Morreu o ator norte-americano Robert Duvall, aos 95 anos. A sua morte ocorreu este domingo e foi confirmada esta segunda-feira pela mulher, Luciana, através de uma publicação na sua página de Facebook.
“Ontem, despedimo-nos do meu amado marido, querido amigo e um dos maiores atores da nossa época. Bob faleceu tranquilamente em casa, rodeado de amor e conforto”, lê-se na publicação.
“Para o mundo, ele foi um ator que venceu um Óscar, um realizador, um contador de histórias. Para mim, ele era simplesmente tudo. A sua paixão pelo seu ofício só foi igualada pelo seu profundo amor pelas personagens, por uma boa refeição e por ser o centro das atenções. Em cada um dos seus muitos papéis, Bob deu tudo de si às suas personagens e à verdade do espírito humano que elas representavam”, continua Luciana Duvall, defendendo que o ator deixou ” algo duradouro e inesquecível para todos nós”.
De entre mais de uma centena de papéis que protagonizou, Robert Duvall ficou sobretudo conhecido pela sua capacidade de encarnar qualquer tipo de personagem, mesmo que a maioria tenha sido secundária. Francis Ford Coppola referiu-se ao seu talento numa entrevista ao The New York Times como exemplo da dificuldade em “distinguir entre atores principais e grandes atores secundários”.
Foi justamente com Coppola que Duvall construiu a sua lenda em Hollywood, ao trabalhar em três dos seus mais importantes filmes: O Padrinho (1972), O Padrinho – Parte II (1974) e Apocalypse Now (1979). Nos dois primeiros, encarnou Tom Hagen, o consigliere astuto e sensato da família mafiosa Corleone; no último, é da sua boca que saiu a eterna frase “I love the smell of napalm in the morning” (“adoro o cheiro do napalm pela manhã”), enquanto tenente-coronel Bill Kilgore destacado na guerra do Vietname.
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Não foi, porém, aí que iniciou a sua carreira. Nascido em San Diego em 1931, Duvall desafiou a vontade da sua família de seguir carreira na marinha, como o seu pai, para estudar teatro. Após uma breve passagem pelo exército, entrou em 1955 na famosa Neighborhood Playhouse School of the Theatre, em Nova Iorque, ombreando com outras lendas da sua geração, como James Caan, Gene Hackman e Dustin Hoffman (tendo dividido casa com estes dois últimos).
Foi aí que começou a acumular pequenos papéis televisivos e a participar em peças de teatro. Foi assim que, em 1962, teve a sua primeira oportunidade no grande ecrã, ao encarnar Boo Radley em Na Sombra e no Silêncio, a adaptação cinematográfica do famoso romance Mataram a Cotovia, de Harper Lee. Seguiram-se então participações em filmes como Bullitt e True Grit e na série televisiva M*A*S*H, onde começou a ficar mais conhecido do grande público.
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Foi assim que chamou a atenção de outro dos jovens realizadores na esteira da New Hollywood, George Lucas, que lhe deu o papel principal na distopia de culto THX 1138, o seu primeiro filme. Duvall não teria muito mais oportunidades enquanto “leading man”, mas quando as teve, aproveitou-as.
Em 1981, foi nomeado ao Óscar de Melhor Ator pelo seu trabalho em A Fúria de um Herói, e dois anos depois recebeu essa mesma estatueta — a única da Academia na sua carreira — por Tender Mercies, encarnando Mac Sledge, um cantautor country alcoólico. O realizador, Bruce Beresford, comentaria a propósito desse papel a capacidade “inquietante, até assustadora” de Duvall perder-se nas personagens.
Ao longo da sua carreira, Duvall receberia mais cinco nomeações a Óscares, a última das quais enquanto ator secundário em O Juiz, de 2015, tornando-se à época, com 84 anos, no ator mais velho a ser nomeado. Além das distinções da Academia, o ator somou inúmeros prémios, destacando-se dois Emmys, um BAFTA, quatro Globos de Ouro e duas Taças Volpi.
No seu currículo construído ao longo de uma extensa carreira no cinema incluem-se ainda participações em filmes como Network – Escândalo na TV (1976), A Absolvição (1981), Colors (1988) Dias de Tempestade (1990), Um Dia de Raiva (1993), A Estrada (2009) e Viúvas (2018). O seu último papel foi em Os Olhos de Allan Poe, de 2022.
Duvall também experimentou o cinema do outro lado da câmara ao realizar quatro filmes, estreando-se com Angelo My Love, de 1983, com a história de um rapaz cigano de 8 anos em Nova Iorque. Com O Apóstolo, de 1997, recebeu vários encómios, inclusive por destacar-se como ator principal deste filme; já Assassination Tango (2002) e Wild Horses (2015) não foram tão bem recebidos.
O ator também encontrou sucesso ao longo da vida na televisão, a mesma que o propalou para Hollywood. Entre alguns dos projetos mais bem sucedidos constam a minissérie Lonesome Dove, de 1989, adaptada do romance premiado de Larry McMurtry do mesmo nome. Contracenando ao lado de Tommy Lee Jones, venceu o seu primeiro Globo de Ouro. Somam-se outros projetos como Estaline (1992), telefilme da HBO em que encarnou o famoso ditador comunista, e Broken Trail (2005), outra minissérie western que produziu e protagonizou, vencendo dois Emmys.
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