Passam quase três décadas desde a publicação do conto de Annie Proulx na revista The New Yorker e vinte anos desde a estreia da sobejamente conhecida adaptação cinematográfica realizada por Ang Lee. Brokeback Mountain, agora peça de teatro, chega esta quinta-feira, 19 de fevereiro, ao palco do Teatro da Trindade, em Lisboa, para até 5 de abril mostrar ao público a intensidade crua e silenciosa do trágico amor entre Ennis del Mar e Jack Twist, dois vaqueiros do Wyoming, EUA, algures nos anos 1960.
“[O filme] dizia-me imenso, vi-o no final da adolescência, e para mim foi muito tocante pela temática, por ser um grande filme no cinema que aborda estes temas, tanto do amor queer, como da segregação social, do ponto de vista das pessoas terem que esconder aquilo que são e que sentem”, diz Daniel Gorjão, encenador da peça, ao Observador, após um ensaio. Foi desafiado por Diogo Infante, diretor artístico do Teatro da Trindade, que o encenador do Teatro do Vão se lançou a esta versão com texto de Ashley Robinson, a partir de Annie Proulx, que se estreou em 2023 em Londres. “Tocou-me particularmente por ser um filme que vi pela primeira vez quando ainda estava a crescer e a formar-me enquanto pessoa”, continua, notando que não vê neste enredo uma história de amor impossível. “É só um amor proibido. É um amor que seria possível, mas há tanta castração social que nenhum deles é capaz de o viver.”
Inspirada diretamente no texto literário que deu origem ao filme, a peça devolve ao público a mesma narrativa contida, marcada por silêncios densos e pela paisagem imensa do Wyoming, que se transforma em metáfora de isolamento e desejo reprimido. Se o filme conquistou reconhecimento internacional e se tornou um marco cultural na representação de relações homossexuais no cinema mainstream, a versão teatral sublinha a dimensão literária e humana da história, ancorada sobretudo na capacidade de emoção dos atores, em particular Rui Pedro Silva e Duarte Melo, na pele de Jack e Ennis, respetivamente. Será difícil afastar a memória das interpretações de Jake Gyllenhaal e Heath Ledger, que marcaram o filme de Ang Lee (2005), mas a proposta em palco procura encontrar o seu próprio caminho, apostando numa leitura mais íntima e próxima do texto original.

O que é certo é que num contexto em que os direitos adquiridos são, por vezes, colocados em causa, trazer Brokeback Mountain ao palco é também um gesto político. O conflito interno das personagens — divididas entre o amor que sentem e as convenções sociais que as moldam — ressoa com particular força. Afinal, a história de Ennis e Jack não é apenas um drama romântico, é uma narrativa sobre medo, repressão e as consequências de uma sociedade que impõe limites ao afeto.
“Vamos voltar ao tema da extrema-direita, mas acho que é mesmo essencial fazerem-se textos que falem da liberdade das pessoas, daquilo que elas querem ser, de não serem reprimidas e de poderem viver a vida como elas desejam. E este texto faz-nos refletir sobre isso. Este texto, em particular, acho que deve ser sempre apresentado”, diz Gorjão, após um ensaio.
“Cada vez mais vemos pessoas a serem manietadas na sua liberdade, na sua existência. A não poderem viver exatamente como querem porque ou têm uma cor ou têm uma identidade sexual que não condiz com a norma e começam a ser perseguidos sexualmente. O espetáculo é mais do que ser sobre o amor, é sobre o medo que eles têm daquilo que a sociedade lhes impõe e de não poderem viver a vida como elas desejam.”
Reafirmando a urgência de uma história que nunca deixou de ecoar no presente, a peça não contem elementos temporais. “Não quis que a peça soasse aos anos 1950, queria que a peça soasse a uma coisa que é intemporal, uma história que se pode contar em todos os tempos, porque este tipo de histórias continuam a acontecer”. “O texto original tem isso, tem a passagem do tempo, dos anos 50, dos anos 70. Quis inverter tudo isso e tornar uma história que se pode contar hoje, e que se pode viver hoje.”

