Depois de uma discussão acalorada com a mãe, Cid, o mais velho dos três filhos de Rita Preta, desaparece. A família estranha, mas julga que o jovem decidiu passar a noite fora, em casa de algum amigo. Mas o tempo passa e Cid não aparece. Percorre-se a comunidade em busca de notícias, inquirem-se os vizinhos, visita-se a namorada, mas ninguém sabe o que aconteceu a Cid. A preocupação dá lugar ao pânico. Assustada, Rita Preta decide participar o desaparecimento do filho à polícia, iniciando uma longa e dura caminhada em busca da verdade que a conduzirá a lugares estranhos, ao encontro de indivíduos perigosos. Ao longo do percurso, Rita Preta aprende a enfrentar o medo que sempre dominou a sua vida e a questionar a história da sua família, que traz gravada dentro de si.
Rita Preta, a personagem principal de Coração Sem Medo, o novo romance de Itamar Vieira Júnior, premiado escritor brasileiro, duas vezes vencedor do Prémio Jabuti, descende de algumas das figuras que habitam a fazenda da Água Negra, onde decorre a ação de Torto Arado. A sua vida, tal como a dos seus familiares, foi marcada pela dor e pela tragédia de uma existência feita nas margens. Nascida numa zona rural do estado da Bahia, Rita Preta foi criada pela avó, Carmelita, a única presença constante nos primeiros anos de vida e superação. Rita nunca conheceu o pai; a mãe abandonou a família em busca de trabalho; e os irmãos gémeos morreram numa derrocada que, apenas por milagre, não a levou também.
Aos 14 anos, Rita Preta foi levada da fazenda onde nasceu para a cidade por uma conhecida da avó, que costumava angariar jovens mulheres para trabalharem como criadas em casas de família. Quando deixou a fazenda, Rita não sabia o que a esperava. Até então, desconhecia o significado das palavras ”preconceito”, “racismo”, “abuso” e “servidão”, que passaram a fazer parte do seu dia a dia. Tal como muitas outras mulheres antes e depois dela, Rita foi explorada e maltratada. A alcunha que permaneceu consigo ao longo dos anos — Rita Preta —, foi-lhe colocada na casa onde tomou consciência de que a sua vida nunca seria fácil, para a diferenciar da patroa, outra Rita. A jovem acabou por abandonar o trabalho, empregando-se primeiro numa loja de móveis e, depois do seu fecho, num supermercado como caixa. Teve três filhos de pais ausentes, que criou sozinha: Cid, Cainho e Juca. Cada um diferente à sua maneira.
Quando Cid desaparece, o pequeno núcleo familiar é profundamente abalado. Rita Preta tenta manter a família unida, mas, no meio do desespero, é incapaz de dar a atenção necessária aos filhos. Cainho, agora o mais velho, vê-se obrigado a crescer depressa e a tomar conta da casa e do irmão caçula. A vida de Rita é suspensa. Passa os dias à procura do filho, percorrendo as ruas da comunidade onde vive, batendo à porta de vizinhos, questionando quem passa. Está determinada em descobrir o que aconteceu a Cid. Até que um boato lhe chega aos ouvidos: na noite em que desapareceu, o primogénito foi alvo de uma abordagem policial. Foi algemado, encapuçado e colocado numa carrinha da Polícia Militar. Nunca mais foi visto. Teria sido confundido com um traficante.

Título: “Coração Sem Medo”
Autor: Itamar Vieira Júnior
Editora: Dom Quixote
Páginas: 349
Rita Preta revira a terra em busca de respostas. Apresenta queixa às autoridades, fala às televisões, conhece outras mães cujos filhos sofreram o mesmo fim e começa a trabalhar com um advogado da Amnistia Internacional, que a aconselha, mas que ela raramente escuta. A batalha que trava contra os fantasmas que levaram o seu filho ameaça o pouco que tem — o emprego, a casa, o amante —, mas Rita Preta não desiste. Nem mesmo quando a sua vida é ameaçada, primeiro à distância, através de telefonemas anónimos em que a insultam e a tentam convencer a largar o caso, e depois perto de si, quando a violência que atravessa a linha telefónica se materializa diante de si. “Rita sabe que querem sufocá-la, não por procurar alguém, um familiar — afinal, se pergunta, quando fazem isso todos os dias? —, mas por ela confrontar a polícia, por exigir a verdade, se é que existe: as razões que levaram o grupo de agentes do Estado a sequestrar seu filho.”
A busca interminável pelo primogénito, que se prolonga por anos, faz a mulher regressar aos lugares mais recônditos da sua infância e questionar a sua história e a daqueles que viveram antes de si. Ao fazê-lo, Rita Preta apercebe-se de que os seus passos não são apenas os seus passos e que os seus pés não são apenas os seus pés, mas os de todas as mulheres que a antecederam. “Aquela jornada começara muito antes da procura do seu filho”, com os seus antepassados e antepassadas, cuja memória carrega dentro de si. Uma memória feita de dor e violência, com as “marcas e repetições de uma guerra combatida com as armas da resiliência e da revolta em contraposição à exploração e à segregação”. Rita Preta é uma personagem numa história maior, que atravessa épocas e gerações. Que se repete, na sua busca por dignidade. Mas perceber isso, é compreender que o caminho não se faz, e nunca se fez, sozinho. “ A vida de uma maneira bela, não se finda”, porque “é a continuação de muitas outras vidas”, “inscritas na memória” do corpo, “nos códigos genéticos, nos traços remotos” que nos constituem humanos, “nas paisagens que habitamos”.
A ideia de que existe uma história antiga à qual pertencemos está presente nos outros romances de Itamar Vieira Júnior, onde a família se revela através de um conjunto alargado de elos que atravessam os tempos. Em Coração Sem Medo, esse conceito é desenvolvido através de uma teia complexa de histórias que se cruzam, que vão além do núcleo familiar de Rita Preta e que revela o domínio narrativo do autor: enquanto percorre o seu caminho, Rita une-se aos familiares que não conhece mas cuja história carrega, perdoando a sua ausência; a sua busca cruza-se com a de outras mães, que também viram os seus filhos desaparecer às mãos da Polícia Militar; a fuga de Cid dos seus malfeitores interliga-se com a dos seus antepassados escravos em busca de liberdade; e a história da família, que o seu irmão Cainho escreve, nasce da vontade de “criar e recriar o que foi usurpado” e de dar vida ao que foi esquecido ou apagado.
À semelhança de livros anteriores, em Coração Sem Medo, Itamar Vieira Júnior procura na História uma explicação para o presente, incluindo para os comportamentos que parecem não ter justificação e nascer do ódio puro e de uma sede de violência que parece ser impossível de aplacar. Ao fazê-lo, convida-nos a refletir sobre os pedaços de memória que nos compõem e sobre como podemos manter a força e a resiliência num mundo aparentemente perdido, lutando por uma sociedade mais justa e digna.
Uma epopeia para os tempos modernos, sem tempo ou prazo, Coração Sem Medo é a narrativa épica dos que não têm história. Ao recuar no tempo e apresentar diferentes personagens em épocas distintas, Itamar Vieira Júnior revela, com grande crueza, mas também sensibilidade, como a dor, a violência e o preconceito têm marcado a cronologia da população brasileira afrodescendente e como quase nada mudou desde que os primeiros escravos, levados pelos portugueses, desembarcaram na costa do Brasil. O culminar da história iniciada em Torto Arado e continuada em Salvar o Fogo, Coração Sem Medo é uma narrativa pertinente, profunda e inesquecível, escrita por um dos mais importantes escritores brasileiros da atualidade.