O caso do jovem português acusado de incitamento e glorificação do terrorismo, recentemente relatado pelo Diário de Notícias, ultrapassa a dimensão de um processo judicial isolado. Trata-se de um episódio que expõe um fenómeno mais profundo: a vulnerabilidade que emerge quando estruturas mentais moldadas por certezas rígidas colapsam.
Segundo o que foi noticiado, trata-se de um homem nascido no Funchal, criado no Reino Unido num contexto familiar ligado às Testemunhas de Jeová, que cumpriu pena de prisão entre 2014 e 2016 e que, nesse período, se terá convertido ao Islão, aderindo posteriormente a uma visão salafista-jihadista que passou a difundir nas redes sociais após regressar a Portugal.
A questão central não é apenas a conversão religiosa ou a actividade digital subsequente. É compreender que tipo de arquitectura mental pode tornar alguém particularmente sensível à sedução de um novo absoluto. A análise deve começar pela estrutura e não pelo rótulo religioso.
O berço da visão fundamentalista
As Testemunhas de Jeová são uma organização religiosa com forte hierarquização doutrinária e clara delimitação identitária. São conhecidas pela sua postura não violenta. Nada na sua doutrina incentiva o terrorismo e seria intelectualmente desonesto insinuar o contrário.
Mas uma coisa é o conteúdo teológico ou doutrinal. Outra é a forma como a identidade é construída dentro do sistema de crenças.
Robert Jay Lifton, no livro Thought Reform and the Psychology of Totalism, descreveu ambientes que funcionam com lógica semelhante à do totalitarismo: verdade exclusiva, autoridade incontestável e a divisão moral rígida entre aqueles que estão “dentro” do grupo e os de “fora”. Ele não se referia apenas a regimes políticos, mas a estruturas mentais que reduzem a complexidade do mundo a narrativas fechadas e dualistas.
Uma mente socializada numa dinâmica totalitária de pensamento aprende a viver dentro de fronteiras claras. Aprende que há uma verdade correcta e absoluta. Aprende que a autoridade a interpreta legitimamente. Aprende que o exterior é, em larga medida, moralmente suspeito e decadente.
A esmagadora maioria das pessoas educadas nesse tipo de contexto, seja nas Testemunhas de Jeová ou em outros grupos similares vive vidas equilibradas e integradas. Não há, por isso, uma linha directa entre fé rígida, disciplinada e a radicalização violenta. Mas a investigação internacional sugere algo mais subtil: quando a estrutura identitária de um sistema fechado colapsa, a forma mental pode procurar um novo conteúdo que preserve o mesmo grau de certeza absolutista.
Deste modo, a ruptura religiosa pode não gerar apenas um vazio espiritual. Pode também gerar um vazio estrutural.
O vazio estrutural após a ruptura
O sociólogo Olivier Roy, em Jihad and Death: The Global Appeal of Islamic State, desenvolve a tese da “islamização da radicalidade” — a ideia de que muitos jihadistas europeus não emergem de uma tradição islâmica profunda, mas de processos de desenraizamento identitário. Roy argumenta que a radicalidade precede muitas vezes a adesão religiosa: jovens em ruptura geracional encontram no Islão radical uma narrativa que dá estrutura a uma identidade já fragmentada. Esta análise complementa o seu trabalho anterior em Globalized Islam, onde examinou a natureza do fundamentalismo islâmico globalizado e os processos de “desculturação” religiosa.
Peter Neumann, director do International Centre for the Study of Radicalisation, sustenta no seu livro Radicalized que o extremismo oferece coerência biográfica a indivíduos em crise. Não se trata apenas de crença religiosa. Trata-se da reorganização da própria narrativa pessoal.
Clark McCauley e Sophia Moskalenko, em Friction: How Radicalization Happens to Them and Us, demonstram que a radicalização é um processo gradual, alimentado por frustração, pertença grupal e enquadramento moral binário. É exactamente neste ponto que o caso português se torna pedagogicamente relevante.
A sedução da certeza total
Uma mente habituada a viver dentro de certezas rígidas pode sentir-se particularmente desorientada quando confrontada com ambiguidade. O mundo plural não oferece autoridade única nem uma narrativa total. Oferece conflito, diversidade e incerteza. Mas o jihadismo, assim como outros fundamentalismos religiosos, oferece exactamente o contrário.
O jihadismo salafista apresenta-se como um sistema fechado, escatológico e moralmente binário. Divide o mundo entre crentes e inimigos. Oferece missão, pertença e heroísmo. Jessica Stern e J.M. Berger mostram no livro ISIS: The State of Terror como o Estado Islâmico construiu uma narrativa capaz de oferecer identidade e propósito a jovens desorientados.
A violência surge deste modo como um dever moral. Não como descontrolo, mas como o cumprimento de uma ordem superior.
Prisão, humilhação e reconstrução identitária
O período de encarceramento referido neste caso português, acrescenta outro elemento crítico. Os estudos sobre radicalização em prisões, como os analisados pelo Clingendael Institute, indicam que a perda de estatuto social e a procura de dignidade intensificam a vulnerabilidade a ideologias totalitárias e extremistas.
A radicalização raramente começa com ódio. Começa com identidade fragmentada.
Existem relatos internacionais — reportados em processos judiciais britânicos — de indivíduos com origem familiar nas Testemunhas de Jeová que posteriormente aderiram ao jihadismo. Esses episódios não permitem estabelecer causalidade directa. Seria metodologicamente incorrecto fazê-lo. Mas convidam a uma análise estrutural: quando identidades moldadas em ambientes de forte delimitação moral entram em ruptura abrupta, pode existir maior predisposição para a substituição de um sistema absoluto por outro igualmente absoluto.
O conteúdo muda, a estrutura permanece
O conteúdo muda mas a estrutura mental permanece. Aqui o denominador comum não é uma religião específica. É a dificuldade em viver fora do absoluto e a procura até mesmo inconsciente por um ideal que mantenha a coerência interna do indivíduo.
O especialista Steven Hassan, no modelo BITE, descreve como sistemas de alto controlo moldam comportamento, informação, pensamento e emoções. Quando essa arquitectura mental é internalizada, a pessoa pode sentir-se mais confortável dentro de narrativas que preservem fronteiras rígidas do que num espaço aberto e ambíguo.
O problema, portanto, não é apenas o jihadismo. É a sedução da certeza total.
A normalização da arquitectura extremista
Vivemos numa era em que o discurso público — religioso, político e ideológico — se radicaliza em direcção ao binário. O algoritmo recompensa o extremo. A polarização substitui o debate. A nuance é vista como fraqueza.
Deste modo, está-se a normalizar a arquitectura mental que torna possível qualquer extremismo, venha ele de onde vier.
A prevenção da radicalização não começa na vigilância policial. Começa na formação da mente. Começa quando ensinamos os jovens a tolerar a ambiguidade sem colapsar, a questionar sem perder a identidade, a viver sem necessidade de certezas absolutas.
A radicalização não começa no terrorismo. Começa quando alguém acredita que só pode existir dentro de uma verdade absoluta.
Onde o absoluto é a norma, o extremismo deixa de ser excepção. Passa a ser consequência.