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(A) :: Há 40 anos André e Sarah Ferguson foram de lua-de-mel "secreta" para os Açores. Como Portugal e Espanha foram refúgios para os Iorque

Há 40 anos André e Sarah Ferguson foram de lua-de-mel "secreta" para os Açores. Como Portugal e Espanha foram refúgios para os Iorque

Os ex-duques passaram cinco dias nos Açores após o casamento. Anos depois, Sarah refugiou-se no Algarve e no Douro em momentos difíceis. Agora, a filha Eugenie vive entre Londres e a Comporta.

Sâmia Fiates
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Julho de 1986. No porto da Praia da Vitória, na Ilha Terceira, o Britannia aguardava atracado, desde o dia anterior. Em terra, dezenas de locais aglomeram-se munidos de presentes vindos de todas as nove ilhas açorianas. Vinho, queijo, artesanato, bonecos vestidos com os trajes típicos do arquipélago e guias turísticos para navegar pela região. A alguns quilómetros dali, na base das Lajes, os recém-casados André Mountbatten-Windsor e Sarah Ferguson desembarcavam vindos do aeroporto de Heathrow, para subirem a bordo do iate real britânico. Num vestido florido em tons de branco e azul, a duquesa de Iorque parecia distraída com a paisagem e quase se desvia do caminho definido pelo protocolo — quando se apercebe, corre em direção ao marido. Ainda antes de subir ao barco que os levaria ao cruzeiro de lua-de-mel, ambos acenam para o público açoriano.

Seria provavelmente uma das poucas vezes que os locais veriam o então príncipe e a mulher durante a lua-de-mel, que era para ter sido “secreta”. Um paparazzi ainda apanhou o casal à bordo do iate uma vez durante os cinco dias em que os dois exploraram o arquipélago, alegadamente escoltados por um navio da marinha portuguesa.

Alguns meses antes, em fevereiro, uma grande tempestade trouxe aos Açores rajadas de vento na ordem dos 250 quilómetros por hora e ondas entre os 15 e os 20 metros, provocando estragos principalmente nas ilhas de São Miguel, Santa Maria, Flores e Corvo. Foi neste dia que as ondas gigantes, que dizem ter chegado a 60 metros de altura, desenharam o rosto do “Neptuno da Horta”, numa fotografia registada por José Henrique Azevedo, o Peter do Faial, que parecia refletir a “fúria” do deus dos mares. O local, no Monte da Guia, transformou-se num dos miradouros da ilha do Faial.

Os Açores eram na altura um destino turístico de aventura, destacado pela natureza intocada. Mas a viagem do então príncipe com a mulher para o arquipélago também visava alguma privacidade, já que as ilhas, localizadas no meio do Atlântico, ofereciam poucas oportunidades para a imprensa localizar os membros da realeza britânica — menos ainda de os fotografar, numa altura em que os tabloides britânicos chegavam a perseguir figuras como a princesa Diana. Diz-se que André e Sarah estiveram a conhecer até as ilhas menos urbanizadas, mas a verdade é que pouco se sabe sobre o que realmente visitaram ao longo do cruzeiro. Depois dos cinco dias nos Açores, o casal seguiu para duas semanas de cruzeiro pela Escócia.

Este ano completam-se 40 anos desde a viagem. Foi a 23 de julho de 1986 que o casal deu o nó, na Abadia de Westminster. Neste mesmo dia os dois tornaram-se duques de Iorque — um título tradicionalmente concedido ao segundo filho homem do monarca. André também recebeu os títulos escoceses e irlandeses de conde de Inverness e barão de Killyleagh, enquanto Ferguson ganhou um novo brasão de armas, com o lema “Ex Adversis Felicitas Crescit”, ou “Da adversidade nasce a felicidade”. A entrar na igreja com a noiva juntaram-se os pajens e damas de honra, entre os quais os filhos da princesa Ana, Peter e Zara e o filho do então príncipe Carlos, William. O príncipe Eduardo, como padrinho, acompanhou o irmão mais velho na espera por Sarah Ferguson no altar. Depois da cerimónia protocolar, os convidados foram recebidos num brunch luxuoso em Buckingham. “Aquele almoço foi sumptuoso, formal e entediante. Em certo momento, fizemos um brinde, mas ninguém o fez, pois isso não era tradicional! De repente, senti um profundo arrependimento. Toda a pompa tinha sido ótima, mas eu queria ser uma noiva normal – queria que o padrinho do André se levantasse e fizesse um discurso engraçado, e que alguém dissesse como eu era uma pessoa maravilhosa ou como eu tinha cavalgado mal os meus póneis”, chegou a desabafar Sarah Ferguson, como recorda Andrew Lownie na biografia dos duques de Iorque, Entitled: Rise and Fall of the House of York.

