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(A) :: O CDS ainda quer ser conservador? 

O CDS ainda quer ser conservador? 

Os conservadores não podem ficar eternamente a celebrar um ou dois lugares num governo onde não têm voz e onde a esmagadora maioria das políticas é progressista ou socialista.

Ricardo Ferreira
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Vivemos tempos em que um vazio angustiante grita por afirmação na política partidária portuguesa. Um vazio que só o é por falta de vontade. Não do vazio, que apenas existe, mas de um partido que o foi imitando e que, nos últimos anos, se limita a existir.

Refiro-me ao espaço conservador. Não ao “liberal-conservador”, onde os costumes e a economia entram constantemente em conflito e a economia vence sempre. Não ao “conservador” que evita as chamadas “causas fracturantes”. Refiro-me a um conservadorismo assente na soberania nacional, na identidade cultural, na vida, na autoridade do Estado e suas funções essenciais, e na centralidade da família como núcleo estruturante da sociedade. E existe um partido cuja natureza tenderia nessa direcção: o CDS.

Bem sei que estou constantemente a “bater” no CDS. Bato porque espero mais. Porque não nasceu para ser satélite. Faço-o não para o inutilizar, mas para o despertar. Faço-o precisamente porque ainda acredito que tem uma palavra a dizer, que a sua existência tem sentido e que pode ser decisivo. A indiferença, essa sim, seria o verdadeiro sinal de irrelevância.

O conservadorismo precisa de se reorganizar. Precisa de se libertar. De perder a vergonha e o receio da impopularidade nos meios onde já não é bem-vindo. É indiferente se aqueles contra quem combatemos não gostam de nós. Estranho seria o contrário. Se liberais e socialistas ficam incomodados, isso é sinal de que existe diferença. Como dizia António Costa: “habituem-se”.

Os conservadores não podem ficar eternamente a celebrar um ou dois lugares num governo onde não têm voz e onde a esmagadora maioria das políticas é progressista ou socialista. Participar não é influenciar. Estar não é decidir. De que valem cargos temporários se estes nos colocam cada vez mais nas mãos de um gigante que nos esmaga?

Durante décadas, o CDS defendeu sem ambiguidades a economia social de mercado, a centralidade da família, a vida, a autoridade do Estado nas suas funções essenciais e uma visão conservadora da sociedade. Podia ganhar mais ou menos votos, mas sabia-se ao que vinha.

Mas quando passou a depender estruturalmente do Partido Social Democrata, a questão deixou de ser estratégica e passou a ser de sobrevivência. Essa racionalidade táctica pode produzir resultados no curto prazo, mas tem-se revelado devastadora a médio e longo prazo. Vale a pena pagar este preço? Numa aliança em que um partido é claramente maior, o menor tende a desaparecer na sombra. E a história política portuguesa mostra que partidos que vivem apenas enquanto são úteis acabam por desaparecer quando deixam de o ser.

É necessário um partido de valores fixos, não de ambiguidades ideológicas. Esta crítica é dirigida ao próprio CDS. Quando hesita, quando dilui posições, quando adapta o discurso

para não criar fricção, contribui para o vazio que diz querer combater. Se abdicar desse papel, torna-se redundante. E um partido redundante não sobrevive por muito tempo.

É urgente libertar-se da dependência do PSD. Isso não implica hostilidade. Implica maturidade estratégica. Significa aceitar risco no curto prazo para reconstruir credibilidade no médio prazo. Significa apresentar programa próprio, listas próprias e uma linha ideológica inequívoca. Um partido que tem medo de ir sozinho transmite insegurança ao eleitorado.

A reconstrução exige clareza. E clareza implica escolhas. O CDS terá de decidir se quer ser complemento circunstancial ou referência estrutural. Partidos que abdicam da sua razão de existir acabam por desaparecer. Partidos que a reafirmam, mesmo em fases difíceis, acabam por recuperar.

Se o CDS não assumir esse papel, alguém o assumirá. E nesse dia, o CDS deixará de ser necessário.