Em Lyon, em plena via pública, um jovem estudante identificado com a direita política, Quentin, foi cercado por uma turba de militantes de extrema-esquerda, espancado e deixado inerte no chão, vindo a falecer dias depois no hospital em consequência dos ferimentos. O linchamento ocorreu à margem de uma conferência de Rima Hassan, eurodeputada de extrema-esquerda (La France Insoumise, LFI), na Sciences Po. Entre os agressores, um assessor parlamentar do deputado Raphaël Arnault, também ele da extrema-esquerda LFI e fundador da Jeune Garde, grupo “anti-fascista” dissolvido em 2025, em Conselho de Ministros, devido às suas práticas violentas.
A morte de Quentin não é, no entanto, um fenómeno episódico: ela inscreve-se numa longa linhagem sangrenta com mais de dois séculos, onde a violência tem um lugar (ideológico, filosófico, estético) absolutamente central. Compreender o linchamento de Lyon, à margem de uma conferência política, obriga-nos a voltar ao início.
Desde o seu berço revolucionário, a esquerda concebe a política não como arte da mediação e do confronto legítimo, mas como liturgia do sacrifício. Não há para ela fundação sem expiação, nem instituição de ordem nova sem derramamento de sangue antigo. Saint-Just, justificando o Terror da Revolução Francesa, proclamava, sem pudor, não haver lugar para sentimentalismos: “On ne peut point régner innocemment”. A violência, que na tradição liberal e democrática é um vício a conter, é aqui uma virtude (na verdade, a suprema virtude) a exercer. A união entre “terror” e “virtude”, até ao ponto de absoluta indistinção, é justamente o axioma central de Robespierre e, confessada ou inconfessadamente, de toda a sua descendência.
Este axioma sangrento ganha rigidez doutrinária com o marxismo. Quando Marx e Engels falam da “conquista da democracia pela luta”, essa luta é literal, física, material, não mera metáfora espiritual. O parágrafo final do seu Manifesto grotesco é inequívoco: “Os comunistas rejeitam dissimular as suas perspectivas e propósitos. Declaram abertamente que os seus fins só podem ser alcançados pelo derrube violento de toda a ordem social existente”.
Com Trotsky, essa lógica atinge a sua nudez moral. No seu “Anti-Kautsky”, a tese surge sem maquilhagem: a violência é indispensável à revolução; o socialismo ou é violento ou não é socialismo; sem terror, não há socialismo. O título Terrorismo e Comunismo não exprime uma distinção, mas uma identidade. Fuzilamentos, campos de concentração, censura, ditadura, não são apenas legítimos, mas virtuosos.
Estaline, cuja rivalidade com Trotsky nunca implicou divergência quanto ao papel central da violência, não representa a corrupção do ideal, mas a sua realização integral: o Estado convertido em máquina de purificação e a sociedade submetida ao laboratório da repressão permanente. Todo o regime comunista começa em gritos por uma nova sociedade e termina numa sociedade de “sussurros” (segundo um título de Orlando Figes).
Onde a revolução triunfa por inteiro, o totalitarismo instala-se por necessidade interna e não por degeneração. Todo o comunismo culmina num estalinismo, ou seja, num totalitarismo. Por isso a esquerda jamais foi capaz de se emancipar do seu momento revolucionário inaugural. Capturada por ele, enfeitiçada pelo sangue, não poderia senão, de cada vez, devorados os seus inimigos, acabar a devorar os seus filhos.
O êxito da Revolução Americana residiu precisamente na sua capacidade de se emancipar do seu momento revolucionário fundacional e instituir um espaço duradouro de liberdade, ao passo que a Revolução Francesa permaneceu prisioneira do seu momento revolucionário. Não é contingente que uma tenha instituído a Constituição e a outra, a Guilhotina.
A selvajaria ocorrida em Lyon, onde um jovem conservador foi linchado em plena luz do dia por uma turba de “Antifas”, não foi, pois, um acidente ou um desvio, mas um prolongamento lógico desta longa genealogia de exaltação da violência, de Robespierre a Sartre, do Comité de salut publique à La France insoumise. A violência decorre da premissa revolucionária como um silogismo aristotélico: todos os adversários devem morrer; Sócrates é adversário; logo, Sócrates deve morrer.
No interior desta cela mental, fazer política não é outra coisa senão exercer violência. Senão fazer correr sangue. Senão esmagar fisicamente. Senão linchar em plena rua, em plena luz do dia. Fazer política é, na célebre expressão de Orwell (que conhecia esta esquerda de ginjeira), cravar uma bota em cima de um rosto humano – para sempre.