Desde 1976, quando uma tempestade desenraizou uma árvore e desenterrou cinco esqueletos do final do século IX, que não se encontravam restos mortais em Wandlebury, a cinco quilómetros de Cambridge, no Reino Unido. Agora, ficou a saber-se que um grupo de alunos e professores fez uma descoberta macabra e intrigante no mesmo local de escavação: ossos de dez homens jovens, da mesma data dos encontrados há 50 anos, em que se destaca o de um “gigante”, cujo crânio tem um buraco.
Estudantes de arqueologia da Universidade de Cambridge trabalhava, na primavera e verão passados, na escavação das ruínas da Idade do Ferro de Wandlebury quando encontrou o fosso funerário, datado do século IX revelou recentemente a instituição em comunicado. Na época, a região situava-se na fronteira entre o reino de Mércia, território anglo-saxónico, e a Ânglia Ocidental, ocupada pelos vikings, que começaram a avançar para sul em meados do ano 870, num período marcado por conflitos armados frequentes com os saxões. Mas ainda não se sabe se estas ossadas pertencem a vikings ou a saxões.
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“De forma invulgar, a vala comum apresentava uma mistura de restos [mortais] completos e desmembrados, incluindo um agrupamento de crânios sem corpos claramente associados e uma ‘pilha de pernas’, bem como quatro esqueletos completos, alguns em posições que sugerem que estariam atados”, lê-se na nota publicada na página oficial da Universidade na internet.
“Todos parecem ser homens relativamente jovens atirados para o fosso sem qualquer cuidado, o que leva os arqueólogos a acreditar que se trata do rasto de um confronto ou batalha, ou talvez de uma execução em massa – ou de uma combinação de ambos”, explica a Universidade no mesmo comunicado.
“A combinação de cabeças e membros decepados, bem como o facto de estarem atados, sugere fortemente mortes violentas, mas, neste momento, ainda estamos a investigar com precisão o que poderá ter acontecido” disse Oscar Aldred, diretor da Unidade Arqueológica de Cambridge que liderou a escavação, citado no comunicado.
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“Os indivíduos ali enterrados podem ter sofrido castigos corporais”, tendo em conta as evidências de golpes nos ossos e os braços, explica o professor. Um dos crânios apresenta provas inequívocas de decapitação. “Talvez as partes do corpo desarticuladas tenham sido exibidas como troféus e depois reunidas e enterradas com os indivíduos vítimas de execução”, acrescenta o arqueólogo.
Um dos esqueletos destaca-se dos restantes, pela estatura anormal — mede 1,93 metros, muito acima da média de 1,68 metros nos homens durante a Inglaterra pré-medieval, — e pelo buraco de três centímetros de diâmetro no lado esquerdo do crânio. A forma e o posicionamento do orifício sugerem que se trata de uma trepanação, procedimento cirúrgico usado desde o período Neolítico para aliviar sintomas de doenças mentais e enxaquecas.
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O jovem, que teria entre 17 e 24 anos e foi “atirado de bruços para o fosso”, poderá ter tido “um tumor que afetou a hipófise e provocou um excesso de hormonas de crescimento”, avançou Trish Biers, curadora das Coleções Duckworth (coleções de restos humanos e primatas) da Universidade de Cambridge, para onde estas ossadas foram levados para análise adicional.
“Essa condição cerebral teria provocado o aumento da pressão intracraniana e dores de cabeça, podendo a trepanação ter sido uma tentativa de aliviar esses sintomas — algo que ainda hoje é relevante em casos de traumatismo craniano”, justificou a paleontóloga mencionada no comunicado da Universidade.
A Universidade recorda ainda que “no final do século VIII, Cambridge estava sob o controlo de Offa, governante da Mércia”, mas que quando o século IX estava a terminar “cerca de metade do Grande Exército Viking instalou-se perto de Cambridge e saqueou a cidade”.
Foi então que Cambridgeshire passou a fazer parte do reino viking da Ânglia Oriental, “permanecendo sob controlo viking até ao início do século X”. E se não parece haver dúvidas na datação dos ossos, feita por radiocarbono, o mesmo não se pode dizer da sua identificação. “Na ausência de objetos funerários associados, será necessária uma investigação adicional para determinar se os restos pertencem a saxões ou vikings”, sublinha a Universidade.
Daí que a organização Historic England, “que apoia a escavação e supervisiona a arqueologia em monumentos protegidos como Wandlebury” tenha encomendado “um novo estudo geofísico da área para obter mais informações sobre o local”. Serão ainda feitas análises ósseas para determinar o “ADN antigo e estudos isotópicos para investigar a saúde, parentesco e origens ancestrais” dos restos mortais.
“Esta descoberta extraordinária contribui para a história da nossa nação e das vidas de pessoas comuns em tempos turbulentos”, frisou Tony Calladine, diretor regional da Historic England.