A população pediu: “Isto tem de arrancar”. A Omnichord Records, que nunca faz ouvidos moucos aos habitantes da aldeia das Fontes – onde, desde 2022, realiza o festival Nascentes – acedeu ao pedido. “Está tudo tão cabisbaixo e o desespero está de tal forma à flor da pele que tem de se começar por algum lado, com delicadeza, empatia e a anuência da comunidade”, diz Hugo Ferreira, fundador da editora nascida em 2012, em Leiria. Assim, a segunda edição do projeto Fontes Sonoras, que consiste numa residência artística alicerçada no som e em diálogo com o território, vai mesmo seguir em frente. A primeira etapa começa já no dia 22 de fevereiro e termina a 1 de março, data na qual será apresentado o projeto final.
Cabe ao artista Gil Delindro, especialista no cruzamento da arte sonora com a escultura e a ecologia e convidado desta primeira residência de 2026, lidar com o delicado equilíbrio que terá entre mãos: ou seja, saber escutar e observar “sem tabus” um território com “casas destruídas, árvores no chão e rios a transbordar”, mas com cuidado acrescido para com as pessoas que ainda estão a sofrer à conta das tempestades que arrasaram a região de Leiria. “Nas Fontes, felizmente, em dois ou três dias a população resolveu tudo, mas há muitas pessoas à nossa volta que ainda estão a reerguer as suas casas”, refere, desta feita, Vasco Silva, produtor e agente da Omnichord e também ele músico em projetos independentes, como os Whales.
Se o Fontes Sonoras teve luz verde para avançar, tal e qual o A Música dá Trabalho, cuja ação se desenvolve em comunidades escolares de norte a sul do país, o mesmo não se pode dizer da oitava edição do CLAP YOUR HANDS nem do Capítulo, eventos que têm igualmente curadoria da Omnichord. Quanto ao primeiro, que tinha arranque marcado para dia 6 de fevereiro no Teatro Miguel Franco, com Noiserv e Grutura, será reagendado para uma data a anunciar em breve. Já a inauguração a 28 de fevereiro da nova exposição do ciclo Capítulo, que iria incidir na obra de Daniel Johnston, foi adiada devido ao encerramento temporário do Museu de Leiria.
“Num momento catastrófico e dramático como este, algumas coisas tiveram que ficar para trás. Tentámos perceber onde poderíamos ser úteis e andamos com a nossa carrinha de caixa aberta de um lado para o outro a transportar objetos arremessados que caíram dos telhados e a ajudar os vizinhos”, explica Vasco. A cultura, diz, tem que abrandar e ser reestruturada, mas nunca parar, como faz questão de vincar Hugo Ferreira. “Como vamos evitar a depressão depois da depressão?” é a questão que se impõe e, em parte, a resposta está na cultura: “Ela vai ter um papel muito importante, sobretudo na aproximação da população e das freguesias”.
Problemas que não se resolvem de um dia para o outro e o comic relief da vida
Ultimamente, este dilema tem andado às voltas na cabeça de muitos agentes culturais, como acontece com a ADAO — Associação Desenvolvimento Artes e Oficios, no Barreiro, que fará um concerto solidário de apoio às vítimas das tempestades no dia 1 de março, com atuações de Hetta, MÁQUINA, Cleric Beast, Prado e Oka. “Além do donativo recomendado, a partir dos 10 euros, convidamos também a trazerem bens alimentares não perecíveis — teremos informações sobre os mais urgentes perto da data do concerto”, lê-se na página da associação.
Já Bunny, responsável de comunicação do espaço cultural Fuzz, no Cartaxo, admite que chegaram a pensar em cancelar os eventos em agenda, mas que acabaram por recuar: “Quando as pessoas aqui chegam, conseguem-se distrair um bocadinho e passar ao lado do que está a acontecer”. Há inclusivamente membros do Fuzz que disponibilizam as suas casas para quem precisa de um simples banho ou de um sítio seguro para descansar. “Isto é o mínimo que podemos fazer. Estamo-nos a disponibilizar para qualquer coisa que seja.”
Em parceria com o Coletivo Ponte, da vila de Pontével, o Fuzz tem promovido recolhas regulares de bens no seu espaço. No fim de semana a seguir à tempestade Kristin, um carro e uma carrinha cheios seguiram para a Marinha Grande. Catarina Pinto, que faz parte do coletivo, foi uma das quatro pessoas que embarcou na viagem: “Fomos à toa, sem saber o que íamos encontrar. Sabíamos que as estradas estavam transitáveis e começámos a correr as aldeias ali à volta. Acabámos por deixar os nossos bens na sede da ADASCO [Associação de Desenvolvimento e Apoio Social da Freguesia de Coimbrão], porque pouca gente tinha chegado até eles naquela altura. Estavam sem rede, completamente isolados”.


Na zona do Cartaxo, explica, os danos foram visíveis, especialmente nas zonas de Porto de Muge e da Valada, mas nada comparado com as regiões de Leiria e de Alcácer do Sal. Por isso, a próxima entrega de bens será, precisamente, nesses territórios. “Temos de ser uns para os outros e continuar a apoiar, porque os problemas não se vão resolver de um momento para o outro”. Quanto ao Fuzz, assegura Bunny, continuará com as recolhas e com o “comic relief” da vida, que é como quem diz, com a sua programação cultural: no dia 21 de fevereiro, às 22h, Giuseppe Sangirardi assumirá o DJ set, lembrando as noites de rock do Soul Sister, bar lisboeta que fechou portas no início de 2025; e no dia 28, às 18h, os franceses Red Sun Atacama levarão o seu stoner psicadélico a este “espaço comunitário”, que é um autêntico viveiro de “malta artística”.