Um cenário praticamente despido coloca-nos a olhar para o figurino: camisas com xadrez estilo lenhador, calças de ganga, botas de pele. A roupa, quase integralmente de etiqueta Levi’s, responde à clássica imagética de cowboy, mas também confere contemporaneidade ao espetáculo. “São roupas de agora, que podíamos comprar na loja, é tudo de agora. Não se fez uma recriação histórica.” A única exceção à etiqueta americana é uma imponente saia Alves/Gonçalves, que o designer José Manuel Gonçalves cedeu para abrilhantar Carla Galvão.
A atriz assume-se como peça-chave do espetáculo. Não interpreta uma personagem específica, surge antes em momentos pontuais para expressar emoções que os homens, e as mulheres (Joana Ribeiro) com quem se casam, recusam expressar abertamente. E fá-lo cantando, com temas originais, à semelhança do que acontece na versão londrina. Funciona como uma espécie de “motor de viagem” dentro da narrativa, explica Gorjão. “A música ajuda à viagem que se propõe ao público”, sublinha, reforçando a dimensão sensorial que atravessa toda a encenação.
Distanciando-se da matriz mais country da produção de Londres, a direção musical de Miguel Lucas Mendes aposta numa sonoridade menos acústica e mais eletrónica, criando uma atmosfera contemporânea que dialoga com a intemporalidade da história. A partir da tradução de Ana Sampaio, a adaptação das letras foi um processo coletivo. “Foi um trabalho de ourives”, descreve, marcado pela procura minuciosa das palavras certas para que o sentido original se mantivesse intacto, sem comprometer a musicalidade e o encaixe rigoroso nas composições.


Encenador “queria fazer um espetáculo para massas”
Ainda que os números de consumos culturais do panorama nacional sejam aquém dos desejados, tem sido cada vez mais comum ver peças esgotadas antes da estreia. Mas ainda é motivo de espanto quando se trata de um espetáculo que estará em cena quase dois meses. “Nunca tive o caso de esgotar um espetáculo com uma carreira de sete semanas, que é uma coisa que já se faz pouco, as carreiras têm duas semanas. Mas está completamente esgotado antes mesmo de estrear”, congratula-se Daniel Gorjão, para quem este sucesso não deixa de ter um sabor agridoce.
“É um paradoxo: nem as marcas, nem o Estado, nem ninguém se interessou pelo projeto, a não ser os coprodutores que temos, mas o público pelos vistos tem interesse”, nota sobre a peça que não conseguiu o apoio da Direção Geral das Artes nem de mecenas. “Isso dificultou imenso fazer o espetáculo, porque as coproduções são curtas hoje em dia, a sala é muito pequena para se conseguir fazer uma bilheteira que sustente o espetáculo. Mas é um espetáculo de sucesso porque esgotou, ou seja, havia apetência do público para ser visto mesmo antes de ele estrear.”

Para Gorjão, cujo último trabalho fora O Lago dos Cisnes, sempre foi claro que este seria um “espetáculo para massas, uma coisa que comunicasse”. “Acho que o teatro serve para comunicar com as pessoas, e quanto mais pessoas conseguirmos ter a assistir, melhor”, assume, notando, contudo, um padrão. “Esses espetáculos de massas que tentei fazer nunca tiveram apoio financeiro do Estado. Não acho que o Estado seja obrigado a dar dinheiro sempre, claro, é um concurso, às vezes ganhamos, ficamos em primeiro, outras vezes não chegamos lá. Mas é um amargo de boca ter um sucesso de público e não ter condições financeiras para fazer o espetáculo.” O Brokeback Mountain que aqui se mostra, é assim, “o espetáculo que podia fazer”.
Não há margem para acrescentar datas às esgotadas em Lisboa, mas a peça segue para Alcanena e Tomar. Para o ano, é já certo que viaja até Almada. “Estamos a trabalhar para voltar em 2027 a Lisboa. Percebemos que há muita gente que quer ver o espetáculo e que não conseguiu comprar bilhete. Estamos a trabalhar para voltar.”
Teatro da Trindade, Lisboa. De 19 de fevereiro a 5 de abril, de quarta a domingo, às 19h