Assistimos nos últimos tempos à estreia de uma série de filmes com protagonistas femininas em crise ou em colapso familiar, psicológico, anímico e emocional, todos realizados por mulheres. Exemplos recentes são Mata-te, Amor, de Lynne Ramsay (Jennifer Lawrence numa jovem mãe negligenciada pelo marido e a deslizar para a insanidade); depois veio A Cronologia da Água, de Kristen Stewart (Imogen Poots numa nadadora de alta competição e aspirante a escritora que foi abusada sexualmente pelo pai e não consegue dar rumo à vida); e agora Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé, de Mary Bronstein, com Rose Byrne (ganhou o Prémio de Melhor Intérprete no Festival de Berlim, o Globo de Ouro de Melhor Atriz num Musical ou Comédia e está nomeada ao Óscar respetivo – viver personagens feitas em cacos parece compensar)
É um filme em permanente aflição ao longo das suas quase duas horas, a aflição da heroína, Linda (Byrne), mãe de uma menina doente e terapeuta de profissão. E a simples descrição do seu calvário é suficiente para nos deixar tão aflitos como ela. O marido (Christian Staler) comanda navios de cruzeiro, está fora por longos espaços de tempo e só conseguem falar ao telefone. A filha, cujo nome não sabemos e cuja cara não vemos, sofre de uma doença que a obriga a ter uma sonda no umbigo, ligada a uma máquina que a mãe tem que manipular. Quando o teto do quarto do casal desaba e a casa fica inundada, Linda instala-se com a menina num motel, até que tudo fique reparado. Só que o empreiteiro põe-se a adiar.
[Veja o “trailer” de “Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé”:]
https://www.youtube.com/watch?v=ywFDoT7LBbQ
Quando Linda aparece pela primeira vez, o seu estado nervoso já não é o melhor, e está a consultar um colega que trabalha no mesmo sítio (interpretado, surpreendentemente, por Conan O’Brian), e a dar-lhe cabo dos nervos, pelo seu lado. Mas a partir do momento em que tem ficar no motel sem saber por quanto tempo e sem conseguir que o marido regresse para tratar da reparação do quarto, a vida de Linda entra num colapso gradual e imparável, progredindo num crescendo tragicómico de percalços, acidentes, azares e ações desastradas ou negligentes (incluindo com um infortunado hamster), que a levam até a ter visões devido ao abuso da bebida e da erva a que recorre para se acalmar. E que afugentam as poucas pessoas que a querem ajudar.
[Veja uma entrevista com Rose Byrne:]
https://www.youtube.com/watch?v=POoi1rhMZNY
As coisas correm mal até com os seus pacientes. É uma mulher com a vida em caos total que Mary Bronstein, também autora do argumento, retrata em Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé. E longe de a tentar tornar simpática e digna da comiseração do espectador, mostra-a a comportar-se de uma forma que questiona a empatia da nossa parte, em especial com a filha.
[Veja uma entrevista com a realizadora Mary Bronstein:]
https://www.youtube.com/watch?v=TmYxIJuX9jI
Bronstein filma Linda em constante frenesim e quase sempre em muito grande plano de chapão, pondo à prova os limites da personagem ao mesmo tempo que testa os nossos limites de a tolerar, e ao próprio filme. Que não consegue ir mais longe e mais fundo do que na descrição igualmente frenética da exaustão física e da derrocada mental e emocional da protagonista. Rose Byrne interpreta-a recorrendo a um arsenal de expressões, tiques e contorcionismos faciais que se tornam repetitivos, e a forma como a personagem está escrita dá-lhe pouco espaço e escassas oportunidades para sair do seu registo desatinado enquanto salta de aperto em aperto, ou para qualquer tipo de subtileza — a exemplo da fita, aliás.
[Veja uma sequência do filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=2Y-o17PohYI
Mary Bronstein é mulher do argumentista, montador, realizador e produtor Ronald Bronstein, que costuma trabalhar com os irmãos Safdie. Por isso, vários críticos têm frisado o parentesco visual, temático, emocional e de atmosferas de Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé, com os filmes destes. Nomeadamente, com Diamante Bruto (2019), chamando mesmo a Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé a versão no feminino deste, substituindo o joalheiro em meltdown acelerado ali personificado por Adam Sandler pela mãe em crise galopante vivida por Rose Byrne.
O problema é que, ao contrário de Diamante Bruto, o filme de Mary Bronstein acaba por esgotar o seu capital de verosimilhança — é difícil acreditar que tantos desastres aconteçam a uma só pessoa num tão curto espaço de tempo como a Linda. E esse empilhamento de desastres pessoais, o seu efeito devastador sobre a personagem e a intensidade ininterrupta da sua provação, não chegam para aguentar o interesse da fita, nem manter a nossa curiosidade sobre o que vai suceder a Linda no final. Trata-se de cinema enquanto prova de resistência.