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(A) :: “Rosebush Pruning”: o filme safado de Karim Aïnouz

“Rosebush Pruning”: o filme safado de Karim Aïnouz

Início de conversa com o cineasta brasileiro sobre a provocação desta Berlinale, num momento em que o festival começa a lançar os seus maiores trunfos.

Francisco Ferreira
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O novo filme de Karim Aïnouz, outra aventura do brasileiro em língua inglesa depois de Firebrand (O Jogo da Rainha) e, sob todos aspectos, um “filme internacional” (a produção é americana, a inspiração é italiana, o argumentista é grego e a rodagem decorreu na Costa Brava, na Catalunha), foi também o primeiro a trazer à passadeira vermelha um corrupio sideral de outros tempos, coisa que Berlim já pouco vê. Não se começa por aqui por acaso: Rosebush Pruning passa-se no mundo da moda, facto que, à falta de melhor cliché, talvez sirva para aconchegar muitas das suas superficialidades.

Certo é que Karim, acompanhado por Efthimis Filippou (o guionista que ganhou nome a escrever para Yorgos Lanthimos), trouxe à Berlinale com este “podado roseiral” um impressivo número de estrelas da esfera anglo-saxónica: Pamela Anderson, Jamie Bell, Tracy Letts, Riley Keough (a neta de Elvis Presley será vista em breve no novo filme de Albert Serra, Out of This World), bem como Elle Fanning e Callum Turner, que não confirmou nem desmentiu na conferência de imprensa se será o novo James Bond. Por seu lado, Callum aproveitou para trazer à capital alemã a namorada, e olha quem: Dua Lipa. Foi uma bela parada para os fotógrafos sacudirem a neve dos ombros dos casacos, talvez não se repita este ano.

Passemos à inspiração italiana para acrescentar que, o melhor, é nem falar dela. Isto é: Aïnouz adaptou vagamente I pugni in tasca (1965), primeira longa-metragem de Marco Bellocchio (não vale a pena traduzi-lo por “Os Punhos no Bolso” porque o filme, proibidíssimo à epoca, nunca se estreou comercialmente no nosso país; no Brasil chamaram-lhe De Punhos Cerrados), obra fortemente inspirada em elementos autobiográficos de Bellocchio (mas não uma transposição literal da sua vida), em que uma família abastada italiana, mãe e quatro filhos, três rapazes e uma rapariga, formam uma célula sufocante, lasciva, incestuosa, com ciúmes e ataques epilépticos, mórbidas fantasias de amor e morte, a culminarem no matricídio. Foi um dos maiores escândalos do cinema europeu dos anos 60, gesto de rebelião e rompimento, em sintonia com as Novas Vagas da época.

https://www.youtube.com/watch?v=XLIwsianBJ0

Aïnouz não chega nem lá perto — mas também não é esse o seu desejo. Pegou na ideia original e depois filmou o que quis, à sua maneira, com a devida autorização (a Kavac Film, de Bellocchio, é, de resto, co-produtora minoritária) e genuína extravagância actualizada aos nossos dias. A mãe do filme anterior saiu de cena e ganhou vida própria fora da família (Pamela Anderson); os filhos, na nova versão, giram em torno do pai magnata e cego que Tracy Letts interpreta. As personagens são americanas, os desvios criados são construções que vêm da pluma de Efthimis Filippou, como a “cena da pasta de dentes” — como dela já se fala nos corredores de Berlim: enquanto se ocupa da sua higiene oral, o pai tem por hábito pedir ao filho que o masturbe.

“O que me interessou foi combinar estes elementos: patriarcado, privilégio, riqueza e americanos brancos, deixe-me precisar” — contou Karim em conversa que há-de vir. “Como é que os privilegiados vivem hoje, no seu isolamento, nas fortalezas dos seus iates e mansões? E que insanidade é gerada por esse modo de vida: vão acabar por devorar-se uns aos outros? Acho que há um ‘monstro na sala’ do filme, que é o pai. Quanto às outras personagens, prefiro vê-las como pessoas vulneráveis, magoadas, que querem romper um ciclo. Nesta perspectiva, o filme segue a mesma linha do meu trabalho anterior, apesar de ser tão diferente. (…) É um filme americano a tocar em tópicos que, na América, já não são abordados desde Beleza Americana. E há quanto tempo foi isso? Espero que o queiram ver, até porque a América também já não é a mesma. O facto de uma plataforma de streaming gastar uma fortuna num filme sobre Melania Trump diz muito dos tempos em que vivemos.”

