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O custo do analfabetismo geográfico

A ausência sistemática de geógrafos nos centros de decisão política, tanto a nível nacional como local, traduz-se numa governação reativa, dispendiosa e cientificamente desinformada.

Diogo Fernandes Sousa
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Portugal é um país vulnerável a riscos naturais. Cheias, incêndios florestais, erosão costeira, deslizamentos de vertentes ou fenómenos de seca com nível significativo de severidade não são acontecimentos fortuitos nem inevitáveis, uma vez que são processos estudados, mapeados e previsíveis à luz do conhecimento científico acumulado. Ainda assim, o discurso público continua a tratar estas ocorrências como fatalidades, enquanto a decisão política persiste numa desconcertante indiferença face à especialização técnica necessária para governar o território.

A nomeação de um enfermeiro para coordenar a Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis, posteriormente revertida após contestação pública e institucional, não é apenas um episódio infeliz, mas um sintoma da política nacional. Revela uma lógica de governação que desvaloriza o conhecimento científico específico, substituindo-o por critérios de confiança política ou polivalência administrativa, mesmo quando estão em causa áreas técnicas, de impacto territorial e ambiental.

Esta prática tem consequências concretas. A transição energética, frequentemente apresentada como um desafio tecnológico, é, antes de mais, um problema territorial. A localização de parques eólicos, centrais fotovoltaicas, linhas de transporte ou infraestruturas de armazenamento implica análise integrada da morfologia do relevo, da ocupação do solo, da sensibilidade ecológica, dos riscos naturais e da compatibilidade com atividades humanas existentes. Ignorar esta dimensão espacial é comprometer a eficácia, a sustentabilidade e a aceitação social das políticas públicas.

É precisamente neste ponto que a Geografia assume um papel central e persistentemente negligenciado. O geógrafo não é apenas um produtor de cartografia. É um especialista na leitura sistémica do território, capaz de articular processos naturais e dinâmicas socioeconómicas, de antecipar riscos e de avaliar impactos espaciais das decisões políticas. No contexto das cheias que afetam várias regiões do país, esta competência torna-se evidente. A ocupação de leitos de cheia, a impermeabilização excessiva dos solos, a canalização artificial de cursos de água e a fragmentação dos sistemas naturais de drenagem são opções de ordenamento conhecidas, estudadas e identificadas como fatores de agravamento do risco.

Quando, após cada episódio extremo, se questiona como foi possível atingir tal nível de prejuízos humanos e materiais, a resposta raramente é técnica, mas deveria ser. A ausência sistemática de geógrafos nos centros de decisão política, tanto a nível nacional como local, traduz-se numa governação reativa, dispendiosa e cientificamente desinformada. Investe-se na reconstrução, mas não na prevenção e indemniza-se depois da catástrofe, mas negligencia-se o planeamento que a poderia ter mitigado.

Portugal dispõe de geógrafos qualificados, com produção científica reconhecida nas áreas do ordenamento do território, dos riscos naturais, da climatologia, da geografia humana e da hidrologia. No entanto, estes profissionais continuam maioritariamente confinados ao ensino ou a funções técnicas periféricas, quando deveriam integrar, de forma estrutural, a definição de políticas públicas, nomeadamente no âmbito do Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território.

Persistir neste analfabetismo geográfico das políticas tem um custo elevado a nível económico, social e humano. Valorizar a área disciplinar da Geografia é uma exigência racional num país onde o território é simultaneamente recurso, fragilidade e oportunidade.