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(A) :: A grande tragédia que é uma grande oportunidade

A grande tragédia que é uma grande oportunidade

Ainda que as eleições sejam um cenário distante a forma como o Governo vai gerir a recuperação do país pode ditar a reeleição (tangencial ou maioritária) de Montenegro. Se falhar terá efeito contrário

Rui Pedro Antunes
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A tragédia que o país viveu nas últimas semanas terá consequências irreparáveis. Os familiares das vítimas mortais jamais vão esquecer o que se passou, há empresas que dificilmente voltam a reabrir e bens materiais que não vão ser recuperados. É difícil para quem esteve, num sentido quase literal, no olho do furacão, ver o bright side of life, mas o Estado tem o dever de extrair tudo o que possa de positivo desta situação. Mesmo o Governo, em particular Luís Montenegro, tem neste drama coletivo uma oportunidade.

As infraestruturas que foram destruídas, por exemplo, devem ser reconstruídas com um grau de resistência superior ao que tinham no momento em que foram arrasadas. A começar pelos equipamentos públicos, o Estado deve garantir que passam a ser mais resilientes às intempéries (não vale a pena, por exemplo, colocar no Estádio de Leiria uma cobertura igual à que lá existia). Nos locais em que a floresta não sobreviveu, o terreno — mesmo que privado — deve ser replantado de forma planeada, com árvores autóctones e, sempre que possível, pirófitas.

As zonas de leito de cheia e os locais potencialmente inundáveis em meio urbano devem ser bem sinalizadas, de forma a que não se entre numa nova era facilitismos na alteração de PDM’s. A construção já não é a selva de outros tempos, mas tem de ficar absolutamente claro que há solos onde nunca se deve construir mesmo que alterações à lei dos solos (ainda que à boleia de contrariar a escassez de habitação) o permitam.

As cheias também podem trazer lições relativamente à gestão de recursos hídricos. Após a situação tensa no Mondego, entrou no debate público a necessidade (ou não) da construção da Barragem de Girabolhos — que alegadamente permitiria um controlo melhor do caudal do rio e evitar cheias. Os ambientalistas continuam contra a solução, mas só a discussão ser feita é um efeito positivo da tragédia.

Do ponto de vista político, o Governo também pode encontrar pontos positivos na tragédia. Desde logo, tem oportunidade de passar a ter um bom ministro da Administração Interna. O Executivo ganha também um álibi para travar ambições setoriais que poderiam representar um custo orçamental permanente. A título de exemplo: que atividade profissional pode, por exemplo, exigir um aumento de rendimentos se o Governo disser que alocou o dinheiro disponível para responder às necessidades básicas dos afetados pelo mau tempo?

É óbvio que Luís Montenegro — como qualquer pessoa sã — preferia que nada disto tivesse acontecido. Mas esta circunstância não deixa de ser também uma oportunidade para afirmar a sua liderança. Apesar das devidas distâncias, basta ver o histórico mais recente. António Costa não se limitou a sobreviver à pandemia, como se valorizou. Submetido a votos passada a fase mais crítica desse período, conseguiu obter mais de 41% dos votos e maioria absoluta.

Uma diferença evidente é que não é provável que Montenegro vá a votos em breve. Desde logo porque a reconstrução lhe facilita a aprovação do próximo Orçamento; depois porque tem um novo Presidente que promete ajudá-lo a ir até 2029 (apesar de a Sport TV em São Bento ter sido subscrita só até agosto de 2028). Mesmo que faltem mais de três anos para novas legislativas, a forma como o Governo vai liderar a reconstrução vai definir a relação que o eleitorado tem com o Governo Montenegro. Se souber capitalizá-lo a seu favor, o primeiro-ministro pode assegurar a reeleição e até, quem sabe, atingir uma maioria pós-calamidade (como Costa teve). O efeito, porém, também pode ser o contrário. Se o Governo falhar na aplicação do PT-PRR e se a parte do País afetada não se conseguir erguer com relativa velocidade, a reeleição de Montenegro — no ciclo normal ou caso sejam forçadas eleições pela oposição — fica ela em risco de desabar.