Um pouco depois das 16h os recém-casados deixaram o Palácio numa carruagem que carregava uma placa que dizia “ligue para casa”, uma brincadeira do padrinho e irmão mais novo, que já conhecia os modos do então príncipe. O casal dividia espaço com um urso de peluche gigante — uma referência à obsessão de André por teddy bears. Há muitos rumores sobre a alegada coleção de peluches de André. A jornalista Elizabeth Day revelou num artigo no Daily Mail em 2019, que quando foi ao Palácio de Buckingham entrevistar o então duque de Iorque percebeu um urso gigante posicionado numa cadeira do lado de fora do seu escritório. Ao ser confrontado, disse que era um presente de Sarah Ferguson — e de facto a mulher de André tinha o hábito de comprar-lhe peluches. De uma viagem em 1989 a Nova Iorque trouxe um urso que custou mais de 500 euros, enquanto no casamento ofereceu-lhe um helicóptero de prata maciça de trinta polegadas que se abria para revelar miniaturas valiosas, uma das quais era um teddy bear de prata; recorda Andrew Lownie na biografia sobre os duques de Iorque. Já no documentário de 2022 da ITV, Ghislaine, Prince Andrew and the Paedophile, um dos antigos seguranças privados de André, Paul Page, afirmou que o ex-príncipe mantinha uma fotografia dentro de uma gaveta no quarto para ajudar as empregadas de limpeza a organizarem os seus cerca de 50 peluches na sua cama. Por sua vez, Charlotte Briggs, que diz ter trabalhado para a família real na década de 1990, disse ao The Sun que André tinha, na altura, 72 peluches, que tinham que ser minuciosamente organizados sobre a sua cama do todos os dias.

As “fugas” de Sarah Ferguson para o Algarve e o Douro

O anúncio da separação veio a 19 de março, o culminar de dias de especulação na imprensa. “Na semana passada, os advogados da duquesa de Iorque iniciaram conversas sobre uma separação formal do duque e da duquesa. Essas conversas ainda não foram concluídas e nada será dito até que sejam. A Rainha espera que os media poupem o duque e a duquesa de Iorque e as suas filhas de qualquer intromissão”, dizia o comunicado do Palácio de Buckingham, publicado pela BBC. Pouco mais de um ano depois, Sarah Ferguson decidiu refugiar-se numa mansão em Lagos, no Algarve, ao lado das filhas, Beatrice e Eugenie, numa das muitas viagens privadas que a então duquesa fez ao longo dos anos. De acordo com o que a RTP publicou na altura, a casa tinha piscina, ficava numa área de difícil acesso e custava 900 contos por semana, o equivalente a pouco mais de 4 mil euros.

Em dezembro de 1994, Sarah regressou a Portugal. Dessa vez para dar a cara por uma iniciativa de solidariedade. “A duquesa de Iorque veio a Lisboa principalmente para ver Luís, um amigo com SIDA. Um encontro num hospital de Lisboa, longe das câmaras de televisão”, relatou a RTP sobre a visita, que também incluiu passagens pelos hospitais Egas Moniz e Santa Maria, antes de seguir para o Porto, onde participou da inauguração da sede da associação Abraço, fundada por Margarida Martins em 1992 para prestar apoio aos doentes.

Durante a viagem de três dias, a então duquesa não conseguiu ficar longe de polémicas. Numa conversa com os jornalistas, admitiu que já tinha feito testes para detetar o VIH. “Fiz o teste três vezes, antes de me casar, antes de ficar grávida, e para fazer um seguro de vida há um ano e meio”, terá dito aos jornais nacionais, incluindo o Diário de Notícias. Depois, acabou por afirmar que a citação foi mal traduzida, negando que tenha feito um teste para saber se tinha o vírus antes de engravidar, altura em que ainda era casada com André.

A viagem oficial seguinte a Portugal seria só em 2022, quando Ferguson esteve na Feira do Livro, em Lisboa, a promover o seu romance histórico Onde Me Leva o Coração. Num fato azul marinho e no peito um pin com as cores da Ucrânia (a guerra havia começado há seis meses), a antiga duquesa abraçou o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que chegou atrasado para a apresentação do livro. “É lindo estar em Portugal porque gosto das pessoas”, disse a então duquesa à revista Sábado na altura.

Contudo, secretamente Fergie terá passado pelo menos mais uma vez por terras lusas antes disso. Quando em maio de 2010 News of the World revelou as negociações da duquesa de Iorque com um “falso xeque”, e pediu 500 mil euros para apresentar o suposto empresário, que era na verdade um repórter disfarçado, ao ex-marido, que na altura era enviado comercial do Reino Unido, Sarah Ferguson sentiu a necessidade de se desligar. A imprensa britânica avançou que a ex-mulher de André foi para um retiro em Montecito, na Califórnia, por cerca de duas semanas. Contudo, a revista portuguesa Lux dizia que Fergie havia decidido “esconder-se” em Peso da Régua. A duquesa terá entrado num programa de emagrecimento no luxuoso Hotel Aquapura Douro Valley, na Quinta Vale de Abraão.

