Na política europeia – e em especial no Reino Unido – a actualidade política da última semana fica marcada pelo lançamento do novo partido Restore Britain, de Rupert Lowe, um deputado dissidente do Reform UK, o partido liderado por Nigel Farage que lidera as sondagens. Lowe tinha já sido deputado no Parlamento Europeu – eleito em 2019 pelo Brexit Party – e em 2024 foi eleito deputado por Great Yarmouth para o Parlamento do Reino Unido pelo Reform. Lowe e Farage entraram em rota de colisão poucos meses depois da eleição e em Março de 2025 Rupert Lowe passou a independente. A formação do novo partido Restore Britain culmina essa ruptura definitiva e lança um desafio ao crescimento do Reform a partir da sua direita.
No momento em que escrevo, e ainda que em boa parte graças ao apoio e impulso directo de Elon Musk, o video de apresentação do Restore Britain por Rupert Lowe contabiliza já mais de 39 milhões de visualizações no X e há fortes sinais de que poderá haver convergência de várias forças e movimentos à direita do Reform para se juntarem ao novo partido. Esses sinais de convergência incluem outro partido recém-formado, o Advance UK, também fundado por um dissidente do Reform – neste caso Ben Habib, curiosamente natural do Paquistão.
Numa altura em que a insatisfação com o governo trabalhista de Keir Starmer é altíssima e em que o Reform lidera as sondagens mas num contexto de grande fragmentação, o aparecimento do novo partido liderado por Rupert Lowe vem complicar ainda mais o cenário político no Reino Unido. A mensagem central de Lowe é que Farage se moderou demasiado e fez demasiadas concessões ao sistema político vigente. Não é por acaso que a principal promessa de Lowe é a de levar a cabo deportações em massa, assumindo explicitamente o slogan “Millions must go”. Nas próprias palavras de Lowe:
“A fair few, including many on the so-called ‘right’ of British politics, have been throwing around the usual insults about the fact I said ‘millions must go’. Let me respond with four words. GET USED TO IT.
(…)
We will be unapologetic in our push for mass deportations – nobody can accuse me of being inconsistent on that. The other parties had to be pathetically dragged kicking and screaming to some mild deportation position. If you want the real authentic version, then join Restore Britain.”
Com uma mensagem forte e focada na necessidade de deportações em massa, o Restore pode, ironicamente, ser uma ameaça principalmente para Nigel Farage. A estratégia de (relativa) moderação de Farage parece estar a resultar (uma sondagem recente [https://x.com/JackElsom/status/2023708804794191894] sugere que o Reform cresce em proporções semelhantes por via de captar anterior eleitorado conservador e trabalhista, portanto colhendo votos tanto à direita como à esquerda) mas o espaço aberto à sua direita pode colocar seriamente em risco as suas hipóteses de chegar ao poder. Dado o sistema eleitoral do Reino Unido (first-past-the-post), e considerando que Reform e Restore estarão em muitas situações a concorrer pelo mesmo eleitorado, numa eleição muito concorrencial a afirmação do Restore poderá custar muitos lugares ao Reform – e potencialmente impedir até Farage de conquistar o poder.
O aparecimento do Restore justifica o início de uma reflexão sobre o Chega e sobre o caso português, até porque surge numa altura em que há iniciativas similares em outros países europeus – como o novo partido Futuro Nazionale de Roberto Vannacci, ex-dirigente da Lega de Salvini. O Chega de André Ventura tem tido um crescimento extraordinariamente rápido: passou de 1,3% e cerca de 67 mil votos nas legislativas de 2019 para 22,8% e mais de um milhão e quatrocentos mil votos nas legislativas de 2025, para logo a seguir nas recentes eleições presidenciais conquistar o seu melhor resultado eleitoral de sempre com 33,2% e mais de um milhão e setecentos mil votos. Face aos muitos problemas e insuficiências da governação AD e à notória desorientação estratégica e degradação do PSD (que só o perfume do poder vai mascarando.), as perspectivas para André Ventura atingir o poder vão-se gradualmente robustecendo. Mas, da mesma forma que o Chega acabou por materializar tardiamente uma tendência europeia de surgimento de novas forças no espaço da direita radical, não é de excluir que as novas tendências de desafios à direita a essas forças possam também acabar por chegar ao nosso país.
