“Queridos amigos. Agradeço-vos toda a ajuda ao longo destes muitos anos. Parece, no entanto, que a minha grande utilidade para vocês chega ao fim e é tempo de me retirar do serviço ativo.” Esta é a carta de despedida que Robert Hanssen escreveu para os agentes do KGB. Vai em breve reformar-se do FBI e coloca assim um ponto final na sua espionagem para os russos, com quem colaborou durante décadas. Prepara-se para fazer uma entrega de informação pela última vez. Pega num saco de plástico e coloca lá dentro uma série de documentos classificados e uma disquete encriptada onde está a carta, escrita a computador. “A vida é cheia de altos e baixos”, pode ler-se nela.
Este 18 de fevereiro de 2001 é um dia normal na sua vida. Robert deixa um amigo no aeroporto e depois arranca para o parque Foxstone, uma área verde de 14 hectares perto da cidade onde vive, Vienna, no estado da Virginia. O que não sabe é que, atrás de si, seguem várias carrinhas do FBI.


Robert sai do carro e segue a pé. O sol está a por-se e começa a ficar escuro quando o homem atravessa a ponte por cima do riacho Wolftrap. Vai até a uma estrutura de metal e coloca o saco de plástico, enrolado em fita cola preta, dentro de uma reentrância. Quando está a regressar para o carro, aparece de repente uma carrinha branca. Dela saem vários agentes com casacos onde se lê em letras grandes SWAT. “Páre, FBI!”, gritam-lhe os agentes. “Senhor Hanssen, está detido”, diz-lhe um, enquanto o outro o algema.
O espião não resiste. Aceita o destino que o apanhou finalmente, ao fim de tantos anos de traição. Apenas levanta a cabeça e faz uma pergunta aos agentes: “Por que é que demoraram tanto?”
O homem que ofereceu serviços à União Soviética em troca de dinheiro (e diamantes)
Dias depois, o diretor do FBI, Louis Freeh, dirá em conferência de imprensa que Hanssen é um agente duplo, que cometeu “as ações traidoras mais inimagináveis” da história dos Estados Unidos da América.
O caso de Hanssen alimentará o imaginário popular norte-americano durante décadas — não por acaso, foi até feito um filme sobre a sua história, chamado Breach. Mas David Charney tem reticências quanto ao casting. Em vez de Chris Cooper, crê que o papel principal deveria ter sido interpretado por Jeff Goldblum, o ator reptiliano conhecido pelas atuações em filmes como Parque Jurássico e A Mosca. “Ele é espirituoso de uma forma seca e cortante. É engraçado, mas também consegue ser um pouco estranho e neurótico e complicado. Seria o ator perfeito para fazer de Hanssen.”
Charney sabe do que fala, já que foi o psiquiatra que avaliou o espião na prisão, a pedido da defesa, durante semanas. Não esquece como foi o primeiro encontro, que recorda ao Observador: “Naqueles primeiros momentos, pensa-se: ‘Como é que será que isto vai correr?’ E foi interessante, porque ele estava confortável desde o início. Sobretudo devido ao seu grande ego, ele tinha alguma arrogância. Era ele que ia liderar [a conversa], ia ter tudo sob controlo.”
À sua frente, o médico tinha o homem responsável por passar aos russos uma quantidade enorme de documentos relevantes. Entre 1985 e 2001, Hanssen divulgou à União Soviética e depois à Rússia segredos nucleares, a informação de que os norte-americanos tinham construído um túnel para aceder à embaixada soviética e a identidade de vários agentes dos EUA a trabalhar no país. Três foram detidos e dois executados graças à informação passada por Hanssen.

