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(A) :: A toca de Alberto Gonçalves

A toca de Alberto Gonçalves

Talvez não haja melhor ilustração do encadeamento lógico com que somos bombardeados ao longo do artigo de AG: não conheço Bad Bunny, mas detesto-o com todas as minhas forças.

João Pedro Vala
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Na sua mais recente crónica semanal, Alberto Gonçalves [AG] publicou um artigo intitulado Bad Bunny, o Fundo da Toca que parece ecoar ruidosamente quase todas as críticas feitas nos últimos dias quer à música de Bad Bunny, quer à sua recente actuação no intervalo do Super Bowl. Raramente sinto vontade de responder a artigos de outros, por não pretender construir um nome em torno da acumulação de polémicas, mas abro neste caso uma excepção, porque os argumentos aí expostos permitem-nos reflectir acerca de maneiras erradas de encarar a arte. Mas vamos por partes:

1 O artigo abre com AG a declarar que até há uns dias desconhecia em absoluto a existência do artista porto-riquenho. Parece-me desde logo reveladora esta ideia muito contemporânea de orgulhosa ostentação de ignorância acerca do assunto a tratar. Até há pouco tempo, a credibilidade das nossas opiniões acerca, por exemplo, de vacinação dependiam da formação científica ou dos estudos a que nos dedicáramos, tal como a credibilidade que emprestávamos a um comentador dependia do conhecimento que este tivesse da matéria em apreço. Aparentemente, o valor dos críticos depende agora da virulência e desdém com que gritam acerca de temas que assumidamente ignoram.

2 Contudo, AG faz-nos o favor de, ao menos, googlar quem é o artista a que dedicará a crónica: «Primeiro, apurei que o Bad Bunny é um cançonetista porto-riquenho de enorme sucesso entre os jovens e as crianças de hoje. Mau prenúncio. Depois vi fotografias da criatura. Péssimo prenúncio: o espécime assemelha-se a um excluído do circuito de narco-tráfico de Ciudad Juarez por excesso de bijuteria. De seguida, arrisquei ouvir a música. Aguentei 15 segundos. Não se pode dizer que a música seja má. O problema é que não se pode dizer que seja música.» É, de facto, repugnante que haja jovens a gostar de um artista musical e absolutamente inaceitável que em pleno século XXI esse artista use brincos e/ou anéis, quando estamos todos fartos de saber o perigo para a saúde pública que tais adereços representam. Contudo, o que mais me interessou neste argumento é a parte final: AG não conhecia Bad Bunny mas já tinha sobre a sua obra uma opinião firme que o quarto de minuto que passou a escutá-la só veio confirmar. Esta ideia parece-me profundamente relevante e é prima de outra veiculada pelos críticos estadunidenses ao espectáculo de Bad Bunny no Super Bowl: a de que seria inaceitável um artista actuar num evento desportivo nos Estados Unidos sem dizer uma palavra (disse God bless America, mas concedamos a premissa) em inglês. Ignoremos por um minuto que até há uns meses o inglês nunca fora sequer a língua oficial dos Estados Unidos. Estou mais interessado noutro aspecto. O que me parece mais curioso é que já ouvíramos críticas muito parecidas a propósito da actuação de Kendrick Lamar no último Super Bowl: ninguém percebe uma palavra do que ele está para ali a dizer. Não é verdade que ninguém tenha percebido o que foi cantado quer num quer noutro caso, mas é verdade que um nativo de inglês pouco familiarizado com as linguagens musicais do hip-hop ou do reggaeton teria dificuldade em entender os versos das músicas. No entanto, esta ideia de que a grandeza da arte deva ser compreensível em quinze segundos ou menos prescinde de uma ideia de ruptura, ou seja, abdica da possibilidade de a arte exigir de nós um esforço (mesmo que o artista tenha piercings), uma vez que a arte, ou pelo menos a arte que importa, tende a ser uma tentativa de desestabilização de uma linhagem e de expansão da nossa maneira de ver o mundo, o que, evidentemente, implica que o espectador participe da arte com uma predisposição mínima a aceitar como pertinente o que vê. Decerto os defensores da teoria «ouvi 15 segundos e posso afirmar com propriedade que» ou da teoria de que «não se percebeu um charuto daquela algazarra» estariam predispostos a aceitar sem problemas, como aliás AG sugere ao falar de Cabrita Reis, que esta visão da arte excluiria grande parte da arte contemporânea. Contudo, o problema é bem mais fundo. Toda a arte relevante, de Monet a Caravaggio, de Bob Dylan a Bad Bunny, causou repúdio a contemporâneos que com ela se viam confrontados durante 15 segundos a caminho do gritadouro mais próximo.

