antes, reconfiguraram-na. O que antes era vivido sobretudo nas margens tornou-se uma experiência transversal, defende.


Em 2014, a austeridade moldava o debate político, responsabilizando parte da população por todos os males económicos. “A realidade é que a austeridade venceu. O Brexit e a extrema-direita são consequências disso”, aponta. Mesmo perante eleições presidenciais que rumam no sentido oposto, como em Portugal, “o facto de a extrema-direita estar sequer em discussão é um desastre”, julga o britânico.
“Olhar para as condições difíceis numa fábrica é uma forma de falar sobre a sociedade em geral”, reflete. Quando escreveu Beyond Caring, 25% da população do Reino Unido vivia perto do limiar da pobreza, segundo os indicadores económicos da época. “Isto não é uma condição de uma minoria, mas de um número considerável de pessoas. É uma peça que fala sobre todos nós porque nos implica a todos.”
A fábrica de carne não é apenas um cenário realista (ainda que o seja, graças a Natasha Jenkins, autora dos figurinos também): é uma miniatura de um sistema mais vasto, onde o trabalho deixou de oferecer pertença, identidade ou reconhecimento. Em palco, os intérpretes Lamya Regragui, Juliette Speck, Charline Paul, Patrick d’Assumpção, Nabil Berrehil e Bilal Slimani dão corpo a estas figuras exaustas, presas a um trabalho que não oferece nenhuma destas coisas. Tal como na versão de 2014, brilham os microgestos: os momentos em que, mesmo em condições de extremo desgaste, surgem breves manifestações de humanidade. Uma pausa para ler uma revista, um café, música num velho rádio a pilhas enquanto duram. Com a passagem das noites, as relações vão-se construindo e humanizando.

“Ser artista hoje é lutar pelo que é humano, porque o desumano está a tomar conta de tudo. A tecnologia, os sistemas políticos estão a desmoronar-se”, diz Zeldin sobre o papel de um artista num tempo que descreve como marcado pela mercantilização da cultura. A análise não é nostálgica, mas de inquietação: se o século XX foi, como muitos disseram, “o século do eu”, a fragmentação social aprofundou-se ao ponto de corroer os próprios espaços de encontro. Nesse contexto, que papel pode ter o teatro?, indagamos. “O teatro é uma realidade tangível. Estar numa sala com outras pessoas, pode tornar-se, em si mesmo, uma espécie de revolta.” Não é uma metáfora exagerada, insiste. “Em muitas ditaduras, estar numa sala com outras pessoas é uma forma de protesto. E não é preciso ir tão longe. Basta ir à Hungria, onde tenho colegas… Ou num passado não tão recente de Portugal.”
Ainda assim, Zeldin recusa a ideia de um artista como agitador. A sua noção de responsabilidade é mais exigente e mais íntima. “Se olharmos para Os Girassóis de Van Gogh, ou para qualquer obra realmente importante, percebemos que a principal responsabilidade de um artista é a sinceridade.” E essa sinceridade não é redutível a uma posição ideológica, muda com o tempo, com a idade, com a experiência. “Não reflito muito sobre a minha própria carreira”, admite. Sabe, no entanto, que perguntas o movem: “O que é essencial agora para a sociedade? Como posso ser útil como artista?” Mesmo quando escreve a partir de matéria autobiográfica, garante, nunca o faz “para si”, mas para encontrar uma forma de dizer algo necessário ao presente.
A questão central torna-se então a da representação, conclui. “O papel da arte é olhar para lá do espelho da vida. Tentar mostrar algo que não se consegue ver de outra forma”, atira. Mas representar nunca é neutro. “A representação é um problema moral. Como é que se mostra algo?” Uma família num anúncio e uma família numa peça de Arthur Miller são imagens distintas porque transportam conceções distintas de mundo, compara. Para Zeldin, o artista deve sobretudo resistir à repetição de modelos pré-fabricados, à cultura que transforma o artístico em mercadoria e que confunde arte com produto. “Muito do que Hollywood faz não é realmente arte. É comércio disfarçado de arte”, critica. “Nos últimos dez anos”, diz, “assistimos a uma intensificação dessa lógica de mercantilização”.


Essa transformação tem consequências concretas. Ao referir-se ao seu trabalho recente em Nova Iorque, a partir de onde fala por telefone com o Observador, aponta atrasos nos vistos e outros cortes de financiamento que dificultam a circulação de artistas. Não vê necessariamente uma conspiração política direta, mas identifica um “desgaste progressivo dos sistemas que sustentam a troca de ideias”. “Quando isso acontece, o papel do artista muda. Passa a ser sobre lutar contra essa condição muito básica do nosso trabalho, que é poder fazê-lo.” Ainda assim, relativiza: “não é o mesmo que ser um manifestante ou ser alguém na Palestina hoje”. A arte não substitui a ação política direta, sabe, mas pode criar espaços de coragem e de compaixão. “Ser artista é uma oportunidade de ir contra a corrente dominante”, defende.
O termo realismo social cola-se ao seu corpo de trabalho, um sentido de justiça nas peças que apresenta. Não nega. “Teatro e justiça estão profundamente ligados desde os antigos gregos”, afirma. E essa ligação permanece. Para Zeldin, fazer teatro é sempre uma questão de justiça: inspirar compreensão pelas pessoas desprezadas pelo sistema — e, talvez mais difícil ainda, pelas partes desprezadas dentro de cada um de nós. Se a austeridade “venceu” e fenómenos como o Brexit ou o crescimento da extrema-direita são, na sua leitura, consequências dessa vitória, isso não elimina a possibilidade de escolha. “Continuo cheio de esperança. Estamos num momento de viragem em que podemos seguir um de dois caminhos. E estou sempre do lado do caminho que vai trazer uma espécie de unificação.” O teatro, enquanto experiência tangível e partilhada, pode não mudar o mundo de imediato, mas mantém aberta a possibilidade de o imaginar de outra forma. Ou de o ver com mais clareza.