Até porque, não obstante o seu notável crescimento, o Chega apresenta neste momento pelo menos duas fragilidades significativas, que podem potencialmente ser exploradas à direita, se forem reunidas as condições adequadas. A primeira é o discurso económico cada vez mais errático e social-populista do partido. A orientação liberal inicialmente impulsionada por Diogo Pacheco de Amorim foi em larga medida substituída pela sagacidade e sentido de oportunidade de André Ventura, que procura atender a cada momento ao máximo de reivindicações sectoriais e corporativas. Num país profundamente estatista, é uma opção compreensível para quem aspira chegar ao poder mas gera inevitavelmente problemas de inconsistência e de falta de credibilidade a prazo. E tudo isto sem necessariamente gerar os ganhos eleitorais esperados (veja-se por exemplo o que tem acontecido com os pensionistas, que continuam a ser o mais fiel eleitorado dos dois partidos centrais do sistema: PS e PSD). Adicionalmente, o Chega parece adoptar muitas vezes uma abordagem deliberadamente ambígua sobre deportações e nomeadamente sobre possíveis políticas estruturadas de remigração. Enquanto em algumas circunstâncias pisca o olho a bases e movimentos mais radicais sugerindo possíveis conceitos mais abrangentes de remigração (como os defendidos pela AfD, que lidera as sondagens na Alemanha), mantém noutros âmbitos um discurso mais contido e centrado no controlo dos fluxos de imigração e no combate a situações de ilegalidade. É possível que esta ambiguidade venha a ter de ser clarificada, sendo que qualquer sentido de clarificação terá custos políticos.
Sem prejuízo destas (e potencialmente outras) fragilidades, o Chega tem também vantagens que o poderão proteger do surgimento de concorrência credível à sua direita. Em primeiro lugar, o carisma e os extraordinários dotes retóricos e políticos de André Ventura, sem paralelo entre políticos no activo em Portugal. Sendo certo que há figuras politicamente promissoras e com potencial ligadas ao Chega – como Rita Matias, Teresa Nogueira Pinto, Rafael Pinto Borges, Miguel Corte-Real ou o jovem deputado Ricardo Lopes Reis (não confundir com o reputado economista e professor da LSE Ricardo Reis) – falta massa crítica à direita para que, pelo menos no curto prazo, alguém possa protagonizar com sucesso uma iniciativa equivalente ao Restore Britain. Por outro lado, o Chega continua a beneficiar também muito substancialmente da desastrosa estratégia das “linhas vermelhas”, que continua a credibilizar a estratégia de André Ventura de se apresentar como a grande alternativa e ameaça ao sistema vigente, reduzindo o espaço para o surgimento de qualquer outra alternativa à direita. Por fim, importa reconhecer ainda que, apesar dos muitos conselhos “amigos” que vai recebendo nesse sentido, André Ventura tem resistido – talvez instintivamente – a uma estratégia de moderação acentuada do seu discurso, o que faz com que o crescimento que tem conseguido possa ter bases mais sólidas.
A confusão e a falta de meios e de credibilidade de alternativas que têm existido – desde o (entretanto extinto) Ergue-te de José Pinto Coelho e Rui Fonseca e Castro até ao ADN de Bruno Fialho e Joana Amaral Dias, sem esquecer o Nova Direita de Ossanda Líber – têm até agora significado, na prática, que o Chega não enfrenta concorrência relevante à direita. Mas, caso uma destas forças se consiga relançar ou – o que talvez seja apesar de tudo menos improvável – caso surja uma nova força política à direita do Chega com a força, meios e credibilidade necessários, tudo pode rapidamente mudar no panorama partidário português. Tal como mudou com o aparecimento e extraordinário sucesso do Chega a partir de 2019.