O prior geral da Congregação Camaldulense da Ordem de São Bento, uma congregação religiosa de clausura fundada no século XI por São Romualdo, quer que os monges da comunidade se abstenham de usar as redes sociais, a internet e até plataformas de streaming como a Netflix nas suas celas, de modo a preservar as dinâmicas próprias da vida monástica, noticia o jornal The Guardian, citando uma carta do líder religioso.
Numa carta aberta que dirigiu a todos os priores, responsáveis de casas e mestres de noviços das várias comunidades camaldulenses por todo o mundo, o padre Matteo Ferrari — que é também o prior do eremitério de Camaldoli, na Toscana, a sede da ordem — reconhece que as novas gerações são nativas digitais e que a Igreja Católica deve procurar beneficiar das possibilidades oferecidas pela internet e pelas redes sociais.
Porém, acrescenta Ferrari, é necessária uma reflexão “profunda e corajosa” sobre o assunto, especialmente na formação dos jovens monges. Se no mundo laico há um intenso debate sobre o impacto da internet e das redes sociais no desenvolvimento das crianças e jovens, então este debate tem mais razão de ser no contexto particular das comunidades monásticas, defende o prior.
“A cela, que é um lugar de escuta, oração e vida de sabedoria, pode realmente transformar-se num lugar de dispersão, de perda de tempo, de fuga de si mesmo e das suas tensões interiores? Se a cela se transforma num lugar de dispersão e numa sala de cinema individual e individualista, para onde vai a nossa espiritualidade monástica e romualdina?”, questiona Matteo Ferrari.
“Existem verdadeiras ‘dependências’ cinematográficas que podem levar os monges a tornarem-se especialistas em cinema, mais do que buscadores de Deus”, acrescenta. “Acredito que a cela monástica não é o lugar para assistir a filmes individualmente e que é muito mais saudável pensar em momentos comunitários, que podem ter um valor formativo para todos e também de crescimento na comunhão e na fraternidade. A Netflix e outras plataformas de streaming online, assim como redes sociais como o Instagram e o Tik Tok, pensadas especificamente para causar dependência, acho que devem ser absolutamente evitadas, também por uma questão de pobreza e sobriedade.”
A carta de Matteo Ferrari debruça-se sobre diferentes momentos da vida dos monges e monjas da família camaldulense, incluindo o postulantado, o noviciado e o momento dos votos.
Sublinhando que o postulantado é um momento de “sentido crítico” em que os jovens candidatos devem adaptar-se à nova situação que se propõem viver, Ferrari defende que deve haver sentido crítico no uso da internet e das redes sociais para que o candidato possa meditar eficazmente nos valores e nos riscos da vida solitária de um monge.
Durante o noviciado, que descreve como um momento de “distanciamento” do mundo, o afastamento das redes sociais e de plataformas como a Netflix é ainda mais fundamental, bem como a necessidade de disciplinar os contactos com a família e amigos através do WhatsApp, defende o prior geral dos camaldulenses, sublinhando que a vida monástica é uma escolha livre que exige uma capacidade de afastamento do mundo.
Já durante a vida monástica, o prior recomenda que os religiosos se abstenham de qualquer uso das redes sociais e da internet à noite, após o jantar, para que o silêncio que os monges são chamados a viver na sua cela seja verdadeiramente experienciado. Se, no passado, o voto de silêncio se reportava especificamente ao sentido estrito do termo, atualmente o respeito pelo silêncio monástico exige uma reflexão sobre o uso das redes sociais, da internet e até do consumo de filmes e televisão.
“A Regra [de São Bento] fala claramente do ‘silêncio’ depois das completas”, diz Ferrari, referindo-se à oração da noite. “Penso que esta custódia do silêncio com amor, hoje, diz respeito também e sobretudo às redes sociais, à internet, aos filmes”, acrescenta o prior, pedindo aos religiosos que usem estes meios como ferramentas de trabalho e não como formas de dispersão e de ócio.
Matteo Ferrari já veio dizer, em declarações à imprensa italiana, que o seu objetivo não é repreender os monges que usam as redes sociais, mas promover uma reflexão acerca de um assunto que marca os tempos atuais e que não pode ser ignorado.