Vivemos uma revolução tecnológica que pode ser mais disruptiva do que a descoberta da electricidade e do motor a combustão, ameaçando seriamente os nossos modelos de ensino e formação, pelos riscos de eliminação de algumas tarefas. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump abala o mundo universitário, levando a que muitos académicos e investigadores de topo coloquem a hipótese de se mudarem para outros países, nomeadamente europeus. A política de imigração norte-americana está a levar muitos estudantes que escolhiam as universidades dos EUA a deslocarem-se para outros países, entre os quais, obviamente, europeus.
Em Portugal algumas faculdades têm feito, de há uns anos para cá, um caminho consistente, de formiguinha, a afirmarem-se a nível internacional e com sucesso. Um percurso que lhes permitirá agora também aproveitar as oportunidades que o quadro político global criou, atraindo académicos, investigadores e estudantes para um país em que falta tanto talento. Entre elas, claro, está a Nova SBE.
Mas eis que o novo reitor da Universidade Nova de Lisboa, Paulo Pereira, considerou que, no quadro actual e com o valor que já foi criado por algumas das faculdades que lidera, o importante mesmo é o nome das faculdades. E faz então um despacho, o 14 de 2026, determinando que todas as escolas devem usar a sua denominação em português. Vá lá, não proíbe que se use o inglês, autorizando que se utilizem as duas denominações. Determina, nomeadamente, que “a denominação oficial de cada unidade orgânica da Universidade deve ser sempre utilizada em língua portuguesa em documentos, plataformas digitais, suportes físicos, atos e procedimentos administrativos, conjuntamente com a denominação que agora têm”. E depois ali temos os nomes autorizados.
A Nova SBE, por exemplo, passa a ter de ser Nova SBE – Faculdade de Economia – que é como nasceu em finais dos anos 70 do século XX -, esquecendo-se completamente que essa escola é hoje muito mais do que Economia, sendo especialmente importantes os cursos de gestão. E a Nova IMS (Information Management School) passava para Nova IMS Instituto Superior de Estatística e Gestão da Informação. Tudo isto seguindo a regra bilingue que se permite no despacho do reitor.
Permitam-me o uso da primeira pessoa para uma declaração de interesses. Fui das primeiras alunas da então Faculdade de Economia. E, embora tenha sido em alguns momentos critica do percurso, é com orgulho que vejo o caminho que se fez de uma pequena vivenda no Campo Grande, com o ano lectivo aberto pelo fundador Alfredo de Sousa a desafiar-nos para a exigência, até ao que é hoje em Carcavelos, virada para o mundo. Tudo em menos de 50 anos. Se há casos de sucesso em Portugal, a Nova SBE é sem dúvida um deles.
Uma segunda partilha – e quem me conhece profissionalmente sabe bem isso – é que não adoro esta mania de tudo em inglês. Tem gerado alguma preguiça em criar expressões em português e, sempre que possível, nomeadamente com os meus alunos de jornalismo, faço questão que procurem a ideia ou o conceito em português. A situação é especialmente grave quando lidamos com números e temos de perceber se o bilião que nos estão a referir é em português ou inglês – são “só” mais três zeros. Dito isto, é óbvio que os limites estão no bom senso, esse bem tantas vezes raro.
E bom senso é, no mínimo, aquilo que o reitor da UNL não teve. Ainda bem que não é governante porque corríamos o risco de tentar que as muitas startups (já viram, outra vez o inglês), de jovens portugueses, com nome em inglês, fossem obrigadas a ter uma versão bilingue. E isso acontece, o inglês, exactamente porque boa parte desses jovens tem a ambição, e ainda bem para todos nós, que a sua pequenina empresa se torne global ou, quem sabe, consiga ir até à Califórnia encontrar investimento para as suas ideias.
Foi isso, entre muitas outras coisas, que a Nova SBE viu, assim como os seus mecenas. Para se ser global tem de se ter uma designação global, especialmente num país sem tradição de escolas atractivas para o mundo. Fizeram um esforço que foi para além do nome, envolvendo o sector empresarial, fazendo-se maiores do que aquilo que um país com problemas financeiros crónicos lhes iria permitir.
E não, não vale a pena usar o argumento da escola pública ao serviço do combate às desigualdades e que deve ser acessível a todos. Sabemos bem que não é assim que se combatem as desigualdades. Pelo contrário, ao impedir que um projecto se desenvolva, empobrecemos todos e não há mais igualdade.
Claro que houve quem olhasse para a Nova SBE como um exemplo e lhe quisesse seguir as pisadas. É assim que temos também, por exemplo, a Nova Medical School e a Nova School of Law, também elas obrigadas agora a usar as duas denominações. A Universidade do Porto tem também a sua Porto Business School. E esta estratégia generalizou-se para fora do ensino público, com a Universidade Católica também a ter agora a sua Católica Lisbon School of Business & Economics.
O problema é que houve, simultaneamente, quem olhasse para o sucesso da SBE como um projecto a destruir, exactamente por causa do seu sucesso. Ali viram defeitos onde estão qualidades. Costuma dizer-se que é um sentimento muito português, que queremos tudo bem arrumadinho na média, que só admitimos, como de alguma forma diz João Miguel Tavares, o sucesso no futebol. Aí, no futebol, podem-se ganhar milhões sem racionalidade que ninguém discute.
Se foi ou não por esse sentimento de inveja ou de luta interna de poder que conduziu a esta decisão do reitor, absurda em si e irracional no contexto em que vivemos, nunca saberemos. Sabemos que se essa decisão for para a frente vai destruir valor criado durante estes anos e impedirá, ou pelo menos moderará, que se aproveitem as oportunidades maiores que hoje se abrem para o ensino superior em Portugal.
É muito difícil perceber o que pode levar um reitor, com formação superior e mundo, a tomar uma decisão com características nacionalistas e destruidoras de valor. Num tempo desafiante, mas que abre enormes oportunidades, ver um reitor a querer fechar portas em nome da defesa da língua, como se fosse assim que ela se defende, é lamentável, no mínimo. Tanto que há para fazer no ensino superior e o reitor preocupa-se com denominações, ameaçando marcas afirmadas e o sucesso da sua própria universidade.