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(A) :: Num jogo que se tornou um Carnaval por perceber, o samba venceu o fado (a crónica do Benfica-Real Madrid)

Num jogo que se tornou um Carnaval por perceber, o samba venceu o fado (a crónica do Benfica-Real Madrid)

Os merengues saíram para o intervalo a dominar os encarnados, marcaram logo no início da segunda parte e Vinícius ouviu o que ninguém deve ouvir. No fim, Benfica perdeu com o Real Madrid na Luz (0-1).

Mariana Fernandes
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Passaram-se 20 dias desde que Trubin foi onde nunca vai para cabecear e escrever uma página de história. 20 dias depois da vitória encarnada que colocou Benfica e Real Madrid no playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões, portugueses e espanhóis voltavam a cruzar-se para disputar o apuramento. E a verdade é que, mesmo tendo passado apenas três semanas, muito tinha mudado dos dois lados.

Do lado do Benfica, a equipa de José Mourinho conseguiu recuperar pontos a FC Porto e Sporting, aproveitando também o empate entre os dois no clássico da semana passada para se colocar a três pontos do segundo lugar e a sete do primeiro. Do lado do Real Madrid, a equipa de Álvaro Arbeloa aproveitou o tropeção do Barcelona contra o Girona e chegou à liderança da La Liga. Cenários internos mais positivos que, apesar de tudo, não emagreciam as ambições europeias de encarnados e merengues.

Ficha de jogo

Benfica-Real Madrid, 0-1

Playoff dos oitavos de final da Liga dos Campeões

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: François Letexier (França)

Benfica: Trubin, Amar Dedic, Tomás Araújo, Otamendi, Samuel Dahl, Leandro Barreiro, Fredrik Aursnes (Sidny Lopes Cabral, 80′), Prestianni (Lukebakio, 80′), Rafa (Richard Ríos, 74), Schjelderup (Sudakov, 74′), Pavlidis

Suplentes não utilizados: Diogo Ferreira, António Silva, Enzo Barrenechea, Alexander Bah, Bruma, Ivanovic, Manu Silva, Anísio Cabral

Treinador: José Mourinho

Real Madrid: Courtois, Trent Alexander-Arnold, Rüdiger, Dean Huijsen, Álvaro Carreras (Dani Carvajal, 90+9′), Arda Güler (Brahim Díaz, 86′), Fede Valverde, Tchouaméni, Eduardo Camavinga (Thiago Pitarch, 90+4′), Vinícius Júnior, Mbappé

Suplentes não utilizados: Lunin, David Alaba, Gonzalo García, Dani Ceballos, Fran García, Ferland Mendy, Jorge Cestero, Mastantuono, Joan Martínez

Treinador: Álvaro Arbeloa

Golos: Vinícius (50′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Vinícius (50′), a Prestianni (78′), a Mbappé (87′), a Sudakov (90+2′)

“Arrisco-me a dizer o óbvio: é uma equipa ferida. Levaram quatro… Imagino o Benfica a levar quatro e, duas ou três semanas depois, ter a possibilidade de reencontrar a equipa que o atropelou. Íamos com qualquer coisa extra e é isso que espero da parte do Real Madrid. Equipa grande que perde e está ferida é uma coisa que eu conheço praticamente desde sempre, porque tive a sorte de treinar equipas grandes quase sempre. Mas mais importante ainda é a motivação que eles têm de ganhar a Champions, não de eliminar o Benfica. O objetivo deles é esse”, lembrou o treinador encarnado.

Assim, no Estádio da Luz e já com Amar Dedic e Fredrik Aurnes recuperados e no onze inicial, José Mourinho mantinha Schjelderup e Prestianni no apoio a Pavlidis, com Rafa a ser um reforço europeu por já estar inscrito na Liga dos Campeões. Ao mesmo tempo, Richard Ríos e Alexander Bah também já apareciam na convocatória. Do outro lado, sem os lesionados Jude Bellingham e Éder Militão e os castigados Rodrygo e Raúl Asencio, Álvaro Arbeloa tinha Rüdiger ao lado de Dean Huijsen no eixo defensivo e Vinícius e Mbappé em simultâneo no ataque, com Gonzalo García a começar no banco.

