Nove pessoas foram presas esta terça-feira pela polícia francesa sob suspeita de estarem envolvidas na agressão que resultou na morte de Quentin Deranque, um homem de 23 anos que morreu no sábado depois de ter sido agredido na passada quinta-feira, à margem da intervenção da eurodeputada franco-palestiniana Rima Hassan no Instituto de Estudos Políticos de Lyon. Um dos detidos, avançam vários órgãos de comunicação social franceses, incluindo o Le Figaro, é Jacques-Élie Favrot, um assistente parlamentar do deputado Raphaël Arnault, fundador do grupo antifascista La Jeune Garde. Ainda de acordo com o mesmo jornal, todos os suspeitos são ex-membros da organização. O deputado já informou através das redes sociais que pediu a rescisão do contrato do assistente.
Segundo o coletivo Némésis, um grupo de direita radical identitária e feminista, Quentin Deranque estava entre os 15 jovens a “garantir voluntariamente” a segurança das cinco ativistas do grupo que protestavam em frente ao Instituto de Estudos Políticos no dia 12 de fevereiro. Em várias publicações nas redes sociais, o coletivo partilhou vídeos do confronto, e afirma que o grupo que providenciava a segurança das ativistas foi “perseguido por cerca de trinta antifas”. “Quentin foi atacado com extrema violência. Os antifas atiraram-no ao chão e agrediram-no, deixando-o a morrer na rua”. O grupo de direita radical atribui ainda a responsabilidade à La Jeune Garde.
Os bombeiros afirmam terem resgatado duas pessoas a quase dois quilómetros do local da manifestação, por volta das 19h40, sendo um deles Quentin Deranque, que estava “gravemente ferido”, e foi hospitalizado. O homem acabou por morrer no sábado, dia 14 de fevereiro. Durante uma conferência de imprensa na segunda-feira, dia 16, Thierry Dran, procurador de Lyon, indicou que o ativista da direita nacionalista havia sucumbido a espancamentos de pelo menos seis indivíduos mascarados e encapuzados, que ainda não tinham sido identificados, e definiu que a investigação decorria como um “homicídio voluntário”.
De acordo com vários jornais franceses, incluindo o Le Monde, Quentin Deranque era um “simpatizante” do grupo nacionalista revolucionário Audace Lyon, e fez parte de um grupo da direita radical monárquica chamado Action française. O homem de 23 anos, estudante de Matemática na Universidade Lyon-II, era também católico e frequentava a paróquia de Saint-Georges, em Lyon. Num comunicado divulgado no sábado à noite, o advogado da família de Quentin, Fabien Rajon, disse que o jovem foi vítima de uma “emboscada, metodicamente preparada” por “indivíduos organizados e treinados, em grande número, e armados, alguns com o rosto mascarado”.
No sábado, o deputado Raphaël Arnault — cujo assistente foi agora detido — partilhou uma mensagem no X a dizer que recebia a notícia da morte “com horror e desgosto. O que eu temi por anos continua a acontecer em Lyon. Ofereço as minhas condolências à família deste jovem homem e espero que a verdade sobre esta tragédia apareça“. Já Aïnoha Pascual, a advogada da La Jeune Garde, assinala que a organização “não convocou a mobilização à margem da conferência de Rima Hassan, não provocou ações violentas naquele dia, não reivindicou a violência e não a legitimou”.
J’apprends ce décès avec horreur et dégoût.
— Raphaël Arnault (@ArnaultRaphael) February 14, 2026
Ce que je redoute depuis des années à Lyon se perpétue.
J’adresse mes condoléances à la famille de ce jeune homme et je souhaite que toute la lumière soit faite sur ce drame.
O grupo antifascista La Jeune Garde foi dissolvido em junho de 2025 por um decreto do então ministro do Interior, Bruno Retailleau, por “ações violentas”. Contudo, o atual ministro do Interior, Laurent Nuñez, já havia levantado a hipótese de responsabilidade da organização numa entrevista à France 2 no domingo. “A investigação permitirá confirmar ou não se eram ativistas da La Jeune Garde. Mas os testemunhos vão nessa direção, obviamente”, disse. No mesmo dia, o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, afirmou que “foi claramente a ultra-esquerda que matou” Quentin Deranque.
Esta terça-feira o tema gerou um debate na Assembleia Nacional, onde a deputada Mathilde Panot, do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI), afirmou não ter ouvido reações do Governo à morte do jogador de râguebi argentino Federico Martin Aramburu, assassinado em Paris por dois ativistas de extrema-direita em 2022. “Senhor primeiro-ministro, colocar uma responsabilidade moral imaginária sobre o nosso grupo não conseguirá ofuscar a sua verdadeira responsabilidade política”, disse, ressalvando que “a manutenção da ordem pública é da competência exclusiva de seu Governo, e não da oposição parlamentar”. Sébastien Lecornu, por sua vez, respondeu. “Podemos ter divergências políticas, mas, quando é um humanista, não se opõe uma morte a outra morte, um assassinato a outro assassinato. Não há violência aceitável num sentido e inaceitável noutro. A rejeição da violência é para todos”.
Emmanuel Macron reagiu no dia 14 ao sucedido. “Em Lyon, Quentin foi vítima de uma onda de violência sem precedentes. Perdeu a vida com apenas 23 anos. À sua família e aos que lhe são próximos, endereço os meus pensamentos e o apoio da Nação. Numa República, nenhuma causa, nenhuma ideologia justificam jamais que se mate. Pelo contrário, todo o objetivo das nossas instituições é de tornar os debates civis e proteger a livre expressão de ideias. É essencial que os perpetradores deste ato desprezível sejam responsabilizados, levados à justiça, e condenados. Não há lugar para o ódio homicida na nossa sociedade. Apelo à calma, à contenção, e ao respeito.”