Entrei no Estádio onde ia ver ao vivo a minha equipa preferida, e, sem olhar para ninguém, deduzi que a disposição dos milhares de fãs já ali presentes naquela ocasião era alegre e festiva: com efeito, todos batiam as palmas com firmeza e empenho.
Puro engano da minha parte: a dita e sonora celebração inscrevia-se tão somente nos sessenta segundos de homenagem a alguém que há pouco havia falecido. É verdade que não ouvi então quaisquer manifestações verbais de júbilo a acrescentar ao impressivo e ritmado bater de palmas, mas mesmo assim e uma vez mais, fui surpreendido por este hábito público já razoavelmente generalizado: a reverência silenciosa a quem deixou esta vida terrena terá passado a ser algo de arcaico, sem lugar de destaque nesta nossa sociedade do espetáculo sempre em estado de exibição.
Essa aparente mostra de marginalização do valor da recatada reserva, enquanto óbvia resposta diante da tristeza pela “partida” do ser homenageado, reflete-se igual e talvez sintomaticamente – embora de forma diversa -, noutros ambientes e cerimónias mais solenes e restritos organizados com o mesmo propósito: também aqui se presencia uma atitude de entorse às antigas e tácitas regras de discrição demandadas nessas específicas ocasiões – e que voluntariamente se distanciam do tom e modo usados out there, no nosso quotidiano mais ou menos descontraído. Na verdade, o preto de luto que até hoje, sem reservas, traduzia esteticamente a partilhada dor pelo desaparecimento de alguém, terá aparentemente perdido essa exclusividade funcional na geração Z, ou melhor, nos tempos já parcialmente definidos pelos digital natives.
«Mas no essencial esses tais “rebeldes” estão presentes e solidarizam-se com os demais, é tão somente a qualidade da sua expressão exterior que os diferencia», acentuam uns meus interlocutores, acrescentando: «Essa atitude apenas confirma que pertencem a uma geração que assim se afirma no quadro de uma dinâmica de acelerada mudança que caracteriza este nosso início de milénio!». E se tais transformações chocam certas almas mais resistentes à novidade, todavia não se lhes sugere sequer, importa realçá-lo, que deixem de prestar a sua homenagem de maneira tradicional.
No fundo, e se bem entendi, a mensagem é simples: a cada um o seu tipo de tributo, e aquilo que à primeira vista parece uma enorme confusão, mais não é do que a lógica expressão e resultado do individualismo que a sociedade de consumo foi paulatina e progressivamente introduzindo na linguagem comum. O direito à diferença e autonomia assume-se como chave-mestra para abrir a caixa-de-Pandora do comportamento das gentes, influenciando diretamente o próprio conceito de comunidade, agora muito mais ancorado no enunciado das grandes linhas e orientações comuns, em detrimento de uma qualquer sintonia na prática corrente dos cidadãos.
Mas também esta asserção carece de confirmação, já que o efeito da nossa condição de seres gregários nos impele, afinal e muitas vezes, a agir como o fazem os demais, assim acabando todos por vestir, nas nossas atitudes e preferências, a mesma camisola dos restantes parceiros com quem temos uma maior afinidade: é o instinto tribal que, na realidade e frequentemente, sobressai na tomada de decisão final, assim agindo em simultâneo com uma pronunciada diversidade em determinados etapas temporais e circunstâncias.
Numa visão global, depara-se-nos afinal e tão simplesmente, nestes cenários de despedida, uma situação que está longe de ser inédita: de facto, essas exteriorizações correspondem naturalmente à faixa etária de cada um de nós ,com os mais velhos preferindo manter a sua clássica liturgia privilegiando o pesar pela ausência da pessoa lembrada e homenageada – e convém salientar que na “civilização ocidental”, o preto persiste como a cor que reflete esse sentimento – , enquanto os mais jovens, ou ignoram esse código, ou transcendem-no através de uma postura menos pesada e grave.
Em qualquer caso, todos cumprem um idêntico ritual, reconhecendo, à sua maneira, a singularidade e respeitabilidade do ato. E, pese embora a óbvia conflitualidade em determinadas ocasiões – veja-se nomeadamente as ocasionais e referidas celebrações de 1 minuto nos estádios, a impedir, nesse momento, o silêncio requerido por uma parte dos homens e mulheres que ali se deslocaram – , é também verdade que, lá em baixo, no relvado, os jogadores têm á volta do braço uma faixa preta, o que repõe em certa medida um certo equilíbrio na diversidade.
Mas se, isto dito, é esta a minha conclusão, deixo o meu silêncio responder.
. Em paralelo e em contraste, agora no contexto político nacional, foi-nos recentemente recordado que, à semelhança do ocorrido em anteriores processos eleitorais, as 24 horas precedentes ao dia de votação das presidenciais deveriam ser exclusivamente dedicadas a uma derradeira e íntima reconsideração sobre o sentido da escolha de cada um de nós: todos os debates públicos e manifestações partidárias foram consequentemente interditos ao longo desse penúltimo dia. Esta medida parece conter na sua generosa génese, o fantasista desejo de atribuição de uma espécie de “sacralidade” plebeia ao ato eleitoral, já que nos sugere uma atitude de introspeção e aprofundamento prévia ao suposto “sacramento” da introdução do nosso boletim no recetáculo.
Para além desta magia processual, ainda nos chama a atenção o tom magistral e paternalista deste apelo proveniente de um deus qualquer no topo da hierarquia social e humana que, conhecendo como ninguém o elevado nível de fragilidade dos seus pares menores, achou por bem impor-nos o sacrifício de, na véspera da eleição, substituirmos o nosso suposto divertimento e inconstância ao longo da campanha eleitoral pela omissão de uma qualquer potencial influência, dos partidos ou movimentos políticos envolvidos, sobre a nossa opção.
Esta peregrina ideia, nascida em tempo caracterizado pelo monopólio, no universo da comunicação pública, da rádio e das televisões, afigura-se hoje, numa era tão marcada pelas “redes sociais”, assaz desajustada e caduca: se a intenção era a de todos os meios de comunicação pública alinharem nessa pretensa onda de pedagógica quietude, a facilidade de contrariar e contornar tal orientação é hoje mais do que evidente. Além do mais, é patente a precipitação da medida, já que se esqueceu de contemplar a situação de todos os que votam em tempo antecipado.
Para evitar inclusive o ridículo da permanência desta absurda situação num universo em que o smartphone acolhe e promove muito mais do que os saudosos «5 minutos de Jazz» que o José Duarte diariamente nos proporcionava, julgo que é tempo de, aproveitando uma histórica fórmula jurídica,« aos costumes dizer nada »: uma boa porção de eleitores portugueses, todos eles adultos e investidos do decorrente direito de cidadania, agradeceriam penhoradamente a definitiva exclusão dessa aberração regulamentar.