3 AG, o único comentador que conheço que admira Cristiano Ronaldo não pelos golos que marca mas pelas suas posições políticas, protesta de seguida com a possibilidade de um artista protestar quando ganha milhões de dólares anuais («Apesar de ser curioso protestar-se quando se aufere dezenas de milhões por ano, tudo bem»). Percebo o argumento, mas parece-me, ainda assim, possível protestarmos com coisas que não nos afectam de maneira nenhuma, sendo, aliás, o artigo de AG prova disso mesmo.

4 AG afirma ainda que Bad Bunny não tem qualquer mensagem política a transmitir, sendo no máximo «herdeiro de outras coisas: a falência do sistema educativo; pais desleixados; misoginia ancestral; efeitos de drogas; consanguinidade; etc. As letras dele não protestam nada, excepto os direitos da mulher.» Ignorando todas as outras críticas, assentes em pressuposições decerto fundadas numa maturada investigação e não de todo em preconceitos raciais, interessou-me esta ideia de que Bad Bunny é simultaneamente misógino e não defende nas suas letras outra coisa que não os direitos das mulheres. Não ponho em causa que seja possível defendermos retoricamente os direitos das mulheres para, na frase seguinte, sermos misóginos. Li um exemplo disso muito, muito recentemente. Porém, o que me parece peculiarmente wokista nesta frase é, como se percebe no resto do artigo, a suposição de que a hipersexualização de uma letra implicaria necessariamente um resquício de «misoginia ancestral», como se a mulher fosse apenas um receptáculo da sexualidade alheia. Já quanto à falta de densidade política, a ferocidade com que o espectáculo foi atacado parece sugerir o contrário.

5 AG afirma ainda que «Nas letras, na “música”, nos arranjos e na estética geral, as “canções” do Bad Bunny são esterco, e esterco tão depurado que ali não cabe um pingo redentor, um pormenor ínfimo capaz de aproveitamento. Estamos – salvo seja: ele e os seus desatinados ouvintes estão – no reino da imundície imaculada.» AG não afirma isso levianamente, uma vez que até se deu ao trabalho de transcrever «um excerto traduzido pelo Grok de “Safaera”, uma das “obras”, na acepção escatológica do termo, interpretadas no Super Bowl». AG ignora ou desdenha a possibilidade de toda a arte ter contextos (que, para vos poupar à maçada, não exporei aqui), linhagens e linguagens próprias. AG não quer ver que o mesmo exercício de citar uns versos descontextualizados e fazer deles amostra do valor do artista em causa poderia ser preguiçosamente usado para descartarmos os Beatles («Ob-la-di, ob-la-da, life goes on, brah/ La-la, how their life goes on /Ob-la-di, ob-la-da, life goes on, brah /La-la, how their life goes on») ou Camões («Aos montes ensinando e às ervinhas/ O nome que no peito escrito tinhas») do cânone. Com maior generosidade e paciência, AG teria reparado na perfeição da construção do ponto de vista melancólico (se entendermos por melancolia a sobreposição imperfeita de dois tempos, sendo o tempo que se vai apagando aquele que paradoxalmente se engrandece) de DtMF, ou no que subjaz à ideia de NUEVAYoL, onde nos é dito que se nos quisermos divertir, com encanto e com primor, basta vivermos um verão em Nova Iorque, mas onde, sobretudo através de apartes subtis gritados ao fundo, vamos percebendo que se Nova Iorque é uma boa cidade para vivermos, a nossa estadia lá deve ser curta, porque, debaixo do seu manto de tolerância, esconde-se o perigo para uma comunidade que nunca deixará de ser aí intrusa («Y este frio? (…) El perico es blanco, si, si (…) Shh, cuidado, que nadie nos escuche»).

6 Por fim, AG conclui que a discrepância entre a falta de talento de Bad Bunny e a «relevância que se atribui a tamanha fancaria» tem uma explicação simples: «o Bad Bunny é um ruidoso crítico de Trump». Com certeza. Mas como explica AG que em 2020 Bad Bunny, muito antes de alguma vez se ter pronunciado sobre o assunto, já fosse o artista mais ouvido do Spotify, estatuto que manteve, alternadamente com Taylor Swift, durante a Administração Biden? Ou que quando anunciaram a sua actuação no Super Bowl, Bad Bunny já tivesse uma digressão mundial, que passará pelo Estádio da Luz, esgotada? Ora, se Bad Bunny se transformou num símbolo da contestação a Trump foi apenas por, muito compreensivelmente, não ter incluído os Estados Unidos nessa mesma digressão, por temer que os concertos fossem alvos de rusgas do ICE.

Em outubro, quando se soube que Bad Bunny actuaria no intervalo do SuperBowl, Donald Trump comentou: «Nunca ouvi falar [dele] (…). É uma escolha ridícula.» Talvez não haja melhor ilustração do encadeamento lógico com que somos bombardeados ao longo do artigo de AG: não o conheço, mas detesto-o com todas as minhas forças.