Para já, deixa-se a pergunta, para revelar na altura da estreia em sala: ficamos com um Karim “lanthimizado” ou sobrevive o brasileiro do Ceará ao desvario de tal adjectivo?

https://www.youtube.com/watch?v=p8xqt2qVJWs

Portugal foi o primeiro país a comprar os direitos de Rosebush Pruning para uma estreia em sala. Avançou antes de todas a Nitrato Filmes, distribuidora dos últimos filmes do cineasta brasileiro, após negócio com a plataforma de streaming MUBI, que o co-produziu e distribuirá, ocupando-se também da sua distribuição internacional. Não será filme fácil de lançar. Não é pitéu para todos os palatos. Ficamos, contudo, com a certeza de que este atrevimento, para o melhor e para o pior, acabará por regressar a estas páginas.

O finlandês Nightborn, de Hanna Bergholm, é uma entrada falhada no cinema de horror mas custa dizê-lo assim, pois é filme de que se queria gostar. No início, é em The Omen [O Génio do Mal], de Richard Donner, que se pensa, quando um jovem casal, Saga e Jon, ela finlandesa, ele inglês, se instalam numa floresta em casa de família por ela herdada e concebem um bebé que nasce peludo e com sede de sangue — na verdade, um filho da floresta e de suas forças demoníacas, claro está. Não é criatura humana. Todos o tomam por tal, menos a mãe, que é, sem saber, herdeira de maldição.

Nightborn promete que se farta nas cenas iniciais e nas contas que o género exige, torcemos pelo seu resultado, mas depois fraqueja na equação que deveria equilibrar humor e medo. O primeiro é frequentemente desconjuntado e patudo, acabando por tornar o segundo inofensivo e com um remate ridículo. Nightborn é um filme de terror pouco crente nas forças obscuras que convoca, ao contrário do inovidável Border – Na Fronteira, fabuloso filme que Ali Abbasi realizou em 2018. Tal como Border – Na Fronteira, terá distribuição nacional pela Alambique Filmes, que tem predilecção por estas aventuras.

Enquanto isto, lá continua nas redes sociais a patética crucificação de Wim Wenders por causa das declarações sobre a Berlinale, cinema e política, desde logo treslidas e aplicadas a trouxe-mouxe — como já aqui se escreveu — à posição da Alemanha sobre o conflito israelo-palestiniano. À conversa, esta tarde, com o realizador de Yellow Letters, Ilker Çatak, assegurou tratar-se de um mal-entendido.

“Colocaram-lhe [a Wenders], de forma simplista, uma questão demasiado complexa para ser respondida no pódio de uma conferência de imprensa, como quem lança a casca de banana”, disse ao Observador o simpático cineasta germano-turco. “E não é justo. Wenders tem uma vida intensa de trabalho, filmes extraordinários e está a ser insultado por causa de uma frase. Escrevi isso mesmo nas redes sociais, fui atacado. A pessoa que lançou a provocação a Wenders é um influencer em busca de cliques muito seguido na Alemanha, não é jornalista. Também me denunciou, só porque não usei a palavra ‘genocídio’. Sabe o que escreveram ontem nas redes sociais sobre mim? ‘Sou o turco que a Alemanha deseja.’ Estas pessoas nunca viram os meus filmes. É neste ponto que estamos.” Convém recordar que o assunto principal de Yellow Letters está, por inteiro, relacionado com este parágrafo. Também está no catálogo da Alambique para estrear em Portugal.

A Berlinale mostrou, entretanto, duas obras de valor muito superior nesta edição: Rose, do austríaco Markus Schleinzer, com Sandra Hüller e We Are All Strangers, lindíssimo filme do singapurense Anthony Chen, a encerrar trilogia do autor sobre a vida quotidiana daquele país asiático. Ficam para a prosa seguinte. Qualquer palmarés que não passe por elas será um palmarés coxo. Mas a procissão ainda nem vai a meio.

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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