Nem todos os eclipses chegam para parar o mundo ou anunciar o apocalipse. Alguns passam de forma contida, como um ensaio-geral. Esta terça-feira, o céu oferece um eclipse solar do tipo Anel de Fogo, um fenómeno relativamente discreto, mas que assinalará o início de um ciclo que, nos próximos anos, trará eventos astronómicos mais raros e imponentes.
Quando esta terça-feira a Lua se posicionar entre o Sol e a Terra, estando um pouco mais afastada do nosso planeta, não cobrirá totalmente o disco solar, criando um Anel de Fogo. O espetáculo completo acontecerá só no extremo sul do mundo, na Antártida, onde será contemplado por mais pinguins do que pessoas, enquanto em África e na América do Sul poderá ser visto apenas de forma parcial.
No ápice do eclipse, o efeito poderá durar até dois minutos e 20 segundos. Em Portugal, não será visível, mas 2026 ainda reserva quatro eclipses, dois solares e dois lunares, cada um com um modo próprio de reconfigurar o céu.
Entre 2 e 3 de março, um eclipse lunar total será visível no Leste da Europa, Ásia, Austrália, Américas e nos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico, assim como no Ártico e na Antártida. A 12 de agosto, chega o eclipse solar total, visível na Gronelândia, Islândia, Espanha, Rússia e numa pequena área de Portugal, enquanto o restante da Europa, África, América do Norte e partes dos oceanos Atlântico, Ártico e Pacífico acompanharão uma versão parcial. Para fechar o ciclo, nos dias 27 e 28 de agosto, um eclipse lunar parcial poderá ser visto na Europa, Ásia ocidental, África, Américas e nos oceanos Pacífico, Atlântico, Índico e Antártida.
Apesar da curta duração, de apenas 26 segundos, o eclipse solar total de 12 agosto será o mais importante, visível de forma plena numa pequena área do nordeste de Portugal, em Bragança. Neste caso, a Lua, a Terra e o Sol estarão completamente alinhados e o dia tornar-se-á noite no nordeste transmontano.
“O último eclipse total do Sol observado em Portugal aconteceu em 1912 e o próximo será em 2144, tornando o Eclipse de 2026 num momento imperdível para várias gerações”, assinala a Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica num comunicado.
Além da ponta transmontana de Portugal, Espanha será o destino privilegiado para observar o fenómeno na sua totalidade, enquanto as restantes regiões da Península Ibérica poderão vê-lo de forma parcial, com percentagens variando conforme a localização.
https://twitter.com/PlanetarioMad/status/2021875498721177952
A trajetória da totalidade cruzará o Oceano Ártico, seguirá pelo nordeste da Gronelândia e pelo extremo oeste da Islândia, atravessará o Atlântico e adentrará a Península Ibérica, percorrendo-a de oeste a leste e passando por várias capitais provinciais, de A Coruña a Palma, incluindo León, Bilbao, Saragoça e Valência, segundo o Observatório Astronómico Nacional de Espanha.
O eclipse máximo ocorrerá às 19h46 (18h46 na hora de Lisboa), quando o Sol já se tiver posto, com duração máxima de dois minutos e 18 segundos.
Como aves migratórias, milhões de visitantes deverão deslocar-se a Espanha, atraídos pelo eclipse, no pico da temporada turística. Todas as acomodações turísticas em Tarragona e algumas em Lleida, na Catalunha, já estão esgotadas há meses, segundo o El País.
O governo espanhol mobilizou 13 ministérios para organizar o eclipse solar de 2026, formando uma comissão interministerial menos de um ano antes do início do ciclo de três eclipses que atravessarão o país até 2028, noticiou o jornal espanhol. Presidida pelos Ministérios da Ciência, Inovação e Universidades e dos Transportes e Mobilidade, a comissão reuniu as comunidades autónomas para coordenar planos de segurança e mobilidade.
https://twitter.com/CienciaGob/status/2022054737454280935
Completa ou parcialmente atrás da Lua: os vários tipos de eclipses
Desde os primórdios que os eclipses deslumbram a humanidade. Observados ao longo de gerações, despertam medo e curiosidade, como um lembrete dos movimentos do planeta: o nascer e o pôr do Sol deixam de ser meras rotinas e revelam como a Terra gira à volta do seu eixo e da sua estrela.
Existem vários tipos de eclipses, mas todos partilham a capacidade de transformar o céu e a perceção do dia a dia. Podem ser solares ou lunares e totais, parciais ou anelares.
Para ocorrer um eclipse do Sol, a Lua tem de se posicionar entre a Terra e o Sol. Os eclipses solares totais, como o que ocorrerá a 12 de agosto, são os mais impressionantes: o Sol desaparece completamente atrás da Lua, mergulhando a Terra numa escuridão temporária que muda cores, temperatura e comportamento da fauna. Os pássaros interrompem o canto e a temperatura cai enquanto o Sol “pára” de aquecer a Terra.
“Ver um eclipse parcial tem a mesma relação com ver um eclipse total que beijar um homem tem com casar com ele” foi a forma como Annie Dillard descreveu a diferença entre eclipses totais e parciais, num ensaio publicado pela primeira vez em 1982, na obra “Eclipse Total”, que descreve sua experiência pessoal com um eclipse solar no estado de Washington.
No caso do eclipse solar parcial, a Lua cobre apenas parte do disco solar, deixando o resto visível. No eclipse anelar, a Lua não consegue cobrir totalmente o Sol por estar mais distante, formando o famoso Anel de Fogo, uma borda luminosa visível ao redor do disco lunar, como o desta terça-feira.
Para os eclipses da Lua, que ocorrem na fase de Lua cheia, a Terra tem de estar posicionada entre a Lua e o Sol. A sombra da Terra projeta-se sobre a Lua, reduzindo o seu brilho e, em alguns casos, tingindo a superfície lunar de um vermelho intenso por várias horas.
Durante um eclipse lunar total, a Lua entra na umbra da Terra e recebe apenas a luz filtrada pela atmosfera, adquirindo tons avermelhados que podem intensificar-se com poeira ou nuvens. No eclipse parcial, apenas parte da Lua é coberta pela umbra, criando um escurecimento parcial. Já o eclipse penumbral acontece quando a Lua passa pela penumbra da Terra, escurecendo-a de forma muito subtil e difícil de perceber a olho nu.
O que deve saber para ver — e não olhar — um eclipse?
Caso o queira ver, há alguns cuidados a ter em conta. Nunca olhe diretamente para o Sol sem proteção adequada. Deve usar óculos ou filtros solares certificados, que bloqueiem a luz visível e a radiação ultravioleta e infravermelha. Mesmo assim, evite observação contínua e faça pausas.
Se não tiver filtros, pode usar métodos indiretos: projete a imagem do Sol num cartão através de um orifício ou observe os padrões de luz entre folhas de árvores ou dedos cruzados. Nunca use óculos de sol comuns, negativos de fotografia ou radiografias.
Os filtros devem ser adquiridos em lojas especializadas ou fornecedores homologados e usados corretamente sobre os óculos ou instrumentos de observação.
https://observador.pt/2015/03/18/radiacao-solar-queima-retina-sem-dor/
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