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Os Católicos

A espécie de defesa tosca do Cristianismo balbuciada por incels nostálgicos de qualquer coisa talvez inventada, talvez meio verdadeira tem qualquer coisa comovente

Carlos Maria Bobone
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As almas caridosas do Observador arranjaram-me um novo trabalho, como editor da opinião do jornal. É essa incumbência que, directa e indirectamente, aqui me traz. A via directa é como um tapete rolante: explica-se sozinha; a indirecta é fácil de explicar.

Uma das primeiras coisas em que se repara, quando se enfrenta a atulhadíssima caixa de correio do Observador, é na enorme vontade que os leitores têm em escrever sobre os católicos e o catolicismo. Uma das seguintes, é a pouca vontade que os leitores têm de ler sobre aquilo que escrevem.

Esta contradição não é tão absurda quanto parece. Na verdade, exprime um desconforto próprio de quase todos os problemas entusiasmantes. É tão próprio de um problema gerar vontade de o resolver como respostas insatisfatórias; a vontade de escrever sobre o Catolicismo mostra que há um pressentimento geral de que o mundo católico está, de algum modo, mal enquadrado no discurso sobre o nosso tempo; e o pouco interesse que os textos geram acicata a vontade de escrever sobre ele: o que quase toda a gente tem para dizer sobre a relação entre a Igreja e o mundo contemporâneo é um furioso “não é assim!” sobre o que os outros dizem.

Os acusadores multiplicam-se, então, em correcções de doutrina. Citam o passo do catecismo que acusa Ventura de heresia ou a hermenêutica do Levítico que nos exime de considerar estrangeiros os estrangeiros, e os leitores amarfanham o ecrã e atiram-no ao cesto dos papéis porque, apesar do Afonso Costa, ainda estamos num país em que quase toda a gente teve catequese e o problema não é de doutrina – não é a doutrina que é nova.

Nem é, sequer, exactamente o problema que é novo. Desde que o catolicismo existe que tem dificuldade a saber o que é que na verdade é de César. O católico pode ser político? Pendura a cruz, como os jogadores de futebol penduram as chuteiras, quando entra numa Assembleia? Representa o absurdo de não fazer aquilo que acha que é o Bem, simplesmente porque isso lhe chega por via espiritual, e não por uma dedução materialista?

A questão católica só existe quando, da parte dos católicos, há a sensação de que vivem numa sociedade que lhes é hostil, e que há, portanto, algum tipo de contradição entre o que professam e o que a sociedade exige deles. Ora, isto não é especialmente problemático para sociedades mais jacobinas, que encontram no catolicismo um furúnculo que deve ser espremido sem piedade; no entanto, o centro da legitimidade democrática contemporânea está precisamente na sua pretensão a não hostilizar ninguém. A ideia de que há um problema entre o catolicismo e a sociedade democrática ofende-a na sua virtude mais preciosa e expõe um horrível buraco no centro da nossa vida pública.

O problema, no entanto, é que o antagonismo entre catolicismo e democracia reduz o próprio catolicismo à sua dimensão política, e isso é, para um católico, a mais inaceitável distorção. Já se tentaram todo o tipo de experiências deste género, e a Europa é filha de muitas delas. Tentaram-se os “cristianismos sem Cristo” da Action Française, a confusão saída do ralliement, a ponto de, por toda uma Europa vacinada contra confusões, não haver ninguém mais furioso contra proclamações católicas, por parte de políticos, do que os Católicos. Estes são, hoje, os mais radicais laicistas, que se farejam a mínima pretensão católica num governante, correm a escrever “cuidado!” pelos jornais fora.

Não há grupo mais avesso à representação política que os próprios católicos, e isso leva a uma curiosa alteração na sua forma de estar no espaço público.

A ideia tradicional europeia, que defenderam os pensadores alinhados com o papa no fim do século XVIII, de que as decisões políticas derivam essencialmente de problemas morais, e que por isso estes devem estar subordinados à Igreja, praticamente não tem cultores; talvez por viveremos em sociedades mais gentilizadas, a opção comum do católico que quer discutir político passa por adoptar o chão secular para tentar torcê-lo a seu favor. Daí que Chesterton e Evelyn Waugh sejam olhados com um fascínio próprio de quem encontrou o modo certo de existir no mundo secular; ao mesmo tempo, porém, esta secularização do discurso aproximou o discurso católico do discurso religioso comum na América, um discurso de pequena comunidade à procura do seu espaço. Este discurso, paradoxalmente, tornou o imaginário católico muito mais político e confrontacional. O “nós contra eles”, a que tantos na Europa reagem com a estranheza própria de quem está a ver uma tradição regressar um tanto amassada de uma longa viagem transatlântica, radica aqui.

Temos uma Europa a ser re-evangelizada no seu modo de lidar com a religião e no modo de a religião lidar com a política, e é impossível que isso não cause estranheza e até a repulsa própria de quem se vê a ser ensinado naquilo que já sabe.

Estamos a falar católico noutra língua, e isso não parece satisfazer ninguém. Nem radicais para quem a tradição contra-revolucionária europeia enfrenta sem peias a contradição entre democracia e cristianismo, nem os mais gasosos, para quem o Cristianismo que fuja das platitudes espirituais está já a conspurcar o corpo místico – e exclusivamente místico – da Igreja.

No meio disto, a espécie de defesa tosca do Cristianismo balbuciada por incels nostálgicos de qualquer coisa talvez inventada, talvez meio verdadeira, aquela caldeirada ideológica entre o alarve e o beata, é vilipendiada por todos, naquela que é talvez a tradição europeia mais intocada desde os tempos do iluminismo.

Anos de acusação de hipocrisia e tartufice geraram a mais pavloviana reacção ao aparecimento de um católico na política. Assim que ele empunha uma cruz, não há alma que não grite “aproveitamento”, “hipócrita”, “falso”. Tudo isso será verdade, mas também tudo isso é uma das lições do Cristianismo. Somos todos falsos, ninguém vive verdadeiramente como se propõe, e a mim, pelo menos, são os mais errados dos Cristãos que me inspiram mais piedade. Um Cristão nunca é bem um cristão, é sempre alguém que quer ser cristão. E quanto mais longe estiver disso, mais comovente acho que continue a curvar-se diante da cruz.