Um animal de pele colorida e berrante, com uns meros 2,5 centímetros de tamanho, mais ou menos da altura de um clipe de escritório. Podia parecer inofensivo, mas esta é a descrição de um dos animais mais venenosos do mundo — uma das variantes da espécie contém em si veneno suficiente para matar dez homens adultos, veneno esse descrito como sendo 200 vezes mais potente do que a morfina.
E foi esse veneno — mais concretamente a toxina epibatidina — que foi usado para matar o antigo rosto da oposição russa, Alexei Navalny, quando se encontrava isolado numa prisão no Ártico, por ordem do Kremlin. É essa a conclusão do Reino Unido e de um grupo de países seus aliados — Suíça, França, Alemanha e Países Baixos — que analisaram “amostras” encontradas no corpo de Navalny e concluíram que foi assassinado com recurso a esta “toxina letal”. Mas afinal o que é a epibatidina? Onde se encontra e para que serve?
A origem natural desta toxina, como explica aqui a National Geograhic, vem da espécie dos sapos-dardo (o nome científico é dendrobatidae), que por sua vez se divide em várias subespécies. É um sapo carnívoro, que vive, em contexto selvagem, entre três a quinze anos, em média. É esta revista científica que usa o clipe de papel como termo de comparação, para que se perceba o quão pequenos são estes sapos.
Mas o tamanho, assim como as cores descritas como “brilhantes e bonitas” (e podem ser amarelas, douradas, vermelhas, verdes, azuis ou pretas, com formas e desenhos distintos) que lhe pintam a pele, não diminui em nada o seu perigo: dentro desta espécie encontram-se “alguns dos animais mais tóxicos do mundo”, sendo que o sapo-dardo dourado, por exemplo, contém veneno suficiente para matar dez homens adultos. Aliás, a explicação para as suas cores berrantes é precisamente que servem de aviso, no meio da floresta, aos predadores: as cores sinalizam que é venenoso e que portanto não devem tentar comê-lo.
O nome da espécie tem uma explicação: as pessoas indígenas da Colômbia usavam este veneno, colocando-o na ponta dos seus dardos, para caçarem de forma mais eficaz — daí que se encontrem referências que variam entre “sapos-dardo” e “sapos-flecha”.
A National Geographic explica também que os cientistas não têm a certeza da origem da toxicidade destes sapos, mas que é possível que assimilem os venenos das plantas que as suas presas (formigas, térmitas e escaravelhos) consomem e transportam. Até porque, se forem criados em cativeiro e longe de outros insetos, estes sapos nunca chegam a tornar-se venenosos.
Esta toxina extremamente rara encontra-se, então, nos sapos que vivem em vários países da América do Sul; não é possível, como esclarecia desde logo o comunicado do Reino Unido e dos seus aliados, encontrá-la naturalmente na Rússia. A imprensa britânica refere que o comunicado estaria a referir-se especificamente a uma subespécie que se encontra no Equador e no Peru.
Vários cientistas que têm sido ouvidos pela imprensa internacional frisam que será mais provável que este veneno em particular tenha sido desenvolvido com ação humana, em laboratório. Não seria, assim, uma substância fácil de arranjar ou aplicar: “Navalny morreu na prisão, enquanto a Rússia tinha os meios, motivo e oportunidade para lhe administrar o veneno”, defendem estes países.
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Como é que este veneno atua?
À BBC, a perita em toxicologia Jill Johnson explicou que esta toxina é “200 vezes mais potente” do que a morfina, atuando nos recetores nicotínicos do sistema nervoso. Ao ser absorvido por esses recetores estimula-os em excesso, acabando por levar a que os músculos comecem a contorcer-se e depois paralisar, a convulsões, abrandamento da frequência cardíaca, falhas respiratórias e, em último caso levando à morte.
Já o professor de toxicologia ambiental da Universidade de Leeds Alastair Hay notou que entre os efeitos está um “bloqueio” da respiração e que “qualquer pessoa que seja envenenada” acaba por morrer sufocada. O facto de a toxina ser encontrada no sangue “sugere uma administração deliberada” do veneno. Além disso, explicou que esta toxina pode ser administrada de forma combinada com outras “drogas” para tornar a combinação ainda mais letal.
“Encontrar um sapo selvagem no sítio certo, a comer exatamente a comida necessária para produzir [este veneno nesta dose], é quase impossível”, disse Johnson à BBC sobre este “método incrivelmente raro de envenamento humano”.
O especialista em toxicologia e farmacologia Eric Franssen, do hospital Onze Lieve Vrouwe Gasthuis, nos Países Baixos, confirma ao The Guardian que “consegue imaginar” que “este tipo de venenos sejam interessantes [para a Rússia], porque são bastante difíceis de detectar“. Nos hospitais, explica, um teste toxicológico normal não encontra esta toxina.
“Não sabemos muito sobre estas toxinas em humanos porque não podemos experimentar, claro, com este tipo de toxinas na vida real, só em animais. Mas há informações que indicam que uma pessoa pode morrer dez a vinte minutos depois da ingestão depois de tomar certa quantidade destas toxinas”. Sendo que o veneno pode ser ingerido ou injetado no sangue, provocando também náuseas e vómitos até provocar o sufoco.
O que aconteceu no caso de Navalny?
Navalny já tinha sido alvo de uma tentativa de envenenamento com o agente tóxico Novichok, tendo depois de ser tratado voltado à Rússia, em 2021, e sido preso. Em dezembro de 2023 foi transferido para uma prisão no Ártico conhecido pelas condições difíceis em que os seus prisioneiros (até cerca de mil) vivem. E a 15 de fevereiro, véspera da sua morte, chegou a aparecer aparentemente bem de saúde e bem disposto numa audição em tribunal.
A 16 de fevereiro a sua morte, aos 47 anos, era anunciada, com as autoridades russas a referirem que teria perdido a consciência depois de ter caminhado um pouco e concluindo depois que teria morrido graças a um pico de tensão arterial. Mas o corpo só seria devolvido à família oito dias depois da sua morte, levantando suspeitas.
Em setembro do ano passado, a sua viúva, Yulia Navalniya, já tinha vindo revelar que tinha conseguido obter amostras do “material biológico” do marido e levá-las para fora da Rússia, tendo laboratórios de “pelo menos dois países” investigado de forma independente e chegado à conclusão de que Navalny teria sido envenenado.
A Rússia negou sempre esta acusação, tendo agora atribuído as conclusões do grupo de países a “fábulas do Ocidente” e “necro-propaganda”, com o Kremlin a assegurar que estas declarações são “uma campanha de informação com o objetivo de desviar as atenções dos problemas graves do Ocidente”.
Que usos existem para esta toxina?
Há várias aplicações medicinais que já foram ou estão a ser testadas para a toxina vindo dos sapos-dardo. Um dos testes “promissores” tem a ver com o seu uso como analgésico, assim como para alívio das dores inflamatórias no pulsão (como asma e fibrose pulmonar).
Ainda assim, por ser tão tóxica, ainda não foi usada clinicamente, além de provocar “efeitos secundários graves”.