Não foi recrutado. O norte-americano já trabalhava para o FBI, na unidade de contraespionagem, há quase dez anos, quando decidiu oferecer espontaneamente os seus serviços aos soviéticos. Entrou no escritório da Amtorg, uma agência de comércio da URSS que todos sabiam ser um disfarce para atividades de espionagem. “Hanssen deixou um nome falso e uma mensagem para ser entregue a um oficial do GRU [serviços de informação militares russos]”, resume o livro The Spy Next Door (sem edição em português), que conta a história de Hanssen. “Nela oferecia-se para vender informação classificada do Governo. A sua vida como espião tinha começado.”
À primeira vista, tudo parecia ser por dinheiro. Ao todo, ao longo de 16 anos e usando o nome falso de Ramon Garcia, Robert Hanssen recebeu 1,4 milhões de dólares em dinheiro e três diamantes. Com esse dinheiro, pagou a casa, vários carros, a escola privada dos seus seis filhos e ofereceu presentes. Mas a necessidade foi aumentado à medida que se endividou. “Hanssen afirmou que os pagamentos da sua hipoteca se tornaram tão altos que ‘estava a perder dinheiro a cada mês e a dívida crescia’”, concluiu a investigação do FBI.
Só que nada é assim tão simples — afinal, o espião viveu toda a vida na mesma vivenda e manteve carros discretos. O psiquiatra Charney considera que é completamente redutor pensar que Hanssen foi agente duplo apenas pelo dinheiro. “O dinheiro é um fator, mas é o fator mais relevante? Não”, declara. “Há outras formas de obter dinheiro. Talvez mais fáceis.”
“Aquilo de que estamos a falar é da forma como um tipo olha para si mesmo e as expectativas que tem. Se ele se sente como um falhado, isso é intolerável”, nota o médico. “Algumas pessoas do meio da espionagem começam a pensar ‘Não sou eu que sou um falhado, fui lixado’. Por aquela pessoa, pela instituição, etc. Isso externaliza a causa e dá espaço para que a pessoa sinta que deve vingar-se.” No fundo, Hanssen queria vingar-se do FBI. Mas porquê?
O espião que queria ser James Bond, mas era “o agente funerário”
O psiquiatra considera que é preciso ir à origem da personalidade de Hanssen para perceber tudo isto. Em primeiro lugar, à sua relação complicada com o pai, um agente da polícia que insultava regularmente o filho, de quem esperava sempre pouco.
Essa pressão deu lugar a um adolescente e jovem introvertido. “Ele era como uma mosca na sala”, refletiu o antigo colega de quarto na faculdade, Hank Wilkins. “Era uma espécie de geek. À noite, lia livros de física como se fossem romances.”

Na faculdade — onde estudou medicina dentária e depois contabilidade — Hanssen teve aulas de russo, mas nunca demonstrou especial fascínio pelo país. Anos depois, diria aos seus superiores russos que decidiu aos 14 anos “enveredar por aquele caminho” quando leu sobre a história de Kim Philby, o agente britânico que espiou toda a vida para os soviéticos; mas tudo não passará de uma efabulação, já que o livro só seria publicado dez anos depois disso.
Já adulto, abandonou o caminho que traçara na faculdade relacionado com a contabilidade e preferiu tornar-se agente da polícia, como o pai. A sua inteligência permitiu-lhe subir rapidamente e acabar por se tornar agente do FBI. Ao mesmo tempo, dedicava-se à família e mostrava-se um homem de fé. Convertido ao catolicismo pela mulher, Bonnie, Robert tornar-se-ia não só um fiel assíduo da igreja como um membro do Opus Dei. Uma vez, comentou com um amigo que os soviéticos iriam perder a Guerra Fria por serem ateus — “é preciso ter Deus na nossa vida, senão não vamos a lado nenhum”.
Graças às suas capacidades intelectuais, foi rapidamente selecionado para ser analista. Mas Hanssen sentia-se frustrado com o seu trabalho. Queria ser um agente dos que andam no terreno. “Ele entrou para o FBI para ser um caçador de espiões”, reflete Eric O’Neill, agente do FBI que fez parte da equipa que capturou Robert. “Queria andar disfarçado e apanhar espiões, ser como o James Bond. Era um grande fã de James Bond.” Não é exagero: colecionador de armas, Hanssen tinha em casa duas pistolas Walther PPK, as usadas pelo agente criado por Ian Fleming.

