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(A) :: Ó Marques… não te desmarques!

Ó Marques… não te desmarques!

Se a presença sistemática de Mário Marques na comunicação social é um indicador preocupante de falta de exigência por parte do público em matérias que requerem preparação, na RTP é bem mais grave.

Carlos da Camara
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“Eu penso que a Páscoa poderá ser em casa porque normalmente há aquele adágio, vamos lá ver se se concretiza… normalmente concretiza-se, não me expliques porquê (dava uma tese de doutoramento!) e que é: se temos o Natal em casa a Páscoa é na praça, mas se nós temos Natal na praça e Carnaval bolorento vamos ter a Páscoa em casa”.

A afirmação acima foi proferida por Mário Marques no programa Praça da Alegria, ), emitido pela RTP no passado dia 13 de fevereiro. Mário Marques é uma presença assídua nos media onde, bastas vezes, profere afirmações e emite opiniões em matérias de meteorologia e clima relativamente às quais, como aqui já escrevi, não lhe reconheço competência para as fazer.

Desta vez, Mário Marques volta a meter água quando defende a veracidade do adágio popular que afirma que quando chove no Natal se tem sol na Páscoa e vice-versa. E mais água mete quando acrescenta que a razão por que tal norma se concretiza daria uma tese de doutoramento. Com efeito, bastou-me meia hora de trabalho (dez minutos em cálculos e vinte minutos na produção de um gráfico minimamente apresentável) para demonstrar que o adágio é falso e, por conseguinte, não justifica mais do que estas breves linhas.

Recorri à série de precipitação registada em Lisboa no Instituto Geofísico Infante Dom Luiz. Trata-se da série de precipitação mais longa de Portugal, com registos diários desde 1863 e, apenas por se tratar dos dados armazenados no meu laptop, restringi-me ao período que vai de dezembro de 1863 a abril de 2019. Extraí os 156 valores de precipitação no dia de Natal (1863-2018) e os correspondentes 156 valores no domingo de Páscoa do ano seguinte (1864-2019). As duas séries, que se representam no gráfico por curvas a azul (Natal) e a vermelho (Páscoa), têm um valor de correlação de -0,03, o que, para uma amostra com 156 pares de valores, indica uma ausência virtual de qualquer ligação entre precipitação de Natal e Páscoa! Seguidamente, contei o número de anos em que se verificava o adágio, isto é, em que chovia no dia de Natal e não chovia no dia de Páscoa e vice-versa. O número de casos que “comprovam” o adágio é de 67 em 156 anos, a que corresponde uma probabilidade empírica de 67/156, isto é, de 43 por cento, valor bastante inferior a 50% que corresponde a atirar uma moeda ao ar! Note-se que não incluí na análise os dias de “Carnaval bolorento” por considerar difícil traduzir este conceito para um parâmetro meteorológico, mas pode ser que Mário Marques contribua para a melhoria do estudo.

Resolvi relaxar o critério, interpretando o adágio como referente às semanas de Natal e da Páscoa e, para isso, refiz os cálculos considerando a precipitação semanal durante as duas épocas festivas. O valor da correlação manteve-se insignificante (-0,02) e o número de anos em que o adágio se comprovava baixou para 44, o que implica uma probabilidade de acerto de 44/156, isto é, de apenas 28 por cento! A diminuição da probabilidade de 43 para 28 por cento deve-se ao aumento do número de casos (de 35 para 104) em que se observa precipitação no Natal e na Páscoa quando se passa do período de um para sete dias.

Desta vez, ao contrário de outras, a afirmação televisiva de Mário Marques não passa de inócua, não obstante revelar, se não ignorância, pelo menos falta de vontade ou, porventura, incapacidade de verificar antes de afirmar.

Se a presença sistemática de Mário Marques na comunicação social é um indicador preocupante de falta de exigência por parte do público em matérias que requerem uma devida preparação por parte de quem fala ou escreve acerca dos assuntos, já a sua presença assídua na RTP é bem mais grave por ser reveladora da falta de exigência por parte dos responsáveis de um canal do estado, que, afinal, é pago por todos nós.

Já não é sem tempo que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que também é do estado, salte em defesa dos cidadãos, que também pagam pelos seus serviços, e diga à RTP aquilo que o canal merece ouvir.