“Não somos salas que sejam observadas, muitas vezes até somos incompreendidas”
Para um olho desfocado, que se habitou a ver apenas o que se passa nas barbas de Lisboa ou do Porto, espaços como o Fuzz podem parecer quase irrelevantes. Mas Bunny lembra que, embora “pequeninos”, são estes os espaços que fazem a diferença nas comunidades onde estão inseridos: “Somos o ponto de encontro de muita gente, o espaço cultural onde as ideias crescem, onde os músicos se podem apresentar pela primeira vez, onde o público pode ver os primeiros concertos e onde os artistas, se calhar, ganham vontade de continuar e não desistem da sua arte”.
Por isso, a notícia dos estragos causados pelo carrossel de tempestades no Texas Club, em Leiria, e no Bang Venue, em Torres Vedras, abalaram-na profundamente. “Tocou-nos mesmo lá no fundo. Estamos a falar de amigos nossos e sabemos que a luta deles já é difícil sem estes problemas, quanto mais agora. Já disponibilizámos o Fuzz para eventos, para uma tour, para fazer algum dinheiro que ajude estas salas”.
Ulisses Dias, proprietário e programador do Bang Venue, está com o coração posto nestas manifestações de solidariedade e de mangas arregaçadas para encontrar uma nova casa temporária para a sua sala. “Já tivemos várias pessoas, entidades e associações a entrarem em contacto connosco, mas ainda não surgiu nenhum espaço com as condições que precisamos para receber o nosso equipamento e com dimensão para 300 a 400 pessoas”. A programação de março ainda continua de pé e só no pior dos cenários é que será cancelada. Ou seja, se o Bang, fechado por causa de um deslizamento de terras na encosta do Castelo, não reabrir e não encontrar um poiso provisório para alojar a sua agenda.
Entre os nomes programados para o próximo mês estão o de Tiago Sousa (7 de março), pianista exploratório que com Sustained Tones Vol. 1 (2026), da série Organic Music Tapes, assinala 20 anos de carreira; Filipe Karlsson (14 de março), com a tour do álbum Lá Vem o Sol (2025); o stand up comedy de Jel (27 de março); ou o concerto de apresentação de Existencisensual, o novo álbum de Mike El Nite (28 de março). “Estamos há 9 anos a fazer um caminho. Agora o caminho está cheio de terra e de água, mas tudo há de ser ultrapassado.”
Ulisses não deita a toalha ao chão, mas o desalento é-lhe notório na voz. Só com o cancelamento das celebrações oficiais do Carnaval de Torres Vedras, o proprietário do Bang Venue contabiliza perdas à volta dos 50 mil euros, “uma almofada financeira” que sustentava grande parte da atividade do ano. “É tudo muito frágil. Somos um projeto de carinho e de cuidado com a música portuguesa, mas, como sala independente, não recebemos qualquer tipo de apoio. Não somos salas que sejam observadas, muitas vezes até somos incompreendidas. Se terminarmos agora, ficamos felizes com o que conseguimos, mas acho que não vamos acabar.”


O amor à cultura e à criação artística parece ser o denominador comum a todos estes espaços. E é precisamente esse amor que faz com que o Texas Club continue de rosto erguido e pés firmes na freguesia de Amor, em Leiria. “O Texas tem 33 anos de existência e, em 2026, não pretendemos aderir à lista de clubes a fechar portas”, escrevia a sua equipa no Instagram, depois da tempestade Kristin ter levado grande parte do telhado desta sala de espetáculos.
De lá para cá, foi posta em marcha uma campanha de angariação de donativos no GoFundMe: a “Reconstrução do telhado do Texas Clube Leiria” angariou 5.785€ dos 15 mil euros pedidos para levar a cabo as obras necessárias. “O que mais me sensibilizou foi sentir que as pessoas se predispuseram logo a ajudar e que os primeiros apoios que recebemos foram dos músicos”, partilha Frederico Clemente, filho dos fundadores Filipe e Paula Clemente e que, juntamente com o irmão Telmo, mantém a gestão familiar do Texas Club.
A par do crowdfunding e de uma festa marcada para dia 21 de fevereiro, no bar O Pica Miolos, em Leiria, há já mais dois eventos solidários agendados no RCA, no Porto, e na Musa de Marvila, em Lisboa, a 13 e 14 de março, respetivamente. “Em Lisboa teremos DJ Sets, concertos e chefs de cozinha da zona de Leiria. Será um evento de entrada gratuita e com recolha de donativos. No Porto, vai haver um bilhete cujo valor ainda estamos a decidir”.
Entre os nomes confirmados para o evento de Lisboa estão os de Frankie Chavez, Afonso Rodrigues (Sean Riley & The Slowriders), Ray, The Poppers e ESQUERDA, bem como dj sets de Stereossauro, Pedro da Linha, The Legendary Tigerman e Them Flying Monkeys. No Porto, haverá concertos de Surma, Marquise, Mr. Gallini e Cat Soup. Independentemente do valor arrecadado, Frederico Clemente avança já com uma data de reabertura: 20 de março. “Estamos a trabalhar nesse sentido para voltarmos com cabeça.” Que a primavera chegue rápido, com gentileza e amor.