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Tal como aconteceu há 20 dias, o Benfica voltou a entrar melhor e com capacidade para criar perigo junto da baliza do Real Madrid. Prestianni teve o primeiro remate do jogo, com um pontapé de fora de área que passou por cima (2′), e Mbappé respondeu do outro lado ao atirar já na área para Trubin encaixar (9′) — os encarnados até tinham menos bola, oferecendo a iniciativa aos merengues, mas tinham mais assertividade no último terço contrário e a liberdade de Rafa nas costas de Pavlidis deixava a defesa adversária sem grandes referências de marcação.

A simplicidade do ataque do Benfica ficou visível principalmente à passagem do quarto de hora inicial, quando Tomás Araújo cabeceou para Courtois defender (15′) e Amar Dedic rematou de fora de área para o guarda-redes belga encaixar (16′), mas esses instantes ligaram uma espécie de luz mineiro no Real Madrid. Arda Güler obrigou Trubin à primeira intervenção atenta (17′) e Vinícius, logo a seguir, quase aproveitou uma interceção curta de Schjelderup para abrir o marcador (19′).

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Os merengues subiram de rendimento e deixaram de cometer os erros que tinham cometido há três semanas e nos primeiros 20 minutos do jogo: pressionavam alto, encurtavam espaços, estavam completamente inseridos no meio-campo contrário e não permitiam que os encarnados saíssem a jogar depois de recuperar a bola. Aursnes protagonizou a melhor oportunidade portuguesa em toda a primeira parte, com um remate forte que Courtois defendeu junto ao relvado (23′), mas o Real Madrid dominou até ao intervalo a partir desse momento.

Mbappé falhou o desvio por centímetros depois de um cruzamento de Alexander-Arnold na direita (39′), atirou de primeira e por cima logo a seguir (43) e ainda viu Trubin roubar-lhe o golo com uma boa defesa (44′), sendo que também Arda Güler forçou o ucraniano a uma defesa importante (45+1′). Ao intervalo na Luz, porém, estava ainda tudo empatado sem golos.

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Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e a segunda parte começou praticamente com um golo: Vinícius recebeu na esquerda, levantou a cabeça e atirou um extraordinário remate em jeito que não deu qualquer hipótese a Trubin (50′). A partir daí, lançou-se a confusão. O avançado festejou junto da bandeirola de canto, os adeptos do Benfica reagiram com copos e insultos e o brasileiro dirigiu-se ao árbitro para indicar que tinha ouvido insultos de teor racista de Prestianni, recusando-se a continuar a jogar e chegando até a sentar-se no banco de suplentes.

Depois de muita confusão em campo, junto dos bancos de suplentes e nas bancadas, Vinícius acabou por regressar ao relvado e o jogo foi reatado depois de cerca de dez minutos de paragem. Como não podia deixar de ser, recomeçou algo anárquico e sem grande clarividência de um lado e de outro, mas existia uma constante: um coro gigantesco de assobios sempre que o avançado brasileiro tocava na bola.

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José Mourinho mexeu à entrada para o último quarto de hora, lançando Richard Ríos e Sudakov, e não demorou até também colocar Lukebakio e Sidny Lopes Cabral, com o avançado belga a regressar aos relvados depois de três meses de paragem e numa fase em que Vinícius acumulava remates que Trubin ia defendendo (71′, 72′ e 79′). O treinador português foi expulso com dois cartões amarelos já nos derradeiros dez minutos, por protestos, e a verdade é que já nada mudou apesar de os merengues terem quase abdicado de atacar, preferindo defender-se de investidas sempre demasiado pacientes e inconsequentes dos encarnados.

No fim, o Benfica perdeu com o Real Madrid na Luz e está em desvantagem no playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões, deixando tudo por decidir na segunda mão no Santiago Bernabéu. Num jogo que praticamente acabou aos 50 minutos, quando Vinícius marcou e terá ouvido o que ninguém deve ouvir, os encarnados sofreram um choque de realidade depois do sonho de há três semanas. Resta saber o que traz o terceiro e último round da história.

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