Numa das primeiras cenas, o pai de Álvaro Cunhal diz ao filho, ainda criança: “Às vezes, para viver, o homem tem de fazer o mal, mas quantas menos vezes fizer isso, melhor”. Esta é a bússola moral para a estrutura de Homens de Honra — e, no fundo, o espelho do que tanto Cunhal como Mário Soares representaram para a vida política e histórica de Portugal. É sobre eles a nova série da RTP1, que se estreia a 16 de fevereiro, às 22h30, ficando igualmente disponível na RTP Play.
Dividida em oito episódios, tem duas linhas narrativas que conduzem o projeto, sendo que às vezes é dada mais importância a Álvaro Cunhal e outras a Mário Soares, consoante a relevância do que há para contar. Nos dois primeiros episódios disponibilizados para crítica há apenas um vislumbre de Soares, desde a entrada no curso de ciências historico-filosóficas ao interesse pelo PCP, passando pelo momento em que conhece Maria Barroso, futura mulher. O restante pertence a Cunhal que, nos anos 30, começa a ser uma figura relevante no partido comunista português e também lá fora.
[o trailer de “Homens de Honra”:]
https://vimeo.com/showcase/12096596?video=1162456705
Há uma voz off que surge apenas num par de momentos, não ficando completamente justificada a sua necessidade. Ainda não sabemos se pertence a alguma personagem relevante ou se é de um narrador apenas. Talvez sirva para dar uma ajuda à sucessão de acontecimentos — Cunhal passa a infância em Seia, Cunhal perde a irmã, Cunhal estuda na Faculdade de Direito, Cunhal junta-se ao PCP, Cunhal viaja para Moscovo clandestinamente, Cunhal distribui panfletos em fábricas, Cunhal é capturado, torturado e por aí fora —, mas o que de vez em quando parece realmente faltar é o desenvolvimento de certas cenas que se atropelam umas às outras. Por exemplo, Álvaro Cunhal assiste a uma aula que é interrompida por um grupo que chama “fascista” ao professor. No segundo seguinte alguém grita “vem aí a polícia” e não passa outro segundo segundo sequer até estarem todos a fugir pelos corredores do edifício (incluindo Cunhal). Se esta cena era essencial para a narrativa? Nem por isso. Porém, já que lá está, precisava de um pouco mais de tempo para respirar e dar espaço ao espectador para contextualizar o que está a acontecer.
As gravações de Homens de Honra aconteceram em 2023 e chegou a estar previsto que chegasse aos ecrãs em 2024, à boleia das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, mas a estreia foi avançando no calendário, talvez devido aos outros projetos relacionados.


Vamos contextualizar: o filme Soares é Fixe!, de 2024, conta a história de Mário Soares, a sua ascensão política, o frente a frente com Freitas do Amaral, etc; o filme Camarada Cunhal, de 2025, recorda a entrada de Álvaro Cunhal no comunismo, a passagem à clandestinidade, a prisão e a fuga de Peniche. Homens de Honra é uma espécie de ligação dos pontos comuns das duas figuras. Conta a história de cada um, individualmente, mas também aquilo que os juntou e o que os separou. Com argumento de João Lacerda Matos e Raquel Palermo, e realização de Sérgio Graciano, tem os elencos dos dois filmes a retomarem as mesmas personagens para este projeto da RTP.
Romeu Vala interpreta Álvaro Cunhal entre os 18 e os 55 anos. A partir de 1973, é Vítor d’Andrade quem veste a pele da versão mais velha da personagem. Mário Soares é partilhado pelos atores Alexandre Carvalho e Tónan Quito. Nos dois episódios iniciais só nos cruzamos com Vala e Carvalho, que desempenham as respetivas funções sem nenhum dedo a apontar. O primeiro é sério e compenetrado, o segundo ávido por fazer a diferença. O elenco inclui ainda Mariana Monteiro e Margarida Cardeal (Maria Barroso), Diogo Mesquita e Miguel Amorim (Salgado Zenha), Paulo Pinto e Ivo Arroja (Octávio Pato), Tiago Teotónio Pereira (Jorge Alves) e Helena Caldeira (Eugénia Cunhal), entre outros.


De acordo com Homens de Honra, os caminhos de Álvaro Cunhal e Mário Soares cruzam-se pela primeira vez no Colégio Moderno, onde o primeiro passa a ser tutor e o segundo estuda (a instituição de ensino foi criada pelo pai de Mário Soares, João Lopes Soares). A partir daí, as linhas das suas histórias não são propriamente paralelas, mas há muitos detalhes que se repetem em ambos: a rebeldia, a insatisfação, a inteligência e a coragem para enfrentar e combater um regime de ditadura que os perseguiu e prendeu. Cunhal foi torturado pela PIDE, Soares viveu em exílio e ambos ajudaram a construir o caminho da transição democrática.
Nos restantes seis capítulos (transmitidos pela RTP1 todas as segundas-feiras à noite) falta contar muita coisa importante da resistência anti-fascista e do caminho político pós-25 de Abril, além de (esperemos) revisitar momentos icónicos como o debate de 1976 entre Álvaro Cunhal e Mário Soares onde foi proferida uma expressão que se tornou tão conhecida que continua a ser usada: “Olhe que não, olhe que não”.