“O FBI percebeu que ele era um analista incrível. Conseguia pegar em grandes quantidades de informação e encontrar aquela pepita que resolvia um caso. Para além disso, era incrivelmente dotado com computadores e bases de dados, numa altura em que no FBI ainda se fazia tudo em papel e à máquina. Ele estava à frente do seu tempo”, nota O’Neill ao Observador. “Então fizeram dele analista e isso deixou-o zangado. Parecia-lhe uma despromoção.”
Apesar da importância do trabalho de analista, Hanssen sonhava com ação no terreno. Mas para os seus chefes no FBI era claro que não tinha o perfil para isso. Quase sempre sério e vestido com fatos pretos, nos corredores ganhou a alcunha de “o agente funerário”. “Não tinha jeito nenhum para se relacionar com pessoas”, acrescentaria um antigo colega à revista TIME.
Mas a sua inteligência brilhava. Nunca deu o seu nome verdadeiro aos russos, nunca se encontrou pessoalmente com ninguém. Aproveitava os conhecimentos sobre os soviéticos que aprendia no trabalho no FBI e explorava-os para agradar ao KGB. “Era como o gerente de um banco que conhecia todos os parâmetros de segurança e como fazer as coisas sem ser apanhado”, resume O’Neill.
Em algumas cartas para os russos, dizia temer ser apanhado: “A certa altura, gostava de ter um plano de fuga (nada dura para sempre)”, escreveu em 1986. “Poderia dizer-se que sou loucamente corajoso ou um louco calado”, pode ler-se noutra das cartas. “Eu diria que nenhuma delas: sou loucamente leal.”
Robert Hanssen apanhou um susto a certa altura, quando a mulher Bonnie o encontrou a tentar esconder alguns papéis em casa. Confrontou-o e o espião acabou por dizer que estava a trabalhar para os russos, mas como agente duplo: “Disse-me que estava a enganar os russos e a dar-lhes informação falsa”. Bonnie exigiu ao marido que se confessasse e Robert assim fez. Inicialmente, o padre Robert Bucciarelli, também ele ligado ao Opus Dei, disse-lhe que devia contar o que estava a fazer aos seus superiores. Mas, dias depois, mudou de ideias: disse a Hanssen que seria absolvido por Deus se, em vez disso, desse dinheiro a instituições de caridade — o que o agente do FBI prontamente fez.
O “imbecil” que trabalhava para Hanssen e que, afinal, era o agente que o iria apanhar
Até que o cerco apertou.
Em dezembro do ano 2000, o agente do FBI Richard Garcia recebeu a visita de um colega que lhe perguntou se o nome Robert Hanssen lhe dizia alguma coisa. Depois de responder que não, ouviu de volta: “Boa. Vais ficar a conhecer.”
Garcia começou então a liderar a equipa que viria a capturar Hanssen — e que, no pico, chegou a ter 300 agentes. As suspeitas foram levantadas por uma chamada telefónica, obtida por um agente russo que trabalhava para os norte-americanos, onde é reconhecível a voz de Robert; e também por impressões digitais deixadas nos sacos do lixo que Hanssen usava para as entregas.

Foi montado um plano: Hanssen seria transferido para uma nova unidade onde estaria a ser montado um novo caso que, na verdade, era completamente inventada. O objetivo era que o espião pudesse ser monitorizado mais facilmente — e Eric O’Neill foi escolhido para ser o agente que trabalharia o mais de perto possível com ele, como seu subordinado.
Revelou-se um chefe irascível. “Era muito difícil, muito exigente. Eu via-o como brilhante, mas também preguiçoso, porque empurrava a maior parte do trabalho para mim”, recorda. “Fazia comentários aguçados. Se eu me enganasse ou não fosse rápido o suficiente, chamava-me estúpido ou idiota. Uma vez chamou-me imbecil. Era um chefe muito, muito difícil.” Apesar disso, Eric conseguiu trabalhar uma relação em que Hanssen se tornou uma espécie de mentor para ele — tanto que o FBI chegou a considerar que talvez o espião estivesse a tentar recrutar O’Neill para trabalhar para os russos.

