Duas militares das Forças de Defesa de Israel (IDF) tiveram de fugir de uma multidão de judeus ultraortodoxos este domingo em Bnei Brak quando estavam de visita à cidade, acabando por ser escoltadas pela polícia israelita. O episódio — que mereceu condenação generalizada por parte da esfera política do país — faz parte de uma onda de incidentes relacionados com as tentativas do governo de Benjamin Netanyahu em recrutar os membros desta comunidade para o exército.
חיילות צה"ל מותקפות לאור יום בבני ברק.
משילות, קווים לדמותה. pic.twitter.com/7Q25lEuYFx— Ksenia Svetlova كسنيا سفطلوفا (@KseniaSvetlova) February 15, 2026
Um vídeo captado no local e verificado pelos meios de comunicação israelitas mostra as duas militares, vestidas à civil, a fugir de uma multidão de judeus ultraortodoxos nesta cidade — conhecida por ser um bastião da comunidade Haredi —, protegidas por agentes da polícia israelita e outros civis. Acabaram depois por fugir num veículo do local.
De acordo com o Times of Israel, as mulheres tiveram de esconder-se atrás de contentores do lixo para evitar possíveis ataques, sendo que os agentes que as acudiram deixaram os seus veículos não vigiados. Como resultado, pelo menos um carro patrulha foi capotado e uma mota policial incendiada.
A Hatzalah medic tries to keep a police motorbike from burning to a crisp, but young Haredi men spring forward, grab his arm and drag him from the vehicle pic.twitter.com/RFkvWnojPI
— charlie summers (@cbsu03) February 15, 2026
A perseguição às duas militares espoletou um motim que no qual a multidão, maioritariamente composta por jovens do sexo masculino, começou a vandalizar e queimar caixotes do lixo e a atacar agentes no local atirando-lhes pedras. Pelo menos cinco agentes sofreram ferimentos ligeiros, tendo a polícia recorrido a granadas de atordoamento para dispersar os revoltosos. Foram realizadas 26 detenções, tendo posteriormente sido noticiado que quase todos saíram em liberdade esta segunda-feira, com sete serem submetidos a prisão domiciliária.
O incidente levou à reação do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que recorreu à rede social X para condenou este ataque “completamente inaceitável”, perpetrado por “minoria extrema que não representa toda a comunidade haredi”. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, caracterizou os atacantes como sendo “pequeno grupo de anarquistas violentos” que não representam “a grande maioria dos haredi” e que vão pagar “um preço alto”.
https://twitter.com/netanyahu/status/2023020263563280429
Alguns dos líderes de partidos ultraortodoxos quiseram também distanciar-se dos ataques, como Yitzhak Goldknopf, presidente do Judaísmo Unido da Torá, que disse estar chocado com as imagens. Já Aryeh Deri, líder do Shas, disse que o incidente “prejudica todo o povo haredi, profana o nome de Deus e causa graves danos à luta justa pelo mundo da Torá”.
Este episódio surge na sequência de vários incidentes violentos nos últimos meses a envolver as forças de segurança israelitas e os ultraortodoxos. Em causa está o facto das IDF dizerem necessitar urgentemente de 12 mil recrutas devido à pressão causada pelo exército devido à guerra na Faixa de Gaza, tendo identificado 80 mil homens ultraortodoxos com idades entre os 18 e os 24 anos atualmente elegíveis para o serviço militar.
Historicamente, as comunidades haredi têm conseguido evitar o serviço militar obrigatório, mas o Supremo Tribunal de Justiça de Israel decidiu em 2024 que tais isenções são ilegais. Desde então, o país tem enfrentado instabilidade política, já que o Governo de Netanyahu depende do apoio dos partidos ultraortodoxos no Knesset para garantir uma maioria que permita a governação. Estes, porém, têm feito pressão para que se aprove uma lei que mantenha a comunidade haredi fora das IDF.
https://observador.pt/especiais/os-judeus-ultraortodoxos-que-se-recusam-a-alistar-nas-idf-e-que-podem-levar-netanyahu-a-convocar-eleicoes-antecipadas/
Polícia acusa IDF de descoordenação, exército devolve acusações de passa-culpas
De acordo com a imprensa israelita, há mais do que uma versão quanto ao que terá provocado este incidente. Segundo o Jerusalem Post, a polícia terá avançado que a multidão foi incentivada a atacar as militares porque estas se encontravam a distribuir panfletos de recrutamento nesta cidade de maioria haredi.
As IDF, porém, negam-no, contrapondo que as oficiais foram a Bnei Brak para realizar uma visita domiciliária a uma candidata antes desta se alistar. O exército israelita adianta também que os materiais que transportavam não eram panfletos de recrutamento, mas sim folhetos informativos que são dados aos recrutas com informações sobre o alistamento e que equipamento devem trazer.
“Não sabemos porque é que a polícia está a agir desta forma. Agira de forma desrespeitosa para com as IDF, revelaram os depoimentos das soldados para os media a fim de difamar os comandantes do exército e agora estão a divulgar informações imprecisas sobre a conduta dos soldados em Bnei Brak. Esperávamos que a polícia agisse com um pouco mais de maturidade e assumisse a responsabilidade pela sua conduta e pelas declarações feitas pelos seus comandantes”, afirmou uma fonte militar ao Jerusalem Post.
Esta reação surge em sequência das declarações do comandante da polícia do distrito de Tel Aviv, Haim Sargaroff, que atribuiu culpas às IDF pelo incidente ao dizer que estas “não coordenaram” a ida das oficiais com as forças de segurança antecipadamente. “No momento em que sabemos que uma oficial das Forças de Defesa de Israel está a entrar [numa área haredi], preparamo-nos para fornecer reforços, mas quando eles entram sem coordenarem-se connosco, quando entram e começam a realizar uma operação, só podemos reagir”, afirmou.
Segundo o Times of Israel, pelo menos uma das oficiais disse ter pedido aos seus comandantes para que não fossem enviadas para Bnei Brak, mas não tiveram escolha. Ambas vestiram-se com roupas civis e deslocaram-se sem as armas de serviço para não provocar os residentes, sem sucesso.
O mesmo jornal avança que os ataques podem ter sido provocados por uma chamada feita para a Jerusalem Faction, um grupo militantemente radical contra o serviço militar obrigatório, para alegar erroneamente que os soldados estavam a tentar entregar ordens de alistamento. Um porta-voz da organização, contudo, negou qualquer ligação com o incidente, afirmando que os motins “não foram algo organizado”.
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