Não deve haver muitos partidos assim no mundo inteiro. Desde o dia 8 de Fevereiro, o PS passou a ter mais um ex-Secretário-Geral num cargo proeminente. Apesar da vitória estrondosa nas Presidenciais, António José Seguro é apenas mais um a integrar a galeria de notáveis líderes socialistas que, agora noutras funções, continuam relevantes na vida pública. Já havia António Guterres, o prestigiado Secretário-Geral da ONU desde 2017, e António Costa, o prestigiado Presidente do Conselho Europeu desde 2024 (conhecidos, juntamente com Durão Barroso, outro Primeiro-Ministro que se pisgou daqui, como os Cavaleiros do “Após? Que se lixe!”)
Mas não há dúvida que, apesar das posições importantes que os Antónios alcançaram, o antigo Secretário-Geral do PS mais poderoso é José Sócrates. Um dia, Guterres vai deixar a ONU. Como Costa vai deixar o Conselho Europeu e Seguro a Presidência da República. Mas Sócrates nunca vai deixar de ter influência na vida dos portugueses. Enquanto os primeiros têm transitoriamente um cargo, Sócrates será para todo o sempre um encargo. Só em horas de magistrados, funcionários, salas de audiências, etc, já nos custou uma fortuna. Aliás, Seguro agora está em alta, conseguiu bater o recorde de político mais bem sucedido de sempre em eleições, com 3 milhões e meio de votos. Mas mesmo que tivesse um euro por cada voto, só ia ter dinheiro para pagar praí 10% da dívida fiscal que José Sócrates nos deixou, só em impostos sobre luvas não declaradas. Essa é uma das diferenças entre Sócrates e os outros antigos líderes: estes são famosos pelos lugares que ocupam e Sócrates pelo lugar que se recusa a ocupar, que é o de réu.
Num país historicamente avesso a reformas, o Eng.º Sócrates, sem ocupar qualquer cargo governativo, está a conseguir a transfigurar a Justiça portuguesa sozinho. Pode ainda não estar reformada mas, pelas bordoadas que tem levado ao longo deste processo, está bastante deformada. Na semana passada, mais uma amolgadela: soube-se que Sócrates efectuou novo rodízio de causídico e mudou outra vez de advogada. Sócrates muda de advogada mais vezes do que de testa-de-ferro (por falar nisso, parece que ainda em 2022, os títeres de Sócrates continuavam despreocupadamente em esquemas para lhe fazer chegar dinheiro. Depois de Pedro Delile ter sido substituído por João Preto (com dois advogados oficiosos a darem também uma perninha em algumas audiências), é a vez agora de Sara Leitão Moreira ocupar a posição. Obviamente, devido à substituição, a nova defesa solicitou a paragem do julgamento por vários meses, para se conseguir pôr a par do processo. Percebe-se. Só truques para atrasar o andamento do caso, a defensora tem de decorar 672.
O acumular de sucessivos retrocessos no julgamento de Sócrates é a Loja do Mestre André jurídica. Como na lengalenga infantil, em que tiro, liro, li um pifarito é substituído por plim, plim, plim um pianinho, sempre que achamos que um advogado vai concluir, chega um novo que emite um som diferente. À medida que se vão adquirindo mais instrumentos na Loja do Mestre André, acrescenta-se a nova compra à repetição das antigas. E é obrigatório cantarem-se todas, o que demora tempo e irrita toda a gente com mais de três anos. Já tínhamos plim, plim, plim um pianinho, tiro, liro, li um pifarito e com a compra de percussão passamos a plim, plim, plim um pianinho, tiro, liro, li um pifarito, tum, tum, tum um tamborzinho. Nesta rapsódia, Pedro Delile é um pífaro, João Seca um piano e Sara Leitão Barros um tambor. Ora, como se sabe, há mais advogados em Portugal que instrumentos numa orquestra sinfónica. A cantilena está para durar. Esta minha analogia é particularmente bem esgalhada: os advogados são instrumentos que Sócrates toca para nos dar música.
José Sócrates está a praticar justiça tântrica. Consegue prolongar a actividade por muito tempo, atrasando a sua conclusão. Quando parece que está quase, quase a acabar, Sócrates muda de posição e volta tudo ao início. Se este estratagema for bem praticado, nunca haverá desenlace. Tomara muitos actores pornográficos com metade da sua idade terem este controlo e nunca terminarem. E tomara a muitas actrizes terem a nossa resistência.