Tudo mudaria num só dia. Os agentes da missão sabiam que, para apanhar Hanssen, seria fulcral ter acesso ao seu Palm Pilot, um aparelho eletrónico percursor do BlackBerry, onde o espião guardava todas as suas informações. A oportunidade surgiu quando dois dos supostos superiores de Hanssen o levaram para uma carreira de tiro durante o dia de trabalho. “Ele não gostava que lhe dessem ordens e interrompessem a sua rotina”, nota O’Neill. Mas Robert Hanssen não teve escolha e seguiu com os chefes. “Pela primeira vez, não levou o Palm Pilot. Fiquei entusiasmado e peguei nele.” Eric desceu do nono piso para o sexto e entregou o aparelho à equipa tecnológica, para que copiassem o conteúdo do Palm Pilot. Mas o tempo estava a contar.
Correu tudo como num filme de espiões. Eric regressa quando Hanssen está mesmo quase a chegar ao escritório. Tem de voltar a colocar o Palm Pilot no bolso certo da mala — seria o do lado direito ou o do lado esquerdo? “Coloquei o aparelho na mala mesmo antes de ele entrar na sala, sem fazer ideia se o tinha posto no bolso certo. Ele chegou ao pé da secretária e ouvi o fecho do bolso, era ele a pegar no Palm Pilot. Perguntou-me se tinha ido ao gabinete dele e eu disse que sim, que tinha ido lá por um documento, enquanto temia que ele puxasse da arma e disparasse contra mim. Sabia que se o Palm Pilot estivesse no bolso errado, era o fim.”
Não estava. E, com as informações que constavam nele, o FBI conseguiu descobrir onde é que Hanssen ia fazer a próxima entrega — que, noutra nota digna de filme, o espião planeava que fosse a última. Acabou mesmo por ser, mas, ao contrário do que esperava, Robert Hanssen não voltou para casa a seguir.
Os efeitos de uma traição, 25 anos depois
No julgamento que se seguiu, Robert Hanssen declarou-se culpado de 15 crimes de espionagem e conspiração, a fim de evitar a pena de morte. Pediu desculpas, em particular à família, que disse ter “envergonhado”. Foi condenado a prisão perpétua.

Hanssen ficaria até ao fim dos seus dias em Florence, uma prisão de segurança máxima onde os reclusos passam quase todo o dia em isolamento. Foi encontrado morto a 5 de junho de 2023, de causas naturais. “Já vai tarde”, comentou o agente Richard Garcia, chefe da missão que o capturou, quando recebeu a notícia.
Vinte e cinco anos depois da sua captura, o agente Eric O’Neill não tem dúvidas em classificar Robert Hanssen como “o espião mais prejudicial na História dos Estados Unidos”. “Não só pelos agentes que estavam a espiar na União Soviética que foram mortos, desapareceram ou foram condenados a trabalhos forçados, mas porque ele deu ‘o livro de instruções’ que os EUA usam na área da contraespionagem”, sentencia. “Essa informação provocou danos incríveis. Não só durante a Guerra Fria, mas também depois, porque quando o inimigo sabe os meios que usamos para proteger a informação, consegue explorá-los.”
Os efeitos, diz, continuam a fazer-se sentir ainda hoje, com “os russos a serem especialmente eficazes a enfrentar os Estados Unidos”. “O estrago foi catastrófico e continua a ter de ser corrigido.”
Já o psiquiatra David Charney coloca o foco no efeito extraordinário que esta história tem sobre nós, pelo que revela da psique humana. “É incrível como é que alguém consegue desempenhar um papel destes debaixo do nariz das pessoas durante tanto tempo. É uma forma de arte, um talento, que não é comum e é fascinante”, afirma.
“Tem todos os elementos de um romance de mistério, é literatura. Tentar compreender o que faz alguém fazer algo tão extremo ilumina parcialmente pequenos pedaços que todos nós temos. Só que Robert Hanssen levou-os ao extremo.”