O refúgio da família na Comporta

Na conversa de 2022 com a revista Sábado, a então duquesa também mencionou rapidamente os laços da família com a região da Comporta. “O meu genro, Jack, trabalha para a Costa Terra, em Melides – são tempos muito emocionantes para nós”, disse. Já à TVI, chegou mesmo a dizer que vir a Portugal era como “regressar a casa”. “Este país acolhe-me na sua história”, disse ainda a ex-duquesa de Iorque. Na altura especulava-se que a princesa Eugenie e o marido estivessem a divir o seu tempo entre Londres e uma mansão no condomínio em Melides. Certo é que o casal passa pelo menos algum período das férias de verão na casa. Em 2025, aliás, a filha do ex-príncipe André recebeu o ator Robbie Williams com a mulher e os filhos, que passaram dias a jogar golfe e fazer caminhadas no meio da natureza.

Numa entrevista à Hello! em 2024, a princesa Eugenie falou sobre a vida na costa portuguesa, destacando o gosto dos filhos, August e Ernest, pela praia. “O mar em Portugal é um pouco mais agitado”, disse a filha de André e Sarah, completando: “só colocamos os pés na água, mas o Augie é um peixe. Ele adora nadar, e vemos baleias e golfinhos por todos os lados.”

A imprensa britânica chegou a especular em novembro que Sarah estaria a caminho de Melides, depois dos antigos duques de Iorque deixarem o Royal Lodge, em Windsor, diante do crescente escrutínio público sobre a ligação do ex-casal a Jeffrey Epstein. Contudo, a ex-mulher de André acabou seguindo para outros lados — depois da mudança, terá rumado para uma clínica de saúde mental de luxo na Suíça, para a seguir embarcar para o Médio Oriente.

O Costa Terra Golf & Ocean Club afirma-se como “um refúgio familiar na Europa”. Ao longo dos mais de 290 hectares, “com mais de 30% da vegetação preservada”, estão as 300 residências (nem todas já construídas), cercadas por um serviço de luxo que inclui campo de golfe, centro equestre, beach club, horta biológica e centro de wellness — um espaço que parece atender as necessidades de toda a família, incluindo a paixão de André pela equitação e o golfe. O ex-príncipe foi fotografado ao longo dos último meses a cavalgar nos jardins de Windsor e recentemente foi “banido” da prática por conselheiros, que consideram que fazer passeios ao mesmo tempo em que é investigado pela polícia de Thames Valley pioram a imagem de André, avança o Indendent.

André e os verões na costa espanhola

O filho de Isabel II também ficou conhecido no Reino Unido por “Air Miles Andy”, pelas suas muitas viagens internacionais, constantemente em jatos privados. Um dos destinos mais frequentes do ex-príncipe no verão era o sul de Espanha. André costumava passar alguns dias todos os anos em Sotogrande, na Andaluzia, habitualmente ao lado da ex-mulher e das filhas. Aliás, a espécie de “cidade privada”, conhecida pelos campos de golfe e a marina luxuosa, também aparece nos ficheiros Epstein. Em 2002, quando André trocava emails com Ghislaine Maxwell como “O Homem Invisível”, o ex-príncipe menciona que está a pensar “juntar-se a Sarah e as crianças em Sotogrande para alguns dias, o que seria muito importante e algo bom para as meninas”. André também estava em Sotogrande em 2019 quando Epstein se suicidou numa prisão federal nos EUA, revelou na altura o Mirror.

Entretanto, com Portugal a ligação é muito menos pública. Depois da lua-de mel nos Açores, não houve nenhuma visita oficial, nem viagem privada que tenha sido documentada por paparazzi. O ex-príncipe ocupou o cargo de enviado comercial do Reino Unido entre 2001 e 2011, mas não há nenhuma menção a negócios com Portugal neste período que tenham envolvido André. A última vez que um monarca britânico esteve em Portugal foi em 1985, quando a Rainha Isabel II realizou uma visita de três dias ao país e ficou hospedada no Pavilhão D. Maria I, uma residência no Palácio de Queluz. Carlos passou por Portugal em três ocasiões, ainda antes de ser Rei: em 1987, numa viagem oficial ao lado da então mulher, Diana; em 1998, quando parou num bar em Alcochete para tomar Moscatel; e em 2011, já acompanhado de Camila.

Curiosamente, uma das ligações mais fortes de Epstein a Portugal é, justamente, no único destino no país que André já visitou: os Açores. O aeroporto de Santa Maria serviu de base para o abastecimento do jato privado do milionário, conhecido por “Lolita Express”. Entre 2000 e 2002 o avião passou pela ilha açoriana pelo menos três vezes, a levar passageiros célebres como o ex-Presidente norte-americano Bill Clinton ou o ator Kevin Spacey. Contudo, os registos de voo não incluem o nome de André — apesar da relação entre o príncipe e Epstein nesta altura ser muito próxima, como revelam outros ficheiros do caso.